O Catar terá um goleiro com sangue de lenda olímpica na Copa: Meshaal Barsham é irmão de Mutaz, ouro no salto em altura em Tóquio
Mutaz Barsham pode ser considerado o maior atleta catariano da história e serve de inspiração a seu irmão mais novo, Meshaal, goleiro reserva do Catar na Copa
A trave no futebol tem 2,44 metros de altura como padrão. Para a família Barsham, essa medida é vista sob perspectivas diferentes. Irmão mais velho, Mutaz fica a um triz de igualá-la. Medalhista de ouro no salto em altura durante as Olimpíadas de Tóquio, o catariano possui como melhor marca da carreira 2,43 metros. Se conseguisse pular mais dois centímetros, não só superaria uma trave de futebol, como também igualaria o recorde mundial estabelecido por Javier Sotomayor em 1993. Já seu irmão mais novo, Meshaal, pensa só do travessão para baixo. Afinal, ele é um dos goleiros convocados pelo Catar para a Copa do Mundo. Se o mais famoso dos Barsham conseguiu levar três medalhas olímpicas para casa, incluindo também pratas em Londres e no Rio de Janeiro, o caçula pelo menos terá o gosto de representar o país no Mundial no qual são anfitriões.
Mutaz e Meshaal nasceram em Doha, filhos de uma família com origens sudanesas. E o incentivo no esporte veio desde cedo entre os Barsham: o pai deles era profissional no atletismo e botou os seis filhos nas pistas. Mutaz foi quem atingiu o ápice, no salto em altura, mas outros irmãos também competiam. Meshaal seguiu por outro caminho e conseguiu também registrar seu sucesso. Disputar uma Copa do Mundo, mesmo como reserva, não deixa de ser uma honra.
Os primórdios de Mutaz e Meshaal compartilharam inclusive a mesma estrutura: a Academia Aspire. O centro de investimentos em esportes do governo catariano possui como grande cartaz o futebol, até pela realização da Copa do Mundo. Dos 26 convocados pelo técnico Félix Sánchez, 16 passaram pela academia, incluindo Meshaal. Entretanto, o projeto também se volta a outras modalidades, sobretudo o atletismo. Mutaz virou exatamente o grande símbolo da excelência do trabalho.
Mutaz Barsham permaneceu na Aspire até 2009, quando completou 18 anos e passou a ser treinado pelo polonês Stan Szczyrba, responsável por outros saltadores que levaram medalhas olímpicas. O catariano se tornou seu maior pupilo. Desde então, Mutaz acumulou conquistas em competições juvenis e depois adultas. Possui três ouros em Campeonatos Mundiais e as supracitadas medalhas olímpicas, com o ápice em Tóquio, quando compartilhou o ouro com o italiano Gianmarco Tamberi. Chegou a ser eleito o melhor do mundo no atletismo masculino em 2017 e, na história, só não saltou mais do que o cubano Javier Sotomayor, maior lenda de sua prova.
Somando todas as edições dos Jogos Olímpicos, o Catar conquistou apenas oito medalhas. Mutaz Barsham levou quase metade delas e o único outro ouro foi faturado por Fares Ibrahim, no levantamento de peso em Tóquio. Diante de tamanho sucesso, obviamente, o país usa a imagem do saltador como incentivo a outros esportistas locais. Um exemplo que Meshaal Barsham via bem de perto. O goleiro é sete anos mais jovem que o irmão.

“Mutaz é meu grande exemplo. Sempre me aconselha a dar o meu melhor em todas as oportunidades e me diz para não poupar esforços nos treinos. É isso que eu faço. Todo jogador sonha em disputar uma Copa do Mundo e todos nós estamos dando nosso melhor. Nosso objetivo é fazer boas apresentações num grupo duro e alcançar as oitavas de final”, comentou Meshaal, em entrevista da federação catariana.
Meshaal Barsham passou a integrar a academia da Aspire na adolescência e fez sua transição como profissional no Al-Sadd. Aos 24 anos, ele tenta se afirmar no futebol. O goleiro estreou no Al-Sadd em 2017, pelas mãos de Jesualdo Ferreira. Desde então, ganhou espaço no clube e teve mais sequência inclusive sob as ordens de Xavi. É quem mais vezes figura como titular da equipe durante as duas últimas temporadas, embora a concorrência não seja simples. Seu principal colega de posição é Saad Al-Sheeb, capitão e herói do clube. No fim das contas, ambos foram convocados à Copa do Mundo.
A tendência é que Al-Sheeb seja o goleiro titular do Catar no Mundial. O veterano de 32 anos acumula 80 partidas pela seleção e dominou o posto nos principais momentos do ciclo, incluindo a conquista da Copa da Ásia de 2019. É vice-capitão dos catarianos. Entretanto, se houver alguma necessidade, Meshaal Barsham já mostrou que não deixa o time na mão. São 15 partidas desde que estreou pela seleção adulta, em 2020.
A primeira boa oportunidade para Meshaal Barsham aconteceu na Copa Ouro, titular em todas as partidas do Catar rumo à semifinal. Depois, o jovem foi herói na Copa Árabe. Reserva ao longo do torneio, Barsham ganhou uma oportunidade na decisão do terceiro lugar contra o Egito e terminou como salvador na vitória por pênaltis, ao defender a cobrança decisiva de Mohamed Sherif. Mais recentemente, entrou em alguns dos amistosos preparatórios, mas foi menos frequente que Al-Sheeb. De qualquer maneira, se não for na Copa, a sua titularidade parece ser apenas uma questão de tempo.
E um detalhe curioso é que, para um goleiro, Meshaal Barsham é relativamente baixo. Se o irmão Mutaz possui 1,89 m de altura, o arqueiro mundialista não passa de 1,80 m. O que, pensando no histórico da família, não parece ser necessariamente um problema. Emulando um pouco a capacidade de salto do ídolo que tem em casa, os 2,44 metros da trave não devem intimidar tanto assim o arqueiro.
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Só uma curiosidade, pra fechar esse texto já curioso: Meshaal Barsham não é o único jogador na Copa do Mundo que é irmão de um medalhista olímpico no salto em altura. A Croácia também conta com o meia Nikola Vlasic, do Torino. No caso dele, a lenda olímpica é a irmã mais velha, Blanka Vlasic, já aposentada das pistas. Ela conquistou a prata em Pequim e o bronze no Rio de Janeiro, além de dois ouros em Mundiais. Blanka possui a segunda melhor marca da história entre as mulheres no salto em altura, com 2,08 metros, só um centímetro abaixo do recorde mundial. O pai de Blanka e Nikola, Josko Vlasic, representava a Iugoslávia no decatlo.



