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O texto em que o Papa Bento XVI refletiu sobre a popularidade da Copa do Mundo

Diante da morte do Papa Bento XVI, relembramos sua breve relação com o futebol e um artigo em que falou sobre a paixão ao redor das Copas

Falecido neste sábado, aos 95 anos, o Papa Bento XVI não tinha como ser alheio ao futebol. Joseph Ratzinger viveu a maior parte de sua vida entre a Alemanha e a Itália, dois países apaixonados pelo jogo. Que o alemão tenha sido o menos boleiro dos pontífices deste século, ele também tinha sua relação com a bola. Escreveu sobre a Copa do Mundo e era inclusive parente distante de uma lenda do esporte.

Nascido na Baviera e criado nos arredores de Munique, Joseph Ratzinger tinha seus pontos de contato com o Bayern. Era apontado como torcedor do clube, embora sem grandes relações públicas com os bávaros. Em compensação, tinha um parentesco distante com uma das maiores figuras da história do Bayern: ninguém menos que Paul Breitner, campeão do mundo em 1974. Os avós do pontífice e do jogador tinham parentes em comum. O craque chegou a confirmar tal ligação, mas sem qualquer relação próxima.

Curiosamente, a trajetória de Ratzinger como religioso é paralela a vários dos sucessos da Alemanha em Copas do Mundo. Ele se ordenou padre três anos antes do título em 1954, enquanto viraria arcebispo de Munique três anos depois do bicampeonato faturado na cidade em 1974. O então cardeal já vivia no Vaticano quando o tri aconteceu ali pertinho, em Roma, em 1990. Era Papa havia pouco mais de um ano quando o Mundial de 2006 ocorreu na Alemanha e inclusive se encontrou com Franz Beckenbauer, presidente do Comitê Organizador. Já em 2014, o tetra alemão veio meses depois de Bento XVI renunciar e se tornar Papa Emérito – curiosamente, numa final contra a Argentina de Francisco, retratada ludicamente no filme Dois Papas.

A relação mais concreta de Bento XVI com o futebol se deu mesmo em forma de texto. Reconhecido como um grande estudioso e acadêmico da teologia, o alemão escreveu sobre a Copa do Mundo no livro “Cercate le cose di lassù”, publicado em 1985, mas produzido quando ele ainda era arcebispo de Munique, de 1977 a 1982. A publicação traz uma série de reflexões não apenas sobre as festas da Igreja Católica, mas também sobre temas como férias, diversão, paz e natureza. Também sobre o futebol.

Abaixo, traduzimos o artigo. Mostra como Bento XVI, embora não fosse um aficionado, compreendia muito bem a importância do jogo e da Copa do Mundo.

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Regularmente, a cada quatro anos, a Copa do Mundo se apresenta como um evento que fascina centenas de milhões de pessoas. Nenhum outro evento sobre a Terra pode ter um efeito tão vasto, o que demonstra que essa manifestação esportiva toca algum elemento primordial da humanidade e nos faz perguntar no que se baseia todo esse poder de um jogo. O pessimista dirá que é como na Roma antiga.

A palavra de ordem das massas era: panem et circenses, pão e circo. O pão e o jogo seriam, portanto, os conteúdos vitais de uma sociedade decadente que não tem outros objetivos mais elevados. Mas, mesmo que essa explicação fosse aceita, não seria absolutamente suficiente.

Devemos nos perguntar de novo: qual é o fascínio de um jogo que assume a mesma importância que o pão? Poderia se responder, fazendo outra referência à Roma antiga, que o pedido de pão e jogo era, na verdade, a expressão do desejo de uma vida celestial, de uma vida paradisíaca, de uma vida de saciedade sem preocupações e de uma liberdade plena. Porque é isso que, em última análise, significa o jogo: uma ação completamente livre, sem propósito e sem constrangimento, que, ao mesmo tempo, empenha e ocupa todas as forças do homem. Nesse sentido, o jogo seria uma espécie de tentativa de retorno ao Paraíso: a evasão da seriedade escravizadora da vida cotidiana e da necessidade de ganhar o pão, para viver a seriedade liberta do que não é obrigatório e, portanto, belo.

Então, o jogo vai além da vida cotidiana. Mas, principalmente entre as crianças, também tem o caráter de exercitação da vida. Simboliza a própria vida e a antecipa, por assim dizer, de maneira vagamente estruturada. Parece-me que o fascínio do futebol reside essencialmente no fato de ele conectar esses dois aspectos de uma forma muito convincente.

Ele obriga o homem a se impor uma disciplina, de modo a obter, através do treinamento, o autodomínio; com o domínio, a superioridade; com a superioridade, a liberdade. Também ensina sobretudo uma harmonia disciplinada: como jogo de equipe obriga a inclusão do indivíduo no time. Une os jogadores com o objetivo comum; o sucesso e o insucesso de cada indivíduo residem no sucesso e no insucesso do todo.

Além do mais, ensina uma rivalidade leal, na qual a regra comum, à qual se submete, permanece como um elemento que liga e une em oposição. Por fim, a liberdade do jogo, se bem jogado, anula a seriedade da rivalidade. Ao presenciá-lo, os homens se identificam com o jogo e com os jogadores, e participam pessoalmente da harmonia e da rivalidade, da seriedade e da liberdade: os jogadores se tornam um símbolo da própria vida; o que, por sua vez, repercute neles: eles sabem que os homens se representam neles e se sentem confirmados. Naturalmente, tudo isso pode ser contaminado por um espírito de negócios que sujeita tudo à seriedade sombria do dinheiro, transforma o jogo de aposta em indústria e cria um mundo fictício de dimensões assustadoras.

Mas nem mesmo esse mundo fictício poderia existir sem o aspecto positivo que fundamenta o jogo: o exercício da vida e a superação da vida em direção do paraíso perdido. Em ambos os casos se trata, porém, de buscar uma disciplina da liberdade; de exercitar a harmonia, a rivalidade e a compreensão consigo mesmo na obediência da regra.

Talvez, refletindo sobre essas coisas, pudéssemos aprender a viver novamente do jogo, porque nele se evidencia algo fundamental: o homem não vive só de pão, o mundo do pão é apenas um prelúdio da verdadeira humanidade, do mundo da liberdade. No entanto, a liberdade se alimenta da regra, da disciplina, que ensina a harmonia e a rivalidade leal, a independência do sucesso externo e do arbítrio, e assim se torna verdadeiramente livre. O jogo, uma vida. Se formos mais fundo, o fenômeno de um mundo apaixonado por futebol pode nos dar mais do que apenas um pouco de entretenimento.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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