O Irã se reergueu, melhorou demais com as mudanças e dois velhos soldados de Queiroz foram heróis do épico
Autores dos gols, Chesmi e Rezaeian passaram três anos longe das convocações, até serem resgatados por Queiroz às vésperas da Copa
O Irã teve uma das piores atuações da primeira rodada da Copa do Mundo, mas estava claro também que o time não foi amassado pela Inglaterra somente por falta de qualidade. Os persas poderiam, e deveriam, render bem mais na competição. As chances de classificação seguiam postas e mudanças eram necessárias. Carlos Queiroz mudou. O Time Melli melhorou a olhos vistos. E a vitória por 2 a 0 sobre Gales, com dois gols agonizantes nos acréscimos, é daquelas que ficam gravadas como um épico na história da seleção. Os iranianos devem muito àqueles que entraram e deram consistência ao time – Saeid Ezatolahi, Ali Gholizadeh e Sardar Azmoun em especial. Já no fim, os heróis foram mesmo dois velhos soldados de Queiroz, Ramin Rezaeian e Roozbeh Chesmi. Símbolos da fortaleza defensiva armada pelo técnico em seu auge no país, ambos mal participaram do ciclo após a breve saída do português e, depois de três anos longe das convocações, foram à Copa na conta do comandante. Agradeceram da melhor maneira possível.
Pouquíssima coisa deu certo para o Irã contra a Inglaterra. Nem a capacidade defensiva, uma das marcas do trabalho de Carlos Queiroz na última década, se vislumbrou. Os persas desabaram a partir do momento em que os ingleses abriram o placar e viraram um catado no segundo tempo, com um breve alívio nos lampejos de Mehdi Taremi. Era necessário mudar. Jogadores importantes reapareceram no time titular. Sardar Azmoun, que volta de uma lesão no tornozelo, era uma pedida óbvia para o ataque. Ninguém entendeu o porquê de Saeid Ezatolahi, principal esteio no meio-campo, não começar contra os ingleses e ele ressurgiu no 11 inicial. Já Ali Gholizadeh, que havia ganhado espaço na seleção durante a passagem de Dragan Skocic pelo comando, não parecia com tanto moral junto a Queiroz e começou no banco diante dos Three Lions. Entrou bem no segundo tempo e mereceu a consideração desta vez.
O primeiro tempo do Irã contra Gales já mostrava uma equipe melhor montada e com mais recursos. O jogo se concentrava pelo lado direito, onde se combinavam o ponta Gholizadeh e o lateral Rezaeian – outro que reaparecia entre os titulares, após sequer entrar contra a Inglaterra. A ideia era construir por ali e inverter para o outro lado. Azmoun servia de referência, enquanto Taremi se movimentava mais e dava presença de área no segundo pau. O jogador do Porto, aliás, impressionou pela solidariedade e pela forma como se encarregou do passe final. Durante os primeiros 20 minutos, os persas foram claramente superiores. Tiveram mais chances e ganharam fluidez com Azmoun. Anotaram até um golaço com passes de primeira, mas um impedimento mínimo cancelou a comemoração de Gholizadeh.
O Irã caiu de nível na segunda metade do primeiro tempo. Deixou de criar oportunidades, mas ao menos controlou o meio com a presença de Ezatolahi e impediu que Gales ameaçasse. Já na volta para o segundo tempo, os iranianos se mostraram inspiradíssimos. Fizeram um dos melhores 45 minutos deste Mundial. Era uma equipe encaixada e bastante direta em suas ações. Faltava mesmo só um pouco de sorte. Azmoun carimbou a trave num avanço com liberdade e, segundos depois, Gholizadeh mandou uma bomba no poste. No caso de Azmoun, a infelicidade em Copas até parecia reiterada – considerando as críticas que o fizeram se aposentar brevemente da seleção após o Mundial da Rússia. Entretanto, os iranianos não esmoreceram por causa do quase.
O bombardeio se seguiu. Ezatolahi exigiu uma defesaça do goleiro Wayne Hennessey, com a ponta dos dedos. E o meio-campista merecia um destaque à parte, pela maneira como trabalhava de área a área. Foi um leão como sempre na marcação, mas estava até mais solto para avançar e construir. Protagonista na campanha de 2018, o volante não desenvolveu sua carreira conforme o esperado, mas não é a segundona dinamarquesa que afeta sua importância na seleção. Ao seu lado, Ahmad Nourollahi também cresceu de produção em comparação à estreia, tanto na pegada quanto na organização.
E se a bola insistia em não entrar, o Irã também precisou lidar com as limitações dos problemas físicos. Sem estar na melhor forma, Azmoun deu lugar a Karim Ansarifard. Ezatolahi saiu por câimbras, enquanto Nourollahi se lesionou. Apesar disso, quem veio do banco garantiu energia. Mehdi Torabi quase anotou um golaço e ajudou na intensidade. Alireza Jahanbakhsh renovou o fôlego perdido por Gholizadeh na ponta direita. Roozbeh Chesmi também veio a campo ligadaço como um dos volantes. Diante de uma seleção galesa com muitos erros, os iranianos não deixaram de acreditar. Viram a história mudar aos 41, enfim, com a expulsão de Hennessey. Foi um ótimo lançamento de Jahanbakhsh que fez Taremi ser atropelado pelo goleiro.
Com nove minutos de acréscimos, o Irã exerceu uma das maiores pressões dessa Copa. O gol parecia uma questão de tempo, mas não dava para saber se de fato haveria tempo suficiente. Isso até que os velhos soldados de Queiroz aparecessem. O primeiro gol seria de Chesmi. Como volante ou zagueiro, o atleta de 29 anos é um dos grandes ídolos do Esteghlal no país. Serviu como um cão de guarda de Carlos Queiroz na passagem anterior do treinador pela seleção, mas se lesionou na Copa de 2018, o que só o permitiu a atuar na estreia. Escanteado nas convocações após a saída de Queiroz em 2019, o defensor passou três anos longe da seleção e só reapareceu no elenco em novembro, durante a preparação final ao Mundial do Catar. Estava no lugar certo para mandar uma sapatada de fora da área e, no penúltimo minuto dos acréscimos, inaugurar o placar contra Gales.
A explosão do Irã na comemoração era digna de um gol de ouro na prorrogação de um mata-mata. E a erupção poderia se repetir logo depois, na retomada da partida, quando Taremi (excepcional no papel de armador) puxou o contra-ataque e entregou a Rezaeian. Rasgando pelo meio, o lateral teve a sutileza de finalizar por cima do goleiro substituto Danny Ward e correr para o abraço. Justo ele, outro dos homens mais fiéis a Queiroz. Titular absoluto dos persas no ciclo à Copa de 2018, Rezaeian fez um ótimo torneio na Rússia e ainda ganhou fama por tirar os adversários do sério, com entrega e também provocações. Cristiano Ronaldo chegou até a ser apalpado e se irritou. Todavia, o defensor foi outro que deixou as convocações a partir de 2019 e esperou três anos até ser resgatado há poucas semanas por Queiroz. Deixou uma cena de júbilo no Catar.
E o carinho dos jogadores ao redor de Carlos Queiroz também rendeu cenas muito bonitas diante da apoteose. Azmoun chacoalhava a cabeça do técnico, ambos com um enorme sorriso, até pela forma como o treinador bancou o atacante – quando alguns pediam seu corte pelos posicionamentos políticos a favor dos protestos contra o governo. Rezaeian depois abraçaria Queiroz por trás e taparia seus olhos, como se quisesse fazer uma surpresa ao lusitano pela forma como o técnico confiou em sua volta. O português foi atirado ao alto pelos comandados. Entre idas e vindas, ele permanece como um nome muito grande no Irã e amplia essa história com uma vitória gigantesca.
O Irã precisa tratar o vexame contra a Inglaterra como um acidente de percurso. O jogo contra Gales é muito mais condizente à qualidade disponível nos persas. Muitas questões externas influenciaram dentro de campo, desde a desorganização da federação na demissão de Dragan Skocic, que resultou na volta de Carlos Queiroz apenas em setembro, até o debate sobre a convulsão social no país, ao redor dos protestos dos jogadores e dos posicionamentos públicos. No fim das contas, os iranianos mostraram como ainda poderiam se portar como um bom time e tentar buscar a inédita classificação. A sede por vitória estará no talo no próximo compromisso e ainda haverá um jogo ardente contra os Estados Unidos, com um pano de fundo ainda mais denso para motivar.



