Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo H: Uruguai

O Uruguai atravessa uma passagem de bastão, entre a despedida de grandes ídolos e a afirmação de uma nova geração

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Esta é a quarta Copa do Mundo seguida do Uruguai. Desde 2010, o Paisito vai a todos os Mundiais. Na África do Sul, a Celeste voltou às semifinais depois de 40 anos e bateria nas quartas em 2018. A Copa 2022 marca o fim de uma geração extremamente importante na história do futebol charrua: Luis Suárez e Edinson Cavani, de 35 anos, fazem a sua última participação em Mundiais. Além deles, que são os dois principais, há outros nomes relevantes, como Fernando Muslera e Diego Godín, que também marcaram época. 

Há uma nova fornada de talentos, como Federico Valverde, Darwin Núñez, Ronald Araújo, Mathías Oliveira, Nicolás de la Cruz e outros na casa dos 25 anos – ou Giorgian de Arrascaeta, um pouco mais velho, aos 28. Todos com capacidade de serem importantes para a Celeste imediatamente e nos próximos anos. Nenhum deles, porém, se aproximou do patamar de Suárez e Cavani, ídolos máximos de uma equipe que entregou glórias, com a semifinal em 2010 e o título da Copa América de 2011. Será a última chance de uma nova grande campanha para esses veteranos, quem sabe até buscando as fases mais agudas – o que parece um sonho, mas que, com esses astros, ainda é possível sonhar.

Como foi o ciclo até a Copa

A classificação nas Eliminatórias só veio na reta final, no penúltimo jogo. Ao longo do ciclo, o Uruguai teve problemas, quedas de rendimento e o mais importante: uma troca de técnico, com a saída do histórico Óscar Tabárez. O Maestro ficou no cargo de 2006 até 2021 e é responsável pelo renascimento da Celeste no cenário internacional. No momento em que o treinador caiu, o Uruguai estava ameaçado. 

Em 2019, o time disputou a Copa América, no Brasil, e ficou no Grupo C. Terminou em primeiro numa chave que tinha o Chile, o Equador e o Japão, um dos convidados da edição. Nas oitavas de final, o Uruguai acabou eliminado pelo Peru, de Ricardo Gareca, o que foi uma decepção. 

O início das Eliminatórias da Copa foi de altos e baixos. Vitórias contra Chile e Colômbia, derrotas para Equador e Brasil. Depois, já em 2021, viriam tropeços já preocupantes contra Paraguai e Venezuela antes do início de uma nova Copa América. Igualmente realizada no Brasil, o Uruguai passou da fase de grupos como segundo colocado, em um chave com Argentina, Paraguai, Chile e Bolívia. 

O futebol apresentado pelo Uruguai não foi grande coisa, mas foi o bastante para classificar o time. Nas quartas de final, porém, novamente o Uruguai caiu: desta vez para a Colômbia, nos pênaltis. O desempenho já ligava um sinal de alerta pensando em classificação à Copa do Mundo. A sequência negativa com derrotas para Argentina, Brasil, Argentina novamente e Bolívia fez com que o ciclo do Maestro Tabárez, enfim, se encerrasse, 15 anos depois. Com problemas de saúde e um desgaste de não conseguir fazer o time jogar bem, sua saída acabou sendo vista como necessária, ainda que triste. 

A chegada de Diego Alonso valia já para este ano de 2022, com o objetivo de garantir o lugar na Copa. Foi um sucesso: foram quatro vitórias em quatro jogos sob o comando do novo técnico e classificação assegurada ao Catar. Desde então, o Uruguai tem feito amistosos e conseguiu se reconectar a um bom futebol, aproveitando melhor jogadores como Giorgian De Arrascaeta, que há anos se destaca no Brasil. Houve também o crescimento de figuras como Federico Valverde, Rodrigo Bentancur, Facundo Pellistri e Nicolás de la Cruz. 

O Uruguai chega à Copa com confiança, bons jogadores e capaz de causar problemas aos principais adversários, como já aconteceu em 2018. A França, campeã do mundo, teve dificuldades para lidar com a Celeste, que não teve Cavani no jogo – protagonista charrua na campanha. Com a motivação de uma última mobilização por seus craques veteranos, um técnico novo e uma geração que chega já mais experiente à Copa, o Uruguai termina o ciclo de preparação bem para poder sonhar. 

Suárez e Cavani (Buda Mendes/Getty Images/One Football)

Como joga

O Uruguai começou o ciclo usando um 4-2-3-1, às vezes um 4-1-4-1, mas migrou de vez para o 4-4-2 a fim de aproveitar melhor a sua dupla de ataque. Em alguns momentos, como na Copa América de 2021, o time jogou no 4-4-2, mas, em vez de duas linhas de quatro, montou um losango, de forma a encaixar Arrascaeta no time.

Nos compromissos finais de Tabárez no comando do time, ele variou, tentando achar um jeito de jogar. Contra a Argentina, montou um sistema mais defensivo no 5-4-1, o que não impediu a derrota. Contra o Brasil, voltou ao 4-4-2 com dois jogadores pelos lados do campo. Novamente contra a Argentina, tentou um 4-1-4-1, também sem sucesso. Repetiu o esquema contra a Bolívia, em La Paz, e mais uma vez não funcionou.

Diego Alonso manteve o 4-4-2 nos seus primeiros jogos no comando da equipe, mas com algumas alterações. Ganharam mais protagonismo também Facundo Pellistri e Arrascaeta. Aos poucos, o meio-campo passou a ter mais talento, com Bentancur e Valverde pelo meio, Pellistri e Arrascaeta pelos lados. 

No último jogo das Eliminatórias, Alonso escalou o time no 4-3-3 pela primeira vez. Com Lucas Torreira como volante e Bentancur e Valverde como meio-campistas centrais, colocou De la Cruz mais adiantado e Cavani como centroavante, com Suárez no banco, apenas por circunstância. Usou também um 4-1-4-1 contra o México, em amistoso, quando não teve Suárez – só Cavani à frente, como referência.

Contra os Estados Unidos, testou uma formação ainda mais diferente: um 3-5-2, com muitos reservas em campo, em um teste. O jogo acabou em 0 a 0, mas o técnico pôde observar o comportamento da equipe. Voltou a atuar em um 4-3-3 contra o Panamá, retomando um trio no meio-campo e com Pellistri e Arrascaeta pelas pontas, com Cavani na referência. Repetiu a formação contra o Irã, em derrota por 1 a 0. Já contra o Canadá, voltou a usar o 4-4-2, com dois jogadores abertos pelo lado.

A tendência para a Copa é que o 4-4-2 seja mantido, podendo variar de duas linhas de quatro para um losango no meio-campo, dependendo do jogo. Como tem dois atacantes que atuam como centroavantes e já são veteranos, é preciso não precisar contar tanto com eles na recuperação da bola. 

Olhando para os nomes, a primeira mudança está no gol. Uma lesão de Fernando Muslera abriu caminho para Sergio Rochet e o goleiro do Nacional assumiu o posto – numa troca há tempos pedida, mas que não foi realizada por Óscar Tabárez. A lateral direita conta com o melhor defensor do time, Ronald Araujo. O jogador do Barcelona, porém, volta de lesão e é dúvida para o início do Mundial. Guillermo Varela pode entrar por ali, com o desfalque também de Damián Suárez.

O miolo de zaga igualmente tem problemas, com as constantes lesões de José María Giménez e as dificuldades de Diego Godín mesmo no futebol sul-americano, atualmente no Vélez. Martín Cáceres e Sebastián Coates são alternativas. Já na esquerda, Mathías Oliveira é pouco comentado, mas carrega a boa fase do Napoli, mesmo sem ser titular absoluto do clube. Matías Viña é o reserva. Joaquín Piquerez, que era chamado por Tabárez, não esteve nas listas de Diego Alonso e não vai para a Copa.

As duas maiores certezas do time são os dois meio-campistas centrais, Rodrigo Bentancur e Federico Valverde – este, o uruguaio em melhor fase, pelo momento no Real Madrid. São opções até melhores do que a Celeste teve ao longo dos últimos ciclos. Matías Vecino pode dar mais proteção num meio-campo robusto e Lucas Torreira é possibilidade na rotação. Além disso, Valverde também pode se encaixar mais aberto.

Nas meias, Facundo Pellistri agradou nas Eliminatórias pela direita e pode ser titular mesmo sem jogar pelo Manchester United. Arrascaeta é um nome na esquerda para auxiliar na armação, com Nicolás de la Cruz à espreita, bem em amistosos recentes. Já no ataque, a questão é quanto Cavani e Suárez podem aguentar. Por isso mesmo, talvez os medalhões se revezem, até porque existe a ascensão de Darwin Núñez ali. O começo no Liverpool é difícil, mas não há dúvidas sobre as esperanças dos uruguaios em relação ao atacante como herdeiro natural da posição. Serve também como alternativa na ponta, em outra formação tática.

Time-base: Sergio Rochet, Ronald Araujo (Guillermo Varela), José Giménez, Diego Godín (Sebastián Coates) e Mathías Oliveira; Facundo Pellistri (Matías Vecino), Rodrigo Bentancur, Federico Valverde e Giorgian De Arrascaeta (Nicolás de la Cruz); Darwin Núñez (Edinson Cavani) e Luis Suárez. 

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Federico Valverde (Christian Petersen/Getty Images/One Football)

Donos do time

Há muito tempo, Luis Suárez é uma das grandes estrelas do futebol sul-americano e, claro, uruguaio. Aos 35 anos, ele voltou ao futebol local ao sair do Atlético de Madrid no final da temporada 2021/22. Defendendo o seu clube de formação e de coração, o Nacional, conquistou o título uruguaio e com um calendário favorável para chegar à Copa do Mundo fisicamente inteiro. Por ser sua última participação, os uruguaios esperam ter o Suárez que tantas vezes viram, se matando em campo pelo time.

Ao lado de Suárez no ataque, Edinson Cavani também faz a sua última Copa do Mundo aos 35 anos. Assim como o companheiro de ataque, trocou de clube, saindo do Manchester United, onde era reserva, para acertar com o Valencia, onde pode ser um jogador importante. O calendário é favorável ao atacante, que também deve chegar descansado. Ainda que não tenha jogado muito em quantidade, mostrou qualidade ao entrar em campo. 

Após muitos anos buscando repetir o bom desempenho dos clubes na seleção, Giorgian De Arrascaeta cresceu na reta final das Eliminatórias e tem tudo para ter mais protagonismo nesta Copa do que teve na anterior. Ainda que atue pelo lado do campo, que não é a sua posição favorita, Arrascaeta tem potencial para fazer os atacantes uruguaios renderem mais e brilharem. Criativo e imprevisível, é uma arma importante do time.

Vivendo um grande momento, o meio-campista Federico Valverde chega à Copa como o jogador uruguaio em melhor fase no futebol europeu. Atuando como um atacante pelo lado direito no Real Madrid, fechando como meio-campista sem a bola, o jogador cresceu de produção, graças também ao técnico Carlo Ancelotti. Na seleção uruguaia, pode atuar tanto no centro do meio-campo quanto pelos lados. Nas duas funções conseguiu render bem.

Darwin Núñez (Kyle Rivas/Getty Images/One Football)

Caras novas

O defensor Mathías Oliveira trocou de clube nesta temporada, deixando o Getafe para chegar ao Napoli, e começou bem a sua carreira no clube italiano. Aos 24 anos, o lateral esquerdo se firma no time pela boa capacidade física e de marcação. Apesar disso, oferece boa opção no ataque também, embora saiba que nesse time do Uruguai, será fundamental defender bem.

O atacante Darwin Núñez foi um dos grandes nomes do último mercado de transferências europeu, e não por acaso. O jogador trocou o Benfica pelo Liverpool por €80 milhões e ainda tenta se adaptar, mas já deu demonstrações sobre o talento que tem. Alto, rápido e técnico, o atacante será uma opção importante de Diego Alonso, já que os dois atacantes são veteranos e eventualmente precisarão de descanso. 

Na defesa, Ronald Araujo consegue ser a melhor opção à disposição tanto como zagueiro quanto como lateral direito. Diego Alonso prefere usar o jogador do Barcelona pelo lado, aproveitando o seu vigor físico e a sua combatividade. A lesão sofrida às vésperas da Copa foi um baque e sua convocação talvez tenha sido a melhor notícia da lista final. Num setor afetado por contusões, pode ser vital mesmo sem estar 100%.

Um nome que pode pintar como importante para o Uruguai na Copa é Facundo Pellistri, de apenas 20 anos. Embora não jogue no seu clube, o Manchester United – entrou em campo só uma vez na Copa da Liga –, Pellistri é um ponta, que pode atuar tanto mais adiantado, no ataque, quanto na linha de meio-campo. Jogou nas duas funções com o técnico Diego Alonso e, mesmo que não seja titular, pode ter um papel importante no elenco para ser uma opção vindo do banco. Estará descansado por quase não ter jogado, mas ao mesmo tempo chegará sem ritmo de jogo, o que também é uma desvantagem.

Diego Alonso (PABLO PORCIUNCULA/AFP via Getty Images/One Football)

Técnico

O técnico Diego Alonso foi o escolhido para substituir Maestro Tabárez e rapidamente conseguiu colocar o Uruguai nos trilhos. Ao longo da carreira, passou por Guaraní do Paraguai, Peñarol, Olimpia, Pachuca, Monterrey e seu último trabalho antes da seleção uruguaia foi o Inter Miami, nos Estados Unidos. Aos 47 anos, ainda é um técnico jovem e tem mostrado preferência por atuar no 4-4-2 ao longo da sua carreira. Como jogador, jogou pelo Bella Vista, onde também iniciou a carreira como técnico, em 2011, e defendeu ainda Gimnasia de La Plata, Valencia, Atlético de Madrid, Racing de Santander, Málaga, Pumas, Murcia, Nacional, Shanghai Shenhua e se aposentou atuando pelo Peñarol, em 2011. Embora tenha trabalhado em grandes clubes sul-americanos, este é sem dúvida o seu período de maior destaque. Tem a licença da Uefa, o que pode abrir caminhos para eventualmente dirigir no futebol europeu. 

A geografia do elenco

O Uruguai é um país pequeno e a influência da capital, Montevidéu, é enorme. Dos 26 convocados, 11 são da capital uruguaia e outros quatro nasceram em cidades próximas ou na região metropolitana. Não é por acaso: mais de um terço de toda a população do Uruguai vive na capital, que tem 1,3 milhão de pessoas, com a área metropolitana somando cerca de 2 milhões de pessoas. O Uruguai tem cerca de 3,4 milhões de habitantes.

A capital uruguaia é considerada uma das com melhor qualidade de vida em toda a América Latina. É onde fica o principal porto e aeroporto do país, além do local onde se localizam as maiores universidades. Montevidéu também é uma cidade com muitos serviços e é considerada uma espécie de Suíça da América do Sul em termos bancários. Além disso, Montevidéu também é forte no setor de turismo, uma parte importante da economia do país. 

O mundo do futebol uruguaio é muito ligado à capital, com poucos clubes da elite fora da cidade e da região metropolitana. Dos 16 times da primeira divisão em 2022, só quatro ficam fora de Montevidéu: o Cerro Largo, da cidade de Melo, no nordeste do país; o Boston River, que joga em Trinidad, no sul do país; o Plaza Colonia, no sul do país; e o Deportivo Maldonado, no leste do país, em Maldonado. 

Além dos 11 jogadores nascidos na capital, há outros quatro que nasceram em cidades próximas, que são zonas de influência: Toledo, de José Giménez, na região metropolitana de Montevidéu; e Empalme Olmos, de Matías Viña, a cerca de 40 quilômetros da capital. Outros dois jogadores nasceram em Canelones: o defensor José Luis Rodríguez e o meio-campista Matías Vecino, mais cidade na vizinhança de Montevidéu. 

Dois jogadores vieram de cidades a oeste da capital, mas ainda próximas: Rodrigo Bentancur nasceu em Nueva Helvecia, a 120 quilômetros de Montevidéu. Em uma cidade próxima, Rosario, a 15 quilômetros dali, nasceu o zagueiro Diego Godín. Os dois municípios ficam no departamento de Colonia. Ainda no departamento de Colonia, mas localizada mais a oeste está Nueva Palmira, terra natal do goleiro Sergio Rochet.

O meio-campista Lucas Torreira é de uma região mais próxima de Buenos Aires do que de Montevidéu: Fray Bentos, bem na fronteira com a Argentina, às margens do Rio Uruguai. Ao norte dali nasceu Maxi Gómez, em Paysandu, também fronteira com a Argentina. Está a 378 quilômetros da capital do país. A cidade é conhecida por ter um dos menores níveis de pobreza (1,6%), além de, não por acaso, ter um dos mais baixos níveis de criminalidade e violência do país. A 42 quilômetros dali, nasceu Giorgian de Arrascaeta na cidade de Nuevo Berlin, também fronteira com a Argentina. Como o nome indica, foi fundada por alemães no século 19. 

Um dos casos mais interessantes é da dupla de estrelas do Uruguai no ataque: Luis Suárez e Edinson Cavani. Os dois, curiosamente, nasceram na mesma cidade, Salto, no noroeste do país. A cidade tem cerca de 104 mil habitantes, o que a torna a segunda mais populosa do Uruguai, atrás apenas da capital. É conhecida por ser o centro da produção cítrica, cercada por um cinturão de fazendas dedicadas à produção de frutas. É também onde se produz o vinho com a uva Harriague, para o vinho Tannat, o mais reconhecido internacionalmente do país. 

Há dois jogadores que nasceram muito próximos ao Brasil. Darwin Núñez é de Artigas, capital de um departamento de mesmo nome. O local é separado apenas por uma ponte de Quaraí, no Rio Grande do Sul. É a cidade mais afastada da capital do país, Montevidéu, a 600 quilômetros de distância. O local tem como um dos principais motores econômicos a produção e comércio de grãos, comercializado em grande parte com o Brasil.

Outro que nasceu na fronteira é Ronald Araújo, de Rivera. A cidade uruguaia faz fronteira com Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, e tem população de cerca de 100 mil habitantes. A mãe do defensor é brasileira. Curiosamente, o departamento de Rivera é o que tem maior porcentagem de afrodescendentes em todo o Uruguai.

A fronteira não tem barreira física, o que faz com que muitos habitantes morem de um lado e trabalhem ou estudem de outro. Não por acaso, uma das principais atividades de Rivera são as lojas “duty free”, voltadas aos brasileiros. Assim, é comum brasileiros irem até lá comprar produtos importados, com preços que são até 40% menores que no Brasil. Há, porém, um limite de 300 dólares por pessoa. Compras acima disso precisam ser declaradas e pagam imposto de importação. Também há um cassino em uma das avenidas da cidade. Além disso, há atividades econômicas como pecuária, agricultura e florestação na região.

Por fim, há outro caso curioso de um jogador nascido fora do território uruguaio: Fernando Muslera é de Buenos Aires, na Argentina, mas é filho de uruguaios. Mudou-se na infância para o Uruguai e foi lá que ele cresceu, assim como começou a carreira, primeiro no Montevideo Wanderers, depois no Nacional. 

Onde jogam

A imensa maioria dos jogadores da seleção uruguaia atua no exterior, com raras exceções, e a maior parte na Europa. Um dos poucos jogadores que chegará à Copa como jogador atuando no país é Luis Suárez, companheiro de time do goleiro Sergio Rochet e do lateral José Luis Rodríguez no Nacional. Há outros na América do Sul que demonstram um pouco das forças econômicas do continente.

Três dos convocados atuam no Brasil: Giorgian De Arrascaeta e Guillermo Varela, do Flamengo, e Agustín Canobbio, do Athletico Paranaense. Além deles, Nicolás de la Cruz, joga pelo River Plate, na Argentina, que também tem Diego Godín no Vélez e Sebastián Sosa no Independiente. Ainda na América, mas no norte, joga Martín Cáceres, no Los Angeles Galaxy, e Facundo Torres, no Orlando City.

Não há uma predominância clara nem de liga, nem de clube no elenco uruguaio. Há quem venha da Espanha, como Federico Valverde, do Real Madrid, Edinson Cavani, do Valencia, José Giménez, do Atlético de Madrid, e Ronald Araújo, do Barcelona. Outros que vêm da Itália, como Mathías Oliveira, do Napoli, Matías Vecino, da Lazio, e Matías Viña, da Roma. 

Da Inglaterra vêm Rodrigo Bentancur, do Tottenham, Darwin Núñez, do Liverpool, e Facundo Pellistri, do Manchester United. O goleiro, Fernando Muslera, atua no Galatasaray, da Turquia, junto com Lucas Torreira, assim como o atacante Maxi Gómez, do Trabzonspor. Manuel Ugarte e Sebastián Coates, do Sporting, são representantes da liga portuguesa. 

Um herói em Copas

Um dos maiores nomes da história do futebol uruguaio e sul-americano é Obdulio Varella. Nascido em 1917, ele se tornou um símbolo e ajudou a moldar o futebol charrua. Iniciou a carreira pelo Deportivo Juventud, se destacou pelo Montevideo Wanderers, mas foi com a camisa do Peñarol que se tornou a lenda que entrou para a história. Ficou por lá de 1943 a 1955. 

Passou a atuar na seleção uruguaia em 1939, em uma vitória contra o Chile, na Copa América daquele ano. Mas o seu ponto alto seria mesmo na Copa do Mundo do Brasil, em 1950. Em uma edição histórica, liderou o time do Uruguai que enfrentou, altivamente, o Brasil. E eram tremendamente subestimados.

O Uruguai tinha empatado com a Espanha por 2 a 2, com um gol do próprio Obdulio Varela nos minutos finais. Segundo ele mesmo descreveria anos depois, “desses gols que saem com a sorte”. No jogo seguinte, o Uruguai enfrentou a Suécia e venceu por 3 a 2, apertado. Enquanto isso, o Brasil atropelava seus rivais. Goleou Suécia e Espanha, em um episódio que ficou conhecido pelo canto de Touradas em Madri nas arquibancadas do Maracanã. 

No jogo final que reuniu as duas seleções, a expectativa era enorme de um título brasileiro. Jornais daqui diziam que era o dia do Brasil ser campeão do mundo. Chamavam os jogadores de campeões mundiais. Só que havia um adversário, e não era qualquer adversário. O Uruguai foi a primeira grande potência do futebol de seleções. Conquistou as Olimpíadas de 1924 e 1928 antes de faturar a Copa de 1930, a primeira da história. Obdulio tinha esse orgulho e levou a campo.

Como ele mesmo descreveu: “Eu tinha 33 anos e muitas partidas com a seleção. Estavam errados se acreditavam que iam passar por cima de nós daquele jeito. Os outros rapazes da equipe eram jovens, sem muita experiência, mas jogavam bem. Além do mais, pouco antes havíamos jogado contra os brasileiros na Copa Rio Branco e ganhamos por 4 a 3 a primeira partida. Depois, perdemos duas por 1 a 0, mas havíamos dado conta de que dava para vencer. Eles têm muito medo de jogar contra os uruguaios ou contra os argentinos”.

Naquele jogo, foi o Brasil que saiu na frente e um dos momentos mais lembrados é quando Obdulio, capitão, líder e experiente, pegou a bola no fundo da rede e caminhou lentamente para o centro do gramado. Uma forma de tranquilizar o time e também de esfriar a partida, já que o Brasil era uma máquina ofensiva e estava com o ímpeto de continuar indo para cima e aproveitar o momento.

“Vou te contar algo que as pessoas não sabem. Todos viram que eu agarrei a bola e fui para o meio do campo lentamente, para esfriar. O que não sabem é que eu ia pedir um impedimento, porque o auxiliar havia levantado a bandeira e depois abaixou, antes que eles fizessem o gol. Eu sabia que o árbitro não ia atender a reclamação, mas era uma oportunidade de parar o jogo e tinha que aproveitar. Fui bem calmo e pela primeira vez olhei para cima, o enxame de gente que festejava o gol. Olhei com raiva e provoquei”, contou o capitão uruguaio.

“Demorei bastante para chegar no círculo central. Quando cheguei, já haviam se calado. Queriam ver funcionar a sua máquina de fazer gols e eu não a deixava arrancar de novo. Então, ao invés de colocar a bola no meio, eu chamei o árbitro e pedi um tradutor. Assim que veio, eu disse que houve impedimento e assim se passou outro minuto. As coisas que me diziam os brasileiros! Estavam furiosos. A arquibancada vaiava, um jogador veio a mim cuspir, mas eu nada. Sério e não mais. Quando começamos a jogar de novo, eles estavam cegos. Não viam nem seu gol, tão furiosos que estavam. Então, todos nos demos conta que poderíamos ganhar a partida”, revelou Obdulio Varela.

O Uruguai venceu, conquistou aquele título e entrou para a história. Bicampeão do mundo, o único sul-americano a ser campeão até então. Igualava-se à Itália, bicampeã em 1934 e 1938. E tinha em Obdulio Varela um traço indelével do seu caráter futebolístico, que se mantém até hoje. 

Calendário

Uruguai x Coreia do Sul, 24/11, 10h00
Portugal x Uruguai, 28/11, 16h00
Gana x Uruguai, 02/12, 12h00

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de Nascimento
1GOLFernando Muslera16 de junho 1986 (36 anos)Galatasaray1330Beunos Aires, Argentina
12GOLSebastián Sosa19 de agosto 1986 (36 anos)Independiente10Montevidéu, Uruguai
23GOLSergio Rochet23 de março 1993 (29 anos)Nacional80Nueva Palmira, Uruguai
2DEFJosé Giménez20 de março 1995 (27 anos)Atlético Madrid788Toledo, Uruguai
3DEFDiego Godín16 de fevereiro 1986 (36 anos)Vélez Sarsfield1598Rosario, Uruguai
4DEFRonald Araújo7 de março 1999 (23 anos)Barcelona120Rivera, Uruguai
13DEFGuillermo Varela24 de março 1993 (29 anos)Flamengo90Montevidéu, Uruguai
16DEFMathías Olivera31 de outubro 1997 (25 anos)Napoli80Montevidéu, Uruguai
17DEFMatías Viña9 de novembro 1997 (25 anos)Roma260Empalme Olmos, Uruguai
19DEFSebastián Coates7 de outubro 1990 (32 anos)Sporting CP471Montevidéu, Uruguai
22DEFMartín Cáceres7 de abril 1987 (35 anos)LA Galaxy1154Montevidéu, Uruguai
26DEFJosé Luis Rodríguez14 de março 1997 (25 anos)Nacional00Canelones, Uruguai
5MEIMatías Vecino24 de agosto 1991 (31 anos)Lazio624Canelones, Uruguai
6MEIRodrigo Bentancur25 de junho 1997 (25 anos)Tottenham511Nueva Helvecia, Uruguai
7MEINicolás de la Cruz1 de junho 1997 (25 anos)River Plate172Montevidéu, Uruguai
10MEIGiorgian de Arrascaeta1 de junho 1994 (28 anos)Flamengo408Nuevo Berlín, Uruguai
14MEILucas Torreira11 de fevereiro 1996 (26 anos)Galatasaray400Fray Bentos, Uruguai
15MEIFederico Valverde22 de julho 1998 (24 anos)Real Madrid444Montevidéu, Uruguai
25MEIManuel Ugarte11 de abril 2001 (21 anos)Sporting CP60Montevidéu, Uruguai
8ATAFacundo Pellistri20 de dezembro 2001 (20 anos)Manchester United70Montevidéu, Uruguai
9ATALuis Suárez24 de janeiro 1987 (35 anos)Nacional13468Salto, Uruguai
11ATADarwin Núñez24 de junho 1999 (23 anos)Liverpool133Artigas, Uruguai
18ATAMaxi Gómez14 de agosto 1996 (26 anos)Trabzonspor274Paysandu, Uruguai
20ATAFacundo Torres13 de abril 2000 (22 anos)Orlando City100Montevidéu, Uruguai
21ATAEdinson Cavani14 de fevereiro 1987 (35 anos)Valencia13358Salto, Uruguai
24ATAAgustín Canobbio1 de outubro 1998 (24 anos)Athletico Paranaense30Montevidéu, Uruguai
Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.
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