Copa do Mundo

O fardo recai sobre Caballero por uma oportunidade que não parecia merecer

Willy Caballero já tinha 36 anos quando estreou pela seleção argentina. A espera pela oportunidade diz bastante sobre a sua trajetória, mediana. Graças a Jorge Sampaoli, ganhou uma chance na última Data Fifa antes da convocação final à Copa do Mundo. E que não tenha sido responsável direto, os cinco gols sofridos no amistoso contra a Espanha, após substituir Sergio Romero, serviriam para manchar a carreira de qualquer um. Neste momento, porém, o massacre se transforma apenas em um adendo à imagem que deve marcar sua história na Albiceleste. A falha bisonha, que resultou no primeiro gol da Croácia, seria suficiente para vilanizar qualquer goleiro. Recai ainda mais sobre os ombros de alguém que pareceu ganhar uma oportunidade que não deveria ser sua, na qual o treinador foi um dos raros a bancá-lo.

Os primórdios de Caballero no futebol nunca foram muito dignos de nota. Promessa no Boca Juniors, era reserva na Argentina que conquistou o ouro olímpico em 2004. Passou anos no anonimato da segunda divisão espanhola, defendendo o Elche, e também passou pelo Arsenal de Sarandí. Veria a sua sorte mudar quando assinou com o Málaga, então um mero coadjuvante na Espanha, que recebeu uma injeção de petrodólares e virou time de Liga dos Campeões. Realmente, o arqueiro jogou demais pelos boquerones, em campanhas históricas. Ainda assim, nada que valesse sua estreia na seleção, apesar de uma convocação esparsa após a Copa de 2014. Mudou-se ao Manchester City pela boa relação com Manuel Pellegrini, sempre reserva, e só ganhou sequência com Pep Guardiola pelos deméritos de Cláudio Bravo, mas nada suficiente para que os Citizens quisessem segurá-lo. Na última temporada, foi figurante no Chelsea.

Sem sequência no clube, Willy Caballero se transformou em uma cartada de Jorge Sampaoli por sua experiência e por sua pretensa qualidade ao jogar com os pés. Estreou com um bom jogo contra a Itália, antes do desastre diante da Espanha. Seria reserva de Sergio Romero, até que o herói da Copa de 2014 (mas, ainda assim, um goleiro oscilante) se lesionasse logo no início da preparação. Franco Armani vinha em ótima fase do River Plate e parecia uma escolha natural para salvar uma Argentina cheia de problemas – isso sem falar de outros que ficaram em casa, como Agustín Marchesín e Gerónimo Rulli. Mesmo que surgisse como o favorito da ampla maioria dos torcedores, acabou preterido por Caballero. Segundo o treinador, o jogo com os pés do veterano seria importante.

Na estreia contra a Islândia, Caballero não se saiu bem. Vacilou em algumas bolas recuadas (quase entregando o ouro em um desses lances), não transmitiu segurança sob as traves e rebateu para frente o arremate que resultou no gol de Alfred Finnbogason. Contra a Croácia, até realizou uma grande defesa logo no primeiro minuto, buscando com a ponta dos dedos o chute cruzado de Ivan Perisic. Todavia, suas ações temerosas e a dificuldade na saída de bola não passavam confiança. Até que a hecatombe viesse no início do segundo tempo. O passe/chute totalmente errado caiu adocicado a Ante Rebic, com méritos também pela chicotada que acertou.

Ao final do jogo, Caballero estava entregue ao próprio azar. Os companheiros não faziam o mínimo esforço para evitar os ataques da Croácia. Tocou no chute sensacional de Luka Modric, sem conseguir evitar a pintura. Contou com o auxílio do travessão para não tomar o golaço de Ivan Rakitic cobrando falta. E quando parou o camisa 7 com outra boa defesa, ninguém vestindo albiceleste se esforçou para afastar o rebote, possibilitando o terceiro tento dos europeus. A culpa não é apenas sua, apesar do erro ter feito o psicológico da Argentina desmoronar. Em contrapartida, é uma face de uma série de decisões erradas e de problemas envolvendo a equipe.

Sampaoli garantirá a presença de Caballero também contra a Nigéria, em jogo que pode ser fatal à Argentina? Na coletiva de imprensa, o treinador preferiu tirar qualquer carga de responsabilidade do goleiro, “por não ser considerável e nem humano”. Fato é que, a não ser que uma grande reviravolta aconteça à Albiceleste, o que aparece bastante difícil neste momento, o rótulo ficará ao veterano. Justo ou não, é um dos símbolos de uma seleção, como um todo, medíocre em suas primeiras rodadas na Copa de 2018.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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