Copa do Mundo

Das invencionices da Fifa: Infantino propõe “mini Copa” com oito seleções a cada dois anos

A cada vez que Gianni Infantino se mostra disposto a executar uma “revolução” no futebol mundial, parece manter as velhas estruturas de poder e clientelismo na Fifa. E, pior de tudo, banaliza as competições internacionais. Muita gente torceu o nariz para o aumento da Copa do Mundo, com 48 seleções. Processo aparentemente irreversível, mas que, dentro do toma lá dá cá aplicado pelo cartola, gera a sua contrapartida a quem prefere um torneio mais exclusivo. Segundo informações da agência Reuters, Infantino está disposto a criar uma “mini Copa do Mundo” a cada dois anos, a partir de 2021.

“The Final 8”, como foi batizada preliminarmente esta nova competição, entra na esteira da Liga das Nações. A Fifa espera aproveitar o projeto iniciado pela Uefa, e seguido pela Concacaf, para promover mudanças no calendário anual das seleções também em outras confederações – embora esbarrasse na fase final almejada pelos europeus. Assim, o torneio de tiro curto reuniria bienalmente os melhores representantes das “ligas das nações locais”. Seria mais uma maneira de rentabilizar com as equipes nacionais, em um cenário no qual a Copa das Confederações está fadada ao desaparecimento. Além disso, a cada quatro anos, ocorreriam o novo Mundial de Clubes e a Copa do Mundo “tradicional”.

A ideia da Fifa é que “The Final 8” seja realizado a cada ano ímpar, entre outubro e novembro, aproveitando as próprias datas destinadas aos jogos de seleções. Conforme a Reuters, Infantino apresentou propostas na última reunião do Conselho da Fifa. Um grupo de investidores estaria interessado no torneio, o que poderia render US$25 bilhões no ciclo de 12 anos. Não há informações sobre como seria o formato da competição, qual o número de representantes por confederação ou mesmo se existiria um único país-sede.

“Há um sólido e sério grupo de investidores”, escreveu Infantino, em carta enviada a membros do Conselho da Fifa e à qual a Reuters teve acesso. “Isso significa que a Fifa, como organização, não se beneficiaria financeiramente sozinha com esta competição. Acreditamos que esta oferta é uma excelente oportunidade para as confederações e associações, bem como ao futebol em geral”. Há uma proposta separada aos europeus nesta carta, sugerindo que as principais federações podem receber até US$50 milhões apenas pela aparição – em queda de braço com a Uefa pela Liga das Nações, o que se torna essencialmente financeira.

Por enquanto, há mais dúvidas que certezas. Especialmente porque “The Final 8” surge em um momento no qual cada vez mais se questiona o número de datas destinadas às seleções, sob pressão dos clubes. A Liga das Nações pode ser funcional no calendário da Uefa, mas provocaria impacto na organização das outras confederações – como, por exemplo, nas longas Eliminatórias da Conmebol ou nas preliminares da Copa Africana de Nações. Além do mais, não seria surpresa se Infantino propusesse novos mecanismos de classificação à Copa do Mundo, dentro de seu rentável torneio. Com as cifras fazendo os olhos dos cartolas brilharem, a prioridade das federações será sempre lucrar. A princípio, pior para a Copa do Mundo, transformada em um objeto à parte (e mais inchado) neste joguete.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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