Muitos jogadores de Catar e Equador compartilharam desde cedo as mesmas cartilhas, com as histórias cruzadas de Aspire e Del Valle
Catar e Equador possuem um grande elo, através da Espanha, que influenciou os dois principais centros formadores de suas seleções
A abertura da Copa do Mundo reúne dois países de poucas relações em comum. Porém, o futebol sempre dá seu jeito de encurtar as distâncias entre diferentes nações. E há uma ponte em comum entre as seleções de Catar e Equador, que faz uma escala na Espanha. Se por um lado a influência ibérica no time catariano é clara, através do técnico Félix Sánchez, também há os ensinamentos indiretos de Miguel Ángel Ramírez, em sua passagem pelo Independiente del Valle, absorvidos por jogadores equatorianos. Os trabalhos, afinal, compartilham filosofias: Ramírez atuou na formação de jovens catarianos antes de se mudar para a América do Sul e lapidou convocados pelos dois times que abrem o Mundial.
O principal símbolo do crescimento do Catar no futebol é a Academia Aspire. A Aspire teve seu pontapé inicial em 2004, a partir de um decreto do emir. A ideia era de que a academia unisse a educação básica a uma formação esportiva de primeiro mundo. Há uma base excepcional de pesquisa científica e de apoio tecnológico, à disposição de milhares de crianças catarianas. O trabalho inclui outras modalidades, especialmente o atletismo, embora sempre estivesse claro que o futebol seria um elemento primordial na política externa do governo catariano – como uma ferramenta positiva em meio à realidade de abusos e autoritarismo. Assim, o principal intuito da Aspire estava mesmo ao redor do esporte mais popular do planeta. Trouxeram treinadores e dirigentes de outros países, visando aprimorar o talento dos garotos locais.
A Espanha sempre serviu como principal modelo de inspiração para a Academia Aspire. A ideia de integração da base com os profissionais norteou o projeto, assim como a qualidade de formação em clubes como o Barcelona enchia os olhos do Catar. Não à toa, muitos profissionais espanhóis passaram pelo país. Jogadores como Xavi e Raúl chegaram como estrelas no Campeonato Catariano, mas os principais reforços estavam mesmo em treinadores e executivos que conduziriam o processo de formação. O diretor geral da Aspire atualmente é Ivan Bravo, que durante sete anos atuou como diretor de estratégias do Real Madrid. Já o diretor técnico do departamento de futebol é Edorta Murúa, que trabalhou como gerente de metodologia no Athletic Bilbao e no Atlético de Madrid.
O investimento do Catar na Aspire, naturalmente, se tornou maior a partir de 2010, quando o país acabou eleito como sede da Copa do Mundo de 2022. Existem acusações contra a Aspire inclusive no processo de compras de votos para os catarianos serem escolhidos como palco do torneio. O projeto da academia seria montado em países que se comprometessem com o voto – a exemplo do Paraguai, de Nicolás Leoz, antigo presidente da Conmebol. Fato é que, independentemente das suspeitas, no contexto catariano, a Aspire virou o pilar do que seria a criação de uma equipe competitiva. E, em tempos nos quais a Espanha havia acabado de conquistar o Mundial e o Barcelona representava o suprassumo do esporte, diferentes treinadores espanhóis foram contratados para conduzir os garotos, inclusive nas seleções de base.
Félix Sánchez é o nome mais reconhecido desse investimento. Nascido em Barcelona, o comandante possui uma grande escola por trás de seus ideais. Trabalhou de 1996 a 2006 em La Masía, aprendendo os métodos na base do Barça e lapidando jogadores renomados, a exemplo de Sergi Roberto e Gerard Deulofeu. Deixou os blaugranas justamente para auxiliar na Academia Aspire, assumindo um grupo de 800 garotos nascidos a partir de 1995. Realizou a formação até 2013, quando foi escolhido para conduzir a transição da atual geração do time adulto na época em que ainda estava nas seleções de base. Dirigiu o Catar Sub-19 e, desde então, foi subindo de categoria com a remessa de talentos que prosperaria. Participou do Mundial Sub-20 em 2015 e também alcançou as semifinais do Campeonato Asiático Sub-23 de 2018. Isso até a consagração na Copa da Ásia de 2019, maior título da história do país.
Miguel Ángel Ramírez desempenhou um papel parecido na Academia Aspire. O espanhol dirigiu a base do Las Palmas por nove anos e trabalhava no Alavés, quando recebeu o convite para se mudar ao Catar em 2012. Seria também um dos treinadores de formação na academia, na categoria sub-14, antes de virar assistente do sub-19. Na época, trabalhava ao lado de Roberto Olabe, compatriota com experiência em vários clubes tradicionais de seu país, sobretudo a Real Sociedad. Além de dirigir os juniores, o basco também atuava como diretor de futebol. E seria o responsável por promover Ramírez ao comando principal da seleção sub-17.
“Na Academia Aspire, no Catar, tive a sorte de realizar meu sonho: me dedicar profissionalmente à formação dos jogadores. Juntando minhas duas grandes paixões: a educação – sou professor de educação física e formado em ciências do esporte – e o futebol. Tinha tudo o que podia sonhar. Alguns campos incríveis, a estrutura ideal para os jogadores e um grupo espetacular de formadores. Assim era, e é, a Aspire”, escreveu Miguel Ángel Ramírez, ao site Coaches Voice, em 2020. “Era um trabalho tão profissional que a pressão vinha de você mesmo. Não precisava que alguém te dissesse algo. A dinâmica do trabalho e o profissionalismo na Aspire te obrigavam a dar o melhor a todo o momento. Um processo que também me permitiu adquirir novos conceitos táticos. Uma maneira diferente de ver as coisas”.
A saída de Miguel Ángel Ramírez da Aspire aconteceu em 2018, após não conseguir a classificação do time sub-17 para a Copa da Ásia. Antes disso, Olabe já tinha dado lugar a Murúa como diretor técnico e o treinador se via como parte do processo anterior, então preferiu sair de cena. O que a Aspire fazia, de qualquer forma, não passava despercebido em outras partes do mundo. E um clube como o Independiente del Valle, voltado ao processo de formação de jogadores, tinha seus escolhidos para qualificar ainda mais a sua base. Os equatorianos passaram a visitar a Aspire para conhecer os métodos, enquanto logo começaram a contratar profissionais. Em março de 2018, Olabe desembarcou em Sangolquí para desempenhar o papel de diretor técnico.

Olabe ficou apenas um mês no Equador. Uma proposta para voltar à Real Sociedad, também como diretor, o levou a romper de maneira amigável seu contrato com os equatorianos. O Independiente del Valle decidiu então ir atrás do nome indicado pelo executivo para substituí-lo. Era justamente Miguel Ángel Ramírez, recém-saído da Aspire. O espanhol veio com a missão de chefiar o processo formativo e trabalhar com as categorias de base do IDV. Todavia, a mudança do técnico Ismael Rescalvo (mais um espanhol) ao Emelec em abril de 2019 levou Ramírez a ser promovido para o comando time principal. Não era exatamente o que ele queria, mas o novo treinador aprofundou os mecanismos.
Ramírez passou a mesclar ainda mais os jogadores da base com os medalhões presentes no elenco do Independiente del Valle. Além disso, deu uma identidade de jogo mais ofensiva aos negriazules, o que não se notava na equipe vice-campeã da Libertadores em 2016. Era o passo principal de uma linha de trabalho que se iniciava desde as categorias de base nos anos recentes, antes mesmo da contratação do espanhol, mas que atingia o ápice sob suas ordens. A Copa Sul-Americana de 2019 serve de marco ao sucesso do IDV, mas é preciso ser vista como a ponta do iceberg. Paralelamente, o time sub-20 emendou três finais de Libertadores na categoria, com o título em 2020.
Naturalmente, o Independiente del Valle influenciou os rumos da seleção do Equador. A média de idade baixa de La Tri aproveita os prodígios lapidados pelos negriazules. Muitos deles não passaram pelas mãos de Miguel Ángel Ramírez no time principal do IDV, de 2019 a 2020, enquanto alguns sequer tiveram sequência como profissionais em Sangolquí, levados por outros clubes ainda nas categorias de base. Mesmo assim, 11 jogadores do Equador na Copa passaram pelo Del Valle e nove se profissionalizaram no clube. Piero Hincapié e Moisés Caicedo, entre as grandes revelações do Equador nas Eliminatórias, estrearam como profissionais pelas mãos de Ramírez. Alan Franco e Ángelo Preciado, possíveis titulares da seleção equatoriana, compuseram a equipe campeã da Sul-Americana em 2019.
Aquele ano de 2019 também deve ter garantido orgulho a Miguel Ángel Ramírez por ver o sucesso do Catar na Copa da Ásia de 2019. Félix Sánchez deu o grande passo de sua empreitada ao levar uma equipe bastante jovem ao inesperado título da competição continental. O elenco tinha 11 dos 23 jogadores nascidos a partir de 1995, representando metade dos titulares. Akram Afif e Almoez Ali, as duas estrelas da campanha, eram exatamente garotos talhados desde cedo por Sánchez e que também cruzaram o caminho de Ramírez em sua estadia no Catar.
Já o elenco do Catar que se prepara à Copa do Mundo trouxe novas adições, incluindo três atletas nascidos a partir de 2001. Jassem Gaber, Mostafa Tarek e Naif Al-Hadhrami fizeram parte exatamente da geração treinada por Ramírez – que, recentemente, chegou a postar fotos nas redes sociais com seus pupilos. Dos 26 convocados pelo Catar ao Mundial em casa, nada menos que 18 passaram pela Aspire. São 14 jogadores nascidos a partir de 1996, exatamente os que conhecem Félix Sánchez há tempos.
É interessante notar também que, ao longo dessa preparação de anos do Catar, a Espanha permitiu que muitos jogadores da Academia Aspire passassem por estágios nos clubes do país. Nenhum catariano vingou em La Liga, mas muitos deles atravessaram períodos de treinamentos em clubes tradicionais. Nas divisões de acesso, a Cultural Leonesa serve como um satélite da academia em solo europeu, assim como o belga Eupen. Isso sem contar aqueles atletas que compartilharam o gramado com Xavi no Al Sadd e, a partir de julho de 2019, passaram a ser treinados pelo velho craque no clube. Há uma mentalidade de futebol trabalhada por muito tempo.
Se a federação equatoriana não levou em frente o projeto de ser treinada por Jordi Cruyff, que chegou com pompas e deixou a seleção antes mesmo de sua estreia, por causa da pandemia, a “espanholização” se dá por tabela. La Tri teve também um processo integrado em suas seleções de base conduzido pelo argentino Jorge Célico, antigo treinador da Universidad Católica local que levou os juniores do país ao vice-campeonato mundial sub-20 em 2019. Como não poderia ser diferente, o Independiente del Valle auxiliou aquela caminhada com cinco jogadores lapidados em sua base – mesmo que outros três na época atuassem em times estrangeiros. Craque daquele time, Gonzalo Plata é quem chega com mais peso para a Copa do Mundo com o Equador.
Quando a bola rolar para a abertura do Mundial, os destinos se cruzarão de vez. Almoez Ali e Piero Hincapié devem se encarar dentro da área, Moisés Caicedo e Akram Afif disputarão algumas jogadas na intermediária. Há uma cartilha que, de certa maneira, todos esses jogadores da Aspire e do Independiente del Valle leram desde cedo. Alguns desses atletas possivelmente até já se enfrentaram em competições internacionais de base disputadas tanto pela academia catariana quanto pelo clube equatoriano. E em questão de excelência, é preciso reconhecer os espanhóis, ao causarem um impacto que elevou o nível competitivo de duas seleções presentes na Copa do Mundo.



