Copa do Mundo

O craque Kopa e a contribuição dos descendentes de poloneses na história da França em Copas do Mundo

A França teve pelo menos um jogador com origem polonesa em nove edições diferentes de Copa do Mundo, com destaque a Kopa, vencedor da Bola de Ouro em 1958

A França historicamente conta com uma seleção de múltiplas origens. Se a presença de jogadores com raízes africanas é mais significativa nas últimas três décadas, inclusive alimentando discursos xenofóbicos, os ultranacionalistas parecem se esquecer que a força dos Bleus sempre teve apoio do talento de imigrantes e seus descendentes – algo presente em todas as Copas disputadas pelo país, desde a década de 1930. E a Polônia, adversária desse domingo nas oitavas de final, é uma das fontes de qualidade do futebol francês. Centenas de milhares de trabalhadores poloneses se estabeleceram nas cidades francesas sobretudo a partir da década de 1920. Seus filhos e netos viraram jogadores dos Bleus. A França teve pelo menos um jogador de origem polonesa em nove Copas diferentes. Um deles é o lendário Raymond Kopa, primeiro francês a ganhar a Bola de Ouro.

França e Polônia possuem relações próximas desde o Século XVI, com direito a casamentos arranjados entre suas realezas. E esses laços se reforçaram após a Revolução Francesa, com dezenas de milhares de soldados poloneses compondo o exército de Napoleão Bonaparte. A França também receberia muitos exilados políticos da Polônia no Século XIX, em decorrência das disputas com os vizinhos (sobretudo Rússia e Prússia) pela soberania de um estado independente polonês, assim como representantes de classes econômicas mais altas se mudavam a Paris em busca da vida acadêmica e social da “capital cultural da Europa”. Nomes como o compositor Frédéric Chopin e a cientista Marie Curie, primeira mulher ganhadora do Nobel, são grandes exemplos. Mas foi mesmo no início do Século XX que o fluxo se ampliou, quando o governo francês passou a facilitar a entrada de trabalhadores poloneses no país.

A grande massa de operários poloneses se estabeleceu na região fronteiriça com a Alemanha e a Bélgica, para trabalhar nas minas de carvão. Esses mineiros já trabalhavam do outro lado da fronteira, especialmente no Vale do Ruhr – onde, no futebol, marcariam os primórdios de clubes como Borussia Dortmund e Schalke 04. Já na parte francesa do mapa, as comunidades polonesas se reuniam nos arredores de cidades como Lens e Lille. Após a Primeira Guerra Mundial, com quase 2 milhões de mortos na França, um número significativo de proletários do leste europeu foi recrutado no processo de reconstrução. Recém-estabelecida como estado independente, a Polônia assinou um tratado com o governo francês para fornecer mão-de-obra. Mais de 500 mil pessoas emigraram, tornando os poloneses o segundo maior grupo estrangeiro em território francês.

A integração dos poloneses na sociedade francesa não era das mais simples, com barreiras linguísticas, religiosas e culturais. O isolamento era considerável, em comunidades estabelecidas ao redor das minas. E o futebol seria um elemento nesse universo particular. Em 1924, na cidade de Lens, os imigrantes poloneses chegaram a fundar a União Polonesa de Futebol na França. Como havia um limite para estrangeiros nas competições da Federação Francesa de Futebol, a nova entidade tinha o intuito de abrir as portas e reunir a comunidade imigrante. Nove times foram inscritos de início, mas na virada dos anos 1920 para os 1930 seriam quase 50 equipes. Era realizado um campeonato de primeira divisão, enquanto havia até mesmo uma divisão de acesso. Os nomes de alguns clubes faziam referência às forças do Campeonato Polonês, como o Ruch Carvin, o Wisla Hersin-Coupigny e o Pogon Auchel.

A União Polonesa de Futebol na França era tão importante que chegou a se tornar uma entidade honorária dentro do Comitê Olímpico Polonês. Além disso, havia uma seleção do campeonato que fazia amistosos contra os principais clubes do Campeonato Polonês. O auge da organização aconteceu na década de 1930, quando existia também um clima de exclusão além das colônias: com a recessão econômica vigente, a comunidade polonesa se tornou alvo de discriminação e xenofobia. O número de emigrantes que chegava da Polônia diminuiu, assim como aumentou a quantidade de proletários que voltavam ao seu país. O próprio governo francês promoveu expulsões coletivas. Como muitos desses operários estavam ligados a companhias estatais, comboios de trens os levaram de volta ao país de origem em meados dos anos 1930.

A influência da comunidade polonesa, de qualquer forma, já era percebida na própria seleção da França. O elenco da Copa de 1938 tinha dois jogadores de origem polonesa, exatamente filhos dos imigrantes que se estabeleceram nas minas de carvão da região. Ignatz Kowalczyk nasceu em Castrop, na Alemanha, em 1913 e sua família se estabeleceu do lado francês da fronteira. O meio-campista despontou no Lens e no Valenciennes, mas chegaria ao Olympique de Marseille e seria campeão francês em 1937. Logo depois, transferiu-se ao Metz, onde passou grande parte de sua carreira. Era jogador do clube na época da Copa de 1938. Ficou na reserva em ambos os compromissos naquela competição, enquanto contabilizou cinco partidas e um gol pelos Bleus. Outro companheiro com uma história parecida era César Povolny, nascido na cidade de Recklinghausen, no Vale do Ruhr, em 1914. O defensor atuava pelo Le Havre e não entrou em campo no Mundial. 

Em 1939, a Segunda Guerra Mundial eclodiu com a invasão nazista na Polônia e a declaração de guerra imediata feita pela França. O território polonês se tornou um dos principais palcos do conflito, também pela resistência da população local. O governo da Polônia no exílio se estabeleceu de início na cidade de Angers, antes de se transferir para Londres. Com o território francês ocupado também pela Alemanha, existiam outras prioridades além do futebol, mas os clubes da União Polonesa de Futebol na França continuaram na ativa. As competições da entidade, todavia, deram uma pausa. Foi apenas após a derrota do Eixo em 1945 que a associação retomou suas atividades.

O futebol francês acompanhou o processo de recuperação do país nas décadas de 1940 e 1950. Foi um período em que não só os clubes locais fizeram parte de uma vanguarda continental, como também a seleção ganharia mais relevância internacional. E isso não seria possível sem o apoio dos descendentes de poloneses que se dedicavam à bola. Alguns dos principais talentos da França nesse momento tinham raízes polonesas. A União Polonesa de Futebol na França acabou dissolvida em 1950, com clubes e jogadores absorvidos pela federação francesa. Melhor para as próprias equipes locais, que ganharam destaques inegáveis. Na década de 1950, cerca de 10% dos jogadores profissionais na França eram de origem polonesa. Um exemplo disso foi a final da Copa da França de 1948, entre Lille e Lens, dois times do nordeste do país. Nove jogadores de sobrenome polonês entraram em campo.

Tanto por clubes quanto por seleção, um craque de origem polonesa elevou a fama da França: Raymond Kopaszewski – ou Raymond Kopa, como se consagrou. Ele era da segunda geração de poloneses no país. Seus avós paternos deixaram a Polônia após a Primeira Guerra Mundial e seu pai tinha 13 anos quando chegou à nova nação, se casando também com uma descendente de poloneses. A família se instalou no nordeste francês e encontrou oportunidades nas minas de carvão. Não muito afeito à escola, com dificuldades de aprender por causa do polonês corrente em casa, Raymond viu uma chance através do futebol. E seria bastante precoce.

Kopa formou seu primeiro time quando tinha apenas oito anos, ao lado de outros filhos de poloneses, assim como de franceses e demais grupos de imigrantes. Era exatamente na mesma época em que a Segunda Guerra Mundial estourava. Inclusive, foi de soldados nazistas que o garoto ganhou a sua primeira bola de couro. Chamado para entrar em campo com outros amigos, arrebentou numa pelada contra os militares. “À nossa maneira, quase fizemos um ato de resistência, não?”, avaliaria, tempos depois. Já aos 11 anos, Kopa ganhou uma chance de se juntar ao US Nœux-les-Mines, equipe da cidade onde nasceu.

Apesar da fama como jovem craque, Kopa ainda precisou trabalhar nas minas de carvão durante a adolescência. E quando tinha 16 anos, sofreu um acidente sério: a partir de um deslizamento de terra, uma rocha esmagou o indicador da sua mão esquerda. Precisou amputar o dedo e ficou temporariamente afastado do trabalho, recebendo uma pensão. Voltou à labuta meses depois, em funções mais leves. Mas não precisaria se esforçar tanto. Nesta época, o talento com o futebol se sobressaía. E por mais que a vida de mineiro oferecesse uma estabilidade até maior do que a carreira de jogador naqueles tempos, o craque optou mesmo pela bola.

O sucesso no Nœux-les-Mines levou Kopa a uma seleção regional, brilhando nas competições nacionais. Já em 1949, participou de um concurso organizado pela Federação Francesa de Futebol, para apontar jovens revelações do país. A competição se baseava em provas individuais de habilidades, e o descendente de poloneses chegou até as finais, embora não tenha ficado com o prêmio principal, terminando na segunda colocação. A vitrine ao menos serviu para atrair o interesse do Angers. Inicialmente, o rapaz de 18 anos iria assinar um contrato semi-profissional e ganhar um emprego de eletricista. Contudo, sem o trabalho prometido, o clube preferiu não perder o talento e profissionalizou a promessa. Não se arrependeu.

Duas temporadas bastaram para Kopa (apelidado assim no clube, deixando para trás de vez o sobrenome Kopaszewski) se tornar um dos destaques da segunda divisão do Campeonato Francês. E também para dar passos maiores. O atacante chamou atenção do Stade de Reims após um amistoso entre os dois clubes. Foi convidado pelo mítico técnico Albert Batteux a realizar testes nos alvirrubros, campeões nacionais em 1949. Não havia como abrir mão de tamanho prodígio. As negociações se estenderam por semanas e, ainda que a pedida do Angers fosse alta, o Reims aceitou pagar. Além disso, Kopa também exigiu uma bonificação polpuda, fazendo os dirigentes ficarem reticentes. No fim das contas, Batteux convenceu os patrões a cobrirem o valor.

O Stade de Reims se transformou em um símbolo do futebol francês, encabeçado por Kopa. A modalidade importada da Inglaterra não era bem uma preferência nacional naqueles anos. O garoto, Batteux e seus companheiros no Estádio Auguste-Delaune ajudaram a mudar essa percepção. Praticavam um estilo mais solto, valorizando os passes e os dribles. Classe que ganhou o apelido de “futebol champagne”, não apenas pela sofisticação da bebida, mas também pelo fato da cidade de Reims estar encravada na região da Champanha, de onde se origina o vinho branco espumante. Via-se em campo a paixão do futebol praticado nas ruas, mas que acabaria abrindo portas bem maiores, inclusive internacionalmente.

“Filho imprudente de imigrantes poloneses, Kopa tomou a batuta e governou nosso jogo como fazia em seu bairro. Com ele, todos fomos vizinhos do mesmo povo”, escreveu Thibaud Leplat, no jornal El País, na ocasião da morte do craque. “Kopa era o drible, a finta para dentro, os espaços reduzidos. Kopa não era a forma mais direta de chegar ao gol, mas a mais bela. Mas também Kopa era uma forma ética de entender o futebol. Não no sentido moral ou político, mas no sentido existencial, filosófico. Para Kopa, o futebol era a forma mais bela inventada pelos seres humanos para se fazerem livres”.

O Stade de Reims estourou em 1952/53, com a conquista do Campeonato Francês e da Copa Latina – competição disputada pelos campeões nacionais de Espanha, França, Itália e Portugal. Foi o momento que abriu as portas para Kopa se juntar à seleção francesa e disputar a Copa do Mundo de 1954. Não estaria sozinho entre os descendentes de poloneses, afinal. Seu grande parceiro no ataque era Léon Glovacki, filho de pais poloneses também nascido e criado no nordeste da França. Trabalhava numa refinaria, até ser descoberto para o futebol. Atuou pelo Troyes, antes de se tornar um dos nomes mais célebres do Stade de Reims a partir de 1952, ficando cinco temporadas na Champanha. Pela seleção, compareceu até 1955.

Já o goleiro reserva da França era César Ruminski. Filho de imigrantes poloneses, também era mais um representante do nordeste francês. Até despontou no Stade de Reims, mas viveu suas melhores fases no Le Havre e no Lille. Curiosamente, um choque com Kopa nos treinamentos da Copa de 1954 abreviou sua carreira. E a defesa ainda tinha no banco a alternativa de Guillaume Bieganski. Mais um de origem polonesa nascido no nordeste do país, sua carreira se desenvolveu em clubes importantes da região, com mais de 200 partidas pelo Lille e outras 100 com o Lens. Vale ressaltar, porém, que não só os poloneses compunham o elenco da França de 1954. Aquele time reunia jogadores nascidos na Argélia, em Marrocos e na Martinica, bem como com origens na Itália, na Espanha e na Alemanha.

A participação na Copa de 1954 não teria muitos motivos para ser celebrada. A França caiu ainda na fase de grupos, eliminada por Iugoslávia e Brasil na mesma chave. No bizarro regulamento daquele Mundial, os times só enfrentavam dois dos três adversários de seu grupo. Assim, os Bleus não mediram forças com a Canarinho. Perderam para a Iugoslávia no primeiro jogo e ganharam do México no segundo, o que não bastou. Kopa até marcou o gol decisivo no triunfo por 3 a 2 sobre El Tri, mas seria bastante criticado por insistir nos passes a Glovacki, em péssima jornada. O craque seria alvo de um ataque discriminatório. Na saída aos vestiários durante o embate com os iugoslavos, ouviu um sujeito afirmar: “Volte para as minas, seu verdadeiro lugar é lá”. Responderia na bola.

Nos quatro anos seguintes, não só a França, mas o restante da Europa, conheceu o talento de Kopa. O Stade de Reims reconquistou o Campeonato Francês em 1954/55. Com isso, seria o representante do país na primeira edição da Copa dos Campeões. Os alvirrubros chegaram à decisão continental e encararam o Real Madrid, num épico 4 a 3 para os merengues em Paris. Aquele seria o último ato de Kopa pelo clube da Champanha, antes de se mudar exatamente para a Espanha. Seria mais um craque na constelação madridista. E não demorou a erguer a Orelhuda, campeão da Champions em 1957 e de novo em 1958. Chegava à Copa do Mundo como um dos melhores do torneio.

Kopa faria fama na Copa de 1958 ao lado de Just Fontaine, nascido em Marrocos, filho de um francês com uma espanhola. Aquela linha de frente, de qualquer maneira, contava com outro nome de origem polonesa: Maryan Wisniewski. O ponta direita era o único do ataque que não tinha passagem pelo Stade de Reims, na época ídolo do Lens. Atuava no clube do coração, da região onde nasceu e cresceu. Aos 21 anos, era um dos mais jovens daquele elenco da seleção. No banco ainda estava o centroavante Stéphane Bruey, descendente de poloneses nascido na região de Paris, que na época atuava pelo Angers. E ainda vale uma menção a um representante da comissão técnica: o assistente Jean Snella. Filho de mineiros poloneses, ele nasceu na Alemanha e se mudou ao nordeste da França na infância. Nos tempos de jogador, se destacou por Lille e Saint-Étienne. Voltaria também aos alviverdes como técnico, tornando-se lendário ao liderar a conquista de três títulos do Campeonato Francês.

Wisniewski foi o dono da ponta direita da França no Mundial de 1958 e disputou todas as partidas como titular. Marcou dois gols, com destaque para o primeiro nos 4 a 0 das quartas de final contra a Irlanda do Norte, em que driblou quatro adversários. Entretanto, o grande nome daquela jornada, ao lado de Fontaine, foi mesmo Kopa. Os três gols em seis partidas marcados pelo atacante do Real Madrid podem parecer pouco perto dos 13 de Fontaine, mas ele era o cérebro que fazia funcionar o timaço dos Bleus. Sob as ordens de Albert Batteux e cheio de ex-companheiros do Stade de Reims ao lado, ficava fácil para o maestro reger a orquestra. Teria uma grande partida inclusive contra o Brasil na semifinal, apesar da derrota por 5 a 2.

“Eu acho que eu ajudei um pouco Fontaine a marcar tantos gols. Não sozinho, mas era eu quem comandava o ataque. E eu acho que Fontaine não reclamaria disso. Penso que ele poderia até ter feito mais gols. Pode perguntar a ele. O Brasil tinha uma equipe extraordinária, mas estavam com medo de nós. Eles não haviam tomado nenhum gol até nos enfrentar. Mas nosso azar é que rapidamente ficamos com dez, quando Jonquet se machucou após 20 minutos. E como não havia substituições…”, avaliou o veterano, sobre sua participação, em entrevista à SoFoot. Com a terceira colocação da França, Kopa seria eleito para a equipe ideal da Copa por diferentes veículos de imprensa. Já o reconhecimento maior veio no final de 1958, com a conquista da Bola de Ouro.

Naquele momento, a Bola de Ouro era restrita a jogadores com nacionalidade europeia. Não só o sucesso na Copa do Mundo, mas também pelo Real Madrid, pesou a Kopa. Ele somou 71 pontos, contra 40 do segundo colocado Helmut Rahn e 23 do terceiro Just Fontaine. Era o primeiro francês a levar o troféu criado pela France Football – algo que seria repetido por Michel Platini, Jean-Pierre Papin, Zinédine Zidane e Karim Benzema. “Ele fez progressos sensacionais no último ano. Na técnica, ele aperfeiçoou o seu jogo com classe, precisão, velocidade e poder de decisão. Ele bate na bola mais forte e encontra seus companheiros mais rápido. Ele consegue maravilhas com dribles, unicamente por fintas de corpo, deixando a bola imóvel no chão. Então, ele age de maneira rápida, no momento certo. Na tática, nunca vimos alguém executar melhor as tabelas, aproveitando o espaço livre para receber o passe de volta. Kopa não se contenta em lançar os companheiros. Ele os deixa nas melhores condições para marcar. Seu verdadeiro lugar não é como ponta ou meia, nem mesmo como centroavante. Seu lugar é a criar, é como um jogador que integra o ataque que ele inspira, orienta e serve à perfeição”, apontou a France Football, na época.

Kopa permaneceu três anos no Real Madrid. Despediu-se com o terceiro título da Copa dos Campeões, numa final vencida contra o Stade de Reims em 1959. Então, o atacante retornou à Champanha. Voltaria a conquistar o Campeonato Francês mais duas vezes com os alvirrubros. Pela seleção, Kopa seria desfalque por lesão na primeira edição da Eurocopa, em 1960, quando a França caiu nas semifinais. Já em 1962, depois que os Bleus não se classificaram à Copa do Mundo, o craque se despediu da equipe nacional de maneira dolorosa. Por conta da morte de seu filho, com uma doença rara, o veterano pediu dispensa. O técnico Georges Verriest o criticou publicamente e disse que não teria tratamento especial. Kopa pediu uma retratação pública, o que o treinador recusou. E, ao negar a convocação, o atacante recebeu uma suspensão por seu “comportamento indevido”.

A carreira de Kopa durou até 1968, com a camisa do Stade de Reims. Permaneceu no clube mesmo com a crise financeira e com rebaixamentos. De qualquer maneira, seu legado para o futebol francês não se restringiu ao que fez nos gramados. Em 1961, ele seria um dos fundadores da União Nacional de Jogadores Profissionais, a UNFP. A entidade brigava pelo fim da Lei do Passe, que deixava os jogadores presos aos clubes, e também por uma reforma no modelo de aposentadoria para atletas. Kopa chegaria a tomar um gancho de seis meses ao dar uma entrevista em que disse que os jogadores “eram escravos”, “os únicos profissionais que podiam ser vendidos e comprados sem serem consultados”. O craque ocupou o cargo de vice-presidente da UNFP, com o amigo Fontaine na cadeira de presidente.

Nenhum outro descendente de poloneses do futebol francês atingiu a aura de Kopa. Mas outros nomes foram também importantes. A equipe da Euro 1960 tinha os defensores Bruno Rodzik e Robert Siatka, ambos com passagens pelo Reims. Já na Copa de 1966, a defesa contava com Robert Budzynski, mais um filho de imigrantes que iniciou sua carreira no Lens, mas na época havia se transferido ao Nantes. O nome mais conhecido daquele time, ainda assim, era de Jean Djorkaeff – sim, o pai de Youri Djorkaeff. O zagueiro do Lyon era filho de mãe polonesa com pai camulque, um povo nômade de origem na Mongólia. Sem disputar Copa do Mundo, o meio-campo dos Bleus contou com George Bereta de 1967 a 1975. Filho de pai polonês, nascido em Saint-Étienne, seria um dos grandes ídolos dos alviverdes em cinco títulos do Campeonato Francês. Mais um que perdeu a oportunidade de disputar um Mundial foi Georges Lech, ponta filho de poloneses que surgiu no Lens, antes de passar por Sochaux e Stade de Reims. Foi da seleção entre 1963 e 1973.

Na década de 1980, a França também se beneficiou de outros talentos com raízes polonesas. Nascido em Paris, Philippe Mahut teve seu auge no Metz, ganhando uma chance na defesa do time para a Copa de 1982. Já Yannick Stopyra é nativo de Troyes, uma cidade ainda no nordeste francês, mas não tão próxima da fronteira. O atacante despontou no Sochaux e passou pelo Rennes, antes de atravessar grande fase no Toulouse. Foi nessa época que ele apareceu na Copa do Mundo de 1986, titular na histórica campanha até a semifinal. Seria um dos heróis da caminhada, com dois gols, inclusive o segundo nos 2 a 0 sobre a Itália nas oitavas. Também converteu o primeiro pênalti diante do Brasil nas quartas de final. Mais para frente, em 1998 e 2002, o representante de origem polonesa era Youri Djorkaeff, o filho de Jean, em caldeirão cultural que ainda confere origem armênia por parte de mãe. Seria o primeiro dessa legião polonesa a ser campeão do mundo.

Mais recentemente, o nome mais conhecido é o de Laurent Koscielny. O zagueiro é neto de mineiros poloneses, mas nascido numa região mais central do país. Com nacionalidade polonesa, ele cogitou se juntar à seleção alvirrubra no início da carreira, mas optou pelos Bleus. Esteve na Copa de 2014, bem como em duas Eurocopas. Quem não chegou a disputar Copas, mas é um nome notável, é Layvin Kurzawa. O lateral tem mãe polonesa e pai de Guadalupe, nascido na costa do Mediterrâneo. O defensor recebeu sondagens da federação polonesa quando atuava nas seleções de base francesas, mas seguiu à serviço da França. Disputou 13 partidas pela equipe nacional, sem aparecer numa das grandes competições.

Nesta outra via, a Polônia até conseguiu convencer alguns descendentes de poloneses que nasceram na França a defenderem sua seleção. Não chegaram a disputar Copa do Mundo, mas dois jogaram a Euro 2012. Damien Perquis é neto de avó polonesa, nascido em Troyes. Em seu auge no Sochaux, o zagueiro ganhou as primeiras convocações à seleção polonesa. Mais talentoso era o companheiro Ludovic Obraniak, mais um nativo do nordeste francês. O meia era uma das grandes figuras do Lille campeão nacional em 2010/11. Neto de avô polonês, ganhou a primeira convocação num momento de alta, em 2009. Entretanto, em seus cinco anos com a camisa alvirrubra, o país não chegou a um Mundial. Por fim, fica a menção a outro personagem da Copa de 2022 que faz a ponte entre França e Polônia: o técnico Hervé Renard. O comandante da Arábia Saudita é neto de poloneses por parte de mãe. Mais um símbolo do multiculturalismo e das fronteiras que se rompem através do futebol, sobretudo numa Copa do Mundo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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