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O adeus a Romualdo Arppi Filho, o árbitro de final de Copa com mais de 20 anos de Fifa e 300 jogos internacionais

Romualdo Arppi Filho teve uma carreira excepcional como árbitro e, ao lado de Arnaldo Cézar Coelho, foi um dos únicos brasileiros que apitaram uma final de Copa do Mundo

“Tecnicamente ele é imbatível”. Era assim que Armando Marques, um dos árbitros mais importantes do futebol brasileiro, definia Romualdo Arppi Filho. Já Renato Marsiglia aponta que o colega era “um árbitro à frente do seu tempo, de uma técnica inigualável, como não viu em qualquer outro no mundo”. Os elogios dos companheiros de apito, ambos presentes em Copas do Mundo, indicam como Arppi Filho estava muito acima da média no quesito da arbitragem. E mesmo que, como qualquer apitador, ele tenha enfrentado suas controvérsias ao longo da carreira, suas conquistas foram bem mais espantosas. Chegou a passar mais de 20 anos nos quadros da Fifa, com cerca de 300 partidas internacionais comandadas. Viveu seu ápice numa final de Mundial, conduzindo o Argentina 3×2 Alemanha Ocidental na decisão de 1986. Marcou seu nome, numa trajetória bastante exaltada nesta semana, mas por motivos pesarosos: o santista faleceu aos 84 anos de idade, vítima de uma doença renal.

“Nunca esquecer que o juiz de futebol, como qualquer ser humano, erra. Quem diz que nunca errou ou não é um árbitro ou é um grande mentiroso”, refletia Arppi Filho à revista Placar, com uma dose de autocrítica. Sua decisão mais contestada aconteceu na final do Brasileirão de 1985, quando anulou um gol de Marinho que poderia ter dado a vitória ao Bangu sobre o Coritiba – curiosamente, num campeonato em que ainda assim terminou eleito como o melhor árbitro. No entanto, diante de tudo o que construiu, as desavenças neste momento de luto viram mais uma nota de rodapé. Foi a vocação para o apito que o tornou bem mais célebre que qualquer deslize.

Nascido na cidade de Santos, em 1939, Romualdo Arppi Filho teve uma infância modesta. Ainda assim, frequentou os estádios desde cedo, influenciado por um tio que era jogador da Portuguesa Santista. O garoto tentou a sorte nos gramados, mas o físico franzino comprometeu suas pretensões, assim como a falta de talento. Além disso, a perda do pai com apenas 17 anos o levou a trabalhar como office boy para auxiliar a mãe em casa. Apesar das lutas diárias, logo o santista viu no apito um caminho.

Primeiro, Arppi filho se tornou árbitro de campeonatos de várzea na Baixada Santista. Era conhecido como “Mosquito Elétrico” e não tinha medo de encarar estivadores e outros operários que participavam das competições amadoras. Logo o jovem também entrou para os quadros da Federação Paulista de Futebol. Tinha apenas 19 anos, em 1958, quando passou a fazer parte da entidade. Sua estreia aconteceu em 1959, numa partida entre São Paulo e Juventus. Enquanto progredia, conciliava a carreira nos gramados com o trabalho autônomo como corretor de imóveis.

A partir da década de 1960, Arppi Filho passou a figurar como um dos principais árbitros do Campeonato Paulista. Também não demorou a integrar os quadros nacionais e internacionais. Teve um batismo de fogo em seu primeiro compromisso fora do país, num Nacional de Montevidéu x Boca Juniors em 1961. Já a primeira grande competição internacional foram os Jogos Olímpicos de 1968. Neste momento, suas aparições no exterior se tornaram cada vez mais frequentes. Foi árbitro de diversas competições de clubes e de seleções – inclusive em jogos do Brasil, em tempos nos quais a nacionalidade não era empecilho em amistosos. Na sequência da década de 1970, o santista apitou diferentes edições da Copa América e até mesmo a final da Libertadores de 1973. Na ocasião, um gol anulado do Colo-Colo contra o Independiente gerou muita reclamação. Arppi Filho teria beijado o atacante Carlos Caszely no rosto após a decisão. Segundo o craque, anos depois, o árbitro confessou que tinha sido pressionado para evitar o triunfo dos chilenos naquele jogo-desempate.

Já dentro de sua própria casa, Romualdo era definido por sua esposa como sensível e romântico, mas também enérgico e autoritário. “Como marido ele é ótimo, mas o autoritarismo que demonstra dentro do campo é parecido com a maneira enérgica como educa nossos três filhos. Ainda bem que tenho um lado liberal, que concilia as coisas”, definia Vera Lúcia, ao jornal Cidade de Santos. A esposa não negava a preocupação com o marido por causa da carreira, especialmente nos compromissos pelo interior paulista, e revelava que ameaças por telefone eram costumeiras. Além disso, contava que um de seus filhos brigava muito na escola para defender o pai e até deixou de ser corintiano, por conta da encheção dos colegas após uma final apitada por Romualdo nos anos 1970.

O auge da carreira de Arppi Filho aconteceu na década de 1980. A presença do árbitro se tornou constante nas finais do Campeonato Brasileiro, assim como em competições internacionais. O santista compôs o quadro de arbitragem nos Jogos Olímpicos de 1980 e de 1984. Além disso, teve a honra de arbitrar o Mundial Interclubes / Copa Intercontinental de 1984, na decisão disputada entre Liverpool e Independiente no Japão. Sua primeira chance em uma Copa do Mundo demorava a acontecer, com Arnaldo Cézar Coelho indo aos Mundiais de 1978 e 1982. Até que o momento do santista viesse, em 1986.

“Todo árbitro tem como seu maior objetivo apitar numa Copa do Mundo. Fico feliz com a minha indicação para arbitrar no próximo Mundial, pois depois de 29 anos de serviços prestados ao futebol brasileiro, tive meu trabalho reconhecido e consegui chegar lá”, afirmou Arppi Filho, na época, ao Correio Brasiliense. “Surpresa em si eu não tive, porque tinha uma leve esperança de ser escolhido pelo que trabalhei desde a última Copa do Mundo, principalmente nestes dois últimos anos, em que dirigi várias partidas internacionais e as finais do Campeonato Brasileiro. Acreditando que poderia chegar lá, estou muito satisfeito com minha indicação”.

Apitar uma Copa do Mundo no México não era uma tarefa simples. A altitude exigia ainda mais dos árbitros, e o trabalho de Romualdo Arppi Filho seria árduo. “Creio que 80% do desempenho é o preparo físico do árbitro. Se ele estiver bem, ele vai bem até o fim. Em 86, eu estava bem preparado, minha mente estava sã”, declarou anos depois, ao portal oficial da Copa do Mundo de 2014. Prova de que o brasileiro estava na ponta dos cascos, ele recebeu nota máxima da comissão de arbitragem da Fifa por sua atuação no França 1×1 União Soviética da fase de grupos. Repetiu a pontuação máxima também nas oitavas, no México 2×0 Bulgária.

(STRINGER/AFP via Getty Images/One Football)

A esta altura, Romualdo Arppi Filho acreditava que não tinha chances de apitar a final da Copa do Mundo. O santista avaliava que dificilmente a Fifa escolheria outro brasileiro, depois de Arnaldo Cézar Coelho arbitrar a decisão do Mundial de 1982. Porém, eram tempos fortes do país nos corredores da entidade. Segundo a revista Placar na época, pesou a influência de Abílio de Almeida, vice-presidente executivo do comitê de arbitragem da Fifa e braço direito de João Havelange, então presidente da confederação. Na disputa com o sueco Erik Fredriksson, Arppi Filho recebeu nove votos a zero. Mas também valia bastante, é claro, sua excelência até então.

“Estar na final era meu segundo objetivo. Torci para que o Brasil chegasse à decisão. Quando ainda estava no país, disse que só torceria para apitar a final depois da desclassificação do Brasil. Primeiro queria o Brasil campeão. Se não desse, então torceria pelo Romualdo. Mas pensei que seria escolhido outro juiz, porque nunca escalaram dois árbitros do mesmo país em duas decisões seguidas da Copa do Mundo. Como fui pego de surpresa, estou preocupado em me concentrar para domingo. Vou me preparar para estar bem física e psicologicamente na hora da partida. Depois verei o que vou fazer da minha carreira”, afirmou ao jornal Cidade de Santos, em 1986. “São 800 árbitros de todo o mundo que disputam o direito de apitar uma decisão que só acontece de quatro em quatro anos. É o ponto mais alto de um juiz escolhido, entre todos que são relacionados pelas 129 federações filiadas à Fifa. Só um tem a honra de atuar neste momento”.

A escolha de Arppi Filho era um sinal positivo à Argentina. A Albiceleste, afinal, conquistou sua vaga na Copa do Mundo em partida apitada pelo brasileiro – o dificílimo triunfo sobre o Peru, no fechamento das Eliminatórias. Na decisão contra a Alemanha Ocidental dentro o Estádio Azteca, mais uma vez, o apitador presenciou uma vitória dos argentinos. Até mostrou cartão amarelo para Diego Maradona, mas não que tenha interferido nos rumos do duelo. Saiu elogiado exatamente pela forma como conduziu uma ocasião de tamanho peso sem sobressaltos. O mesmo não se diria de seu sucessor, o mexicano Edgardo Codesal, até hoje execrado pelos argentinos por sua interferência na final da Copa de 1990.

Depois da Copa do Mundo, Arppi Filho ainda recheou o seu currículo um pouco mais. O árbitro apitou a Copa América de 1987. Com a campanha fraca do Brasil naquele torneio, o santista esteve presente numa semifinal e na decisão, com vitória do Uruguai sobre o Chile dentro do Monumental de Núñez. Naquele ano, recebeu a premiação como “melhor árbitro do mundo”, em escolha feita pelo IFFHS. Além disso, foi convocado para o torneio que serviu de protótipo à Copa do Mundo Feminina, em 1988. A aposentadoria do veterano nos quadros da Fifa seria compulsória, aos 50 anos. Não podia se negar a qualidade da trajetória construída, com quase metade de sua vida desfrutada nas melhores competições do mundo.

Diferente de outros contemporâneos no apito, Romualdo Arppi Filho não fez fama como comentarista de arbitragem na televisão. Seguiu como corretor de móveis na Baixada Santista, longe da badalação de quem conduziu partidas nos maiores palcos do planeta. Mas não deixava de manter contato com velhos colegas. Ainda nos últimos dias de sua vida, conversava com Arnaldo Cézar Coelho. “Foi um dos árbitros que apitava por vocação. Chamava a todos de ganso, era magrinho e pequenino, mas sabia se impor. Respeitava os jogadores e era respeitado, tinha uma habilidade muito grande de conduzir partidas sem criar grandes atritos. O bom senso imperava, era a principal qualidade do Romualdo”, declarou Arnaldo, ao UOL Esporte.

Por aquilo que representou ao futebol brasileiro, Romualdo Arppi Filho recebeu menos homenagens do que poderia em vida. Não é costume recordar os árbitros por seu auge, mas apenas pelos erros que custam campeonatos. A final de Copa do Mundo no currículo, no entanto, torna o nome do santista obrigatório nos livros de história do esporte. E essa mera menção dá conta de sua importância. Aos pares, resta a lembrança das virtudes de Arppi Filho e também o norte de quem conseguiu superar as polêmicas para ser citado bem mais pelos feitos. No mundo da arbitragem, é uma honra para raríssimos.

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Abaixo, os “dez mandamentos de um juiz”, que Romualdo Arppi Filho escreveu na revista Placar, em 1986:

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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