Há 20 anos, Brasil sofria contra a Bélgica e era salvo por Rivaldo e Ronaldo (e o árbitro)
Em um jogo que teve dificuldades, seleção brasileira teve os craques Rivaldo e Ronaldo para decidir um jogo que teve gol mal anulado dos belgas
Alguns dizem que em torneios como a Copa, ela só começa mesmo nos jogos eliminatórios. Para a seleção brasileira de 2002, o primeiro jogo eliminatório foi contra a Bélgica, há exatos 20 anos. No dia 17 de junho de 2002, o Brasil entrou em campo na noite japonesa de Kobe – manhã do Brasil – para enfrentar a Bélgica. Com dificuldade e tendo que lidar com um certo sufoco, o Brasil venceu por 2 a 0, com gols de Rivaldo e Ronaldo, mas também com um erro de arbitragem que foi muito importante para o desenvolvimento da partida. Lembramos dessa história nesse aniversário de 20 anos.
O contexto
O Brasil vinha de uma primeira fase tranquila. A seleção estava no Grupo C, junto com Turquia, Costa Rica e China. O jogo complicado foi na estreia, com uma tensa vitória por 2 a 1 sobre a Turquia, de virada, graças a um pênalti que não existiu. Depois disso, vieram vitórias fáceis contra a China, por 4 a 0, e um 5 a 2 sobre a Costa Rica, com vários reservas em campo.
As oitavas de final já tinham começado dois dias antes com a vitória da Alemanha por 1 a 0 sobre o Paraguai, vitória da Inglaterra contra a Dinamarca, a classificação da Espanha nos pênaltis contra a Irlanda e a vitória de Senegal na prorrogação com gol de ouro sobre a Suécia. No mesmo dia do jogo contra o Brasil, 17 de junho, mais cedo, os Estados Unidos eliminaram o México com uma vitória por 2 a 0.
O Brasil jogava a sua primeira partida no Japão naquela Copa, já que toda a primeira fase foi na Coreia do Sul. A Bélgica vinhado Grupo H, onde ficou em segundo lugar, atrás do Japão. Empatou por 2 a 2 com os japoneses, por 1 a 1 com a Tunísia e venceu a Rússia por 3 a 2 na última rodada para selar a sua vaga.
O time brasileiro tinha problemas a serem resolvidos, especialmente no meio-campo. A escalação do time ainda variava e o técnico Luiz Felipe Scolari não tinha achado um jeito de jogar. Começou a Copa com Juninho no meio-campo ao lado de Gilberto Silva, dando mais liberdade para Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo no ataque. O time ainda tinha dificuldades e o técnico buscava uma saída para melhorar as atuações do time. E ele manteve o time para o jogo das oitavas de final.
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O jogo
Logo no começo do jogo, antes de um minuto, o Brasil já tomou um susto. Mbo Mpenza chutou perigoso, tentando pegar o goleiro Marcos adiantado e o goleiro conseguiu tocar para escanteio. Os belgas tomavam a iniciativa no começo do jogo e tentavam causar problemas à defesa brasileira. Aos quatro minutos, Yves Vanderhaeghe chutou cruzado, nem cruzando, nem chutando, e desperdiçando uma chance.
O Brasil chegou com perigo pela primeira vez aos cinco minutos. Juninho, de fora da área, arriscou para o gol e a bola passou perto, mas foi fora. Aos sete, em um escanteio, Roque Júnior não conseguiu acertar a cabeçada em cheio em outra chance, após o cruzamento. Logo depois, foi a vez de Roberto Carlos arriscar em uma cobrança de falta de longe, mas que mandou por cima do gol.
A Bélgica voltaria a levar perigo aos 14 minutos. Em cruzamento para a área, Gert Verheyen subiu mais que Lúcio para cabecear, mas estava muito desequilibrado para conseguir acertar o gol. Só que o Brasil respondeu com uma chance clara de gol. Aos 18 minutos, Ronaldinho costurou a marcação pelo meio e rolou para Ronaldo, na esquerda, bater colocado, buscando o ângulo, mas errou o alvo.
Mais uma boa jogada brasileira aos 22 minutos. Ronaldo recebeu na esquerda, pedalou para cima da marcação, levou a bola à linha de fundo e cruzou alto na direção de Rivaldo. O camisa 10 virou um voleio lindo, mas errou por muito o alvo.
Em cobrança de falta, Ronaldinho cobrou em direção à área e a bola teve um desvio para a linha de fundo. Eram 24 minutos. Dois minutos depois, em um bate rebate dentro da área brasileira, a bola sobrou perto da meia-lua para Marc Wilmots, que bateu de voleio, bonito, mas também errou por muito o alvo.
O lance que causou controvérsia veio aos 35 minutos. Em cruzamento para a área, Marc Wilmots subiu de cabeça com Roque Júnior e tocou de cabeça para o fundo do gol, o que seria o primeiro gol da partida. Só que se ouve o apito do árbitro Peter Prendergast antes mesmo da bola entrar. Ele marcou falta do atacante belga no zagueiro brasileiro. Uma falta que, sinceramente, não existiu.
No final do primeiro tempo, a seleção brasileira voltou a levar algum perigo. Rivaldo cruzou à meia altura para a área e Ronaldo se atirou para a bola, conseguiu tocar, mas sem direção do gol. Ainda assim, levou bastante perigo à meta belga. Ronaldinho tentou resolver já nos acréscimos do primeiro tempo. Ele driblou pelo meio, passando pela marcação e chutou, mas a bola foi travada e chegou amaciada para o goleiro defender sem problemas. Antes do apito final do primeiro tempo, Roberto Carlos aproveitou uma bola que sobrou na área e bateu forte, cruzado, mas ninguém chegou nela.
A primeira chance do segundo tempo foi belga. Aos sete minutos, Wilmots, que queria muito ser o nome do jogo, girou em cima da marcação e, de fora da área, chutou de pé esquerdo e exigiu uma boa defesa de Marcos. Em outro lance, aos nove minutos, uma inversão de bola pegou os brasileiros desprevenidos e Mpenza chegou na bola, mas marcou praticamente dividiu com ele para impedir o gol. Logo depois, na cobrança do escanteio, um bate e rebate na área deu um susto nos brasileiros.
Felipão decidiu mudar o time aos 11 minutos. Sacou o meio-campista Juninho e colocou Denilson em campo. Bem ao seu estilo, Denilson tentou puxar a bola pela esquerda, com as jogadas de ponta esquerdo que fazia, mas não teve sucesso.
Wilmots continuava bem na partida e, aos 17, ele fez a finta depois de receber de Mpenza e bateu colocado de esquerda, exigindo outra boa defesa de Marcos. Na transmissão da Globo, Galvão Bueno e Casagrande diziam que a Bélgica era bem melhor que o Brasil no segundo tempo.
Só que tudo que o Brasil precisava era de um lance dos seus geniais atacantes. Aos 21 minutos, ele aconteceu. Ronaldinho recebeu na intermediária e fez um passe com categoria, de trivela, para Rivaldo. O camisa 10 dominou no peito, de costas, ajeitou bonito a bola e bateu firme para vencer o goleiro Geert De Vlieger e marcar: 1 a 0 para o Brasil. Ainda contou com uma leve sorte, porque a bola desviou no zagueiro.
Com o jogo mais aberto, Denilson começou a ter mais espaço na esquerda e levava perigo nas suas descidas. A Bélgica tentava reagir, primeiro em um chute longe do gol de Mpenza, depois aos 27 minutos em um cruzamento para a área saiu um toque de leve, que saiu à direita do gol. Aos 29, Ronaldinho tentou uma bicicleta dentro da área, mas também não conseguiu acertar o gol em uma finalização de ângulo difícil.
A Bélgica assustou novamente aos 31, em um belo chute de fora da área de Sonck. O centroavante teria outra chance em uma bola que recebeu na direita e chutou de pé esquerdo, sem bater bem na bola, e Marcos defendeu firme. Aos 39, Marcos precisou sair chutando uma bola que sobrou perto do lado direito da pequena área. Os belgas pressionavam.
O lance que decidiu o jogo veio aos 41 minutos. Kleberson tinha entrado no lugar de Ronaldinho, aos 36 minutos. E ele aproveitou um dos contra-ataques do Brasil para fazer o passe cruzado, rasteiro, e encontrar Ronaldo. O camisa 9 bateu firme e o goleiro Geert De Vlieger viu a bola tocar nele e entrar: 2 a 0 para o Brasil e, a essa altura, classificação garantida.
No final do jogo, aos 44 minutos, os belgas perderam uma chance incrível. Bart Goor recebeu livre dentro da área e errou completamente a finalização, acertando apenas o lado de fora da rede. O Brasil sobreviveu à Bélgica e avançou à semifinal daquela Copa.
Veja fotos daquela partida:
Ficha técnica
Brasil 2×1 Bélgica
Local: Kobe Wing Stadium, em Kobe (Japão)
Árbitro: Peter Prendergast (Jamaica)
Brasil: Marcos; Lúcia, Roque Júnior e Edmílson; Cafu, Juninho Paulista (Denílson), Gilberto Silva e Roberto Carlos; Ronaldinho (Kléberson) e Rivaldo (Ricardinho); Ronaldo. Técnico: Luiz Felipe Scolari
Bélgica: Geert De Vlieger; Jacky Peeters (Wesley Sonck), Daniel Van Buyten, Timmy Simons e Nico Van Kerckhoven; Mbo Mpenza, Yves Vanderhaeghe, Joham Walem e Bart Goor; Gert Verheyen e Marc Wilmots. Técnico: Robert Waseige
A repercussão
“O torcedor já aprendeu que só pode confiar nos pés de Ronaldo e Rivaldo para sonhar com o penta”, começava o texto da capa do jornal O Globo no dia seguinte. O título era “Ataque salva o Brasil”. A manchete do Estadão também não trazia um tom muito otimista. “2 a 0. E a torcida tem fé no time, mas não em Felipão”, dizia a manchete da Capa, citando uma enquete que fizeram no site sobre a confiança em Felipão. Enquetes online naquela época estavam em alta (ainda estão, mas ninguém mais leva isso muito a sério – ou ao menos não deveria).
O jornal O Globo trazia repercussões internacionais da atuação brasileira. E o panorama não foi muito bom. “O Brasil não convence”, dizia o L’Equipe. “O Brasil ganha da Bélgica sem jogar bem”, afirmava o Clarín. “Rivaldo, Ronaldo e o juiz deram a vitória de 2 a 0 ao Brasil”, dizia o Olé.
“Um goleiro e um jamaicano dão alívio ao Brasil”, afirmava o El País, da Espanha. “Falhas do Brasil são ocultadas por brilhantismo de Rivaldo”, relatou The Independent. “Brasil se classifica com duas proezas de seus fora de série, mas a seleção passa por dificuldades. Anulado gol aparentemente regular de Wilmots”, dizia a Gazzetta dello Sport.
Havia um pedido muito forte para que Felipão mexesse no meio-campo do time. Juninho era o mais cotado a sair e Ricardinho o mais pedido para entrar. Kléberson, que entrou bem contra a Bélgica, era outro candidato. Na partida contra a Bélgica, ele colocou Denilson no lugar de Juninho, em uma mudança que desequilibrava muito o time, já que deixava basicamente só Gilberto Silva no setor de meio-campo. Haveria mudança no jogo seguinte. O Brasil teria pela frente a Inglaterra, na madrugada, em um jogo que seria às 3h30 no horário de Brasília. Essa história fica para o dia 21.








