Copa do Mundo

O pioneirismo de Okudera na Bundesliga e a forte relação Alemanha-Japão no futebol

Alguns dos maiores talentos do Japão estouraram na Bundesliga, enquanto os alemães levaram importantes ensinamentos aos nipônicos

Poucas vezes Oliver Tsubasa é superado em suas histórias. E um dos raros capazes de vencer o craque da fantasia é Yasuhiko Okudera. Em uma das edições do mangá, o veterano aparece com seu nome real, como um fictício treinador da seleção japonesa. Tsubasa o desafia para uma partida mano a mano e acaba derrotado por quem tem muito a ensinar. Por fim, o técnico oferece a inédita convocação à lenda dos desenhos. A reverência a Okudera é evidente nessa passagem de bastão imaginária, como o primeiro jogador nascido no Japão a triunfar numa grande liga europeia e a disputar uma Copa dos Campeões. Uma história que se reaviva com o Alemanha x Japão da Copa do Mundo, especialmente pela maneira como a Bundesliga aproveitou outros tantos talentos nipônicos ao longo dos anos, ao passo que o conhecimento germânico também provocou efeitos positivos no crescimento do futebol japonês.

Okudera foi tão grande na Alemanha que pode se considerar ídolo de dois clubes tradicionais. O meia desembarcou no país sendo um talismã na conquista mais insana da história do Colônia. E depois de deixar os Bodes, ainda participou ativamente da construção da era mais vitoriosa do Werder Bremen, embora tenha saído pouco antes de se enfileirarem as taças. Quase quatro décadas depois de sua aposentadoria, Okudera figura em qualquer lista dos maiores jogadores japoneses da história. Têm em sua companhia outros que se tornaram gigantes na Bundesliga, como Shinji Kagawa e Makoto Hasebe. Isso sem ignorar aqueles que continuam construindo suas trajetórias e podem aparecer ainda mais neste jogo de Copa do Mundo, como Wataru Endo ou Daichi Kamada.

Os professores

A relação entre Alemanha e Japão no futebol existe há mais de um século. E começou por causa de um prisioneiro da Primeira Guerra Mundial. Em 1919, um amistoso entre estudantes japoneses e prisioneiros alemães aconteceu em Hiroshima. Os germânicos venceram e impressionaram os nipônicos por sua técnica. O professor que treinava a equipe local pediu permissão para aprender mais sobre os conceitos do jogo e recebeu lições de Hugo Klaiber, um dos destaques da equipe de prisioneiros. As ideias táticas transmitidas auxiliaram Hiroshima a se estabelecer como um dos berços do futebol japonês, enquanto o professor passou o conhecimento a outras regiões. Já Klaiber, depois de ganhar a liberdade, fundou uma pequena equipe na Alemanha em 1922.

Já na década de 1960, a Alemanha Ocidental ofereceu um apoio crucial para o desenvolvimento do futebol no Japão. Com a definição das Olimpíadas de 1964 em Tóquio, os japoneses solicitaram à federação alemã que enviasse um consultor para impulsionar a organização da modalidade. O escolhido foi Dettmar Cramer, comandante de equipes modestas e funcionário da DFB que havia tentado também a carreira jornalística. O alemão desembarcou no novo país em 1960, no papel de instrutor técnico, enquanto a seleção japonesa contava com um treinador local.

Cramer iniciou uma revolução no futebol japonês. O alemão introduziu novos métodos de treinamento e de preparação física. Também contribuiria na criação do primeiro campeonato nacional do país, mesmo em tempos amadores, e na preparação de outros treinadores. O mentor ficou no Japão até 1963, quando se tornou assistente de Helmut Schön na seleção alemã-ocidental – posteriormente, seria técnico do Bayern em dois títulos da Champions. E o processo que iniciou no Japão rendeu frutos: a seleção local alcançou as quartas de final nas Olimpíadas de Tóquio em 1964, batendo a Argentina na fase de grupos, e terminou com o bronze em 1968, quando o antigo intérprete de Cramer era o técnico.

Okudera chega para ser campeão

Naquele período, o intercâmbio do futebol japonês com outros países se tornou mais frequente. E isso pavimentou o caminho do primeiro jogador nipônico a atuar na Alemanha. Durante a década de 1970, Yasuhiko Okudera já era um dos craques da Japan Soccer League, o campeonato amador que vigorava no país. Depois de concluir seus estudos, o meia vivia seu auge como craque do Furukawa Electric, empresa na qual também trabalhava. Em 1976, aos 25 anos, ele aproveitou a ponte com a fábrica da Furukawa no Brasil para fazer um estágio de dois meses no Palmeiras. Quando voltou ao Japão, liderou sua equipe nas conquistas da JSL e da Copa do Imperador. Não demorou para que seu talento fosse percebido mais longe.

Em 1977, a seleção do Japão passou por um período de treinamentos na Alemanha Ocidental. Treinador dos Samurais Azuis na época, Hiroshi Ninomiya era amigo de Hennes Weisweiler, chefe do curso de treinadores da federação alemã e também um dos técnicos mais vitoriosos do país. Na época, Weisweiler estava à frente do Colônia, clube no qual é lenda. E o comandante, ao observar Okudera, vislumbrou o ponta esquerda de velocidade e chute forte que faltava em seu time. Depois de um período de testes, o técnico convidou o japonês para se transferir. A princípio, Okudera recusou por temer a barreira linguística, mas acabou encorajado por dirigentes e treinadores de seu país. Trocar o futebol amador do Japão pelo profissionalismo da Alemanha Ocidental era uma escolha importante, ainda mais com o interesse dos nipônicos em fomentar esse trânsito.

Okudera tinha 25 anos quando desembarcou no Colônia. E a falta de experiência como profissional não o impediu de se tornar um jogador valioso dentro de um elenco fortíssimo. Mais do que isso, o japonês virou herói de uma temporada lendária: os Bodes conquistaram a Bundesliga 1977/78, numa das edições mais emocionantes da história da competição. O Colônia e o rival Borussia Mönchengladbach disputaram ponto a ponto a liderança na reta final, num momento em que os Potros buscavam o tetracampeonato nacional. Enquanto isso, Hennes Weisweiler, que tinha dirigido o Gladbach no primeiro título dessa sequência e em outros dois anteriores, tentava uma conquista inédita à frente do Colônia, clube com o qual tinha uma relação até mais umbilical.

Okudera foi reserva do Colônia ao longo do primeiro turno da Bundesliga, antes de assumir o papel de ponta esquerda na segunda metade da competição. O japonês auxiliava mais na construção, até se tornar um talismã na reta decisiva. Após perder diante do Eintracht Frankfurt a três rodadas do final, o Colônia permitiu que o Gladbach se igualasse na tabela e a disputa passou a ser no saldo. Na antepenúltima partida, Okudera fechou uma vitória por 2 a 0 sobre o Kaiserslautern que só veio nos 15 minutos finais. Depois, no penúltimo compromisso, serviu de desafogo para os 2 a 1 contra o Stuttgart, com seu gol aos 35 do segundo tempo. Já na rodada final, por mais que o Gladbach enfiasse 10 a 0 no Dortmund, os Bodes ficaram com a Salva de Prata graças aos 5 a 0 sobre St. Pauli, que rendeu uma vantagem de três gols no saldo. Okudera anotou o segundo gol e depois o último.

Por seu papel decisivo, Okudera já merecia um lugar especial na história do Colônia. E faria mais. O ponta também conquistou a Copa da Alemanha em 1977/78. Já na temporada seguinte, teve o gosto de se tornar o primeiro jogador asiático na Copa dos Campeões da Europa. Os Bodes caíram nas semifinais, contra o futuro campeão Nottingham Forest, mas o nipônico deixou sua marca na partida de ida. Saiu do banco e marcou, a dez minutos do fim, o gol de empate no 3 a 3 do City Ground. Foi um chute venenoso, no campo totalmente enlameado, que passou por baixo de Peter Shilton. Okudera completaria três temporadas no Colônia, como uma figura de relevo. Anotou 21 gols em 94 partidas pelo clube.

Ídolo também no Bremen

A mudança de Hennes Weisweiler para o comando do New York Cosmos acelerou a saída de Okudera do Colônia. Em 1980/81, o japonês se transferiu para o Hertha Berlim e virou um dos melhores jogadores do time, que disputava a segundona da Bundesliga. Teve sua temporada mais prolífica na Alemanha, com oito gols, mesmo atuando por vezes na lateral. E se o acesso escapou dos berlinenses, o nipônico ganhou uma nova oportunidade na primeira divisão. O Werder Bremen conquistou o título da segunda divisão e o técnico Otto Rehhagel gostou tanto das atuações de Okudera que o levou para o Weserstadion.

Rehhagel passou a usar Okudera como uma carta na manga no Werder Bremen. O japonês costumava entrar na lateral direita, mas também era utilizado como volante ou meia ofensivo em algumas partidas. O retorno dos Papagaios para a elite da Bundesliga foi impactante, com o time logo se colocando entre os principais candidatos ao título. Os comandados de Rehhagel primavam pela capacidade tática e, dentro dessa perspectiva, Okudera era um nome imprescindível – a ponto de ganhar o apelido de “Computador Oriental” por sua funcionalidade em campo. Seria um dos jogadores com mais minutos em suas cinco temporadas no Weserstadion.

Para a infelicidade de Okudera, os cinco anos em que ele permaneceu no Werder Bremen não renderam títulos de elite. Não por falta de tentativas: os Papagaios permaneceram sempre no Top 5 da Bundesliga, com três vices nesse intervalo, dois deles por causa do saldo de gols inferior. A Salva de Prata escapou em 1982/83 numa disputa ferrenha com o rival Hamburgo, que tinha oito gols a mais no saldo. Já em 1985/86, o Bremen liderou durante quase toda a competição, mas passou as quatro últimas rodadas sem vencer. A equipe ainda entrou em campo como primeiro colocado no compromisso derradeiro, mas perdeu por 2 a 1 para o Stuttgart e, com isso, o Bayern se deu bem com nove gols a mais no saldo, sagrando-se campeão. Foi exatamente a última partida de Okudera pela Bundesliga.

Apesar da saída frustrante, Okudera deixou sua marca no Werder Bremen. O lateral disputou 206 partidas pelo clube, com 13 gols, e se tornou um dos jogadores mais queridos pela torcida no período. Além disso, em 1982, terminou convidado para fazer parte de uma “Seleção do Mundo” que enfrentou o NY Cosmos em amistoso. Posteriormente, o japonês veria de longe o sucesso dos antigos companheiros, que superaram a sina do quase em 1987/88, com a conquista do Bremen na Bundesliga. Seria o início de um período de glórias sob as ordens de Otto Rehhagel. Mas, mesmo sem subir no pódio, Okudera continua lembrado como um jogador importante na ascensão dos Verdes a partir da segunda divisão.

O Werder Bremen ainda tentou ampliar o contrato de Okudera em 1986, mas, aos 34 anos, o lateral resolveu voltar para o futebol japonês. Seu ato final com a camisa verde aconteceu na tradicional Copa Kirin, realizada em Tóquio, na qual os Papagaios levaram o troféu com vitória sobre o Japão na fase de grupos e título confirmado em cima do Palmeiras na final. A Japan Soccer League mantinha seu status amador na época, mas foi criada uma licença especial para que alguns jogadores se enquadrassem no regime profissional. Uma exceção garantida graças à volta de Okudera ao Furukawa Electric.

Por causa de sua carreira na Bundesliga, Okudera se manteve afastado da seleção japonesa a partir de 1977. Ao menos o veterano pôde vestir novamente a camisa dos Samurais Azuis na reta final de sua trajetória. Pelo Furukawa Electric, seriam apenas mais duas temporadas, ainda assim suficientes para liderar a equipe na conquista da Copa dos Campeões da Ásia de 1986. O meia anotou três gols, vice-artilheiro do time. Já a aposentadoria do futebol aconteceu em 1988. E o astro teria convidados especiais em seu último compromisso pela seleção, em amistoso contra o Napoli de Diego Maradona.

Os sucessores asiáticos

É importante notar que o impacto de Okudera na Bundesliga auxiliou outros asiáticos a ingressarem na competição. Em 1978, Cha Bum-kun chegou da Coreia do Sul para ser igualmente adorado no Eintracht Frankfurt e no Bayer Leverkusen. Já em 1979, o Hertha Berlim apostou no tailandês Witthaya Laohakul, que foi companheiro de Okudera no clube, embora tenha vivido sua melhor fase com o Saarbrücken. O próximo japonês a desembarcar na Bundesliga viria apenas em 1983. Kazuo Ozaki era o protagonista do Mitsubishi Motors que dominava a JSL e também despontava na seleção japonesa. Quando os Samurais Azuis faziam uma turnê pela Alemanha Ocidental, o atacante recebeu um convite para se testar no Arminia Bielefeld, treinado por Horst Köppel.

A transferência de Ozaki para a Alemanha seria polêmica. O atacante viajou para a Europa sem autorização para realizar os testes e o caso se transformou numa queda de braço com a federação japonesa, que preferia que seu astro não se profissionalizasse, para disputar os Jogos Olímpicos de 1984 com os Samurais Azuis. No fim das contas, prevaleceu a vontade do atleta e ele estreou em agosto de 1983 pelo Arminia Bielefeld. Seria uma primeira partida inesquecível: o novato marcou um dos gols na vitória por 3 a 2 sobre um forte Colônia, na época estrelado por Toni Schumacher e Pierre Littbarski, além de contar com Rinus Michels no comando.

Ozaki se manteve como titular do Arminia Bielefeld, mas seus números não foram tão espantosos. Marcou nove gols somados nas duas primeiras temporadas, com o rebaixamento do seu time. Ainda permaneceu em três edições da segunda divisão. O retorno à elite alemã seria breve, em 1988/89, quando o atacante se tornou reforço do St. Pauli. Todavia, disputou somente seis partidas com os Piratas e sequer balançou as redes. Também passou brevemente pelo TuRu Düsseldorf, antes de retornar ao Japão. Ozaki vestiu novamente a camisa do Mitsubishi e fez parte do elenco do Verdy Kawasaki na edição inaugural da J-League. Apesar de pouco atuar, tem seu nome marcado no elenco campeão nacional.

As estrelas alemãs da J-League

A adoção do profissionalismo no Japão auxiliou a J-League a absorver talentos de vários cantos do mundo. Naquele momento, os clubes japoneses abriam as portas também para os jogadores alemães. Curiosamente, os times que recorreram mais aos talentos germânicos foram os mesmos que venderam seus craques à Bundesliga: o Urawa Red Diamonds, herdeiro do Mitsubishi de Kazuo Ozaki; e o JEF United Chiba, criado a partir do Furukawa Electric de Yasuhiko Okudera. O velho craque, aliás, estava diretamente envolvido com a agremiação nesse momento – Okudera era um dos principais dirigentes por trás da transição.

A influência de Okudera garantiu a mudança de ex-companheiros para o JEF United Chiba. Antigo atacante do Werder Bremen, Frank Ordenewitz virou a referência ofensiva e disputou as duas primeiras edições da J-League. Não teve tanto destaque em 1993, mas cravou 30 gols em 1994, terminando no topo da artilharia. De qualquer maneira, a estrela do JEF era Pierre Littbarski, homem de três Copas do Mundo com a seleção e importante no título em 1990. Litti se profissionalizou no Colônia quando Okudera estava no elenco e reencontrou o ex-companheiro em 1993. O habilidoso meia também figurou na J-League por duas temporadas, em 1993 e 1994, com seus lampejos. O problema é que o JEF não passou de campanhas de meio de tabela.

Tanto Ordenewitz quanto Littbarski defenderam depois o Brummell Sendai (atual Vegalta) entre 1996 e 1997, numa equipe que incluía ainda o zagueiro Reinhard Stumpf, campeão nacional com o Kaiserslautern. Já a permanência de Litti seria mais longa, ao iniciar sua carreira como técnico no Yokohama FC e dirigir a equipe em dois momentos distintos. Não por coincidência, o presidente da agremiação era Okudera, que permanece à frente dos celestes até hoje.

Paralelamente, o investimento do Urawa Red Diamonds nos alemães foi até maior durante a década de 1990. Em sua primeira temporada, o clube levou dois alemães. Michael Rummenigge podia ser menos talentoso que o irmão Karl-Heinz, mas conquistou títulos importantes por Bayern e Dortmund. Ao seu lado desembarcou o meia Uwe Rahn, um dos grandes nomes do Gladbach na década de 1980, a ponto de disputar a Copa de 1986 com a seleção. Já em 1994, os Reds adicionaram dois campeões do mundo. Guido Buchwald era uma referência defensiva do Nationalelf na conquista do Mundial da Itália, enquanto se consolidava como lenda do Stuttgart. Já Uwe Bein era um símbolo de talento no meio-campo do Eintracht Frankfurt e participou como reserva da Copa de 1990.

O Urawa Red Diamonds não conquistou a taça com sua legião alemã. As duas primeiras participações na J-League tiveram a equipe nas últimas posições, enquanto o rendimento aumentou em 1995 e 1996. Buchwald contribuiu nessa ascensão e por duas vezes foi eleito entre os melhores da J-League. O ex-defensor voltaria depois como técnico, para marcar ainda mais seu nome. Ele proporcionou o título inédito do clube na J-League em 2006, numa campanha que tinha Washington Coração Valente empilhando gols.

A legião japonesa da Bundesliga no Século XXI

A presença de alemães na J-League minguou depois da virada do século, quando os clubes japoneses também diminuíram o investimento em astros estrangeiros. A maior parte dos alemães contratados vestiu a camisa exatamente do Yokohama FC, sob a influência de Okudera. Enquanto isso, somente dois jogadores de seleção alemã atuaram no Campeonato Japonês nas últimas duas décadas. Cacau não evitou o rebaixamento do Cerezo Osaka em sua chegada e disputou até a segundona, em tempos nos quais Diego Forlán era seu parceiro de ataque. Já Lukas Podolski ficou três temporadas no Vissel Kobe, sem o sucesso esperado na J-League pelo investimento, mas com um título na Copa do Imperador. Faturou a taça em 2019, ao lado de Andrés Iniesta e David Villa no elenco.

Por outro lado, os jogadores japoneses passaram a florescer na Bundesliga nos últimos 15 anos. Houve um grande hiato, é verdade. Depois das despedidas de Okudera e Ozaki, foram 13 anos até que outro nipônico atuasse numa partida da primeira divisão do Campeonato Alemão. O responsável por reabrir as portas foi Naohiro Takahara. O atacante havia defendido brevemente o Boca Juniors e era nome certo na Copa de 2002, mas perdeu o torneio por causa de uma trombose. A volta por cima aconteceu no Júbilo Iwata, campeão da J-League em 2002 como artilheiro e melhor jogador. Graças a isso, o Hamburgo resolveu contratá-lo.

Takahara teve seu melhor momento no Hamburgo na extinta Copa da Liga Alemã, quando conquistou o título e marcou até gol na final contra o Borussia Dortmund. Todavia, sua passagem pelos Dinossauros ficou mais lembrada pela correria do que pelos gols do atacante, que anotou apenas 16 tentos em 119 partidas. Seus números foram bem melhores nas duas temporadas seguintes, em que defendeu o Eintracht Frankfurt, com direito a 11 gols na Bundesliga 2006/07. Entretanto, em janeiro de 2008 ele deixou o país e se transferiu para o Urawa Red Diamonds.

Em sua última temporada, Takahara não estava mais sozinho na Bundesliga. Outros três japoneses foram contratados por clubes da elite alemã em 2007/08. O próprio Eintracht Frankfurt levou também Junichi Inamoto, meio-campista que se destacou na Copa de 2002 e tinha rodagem por vários clubes europeus – como Arsenal, Fulham, West Brom e Galatasaray. Não conseguiu produzir tanto em duas temporadas com as Águias. Outro nome marcante dos Samurais Azuis, Shinji Ono defendeu o Bochum por três anos, mas sofreu com as lesões e não emplacou. Muito mais certeiro foi o investimento do Wolfsburg em Makoto Hasebe, jovem que despontara no Urawa Red Diamonds de Guido Buchwald. Este chegou para fazer história.

Hasebe se tornou o japonês com mais partidas na história da Bundesliga, superando os 350 jogos. O zagueiro / volante / lateral participou da consolidação do Wolfsburg como um clube importante e era uma versátil peça na conquista da Bundesliga 2008/09, mesmo sem participar como titular absoluto. Foram seis temporadas com os Lobos. Hasebe se transferiu para o Nuremberg em 2013/14, mas sofreu uma grave lesão e não impediu o rebaixamento. Isso até se mudar para o Eintracht Frankfurt em 2014/15 e se transformar em liderança no Deutsche Bank Park. O japonês lidou com momentos difíceis e com o risco de rebaixamento, mas contribuiu à guinada dos últimos anos, de troféu na Copa da Alemanha e bons desempenhos na Bundesliga. Mesmo sem ser mais titular desde a temporada passada, foi capitão em parte da campanha do título da Liga Europa. É uma referência próxima do adeus, aos 38 anos.

O Wolfsburg campeão de 2008/09 ainda teve em seu elenco Yoshito Okubo, mas o atacante disputou apenas nove partidas pelo clube. O título conquistado pelos japoneses, de qualquer maneira, facilitava o trabalho do empresário que fazia a ponte rumo à Alemanha: Thomas Kroth. Em seus tempos de meio-campista, Kroth teve uma carreira razoável, com 256 partidas pela Bundesliga e um amistoso com a seleção. E algumas experiências abriram sua mente, especialmente depois de ser companheiro de Okudera no Colônia e de Cha no Eintracht Frankfurt. O empresário tem Manuel Neuer como seu principal agenciado, mas, fascinado pela cultura japonesa, passou a representar vários nomes da seleção local. Foi também um nome ativo, nos bastidores, para promover tal invasão nipônica. 

Levado por Kroth para a Alemanha em 2010, Shinji Kagawa foi quem asseverou a qualidade técnica dos japoneses na Bundesliga. E o salto dado pelo meia, em partes, pode ser comparado ao de Okudera décadas antes. Por mais que o futebol japonês já fosse profissional, o jovem despontou em tempos difíceis do Cerezo Osaka. Ele precisou comer a bola em três edições consecutivas da segunda divisão até que o acesso viesse, com 27 gols do projeto de craque. Na época, Kagawa ganhava as primeiras convocações e começaria voando na primeira divisão da J-League em 2010. De qualquer maneira, seis meses na elite nipônica não transmitiam tanta confiança para os desafios na Alemanha rumo à temporada 2010/11. Ao menos, o BVB não gastou tanto assim, ao desembolsar módicos €350 mil.

O que Kagawa produziu em suas duas primeiras temporadas no Borussia Dortmund beira o surreal. O meia caiu como uma luva na equipe de Jürgen Klopp e virou um dos principais motivos para o time forte se consagrar como campeão. Seu dinamismo combinado à técnica faziam a diferença em vários jogos. Kagawa foi o melhor jogador do primeiro turno da Bundesliga 2010/11, antes que uma fratura no pé com a seleção o tirasse de toda a metade final da campanha. na conquista da Copa da Alemanha num 5 a 2 memorável sobre o Bayern.

É de se pensar o que Kagawa poderia fazer se continuasse no Dortmund para a temporada de 2012/13, quando os aurinegros perderam a final da Champions. Contudo, o Manchester United contratou o japonês, que a partir de então viveu um antes e um depois na carreira. O retorno posterior ao BVB não teria mais o craque de outrora. Até rolaram mais alguns momentos de brilho pontual e mais um título na Pokal, mas distante do arrebatamento dos primeiros anos. Fato é que a história do nipônico estava consolidada e, em termos de auge, nem mesmo Okudera atingiu seu patamar. Ótimo para muitos compatriotas, que passaram a se transferir para a Alemanha em frequência ainda maior.

A leva de 2010 ainda inclui Shinji Okazaki. O atacante não brilhou tanto pelo Stuttgart, mas fez duas temporadas excelentes pelo Mainz 05, com 15 gols na primeira e 12 na segunda. Logo se projetou para o Leicester, onde se consagrou no inacreditável título da Premier League de 2015/16. Outro a chegar em 2010, Atsuto Uchida nunca se firmou como titular absoluto no Schalke, mas conseguiu passar das 100 partidas pela Bundesliga. No ano seguinte, Takashi Usami se tornou o primeiro japonês do Bayern de Munique, mas não desabrochou. Passou também por Hoffenheim, Augsburg e Fortuna Düsseldorf. Bem mais relevante foi a passagem de Gotoku Sakai, primeiro pelo Stuttgart e depois como uma liderança no Hamburgo mesmo com o rebaixamento. Hajime Hosogai também teve sequência por Augsburg e Hertha.

Takashi Inui (Eintracht Frankfurt), Hiroki Sakai (Hannover) e Hiroshi Kiyotake (Nuremberg, depois Hannover) se firmaram como rostos conhecidos na liga a partir de 2012. Sem adições em 2013, a safra de 2014 inclui Yuya Osako como um atacante esforçado no Colônia e no Werder Bremen, além de Genki Haraguchi como um motorzinho em Hertha Berlim e Hannover, atualmente na reserva do líder Union Berlim. Já depois de 2015, Yoshinori Muto ofereceu contribuições importantes para o Mainz 05 por três temporadas.

A maioria dos japoneses que permanecem na Bundesliga chegaram de 2017 para frente. Daichi Kamada ainda levou um tempo para se firmar no Eintracht Frankfurt, mas desde que voltou do empréstimo ao Sint-Truiden virou um nome importante do clube. O papel decisivo na conquista da Liga Europa é inquestionável e nesta temporada ele é o melhor jogador em atividade pelas Águias, em diferentes posições dentro de campo. Wataru Endo é o capitão do Stuttgart e o herói da permanência na primeira divisão, influente na condução do jogo pelo meio-campo e pela liderança nos vestiários. Tem Hiroki Ito como parceiro na zaga. Ko Itakura brilhou no acesso do Schalke ao acertar a zaga e agradava em seu início no Gladbach, até se lesionar. Ritsu Doan fez uma boa temporada pelo Arminia Bielefeld, antes de voltar à Alemanha para auxiliar o sucesso recente do Freiburg, com algumas boas exibições na ponta. E ainda há Maya Yoshida, levado pelo Schalke nesta temporada, que carrega uma bagagem enorme nas grandes ligas.

Atualmente a Bundesliga conta com nove jogadores japoneses. Há mais sete na segunda divisão. Não à toa, os atletas em atividade na Alemanha são maioria no elenco convocado por Hajime Moriyasu para a Copa do Mundo, com oito nomes, dois a mais que a J-League. Ko Itakura, Maya Yoshida, Hiroki Ito, Wataru Endo, Ritsu Doan, Daichi Kamada e Takuma Asano se espalham pela primeira divisão, enquanto Ao Tanaka busca o acesso na segunda com o Fortuna Düsseldorf. Outro velho conhecido das torcidas alemãs é Hiroki Sakai, atualmente no Urawa Red Diamonds. E isso porque Yuya Osako e Genki Haraguchi estiveram entre as ausências mais surpreendentes da lista final. A relação construída por Dettmar Cramer, Yasuhiko Okudera, Shinji Kagawa e tantos outros chega ao seu ápice com o duelo desta Copa, num encontro de inimigos íntimos que compartilham admiração mútua.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo