Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo de 2018: Uruguai

Como foi o ciclo da seleção até a Copa

O cenário era preocupante logo após a Copa do Mundo de 2014. A suspensão de Luis Suárez se tornou assunto nacional e não havia muito o que fazer quando a mão pesada da Fifa tirou o Pistolero do início das Eliminatórias. No entanto, a Celeste lidou muito bem com a ausência de seu principal craque. O início da campanha foi bastante consistente, entre a segurança da defesa e a força pelo alto no ataque. Ao final, garantiram um ritmo importante para que os charruas seguissem firmes rumo ao Mundial. Até existiram deslizes na metade final da jornada, que retardaram a confirmação da classificação, mas ainda assim foi o melhor desempenho do país no qualificatório desde que o atual formato de pontos corridos foi adotado, em 1996. E se a Celeste se livrou da fogueira da repescagem desta vez, teve outros motivos para comemorar. O elenco atual é mais qualificado que o de quatro anos atrás. Não em experiência, mas em talento, graças aos jogadores revelados pelo país e prontamente utilizados por Tabárez. Há uma confiança renovada para que os uruguaios se imponham no Grupo A (no qual despontam com certo favoritismo, afinal) e consigam peitar seleções mais badaladas a partir dos mata-matas. Há ponteiros a se acertar e nomes a se confirmar, mas dá para tratar o cenário com otimismo.

Como joga

O Uruguai possui um dos sistemas de jogo mais bem definidos da Copa do Mundo. Tabárez faz o simples e mantém a mesma estrutura tática há tempos, no 4-4-2. Conta com duas linhas de marcação, apoiando principalmente pelas pontas, e liberdade garantida à dupla de ataque, sobretudo nos contragolpes. Durante os últimos meses, foram poucas variações, ora com um losango no meio, ora com um cabeça de área no resguardo. Não tende a mudar muito disso, a não ser que aconteça algo inesperado com Cavani ou Suárez. Em compensação, o estilo de jogo vem se tornando mais solto e cadenciado, graças às novas peças introduzidas no plantel. Agora, finalmente, existe qualidade técnica no meio-campo e laterais mais leves para o apoio. As alternativas, aliás, permitem mudanças de postura durante as partidas, que fujam do arroz-com-feijão de sempre. Além disso, as bolas paradas são sempre um perigo. Foram preponderantes na campanha pelas Eliminatórias, sobretudo pelas subidas de Godín. Todavia, neste momento, o arsenal atual se sugere mais amplo.

Time base: Muslera, Varela (Maxi Pereira), Giménez, Godín, Laxalt (Gastón Silva); Nández, Vecino, Bentancur (Torreira), Cebolla Rodríguez (De Arrascaeta); Cavani, Suárez. Técnico: Óscar Tabárez.

Dono do time

Luis Suárez

Suárez é o mesmo garoto que surgiu no Nacional, o mesmo artilheiro que explodiu no Ajax, o mesmo craque que se colocou entre os melhores do mundo com o Liverpool e o mesmo matador em tempos prolíficos com o Barcelona. Ainda assim, o Suárez das Copas é outro cara. Um jogador que, tal qual os uruguaios mais antigos, parece ter o Mundial correndo pelas veias e exalando de sua pele. Luisito sempre será lembrado pelo que fez nas Copas, dos gols à impulsividade salvadora em 2010, da recuperação desesperada para voltar a campo ao destempero em 2014. Herói para muitos, anti-herói para outros tantos, causa impacto nos Mundiais. E que tenha oscilado ao longo da última temporada, não se pensa diferente rumo à Rússia. Certamente dá para esperar um Pistolero de armas em punho. Muito do jogo da Celeste passa por seus pés – e pelos de Edinson Cavani, que, afinal, não merece ser menosprezado, até pelos números maiúsculos que sustenta no PSG. Aos 31 anos, ambos certamente não desejarão deixar a chance passar.

Bom coadjuvante

Diego Godín

Diego Godín, capitão do Uruguai (Photo by Sandro Pereyra/Getty Images)

É até um sacrilégio colocar Godín neste posto de “coadjuvante”. Porque, não sei vocês, mas eu tenho a impressão que o zagueiro será daqueles jogadores menos valorizados do que merecem quando se aposentar. Não por uruguaios ou colchoneros, é claro. Estes aí sabem a grandeza do xerife e sua importância em diferentes instâncias. Comanda a zaga com a firmeza e a qualidade de poucos. Mais do que isso, é o caudilho que faz por merecer uma braçadeira de capitão com tanta história, usada por líderes incontestáveis. E ainda oferece suas costumeiras contribuições nas subidas ao ataque, como bem se viu durante as Eliminatórias, rendendo gols importantes à Celeste na caminhada rumo à Rússia. Suárez e Cavani podem até desequilibrar na frente. Mas o verdadeiro equilíbrio do time de Tabárez está no coração de sua defesa. Está no coração de Godín, aquele que bota a alma no campo e trata a camisa como uma simbiose de seu corpo.

Fique de olho

Rodrigo Bentancur

O meio-campo da seleção uruguaia, ao longo dos últimos anos, sempre pareceu aquém do restante do time. Entre a defesa sólida e os atacantes infernais, havia um bando de jogadores medianos e/ou superestimados, salvando raríssimas exceções e só em determinados momentos. Bem, Tabárez insiste em Cebolla Rodríguez, por mais que possa ter De Arrascaeta pela esquerda. Mas não dá para negar que a Celeste evoluiu muitíssimo nesta perspectiva. Só de ver Lodeiro e Arévalo apenas no álbum de figurinhas, e não em campo, os uruguaios devem respirar aliviados. E há muitas boas (e jovens) opções ao setor. Matías Vecino é o novo carregador de piano, o mais confiável em muito tempo. E ao seu lado, o preferido tem sido Rodrigo Bentancur. O garoto de 20 anos é cria da base do Boca Juniors e, depois de despontar com os xeneizes, mostrou personalidade nas oportunidades que ganhou com a Juventus. Ainda está amadurecendo, mas possui qualidade para servir como fio condutor. Trabalha com os dois pés, tem presença física, protege a defesa, sabe sair ao jogo e cria oportunidades. Possui predicados para mandar na faixa central por anos. Além dele, Nahitan Nández é outro nome de talento pelo lado direito. E no banco, há o motor Lucas Torreira, mais um que certamente terá muito tempo na seleção – e que, em variações táticas, pode ser muitíssimo útil já na campanha russa.

Personagem

Giorgian De Arrascaeta

A região metropolitana de Montevidéu concentra mais da metade da população do Uruguai, mas há vários talentos que surgiram no interior. Seis jogadores convocados por Tabárez nasceram na região fronteiriça com a Argentina, em cidades pequenas como Salto (de Suárez e Cavani), Paysandú e Fray Bentos. De Arrascaeta é um desses interioranos. Veio de Nuevo Berlín, um povoado de 2,5 mil habitantes às margens do Rio Uruguai, bem na fronteira. O pai do menino, apaixonado por futebol, precisou optar pela carreira de jóquei, com a qual garantia o sustento da família. E foi montando o cavalo Giorgian, em um hipódromo da capital, que conquistou algumas de suas melhores vitórias na virada dos anos 1980 para os 1990. Quando seu filho nasceu em 1994, já em Nuevo Berlín, a homenagem ficou registrada em cartório.

Daniel De Arrascaeta logo percebeu o talento do filho. Após largar os páreos, virou padeiro no vilarejo e passou a incentivar o filho, que atuava no Pescadores Unidos. Para motivá-lo dentro de campo, prometeu cinco pesos a cada gol que marcasse. A resposta do menino foi imediata, com 49 gols, que custaram uns bons trocados ao progenitor. Logo o prodígio passaria a ajudá-lo na padaria, vendendo os quitutes, mas aos 15 anos, veio a oportunidade. O amigo de um amigo fez a ponte com o Defensor e conseguiu um teste. Arrascaeta treinou por duas semanas e ficou. Por mais difícil que tenha sido o processo do filho único em sair de casa rumo à capital, vingou com os violetas.

No Defensor, o adolescente conheceu Diego Laxalt. Logo ficou amigo do filho de um mecânico e de uma professora, que chegou ao clube quando tinha nove anos. Juntos, se firmaram nas categorias de base. Juntos, chegaram às seleções menores. Juntos, tornaram-se profissionais, embora o companheiro logo tenha saído para a Internazionale, enquanto Arrascaeta brilhou na Libertadores de 2014 antes de ser levado pelo Cruzeiro. Menos de dez anos depois de se conhecerem, juntos, vão disputar a primeira Copa do Mundo e podem até compor o lado esquerdo da Celeste, a depender das escolhas de Tabárez. Não faltará bom entendimento por ali.

Técnico

Óscar Tabárez

Maestro. A palavra em espanhol que significa “professor”, referência clara ao passado de Óscar Washington Tabárez como docente em escolas primárias logo após pendurar as chuteiras, ganha outras conotações quando se pensa em sua história na seleção uruguaia. O veterano é o mestre que conduziu a Celeste ao seu renascimento, após ficar de fora da Copa do Mundo de 2006. Com seus métodos professorais, iniciou ‘El Proceso’, como ficaria conhecido o projeto integrando a equipe nacional em todos os seus níveis, desde as categorias de base. Deu muito certo. Tabárez precisou se agarrar aos seus homens de confiança muitas vezes, mas soube tirar o melhor dos charruas. E, ante seus êxitos, já completa mais de uma década à frente do time, treinador com mais partidas na história à frente de uma seleção. Há teimosias e certa rigidez tática no comandante. Mesmo assim, não se nega o sucesso de sua missão, sabendo lidar com suas limitações e com suas virtudes. O professor fez muito ao Uruguai. E, diante de sua iminente saída, até pelos problemas de saúde que enfrenta, deixa uma linha sucessória também no elenco. O veterano de 71 anos fará falta.

Uma história da seleção nas Copas

As reedições do Maracanazo que quase ninguém conhece

A decisão da Copa do Mundo de 1950 é motivo de tantas histórias marcantes, fantasiosas ou verídicas. Um fato consumado é a compaixão sentida pelos uruguaios logo após o gozo pela conquista. Há tantas passagens que rememoram as andanças de Obdulio Varelo pelas ruas do Rio de Janeiro na noite do Maracanazo, quando se pôs a beber com os brasileiros como se fosse um anônimo e viu homenzarrões chorarem em seus braços ao descobrirem que era, de fato, o capitão charrua. A conexão entre os jogadores, porém, foi além dos 90 minutos. Muitos deles continuaram próximos, a ponto de Zizinho ser admitidamente amigo de Obdulio. E as ligações terminaram em reuniões solidárias durante a década de 1960, com os veteranos voltando a campo para reeditar a decisão.

Em 1964, Obdulio procurou o artilheiro Ademir de Menezes. Contou que um hospital infantil no Uruguai iria fechar por falta de fundos. Então, tiveram a ideia de fazer um amistoso com os mesmos jogadores, para levantar o dinheiro e salvar a instituição. Semanas depois, os dois times voltaram a campo no Estádio Centenário. Diante das arquibancadas lotadas, os decanos reviveram o maior dia de suas vidas. E a boa forma física dos campeões acabou preponderando. Não ganharam por dois, e sim por quatro, 4 a 1, que levou os compatriotas ao delírio nas tribunas. Ainda assim, haveria outra revanche.

Em julho de 1965, no mesmo Maracanã, uruguaios e brasileiros se enfrentaram. A renda desta vez foi revertida ao hospital Pró-Matre. Na véspera, houve uma grande confraternização, com direito a feijoada e batidas de maracujá. Ao todo, 12 dos 22 atletas do Maracanazo voltaram ao gramado, mas desta vez com o Brasil indo à forra. O time liderado por Jair venceu por 2 a 0, ante o bom público nas arquibancadas. Na saída de campo, Obdulio Varela foi ovacionado. A compaixão tinha sua recompensa 15 anos depois.

Participações em Copa: 12 (1930, 1950, 1954, 1962, 1966, 1970, 1974, 1986, 1990, 2002, 2010, 2014)
Melhor campanha: campeão (1930 e 1950)

Como o futebol explica o país

Engajamento. Uma palavra que tem amplo impacto na vida em sociedade e que, no Uruguai, é corrente no dia a dia. Há uma consciência coletiva considerável no Paysito e, não poderia ser diferente, para que a pequena nação de 3,4 milhões de habitantes consiga seguir em frente e lutar por melhorias. Pois esta noção de conjunto se vê presente também no futebol uruguaio. Conscientes do que representavam e engajados em suas iniciativas, os atletas lutaram por direitos em diferentes momentos ao longo das últimas décadas.

O episódio mais notável aconteceu no final da década de 1940. Juntamente com os jogadores argentinos, os uruguaios pararam em 1948. Protestavam contra a lei do passe, que tornavam os jogadores amarrados aos seus clubes, e também contra os baixos salários. O profissionalismo havia sido adotado no país no início da década de 1930, mas as condições ruins de trabalho continuavam afligindo os atletas, o que já tinha gerado uma breve paralisação em 1938. Então, a partir do sindicato formado em 1946, atuaram de maneira mais incisiva, até que a greve desatasse. O líder? Obdulio Varela, o homem de origens humildes que foi flanelinha, jornaleiro e pedreiro, mas possuía uma consciência enorme sobre o que era justo. A luta durou sete meses e contou com apoio popular, entre amistosos e arrecadações organizadas pelos grevistas. O movimento teve suas reivindicações atendidas em abril de 1949, recebendo 10% do valor das transferências e ganhando mais liberdade na lei do passe. Permitiu que os jogadores voltassem às atividades e a Celeste pegasse embalo rumo à Copa de 1950.

O exemplo ficou e as greves se repetiram no futebol uruguaio – algumas não tão nobres e com interesses de terceiros por trás, diga-se. Mas nos últimos meses, essa herança veio à tona no país. A partir de 2016, os jogadores da seleção passaram a questionar o contrato da federação com a Puma. Mesmo com uma proposta mais vantajosa da Nike sobre a mesa, os cartolas insistiam em ampliar o vínculo com a empresa alemã – o que acabava beneficiando Paco Casal, um dos empresários mais poderosos do país. Independentemente dos valores, pesava a influência do manda-chuva do futebol local. Então, liderados pelo capitão Diego Godín, os futebolistas publicaram uma carta questionando o processo de negociação. Ao mesmo tempo, desatava uma briga por seus direitos de imagem, sob a alegação de que a federação não dividia o bolo de dinheiro recebido pela comercialização da Celeste.

Vitoriosos, os jogadores passaram a ganhar 16% dos valores relacionados aos direitos de imagem. E o primeiro pagamento, recebido em maio de 2017, acabou destinado aos atletas da segunda divisão uruguaia, que sofriam com atrasos salariais. Já em outubro, o episódio no futebol local chegou ao seu estopim. Os jogadores profissionais das duas primeiras divisões do Campeonato Uruguaio paralisaram suas atividades, em protesto contra a falta de representatividade do sindicato e os benefícios à Tenfield, empresa de Paco Casal. A greve, liderada pelo movimento “Más Unidos Que Nunca”, foi apoiada pelos jogadores da seleção e durou 15 dias. Só chegou ao fim quando a federação reconheceu o grupo dissidente e admitiu estabelecer relações além do sindicato, para ouvir as reivindicações.

Atualmente, os ânimos estão acalmados em ambas às frentes, ao menos aparentemente. Mas o espírito continua, e mostra como esta união torna os uruguaios ainda mais fortes. Uma característica que se desdobra em campo tantas vezes.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

“Fechado por causa do futebol”. A plaquinha que Eduardo Galeano, de maneira irreverente, colocava no portão de sua casa a cada Copa do Mundo transmite bastante o espírito do Uruguai quanto à competição. Muito da história do Paysito se traduz através da febre mundialista que se iniciou nos anos 1930. E ela persiste. Por isso mesmo, à Celeste, fazer uma boa Copa é honrar as expectativas dos compatriotas, que se mobilizam de quatro em quatro anos. É o símbolo de sua excelência ao resto do mundo. Depois do sonho que muitos puderam viver em 2010, o último Mundial deixou suas rusgas, por todo o imbróglio com a Fifa. Assim, uma campanha consistente aos mata-matas já estaria de bom tamanho. Seria uma despedida digna ao Maestro Tabárez e aos protagonistas na África do Sul, que talvez não estejam mais presentes no Catar.

Jogos na Copa

Sexta-feira, 15/06 – 9h – Egito x Uruguai

Quarta-feira, 20/06 – 12h – Uruguai x Arábia Saudita

Segunda-feira, 25/06 – 11h – Uruguai x Rússia

Ficha técnica

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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