Copa do Mundo

Maradona ensinou Suker, admirou Drazen Petrovic e deixou marcas numa Croácia recém-independente

Em junho de 1994, às vésperas da Copa, a presença de Maradona na Croácia dois anos depois da independência teve grande significado - ainda mais pela amizade com Davor Suker e pelo consolo à mãe do falecido Drazen Petrovic

Antes de desembarcar nos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 1994, a Argentina realizou várias escalas em sua preparação. Disputou jogos no Chile, no Equador, em Israel. Já o último amistoso aconteceu em Zagreb, na recém-independente Croácia. Era apenas a nona partida dos croatas após serem admitidos pela Fifa, somente a terceira dentro de casa. Imagine então o peso de uma noite que teria Diego Armando Maradona em campo. E o camisa 10 deu vários motivos para ganhar o respeito dos locais.

Maradona já era muito querido por um croata em particular: ninguém menos que Davor Suker, seu companheiro nos tempos de Sevilla e um grato pupilo dos ensinamentos do veterano. O centroavante, então, conduziria Maradona a uma bonita homenagem. Três dias depois daquele amistoso entre Argentina e Croácia, completava-se um ano da morte de Drazen Petrovic, considerado por muitos como o maior jogador europeu de basquete da história. Prata nas Olimpíadas de 1992 com a seleção croata, o armador faleceu num acidente de carro aos 28 anos, quando vivia seu auge na NBA. Diego foi gigante: levou flores ao túmulo de Petrovic, bem como presenteou a mãe do falecido craque com sua camisa 10 albiceleste. O uniforme permanece ainda hoje exposto no museu dedicado ao armador.

A ligação do próprio Maradona com a atual Croácia não se restringe ao futebol. Um bisavô materno do argentino teria vindo da região da Dalmácia. Conforme contam os amigos do Futebol Portenho, não é à toa que a mãe de Diego, Dona Tota, na verdade se chamava Dalma – em nome dado também a uma das filhas do craque. Seria uma homenagem à terra de onde vem uma das raízes da família. E se por um lado a ascendência distante do camisa 10 poucas vezes é comentada, por outro o esporte ofereceria atalhos para que ele se reaproximasse da Croácia – não apenas o futebol, por sinal.

Afinal, Maradona também era um notório fã de tantas outras modalidades, inclusive do basquete. Na mesma época em que o argentino se imortalizava no Napoli, a região da Campânia contava com a Juve Caserta, um dos principais times italianos com a bola laranja. Diego frequentava as arquibancadas do ginásio em Caserta para conferir as partidas dos bianconeri, na época estrelados por Oscar Schmidt. Neste auge, a equipe conquistou a Copa da Itália em 1988 e o Campeonato Italiano em 1991. Já em 1990, a Juve Caserta perdeu a decisão da Recopa Europeia numa lendária partida contra o Real Madrid. Quem estava do outro lado? Drazen Petrovic. Os 44 pontos de Oscar naquela decisão não bastaram diante dos 62 anotados pelo croata, em triunfo merengue na prorrogação por 117 a 113.

Formado pelo Cibona Zagreb, Drazen Petrovic defendeu o Real Madrid apenas naquela temporada, antes de se transferir para a NBA – onde atuou por Portland Trail Blazers e New Jersey Nets. E a fama do armador também havia se consolidado pela seleção da Iugoslávia. Petrovic era uma das referências do time que conquistou o bronze olímpico em 1984 e depois a prata em 1988. Foi bronze no EuroBasket de 1987 e depois ouro em 1989. Já em Mundiais, o craque liderou os balcânicos a um bronze em 1986, até levar o título de 1990. As testemunhas de sua consagração eram os próprios argentinos, em Copa do Mundo organizada pelo país de Maradona. Era um timaço o da Iugoslávia, que superou os Estados Unidos (representados pelos universitários treinados pelo Coach K) nas semifinais e levou a melhor na decisão contra a União Soviética.

A comemoração do título no Luna Park, em Buenos Aires, rendeu uma cena bastante simbólica às vésperas da dissolução da Iugoslávia. Um argentino filho de croatas, representante da expressiva comunidade imigrante no país, entrou em quadra com a bandeira da Croácia. Em tempos nos quais a então república croata buscava sua independência da Iugoslávia, o gesto nacionalista não foi bem recebido e o pivô Vlade Divac tirou a bandeira da mão do rapaz. Capitão do time, Petrovic não gostou da atitude do companheiro. Foi o início do fim de uma enorme amizade – em história tão bem contada pelo documentário Once Brothers, um dos melhores filmes sobre esportes já produzido.

Aquele momento consolidou ainda mais a figura de Drazen Petrovic como uma referência nacional da Croácia. O armador era uma das principais personalidades do país na época da independência. E o time de basquete masculino adquiriu grande simbolismo nos Jogos Olímpicos de 1992, a primeira competição internacional disputada como nação independente. Os croatas levaram a bandeira ao pódio em Barcelona: ficaram com a prata, derrotados pelo Dream Team dos Estados Unidos na final. Já Petrovic se deu melhor no duelo particular com Michael Jordan – foram 24 pontos a 22 para o croata, com 11 dribles a um diante do maior de todos os tempos. Seria um orgulho imenso.

Paralelamente, naquele mesmo momento, Maradona fazia amizade na Espanha com outro símbolo do esporte croata. Formado pelo Osijek e com passagem pelo Dinamo Zagreb, Davor Suker deixou seu país num momento em que a guerra eclodia. Em 1991, o atacante assinou com o Sevilla. E os rojiblancos abriram as portas em 1992 para Maradona, no momento em que se encerrava a suspensão por doping cumprida pelo argentino. Num time dirigido por Carlos Bilardo, que ainda trazia Diego Simeone no meio-campo, o entendimento entre o camisa 9 e o camisa 10 seria ótimo. Maradona virou amigo de Suker, dentro e fora de campo. Se o primeiro ano do centroavante na Andaluzia foi difícil, com apenas seis gols, Diego o auxiliou a deslanchar, com 13 tentos do croata em La Liga 1992/93.

“Diego era um dos meus ídolos de infância e, quando começaram a se espalhar os rumores em Sevilha de que ele poderia chegar, eu pensei: ‘Até vê-lo no vestiário, não acredito’. Graças à diretoria, pude ser seu companheiro e jogar com ele. Maradona, além de ser o melhor do mundo, nos fazia melhores”, relembrou Suker, anos depois ao As. O atacante tinha 24 anos na época do negócio, com Maradona já consagrado em seus 32 anos. “Ele também me fez ser um jogador melhor. Naquela época, eu era um jovenzinho chegando ao Sevilla e querendo triunfar. Tinha o melhor do mundo ao meu lado para dar os passes, para ir a um churrasco, para passar uma viagem no ônibus ou no avião. Sempre vou ser agradecido a Diego Armando Maradona”, adicionou, à rádio D Sports.

Um momento que ficou na memória de Suker aconteceu num dia de treinos, em que o argentino o pegou pelo braço e ofereceu conselhos. Maradona pediu para que o centroavante não corresse para as pontas, apenas que seguisse em direção ao goleiro. “Eu vou te dar a bola lá”, dizia o camisa 10. De fato, algo que se repetiria inúmeras vezes, mesmo que Diego não estivesse mais em sua melhor forma. O maior símbolo dessa sociedade aconteceu num jogo contra o Valencia, em que dois passes exuberantes do camisa 10 habilitaram duas pinturas do camisa 9 – uma delas por cobertura, outra botando o zagueiro no bolso.

“Tive a sorte de jogar com ele, de ser seu amigo, de desfrutar seu futebol, de compartilhar o vestiário”, declarou Suker, na época da morte de Maradona. “Quando ninguém esperava, Diego aparecia, porque era capaz de imaginar o que ninguém via. Eu me lembro daqueles passes para gol que te dava e fazia todo mundo feliz. Era admirado pelos companheiros e pelos rivais, porque não tinha outro como ele jogando futebol. Era capaz de controlar e de dar toques com qualquer coisa redonda. Gostava de futebol como nenhum outro. Foi um ano maravilhoso. Depois nos víamos de vez em quando, e sempre com o futebol de testemunha”.

A passagem de Maradona pelo Sevilla não duraria mais do que um ano, com episódios de indisciplina e descompromisso. No entanto, o argentino permanecia nos vestiários quando a fatalidade com Drazen Petrovic aconteceu. A importância do armador para a Croácia certamente foi assunto das conversas de Diego com o amigo Suker. O acidente automobilístico com Petrovic numa estrada da Baviera, quando fazia uma viagem de carro até Zagreb, aconteceu em 7 de junho de 1993. Uma semana depois, Maradona e Suker disputavam a última partida oficial como companheiros de Sevilla, num empate por 1 a 1 com o Burgos pelo Campeonato Espanhol.

Maradona voltou para a Argentina, enquanto Suker se consolidou como a principal referência ofensiva do Sevilla. Os ensinamentos de Diego faziam efeito, inclusive para que o atacante se tornasse uma grande esperança da recém-oficializada seleção da Croácia. O centroavante, que era reserva da Iugoslávia na Copa de 1990, defendeu a equipe croata desde a admissão da federação pela Fifa em junho de 1992. Ainda não deu para os axadrezados participarem das Eliminatórias para a Copa de 1994, mas realizaram alguns amistosos ao longo daqueles primeiros meses. Naquele mesmo junho de 1993, inclusive, o Estádio Maksimir lotou suas arquibancadas para um duelo contra a Ucrânia. Os anfitriões ganharam por 3 a 1, com gol de Suker para abrir o placar.

Os caminhos do futebol levaram Maradona e Suker a se reencontrarem em junho de 1994. Diego tinha retornado à seleção argentina para salvar a campanha nas Eliminatórias e classificar o país à Copa do Mundo, após a tensa repescagem intercontinental contra a Austrália. Já Suker encabeçava a seleção da Croácia ao lado de nomes como Zvonimir Boban e Robert Prosinecki. O amistoso entre as equipes encerrava a preparação da Argentina rumo ao Mundial, enquanto oferecia um teste de peso aos croatas antes de ingressarem nas eliminatórias da Euro 1996. Todavia, o significado da visita ia além.

A soberania da Croácia como estado independente era reconhecida desde janeiro de 1992, quando as tropas da Iugoslávia se retiraram do país. Entretanto, existiam focos de conflito em porções do território com maior presença de sérvios étnicos. O número de refugiados croatas em março de 1994 ainda batia na casa dos 500 mil – entre eles um garoto de oito anos chamado Luka Modric, que vivia em um hotel da cidade de Zadar, próxima da região que seguia em guerra. Fato é que o desembarque da Argentina e de Maradona em Zagreb transmitia uma noção maior de que a vida normal poderia ser retomada.

Como descreveu o jornalista Carlos Aira, autor de livros sobre a história do futebol argentino, em breve relato em suas redes sociais sobre o simbolismo daquela ocasião: “Fevereiro de 2016. Tomo um táxi no aeroporto de Zagreb. Taxista de 60 anos. Ele me reconhece como argentino e me diz: ‘Você nunca vai entender o que significou a presença de Maradona naquela noite. Para nós, foi o sinal de que a guerra havia terminado’. O homem estava chorando…”.

Outro a traduzir o sentimento ao redor da ocasião foi Slaven Bilic, então zagueiro da seleção da Croácia: “Era um amistoso, mas um grande jogo para a Croácia. Ainda não estávamos disputando as competições da Fifa porque éramos um país recém-formado, que saía da guerra. Era só um amistoso, mas o estádio ficou abarrotado. Todas as estrelas da Argentina estavam em campo. Foi um grande privilégio jogar contra Maradona. Tirei uma foto depois do jogo com ele. É engraçado, porque para ele foi só um segundo, mas para mim virou uma lembrança para o resto da vida. Maradona era único”.

Dentro de campo, aquele empate por 0 a 0 não deu muitos motivos para ser lembrado. As duas equipes criaram boas chances de gol, mas nada suficiente para alterar o placar no Estádio Maksimir. A Albiceleste tinha Maradona como sua grande estrela, mas também reunia nomes como Sergio Goycochea, Fernando Redondo, Claudio Caniggia, Diego Simeone e Gabriel Batistuta. Do lado da Croácia, Davor Suker tinha a companhia de Drazen Ladic, Robert Jarni, Igor Stimac, Aljosa Asanovic, Robert Prosinecki, Zvonimir Boban, Slaven Bilic e outros que marcariam os primórdios da seleção independente.

Aquela partida ainda proporcionava a estreia em casa sob as ordens do técnico Miroslav Blazevic. “Ciro”, como era conhecido, marcou época à frente do Dinamo Zagreb nos anos 1980 e seria o responsável por levar a Croácia às suas primeiras competições internacionais – tanto a Euro 1996 quanto a Copa de 1998. Era mais um fã de Maradona, como afirmaria: “Não importa Messi ou Cristiano Ronaldo, Diego era maior que qualquer outro. Ele podia fazer o que ninguém mais fazia”.

Anos depois, contudo, aquele resultado ficou em xeque. Oscar Ruggeri chegou a declarar que o empate entre Argentina e Croácia tinha sido “armado”. Seria um pedido dos próprios argentinos, depois de uma viagem cansativa. A equipe enfrentou cerca de três horas de estrada num ônibus que saiu da Áustria, onde treinavam, porque os jogadores não quiseram pegar o avião militar desconfortável oferecido pelo governo croata. Apesar da denúncia, Suker negou a afirmação de forma veemente. E, pelo nível de perigo representado por muitos lances, especialmente por Batistuta, qualquer falcatrua também não transparece nos melhores momentos.

A passagem de Maradona por Zagreb, de toda maneira, não se restringiu ao compromisso no Maksimir. Diego pediu ao amigo Suker para que o levasse ao túmulo onde estava enterrado Drazen Petrovic. Era um momento bastante significativo, no aniversário de um ano da morte do craque do basquete. E o camisa 10 teria a chance de prestar sua homenagem diante da mãe do armador, que recepcionou o argentino no local. A gentileza do craque foi evidente.

Os buquês levados por Maradona tinham nada menos que 62 flores. O número era proposital: Diego queria fazer uma referência aos 62 pontos daquele Real Madrid x Juve Caserta da final da Recopa Europeia, quando presenciou a apoteose de Petrovic justo contra o time de basquete que o argentino torcia. O camisa 10 foi muito carinhoso ao passar os dedos levemente sobre a fotografia do armador no memorial. Já durante a conversa com a mãe de Petrovic, na qual Suker serviu de tradutor, Maradona ofereceu palavras de consolo bastante potentes: “Não se preocupe, a genialidade de Drazen sempre estará viva”.

Maradona também entregou uma camisa 10 da Argentina para a mãe de Petrovic. O uniforme de início foi colocado sobre o túmulo e, posteriormente, passaria a integrar o museu construído para o armador. Ficaria próximo de outros presentes, como a 23 de Michael Jordan no Chicago Bulls. Também à mãe do saudoso adversário, o americano chegou a declarar que “jogar contra Drazen era algo apaixonante”. Reconhecimento tamanho a quem representou tanto para o esporte e para a Croácia como nação.

Depois daquele amistoso em 1994, Maradona e Suker se cruzaram nos corredores do futebol. Em 1998, quando a Argentina enfrentou a Croácia no primeiro Mundial dos balcânicos, Diego pôde presenciar como comentarista o sucesso de seu antigo pupilo como artilheiro do torneio. Já em 2001, Suker esteve na Bombonera para o jogo de despedida do camisa 10, e até gol marcou. Em 2018, voltaram a se falar numa Copa do Mundo, quando o argentino vibrava feito um louco nas arquibancadas da Rússia e o croata ocupava a presidência da federação do país. Dentro de campo, a geração de meninos da Croácia que pôde presenciar aquela visita de Diego ao Maksimir em 1994 venceu a Albiceleste por 3 a 0, liderados por Modric.

E se depois da morte de Maradona a gratidão de Suker ficou expressa em forma de palavras, seu sentimento pelo velho ídolo o tomaria novamente num encontro casual ocorrido há alguns meses, nos corredores de Wembley, durante o Argentina x Itália na Finalíssima que teve homenagens a Diego. “Outro dia, na Inglaterra, me encontrei com sua filha Giannina e sua ex-mulher Cláudia. Não via Giannina desde que ela tinha três ou quatro anos. Nós três nos emocionamos. Foi muito bonito”, relembrou Suker, com a voz embargada, às vésperas de mais uma Copa do Mundo onde a presença de Diego se transforma nas mais vivas lembranças.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo