Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo de 2018: Rússia

Como foi o ciclo da seleção até a Copa

Logo depois da Copa do Mundo de 2014, quando teve uma campanha ridícula, a Rússia começou o ciclo seguinte pensando na Eurocopa. O início ruim das eliminatórias fez Fabio Capello deixar o cargo. Em agosto de 2015, chegou Leonardo Slutsky. O treinador classificou o time com facilidade, mas a campanha na França foi vergonhosa: lanterna do Grupo B, atrás do líder Gales, Inglaterra e da Eslováquia, com um único ponto marcado em empate com os eslovacos. Slutsky foi embora em seguida.

Stanislav Cherchesov assumiu o comando, mas o rumo continuava parecido. Como todo país-sede, a Rússia não disputou as Eliminatórias da Copa. Na Copa das Confederações, passou vergonha mais uma vez. Caiu na primeira fase com três pontos, com uma vitória contra a Nova Zelândia e derrotas para Portugal e México. O time conseguiu uma cerca renovação, mas não conseguiu ainda ter desempenho e sofre em todos os seus jogos. Chega à Copa do Mundo sob o temor de ser uma vergonha em campo.

Como joga

A Rússia joga de maneira mais defensiva. Varia de um 4-2-3-1 para um 5-4-1, utilizando três zagueiros, como foi contra times mais fortes, como Brasil e França, em amistosos mais recentes. Conta com o talento especialmente de dois jogadores: Aleksandr Golovin e o atacante Fedor Smolov. São os dois que se acredita serem mais capazes de decidir jogos a favor do time da casa.

Time base: Igor Akinfeev; Mário Fernandes, Sergei Ignashevich, Vladimir Granat e Fedor Kudryashov; Daler Kuzyaev e Roman Zobnin; Aleksandr Samedov, Aleksandr Golovin e Yuri Zhirkov; Fedor Smolov. Técnico: Stanislav Cherchesov

Dono do time

Fedor Smolov

Smolov, da Rússia (Photo by Francois Nel/Getty Images)

O grande destaque da Rússia é o artilheiro do time. O jogador com mais gols no elenco, 12, e que teve uma boa temporada atuando pelo Krasnodar. Marcou 14 vezes, o segundo mais letal do Campeonato Russo, atrás de Quincy Promes, do Spartak Moscou, que fez 15. Aos 28 anos, Smolov se tornou a principal opção do centro do ataque depois da lesão de Aleksandr Kokorin, em março, com ruptura do ligamento cruzado. Foi o jogador que mais chutou a gol no Campeonato Russo, com 4,3 chutes por jogo. É versátil, embora seja atacante: pode atuar buscando a bola e costuma fazer muitos passes também.

Bom coadjuvante

Aleksandr Golovin

Aos 22 anos, o meia é uma das esperanças da Rússia para a Copa. Ele é um talento maior do que Smolov, mas ainda é um coadjuvante que busca ser o protagonista que o país precisa. É meio-campista ofensivo, que pode atuar pelo centro ou pela esquerda. Jovem, tenta se firmar como um jogador de alto nível.

Fique de olho

Aleksei Miranchuk e Anton Miranchuk

Aleksei Miranchuk, 22 anos, é um dos melhores jogadores da liga russa, atuando no campeão Lokomotiv Moscou. Pode brilhar no Mundial, embora ainda esteja buscando o seu espaço. Ao lado do irmão gêmeo Anton Miranchuk, é daqueles jogadores para ficar de olho nos anfitriões. Aleksei é um atacante, pode atuar pelas duas pontas e também atrás de um centroavante. Canhoto, é alto, tem bom último passe e também chute de longe. Anton ainda está se firmando. É um meia ofensivo que atua mais atrás em relação ao irmão e também tem o passe como a principal qualidade.

Personagem

Denis Cheryshev

Cheryshev foi pivô da eliminação do Real Madrid na Copa do Rei

Denis Cheryschev é russo, nascido em Nizhniy Novgorod, mas se formou como jogador na Espanha. Isso porque se mudou para o país aos seis anos de idade, quando seu pai, que também foi jogador, se transferiu do Dynamo Moscou para o Sporting Gijón. Terminou a sua formação na base do Real Madrid, mas mal jogou por lá. Foi personagem em um episódio um tanto ridículo: entrou em campo e marcou seu primeiro (e único) gol pelo Real contra o Cádiz, pela Copa do Rei, mas o seu clube acabou punido por escalá-lo. Ele estava suspenso por três cartões amarelos e os merengues foram expulsos do torneio pela irregularidade.

Foi emprestado a Sevilla, Villarreal, Valencia e se transferiu ao Villarreal em definitivo em 2016. Muito antes disso, ainda em 2011, disse que se sentia “mais espanhol que russo” e não descartava defender a seleção espanhola. Mas se tornou um jogador da seleção russa sub-21 naquele ano, antes de ser convocado pela primeira vez ao time principal em 2012. Acabou sendo cortado da Copa 2014, por opção do técnico Capello, e também ficou fora da Eurocopa de 2016 por lesão. Jogará a Copa do Mundo no país que nasceu, embora seja difícil dizer se é mesmo o “seu” país.

Técnico

Stanislav Cherchesov

Aos 54 anos, o ex-goleiro assumiu a dura missão de comandar um time com expectativas altas, pouco talento e que terá a missão de ter um bom papel jogando em casa. Com muita experiência, Cherchesov tem passagens por Spartak Moscou, Dynamo Moscou e estava no Legia Varsóvia quando foi alçado ao cargo de dirigir o país. Chega à Copa com um cartel um tanto negativo: 20 jogos, apenas cinco vitórias, seis empates e nove derrotas. Tomou 26 gols e marcou 30.

Uma história da seleção em Copas
Salenko foi artilheiro da Copa de 1994 (Foto: AP)

Meses antes da Copa de 1994, uma carta assinada por 14 jogadores da seleção russa comprometeram muito o país. Depois de uma derrota para a Grécia na última rodada das Eliminatórias, mesmo com o país já classificado, o presidente da RFU (Federação Russa de Futebol), Vyacheslav Koloskov, entrou no vestiário e fez duras críticas ao time. Foi o estopim de uma série de problemas. O técnico Pavel Sadyrin era muito contestado pelos jogadores, em uma seleção que era um caldeirão de nacionalidades. A dissolução da União Soviética em 1991 fez a Fifa permitir que os jogadores escolhessem quem defender. Mesmo com origens diversas, muitos escolheram a Rússia pela chance de chegar à próxima Copa.

Os problemas explodiram juntando vários fatores. Os jogadores já estavam insatisfeitos com a federação, que assinou contrato com a Reebok e obrigou os jogadores a participarem do marketing da seleção, enquanto eles queriam ter contratos individuais. A bronca do dirigente no vestiário e a postura do técnico Pavel Sadyrin levaram os jogadores a assinarem uma carta com várias demandas. Entre elas: saída do técnico e contratação de Anatoli Byshovets, técnico do time da Comunidade dos Estados Independentes (CEI) na Eurocopa de 1992; modificação dos bônus de classificação e também para participação no torneio; melhora imediata na organização e logística relacionados ao time.

Entre os revoltosos, 14 jogadores assinaram a carta ainda em Atenas, depois da briga no vestiário. Um dos que se recusou a assinar foi Stanislav Cherichev, técnico da Rússia atual. A Federação não aceitou nenhuma das demandas e disse que nenhum dos 14 signatários iria para a Copa do Mundo. No fim, sete jogadores que assinaram o documento voltaram atrás para disputar o torneio, entre eles Oleg Salenko.

A Rússia fez uma campanha horrível, perdendo do Brasil e da Suécia, mas lavando a alma no último jogo: venceu Camarões por 6 a 1, quando Salenko marcou cinco gols e chegou a seis no total. Terminou como artilheiro do torneio. Aquele jogo, dos cinco gols, foi o seu último pela seleção da Rússia. Curiosamente, ele tinha estreado em jogos de seleções pela Ucrânia, mas decidiu manter sua associação pela Rússia. Jogou só seis vezes.

Participações em Copa: três, como Rússia (1994, 2002, 2014)
Melhor campanha: 18º lugar (1994)

Como o futebol explica o país
Abramovich, dono do Chelsea (Foto: AP)

A dissolução da União Soviética afetou diretamente o futebol russo. Os grandes clubes do continente eram ligados a grupos trabalhistas, empresas estatais e indústrias. A estrutura que ruiu com o fim da União Soviética levou consigo o que também sustentava o esporte. Instituições que o bancavam como a polícia ou o exército, ficaram sem dinheiro, o que motivou uma crise no início dos primeiros anos pós-comunismo.

O processo que derreteu a URSS já tinha começado nos anos 1980, com a economia sendo gradativamente aberta. A seleção soviética finalista da Eurocopa de 1988 não tinha nenhum jogador atuando fora do país. Na Copa de 1990, sete jogadores já atuavam no exterior. Eram os primeiros efeitos no futebol das medidas de abertura econômica que levaria ao fim do bloco soviético.

O futebol foi para as mãos de oligarquias, com grandes empresas formadas a partir das antigas grandes estatais, monopolistas. Pessoas que se tornaram muito ricas comprando barato estatais que detinham monopólios e eram altamente lucrativas. Esses indivíduos ricos e empresas dominantes nos seus setores, como a Gazprom, passaram a colocar dinheiro na liga russa e levar talento estrangeiro para lá ao longo dos anos 1990, mas especialmente a partir dos anos 2000. Não por acaso surgiram bilionários que passaram a ser patronos no futebol russo e, pouco a pouco, em outros países também, com Roman Abramovich, do Chelsea, como o principal exemplo, ou Dmitry Rybolovlev, dono do Monaco.

O dinheiro fez os times russos terem um pico, ganhando inclusive a Copa da Uefa em 2005 com o CSKA Moscou. O Zenit também se tornou uma potência, frequente na Champions League e finalista da Copa da Uefa. Só que por mais que os clubes russos continuem com dinheiro, as crises vividas especialmente de 2008 em diante fizeram a moeda russa se desvalorizar e, embora continue sendo capaz de levar jogadores para lá, passou a ser menos forte, tanto em termos europeus quanto em relação à seleção russa. 

O futebol na Rússia, atualmente, se parece muito com o que é o país: rico, cheio de milionários e dinheiro de estatais, gerido com punho de ferro, um tanto atrapalhado e, digamos, excêntrico. Na Rússia, o futebol é como todo o país: parece ter um enorme passado pela frente.

O que a Copa de 2018 significa para a seleção

A Copa do Mundo é uma chance de mostrar ao mundo uma Rússia diferente do que se imagina. Esse, porém, é um objetivo que tem mais a ver com o país do que com a seleção de futebol. Em campo, a Rússia tem a missão apenas de não passar vergonha. O time é tecnicamente fraco e, embora tenha chances de se classificar às oitavas de final, corre risco de repetir a África do Sul e cair logo na primeira fase.

Jogos na Copa

Quinta-feira, 14/06 – 12h – Rússia x Arábia Saudita

Terça-feira, 19/06 – 15h – Rússia x Egito

Segunda-feira, 25/06 – 11h – Uruguai x Rússia

Ficha técnica

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo