Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo H: Gana
Gana gera muitas desconfianças pelo ciclo cheio de percalços, mas garantiu novas opções e também vem cheia de garotos
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Gana se tornou uma participante habitual da Copa do Mundo neste século. Se a longa demora dos Estrelas Negras para estrear no Mundial não correspondia à importância da seleção dentro do continente africano, desde 2006 essa relevância se tornou expressa para o restante do planeta. Foram três aparições consecutivas, com o ápice em 2010, até que os ganeses não conquistassem a classificação para 2018. O retorno de Gana a uma Copa, entretanto, gera suas desconfianças. O ciclo da equipe é o mais fraco entre todas as classificadas da CAF, com direito a vexame na última Copa Africana de Nações. Mesmo o carimbo no passaporte veio com dois empates na fase decisiva das Eliminatórias. Não é uma equipe que inspira tantos cuidados quanto em outros tempos dos Estrelas Negras, até por mudanças recentes. Entretanto, há uma geração de jovens jogadores que pode desabrochar. E também um número de “reforços” de última hora que optaram pela nacionalidade ganesa e tendem a melhorar as perspectivas no duro Grupo H.
Como foi o ciclo até a Copa
Se a aparição de Gana na Copa de 2014 ficou marcada por uma bagunça tremenda, especialmente pelo racha interno em relação ao dinheiro da premiação, a ausência em 2018 nada mais era que a consequência do envelhecimento da geração mundialista do país. Os Estrelas Negras não passaram perto de competir com o Egito naquela edição das Eliminatórias. Avram Grant deixou o comando dos ganeses e quem voltou foi Kwesi Appiah, que já tinha dirigido o time em diferentes períodos, inclusive no Mundial do Brasil. Não deu muito certo.
Gana pouco entrou em campo em 2018, mas pelo menos fez o básico para se classificar à Copa Africana de Nações de 2019. Foi uma campanha cheia de empates: os ganeses empataram seus dois primeiros compromissos, até vencerem Guiné-Bissau e avançarem aos mata-matas. Caíram logo nas oitavas, em novo empate com a Tunísia, que ganhou nos pênaltis. A estagnação era evidente. Kwesi Appiah deixou o comando no fim de 2019, após iniciar a campanha nas Eliminatórias da CAN 2021, e o escolhido foi Charles Akonnor, antigo ídolo dos Estrelas Negras na década de 1990.
O time seguiu sem gerar confiança quando voltou às atividades, depois da pausa causada pela pandemia. Gana perdeu amistosos para Mali e Marrocos, enquanto foi derrotada por Sudão e empatou com a África do Sul nas Eliminatórias da CAN 2022. Correu até riscos de não ir ao torneio continental, mas assegurou a vaga na rodada final. Já as Eliminatórias para a Copa do Mundo não começaram bem, com derrota no confronto-chave com a África do Sul na segunda rodada. Akonnor durou apenas dez partidas no cargo e perdeu o emprego depois disso.
Gana então apostou no sebastianismo. A federação trouxe de volta Milovan Rajevac, responsável pela campanha até as quartas de final da Copa de 2010, mas que não tinha feito nada de muito relevante na década posterior. O sérvio até recuperou o time nas Eliminatórias, para chegar à partida final contra a África do Sul dependendo apenas de si. Uma vitória era necessária e isso aconteceu com o placar de 1 a 0 em Cape Coast. Entretanto, o gol foi marcado graças a um pênalti escandaloso que beneficiou os ganeses. Os sul-africanos chegaram a entrar com um pedido de impugnação na Fifa, que não foi aceito. Só assim Gana chegava à fase decisiva das Eliminatórias.
Antes dos embates contra a Nigéria, Gana tinha uma Copa Africana de Nações pelo caminho. Os Estrelas Negras passaram vergonha no torneio realizado no início de 2022. A derrota para Marrocos na estreia era compreensível, mas o empate com Gabão complicava as coisas, quando os adversários foram até melhores. Na rodada final, os ganeses foram eliminados pela inexpressiva equipe de Comores. Os Celacantos abriram dois gols de vantagem e os Estrelas Negras até empataram, mas tomaram o 3 a 2 no final, em noite na qual o capitão André Ayew acabou expulso no primeiro tempo. Na lanterna, Gana fez sua pior campanha na história da CAN, em 24 participações no torneio.
Como era de se esperar, Milovan Rajevac terminou demitido. Antes dos jogos decisivos pelas Eliminatórias, Gana apostou no fato novo e contratou Otto Addo, antigo membro da equipe da Copa de 2006. O novo técnico, ao menos, garantiu um senso de organização que ajudou os ganeses a se classificarem para a Copa do Mundo – mas longe de qualquer brilhantismo. A Nigéria, por mais que possua um time melhor no papel, também vinha em crise técnica e isso atrapalhou. A ida aconteceu em território ganês e o empate por 0 a 0 foi morno, com os anfitriões ligeiramente superiores. Já na volta, Gana jogou com o regulamento e se aproveitou do gol fora no empate por 1 a 1. Anotou o primeiro num frango, tomou o empate na primeira etapa e depois se segurou na defesa, contra uma versão das Super Águias que não era a melhor. Foi pouco, mas já valeu uma vaga no Catar.
Por fim, as Datas Fifa mais recentes também não animaram muito Gana. O time chegou a empatar com a República Centro-Africana nas Eliminatórias da CAN 2023, foi goleado pelo Japão, não viu a cor da bola contra o Brasil e teria um magro triunfo sobre a Nicarágua. A boa notícia veio apenas no último compromisso, com os 2 a 0 sobre a Suíça. Otto Addo permanece no comando e ganhou novos recursos com as convocações recentes de jogadores que nasceram em outros países. Porém, falta uma identidade.

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Como joga
A amostragem de Gana sob as ordens de Otto Addo é relativamente pequena. O treinador dirigiu a equipe em oito partidas até a Data Fifa de setembro. O que fez a diferença nas Eliminatórias foi a organização defensiva e a maneira como o time soube travar a Nigéria, Entretanto, isso se perdeu na derrota contra o Brasil. Até pelas características dos jogadores à disposição, os ganeses tendem a esperar mais os adversários e apostar nos velocistas do setor ofensivo. Majoritariamente, Addo alinhou a equipe num 4-2-3-1 ou num 4-3-3, com a alternativa por três zagueiros resultando em uma goleada sofrida contra o Japão. Mas é um time que carece de conexão, algo visível nos amistosos mais recentes, com muitos jogadores de peso que chegaram só agora.
Convocado pela primeira vez em 2021, Joe Wollacott deveria ser o goleiro titular de Gana. Nem é um arqueiro de grande nível, limitado à terceirona inglesa com o Charlton, mas foi quem mais atuou no ciclo recente. Porém, em seu último jogo pelo clube antes da Copa, ele sofreu uma lesão no dedo durante o aquecimento e acabou cortado. Com isso, quem deve assumir o posto é Lawrence Ati-Zigi. O goleiro de 25 anos só disputou 10 jogos pelos Estrelas Negras, enquanto é titular do St. Gallen no Campeonato Suíço. Será uma incógnita.
A lateral direita parece bem guardada com Denis Odoi, veterano que se juntou ao time em março, mas tem ótima experiência na Europa e faz parte da boa temporada do Club Brugge. Pode ser útil também como zagueiro ou volante. Quem pode dar um pouco mais de agressividade no setor é Tariq Lamptey, jovem em ascensão no Brighton e que se juntou ao elenco na última Data Fifa. Mesmo sem decolar na carreira, Abdul-Rahman Baba é uma figura experiente para a esquerda e tende a ser o titular. Gideon Mensah, do Auxerre, foi uma alternativa em duelos importantes.
No miolo da zaga, Gana tem um número razoável de opções. Daniel Amartey não é tão brilhante, mas se fixou na posição há anos e traz sua bagagem com o Leicester. Por vezes usa até a braçadeira de capitão. Seu companheiro costuma ser Alexander Djiku, nome importante no Strasbourg, mas a adição recente de Mohamed Salisu é valiosa, com um jogador titular na Premier League com o Southampton.
O principal jogador de Gana às vésperas da Copa é Thomas Partey. O meio-campista atua no mais alto nível na Europa e a boa fase com o Arsenal até ajuda. É interessante notar como ele assume atribuições mais ofensivas e se solta mais com os Estrelas Negras, com gols e assistências importantes. Será intocável e fez falta nos amistosos recentes. Outro desfalque é aquele que deveria ser titular ao seu lado: Iddrisu Baba, que se lesionou com o Mallorca. Sem ele, um potencial titular é um dos novatos da lista final. Salis Abdul Samed sequer estreou por Gana, mas é titularíssimo do Lens que faz bom papel na Ligue 1. Aos 22 anos, pode ganhar a vez diante da escassez de volantes de contenção. Elisha Owusu, do Gent, é outra alternativa. Quem também pode aparecer como um terceiro homem no meio é Mohammed Kudus, um dos destaques do Ajax na temporada. É curioso como o garoto vem entrando até como centroavante no clube, mas é aproveitado na armação da seleção. Aos 22 anos, fez falta na Copa Africana, quando estava lesionado.
A maior quantidade de opções de Gana se concentra na formação ofensiva. Ainda estão por lá os intermináveis irmãos Jordan e André Ayew, que não possuem o mesmo moral de outros tempos, mas são símbolos dos Estrelas Negras. Dedé chegou a ser barrado na fase decisiva das Eliminatórias, mas voltou depois. Entre os mais jovens, Issahaku Fatawu dá sinais de que não está totalmente pronto, mas é usado com frequência e tem seus lampejos. Mais inconstante, Felix Afena-Gyan sequer foi chamado. Melhor para outras duas surpresas da lista final. O ponta esquerda Daniel Afriyie tem 21 anos e defende o Hearts of Oak, tradicional clube ganês. Já Kamal Sowah, aos 22, é titular do Club Brugge e fez boas atuações inclusive na Champions. Pode jogar em qualquer posição na linha de frente, mas ainda não estreou pelos Estrelas Negras.
Mais experimentado na seleção é Kamaldeen Sulemana, mesmo aos 20 anos. Possui um arsenal de dribles na ponta esquerda, mas perdeu espaço no Rennes. Pela fase recente, vale prestar atenção em Osman Bukari, que vem jogando muita bola pelo Estrela Vermelha, e Daniel Kofi-Kyereh, que se firma no Freiburg. De qualquer maneira, a referência ofensiva agora é Iñaki Williams, que possui anos de destaque no Athletic Bilbao e ainda vive boa fase. Chegou só agora, mas não deveria ter seu protagonismo ignorado.
Time base (4-3-3): Ati-Zigi, Odoi (Lamptey), Amartey, Djiku (Salisu), Baba-Rahman; Abdul Samed (Owusu), Partey, Kudus; Sulemana (Bukari), Williams, Jordan Ayew (André Ayew).
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Donos do time
Thomas Partey desembarca para a sua primeira Copa do Mundo com um status enorme na seleção de Gana. O meio-campista é o jogador dos Estrelas Negras mais acostumado com as principais competições do mundo. Foi um nome essencial no Atlético de Madrid por anos e, mesmo que tenha demorado a engrenar no Arsenal, atravessa seu melhor momento exatamente na atual temporada. Combina força física, boa ocupação dos espaços e também qualidade na chegada mais à frente. E isso deve ser muito bem aproveitado pelos ganeses, sobretudo pela influência que o volante possui na coesão da equipe. Não é exagero dizer que sua preponderância, de fato, é até maior que a fama.
Outro jogador que possui muito peso dentro da hierarquia dos vestiários é Daniel Amartey. O zagueiro/volante tem suas limitações, tanto que nunca foi titular absoluto do Leicester. Entretanto, vale bastante uma sequência de oito temporadas na Premier League, desde a histórica campanha do título de 2015/16, quando o ganês era reserva. Vai ter um papel de organizar uma defesa cheia de jogadores mais jovens e que pode se encorpar a partir do entrosamento, considerando a qualidade que recém-convocados como Odoi, Lamptey e Salisu podem aportar no quarteto.
O sobrenome obrigatório em Gana, por diferentes gerações, é Ayew. Os filhos de Abedi Pelé, que eram prodígios na geração dourada dos Estrelas Negras, agora assumem os papéis de veteranos. André Ayew permanece com talento para resolver jogos grandes, mas dá para dizer que o atacante não deslanchou na carreira como esperado. Teve momentos de brilho no Olympique de Marseille e no Swansea, mas neste momento aumenta sua fortuna no Al-Sadd. É uma estrela no Campeonato Catariano, o que pode auxiliar por sua ambientação. Já Jordan Ayew permanece na Premier League, como uma figura importante no Crystal Palace. Seus números não impressionam tanto, mas carrega uma vivência de seleção importante. Resta saber como será o encaixe do ataque.
Até porque Iñaki Williams é uma adição recente que desembarca com o status de astro do time por aquilo que representa na carreira. O atacante esperou uma chance para se firmar na seleção da Espanha e declarou até que não queria tomar o espaço de ninguém em Gana. Entretanto, sem sinais favoráveis dos espanhóis, aceitou a proposta de disputar uma Copa do Mundo e honrar a terra de seus pais. É um jogador de explosão, agressividade no ataque e muito comprometimento em campo, algo que o valoriza como ídolo no Athletic Bilbao. Os holofotes ao seu redor podem até causar ciúmes, mas o comportamento do basco costuma ser exemplar e ele deve evitar atritos para ganhar a confiança no campo. Se acontecer assim, é uma arma extra.

Caras novas
A seleção de Gana tem muita gente nova. Talvez a melhor Copa para essa geração em eclosão dos Estrelas Negras nem seja a atual. De qualquer maneira, não vão desperdiçar a chance. Dos mais jovens, aquele que parece mais preparado a aparecer bem no Mundial é Mohamed Kudus. O meia de 22 anos teve problemas de lesão que atravancaram o seu desenvolvimento no Ajax, após chegar do Nordsjaelland. A atual temporada já é sua melhor pelo clube, virando um curinga nas mãos do técnico Alfred Schreuder: muitas vezes ocupou o posto de centroavante, mas também surgiu centralizado na armação ou como ponta. Pela concorrência na seleção, tende a ajudar mais recuado. Até como volante entrou com Otto Addo e essa capacidade na construção é um diferencial.
Entre os pontas, há uma lista de promessas que pode ser citada. Kamaldeen Sulemana, ainda assim, parece o mais preparado para fazer uma boa Copa aos 20 anos. É mais um que surgiu no Nordsjaelland, antes de fazer uma boa temporada de estreia com o Rennes, em que arrebentou inclusive com o PSG. Entretanto, uma lesão nas costas atravancou seu desenvolvimento e os últimos meses não foram bons. Mas não se desperdiça a chance de disputar uma Copa do Mundo. Vale ficar de olho também em Osman Bukari, que nem é tão badalado ou tão precoce quanto outros companheiros – a exemplo de Issahaku Fatawu. O ponta de 23 anos teve bons momentos com o Nantes na temporada passada e fez mágica em algumas partidas mais recentes com o Estrela Vermelha. Mesmo saindo do banco pode aprontar.
O sistema defensivo ganha um trunfo com Mohammed Salisu. O zagueiro disputou La Liga pelo Valladolid e está em sua terceira temporada na Premier League, com o Southampton. O início de sua relação com a seleção foi conturbado, com problemas de lesão e acusações de que ele não estava interessado em defender os Estrelas Negras. Sua justificativa era de que preferia focar nos clubes e, às vésperas da Copa do Mundo, passou uma borracha na situação. Mesmo que talvez não seja titular, vale desde já pela profundidade do elenco e para o futuro. E a lateral direita ainda terá Tariq Lamptey, jogador de 22 anos criado pelo Chelsea. A mudança para o Brighton garantiu mais espaço e o ganês foi um nome importante na rotação de Graham Potter na última Premier League, embora tenha perdido espaço na atual temporada. Com passagens por diferentes seleções de base da Inglaterra, é mais um reforço recente da federação.

Técnico
Otto Addo faz parte da geração que deu orgulho para Gana ao colocar o país pela primeira vez em uma Copa do Mundo. O meia não disputou muitos jogos com os Estrelas Negras, é verdade, mas era reserva no Mundial de 2006. Estava em casa na Alemanha. Nascido em Hamburgo, filho de pais ganeses, ele fez sua carreira toda na Bundesliga. Defendeu clubes importantes como Borussia Dortmund (parte do elenco campeão em 2001/02), Hamburgo e Hannover 96, enquanto chegou a ser comandado por Jürgen Klopp nos tempos de Mainz 05. Bagagem não faltava e o veterano iniciou sua carreira de treinador também na Europa.
As experiências de Otto Addo são interessantes, embora este seja seu primeiro trabalho como treinador principal. O ex-meia dirigiu a base do Hamburgo, assim como trabalhou no departamento de formação de talentos do Dortmund e do Mönchengladbach – guiando jovens como Jude Bellingham e Erling Braut Haaland em treinamentos específicos nos aurinegros. Como assistente, ele teve uma passagem pelo Nordsjaelland e auxiliou Kasper Hjulmand, atual técnico da Dinamarca, antes de trabalhar ao lado de Edin Terzic na primeira passagem do treinador pelo BVB. Já em Gana, depois de um período esparso como observador, seria nomeado auxiliar de Milovan Rajevac. A escolha para ser o comandante na Copa é uma responsabilidade imensa que chega sem experiências prévias no posto, mas não se nega que Addo se preparou bastante para isso.
A geografia do elenco
A federação de Gana implementou uma estratégia mais incisiva nos últimos anos para garantir a presença de descendentes de ganeses elegíveis pela seleção. Isso se notou principalmente em 2022, com um número significativo de “reforços”, inclusive alguns que atuaram brevemente por outras equipes nacionais. Tudo permitido dentro das regulamentações da Fifa. O resultado disso é que, dos 26 convocados, oito deles nasceram em outros países. Destes, cinco estrearam pelos Estrelas Negras ao longo do ano.
Dos nomes mais antigos da seleção ganesa que nasceram no exterior, é claro, estão os irmãos Ayew. Abedi Pelé era uma estrela no futebol francês e seus filhos vieram ao mundo no auge do meia. André é do nordeste da França, numa época em que seu pai estava emprestado ao Lille; Jordan é de Marselha, nos tempos gloriosos de Abedi pelo Olympique. Por laços maternos, os dois também têm ascendência libanesa. Mais um atleta nascido em outro país que está há mais tempo com os Estrelas Negras é Alexandre Djiku, filho de pai ganês e mãe francesa. Natural de Montpellier, ele ganhou a primeira convocação em 2020.
O restante das adições é recente. Iñaki Williams é o mais notável. Os pais do atacante atravessaram o Saara a pé e pularam a cerca ao redor de Melilla, no norte da África, para entrar no território espanhol. Depois se estabeleceram no País Basco, onde Iñaki nasceu. O ídolo do Athletic Bilbao jogou pela seleção sub-21 da Espanha e teve uma aparição pelo time principal em 2016. Depois de muitos convites de Gana, aceitou o chamado em 2022, justo num momento em que seu irmão Nico Williams também ganha espaço na seleção espanhola. Os dois representarão a família por bandeiras diferentes na Copa.
Outro que jogou por uma seleção adulta diferente é Denis Odoi. O lateral nasceu em Leuven, filho de pai ganês, e atuou pela Bélgica em 2012. Todavia, o defensor se colocou à disposição de Gana dois anos depois e concluiu o processo de mudança em 2022. Também na lateral, Tariq Lamptey nasceu em Londres e fez parte das seleções inglesas na base em diferentes níveis. Aos 22 anos, porém, parece ter um caminho mais aberto nos Estrelas Negras. Já Elisha Owusu é natural de Montreuil, na região metropolitana de Paris. Não chegou a defender os Bleus nem na base, mas virou uma alternativa recente aos ganeses. Embora nascido em Gana, Daniel-Kofi Kyereh merece um olhar especial por ser filho de mãe alemã e ter se mudado para Braunschweig com pouco mais de um ano de idade.
O restante do elenco de Gana nasceu no próprio território nacional e representa as três cidades mais populosas. Principal centro do norte do país, Tamale cedeu três convocados. Mais ao centro, Kumasi é uma capital histórica e cultural, com dois jogadores. Já a grande concentração do time fica para a região metropolitana de Acra, no litoral, ao sul. A capital está na área mais populosa do país, com 5,5 milhões de habitantes na chamada “Grande Acra”. São nove jogadores da própria cidade, além de outros três de vizinhas metropolitanas. O único atleta do elenco que foge dessas três maiores cidades é Kamaldeen Sulemana, de Techiman, no centro do país.
Onde jogam
A ascensão da seleção de Gana contou com o intercâmbio de muitos jogadores do país rumo à Europa. Assim, a quantidade de atletas atuando no exterior supera os da liga local desde a estreia no Mundial de 2006. Quatro convocados defendiam times ganeses na época, com o restante na Europa. Serie A e Bundesliga encabeçavam a lista com três cedidos de cada, mas também havia, surpreendentemente, três futebolistas do Campeonato Israelense. Em 2010, eram três futebolistas do Campeonato Ganês, com o resto no exterior, sendo quatro da Premier League e quatro da Serie A. Já em 2014, a liga nacional tinha um representante solitário. O domínio ficava para os cinco de Ligue 1 e de Serie A, com um destaque alternativo para dois jogadores do Campeonato Sul-Africano.
A lista final de Gana para 2022 ainda tem dois jogadores do campeonato nacional: o goleiro Ibrahim Danlad e o meia Daniel Afriyie, atletas dos tradicionais Asante Kotoko e Hearts of Oak. André Ayew atualmente está no Catar, mas os outros 23 chamados são de clubes europeus. Por seu poder econômico e também por uma proximidade maior aos ganeses em relação a questões coloniais e linguísticas, a Premier League conta com sete jogadores. Logo abaixo aparece a França, com cinco futebolistas.
A grande surpresa da lista é a Bélgica, que possui quatro jogadores ganeses convocados, dois deles do Club Brugge. O restante se espalha de maneira mais ampla, por localidades como Alemanha, Holanda, Portugal, Sérvia e Suíça. A Espanha tem dois, com a curiosidade ao redor de Iñaki Williams. O atacante será o primeiro jogador do Athletic Bilbao a disputar uma Copa do Mundo por uma seleção diferente da espanhola. Bixente Lizarazu se aproximou desse feito, mas só jogou a Copa de 1998 um ano depois de deixar os Leones.
Por fim, um ponto interessante em relação à seleção de Gana é a influência de academias internacionais de futebol na formação de jogadores. A maioria do elenco passou por projetos do tipo, estabelecidos na África – em território ganês ou nações vizinhas. Há gente da Aspire, fomentada pelo governo catariano, assim como do antigo Red Bull Ghana. Também contribuiu a Academia JMG, famosa por preparar a geração dourada da Costa do Marfim. Clubes como Feyenoord, Barcelona e Utrecht viram os selecionáveis ganeses passarem por suas estruturas formativas no país. Já a maior preponderância é do Right to Dream, academia criada por um antigo olheiro do Manchester United na África e que é dona do Nordsjaelland na Dinamarca. Kamal Sowah, Kamaldeen Sulemana e Mohammed Kudus despontaram por lá.

Um herói em Copas
A história de Asamoah Gyan no futebol é atormentada por um grande momento. E é natural associar o atacante ganês com o fatídico pênalti diante do Uruguai nas quartas de final da Copa de 2010, que estalou no travessão e impediu os Estrelas Negras de se classificarem para uma inédita semifinal aos países africanos. O próprio Gyan confessa que assistiu centenas de vezes aquele penal, na espera de que um dia entrasse. Mas não é isso que diminui a grandeza do camisa 3, o maior artilheiro africano da história dos Mundiais.
Gyan era apenas um adolescente, mas anotou gols decisivos na campanha de Gana rumo à Copa do Mundo de 2006. Deixaria sua marca também na primeira vitória ganesa em Mundiais, nos 2 a 0 sobre a República Tcheca, mesmo que tenha perdido um pênalti na ocasião. Depois da eliminação para o Brasil, em que Gyan foi expulso depois de tentar cavar um pênalti, Gana subiu na hierarquia do futebol africano. Esperava-se que os Estrelas Negras conquistassem uma CAN com seu forte time, o que as decepções não permitiram. Mesmo com as frustrações, o camisa 3 chegou grande para a Copa do Mundo de 2010.
Gana nunca teria ido tão longe no Mundial da África do Sul sem Asamoah Gyan. O atacante marcou os gols mais importantes da campanha. A vitória por 1 a 0 sobre a Sérvia veio num gol de pênalti do centroavante, assim como ele anotou na marca da cal durante o empate por 1 a 1 diante da Austrália. Durante as oitavas, a vitória por 2 a 1 sobre os Estados Unidos dependeu do camisa 3 como herói na prorrogação. Isso até que viesse o Uruguai. O pênalti desperdiçado é uma chaga, embora nem todo mundo se lembre da coragem de Gyan na disputa posterior. O atacante assumiu a responsabilidade, converteu o primeiro tiro e deu tranquilidade aos companheiros, que não foram precisos o suficiente até a cavadinha de Loco Abreu arrebentar com o sonho.
A infelicidade de Asamoah Gyan continuou na Copa Africana de Nações – com direito a novo pênalti perdido em 2012, na semifinal contra a Zâmbia. Entretanto, na Copa do Mundo ele pôde deixar uma última impressão em 2014. Chegou a virar a partida contra a futura campeã Alemanha, que sofreu para arrancar o empate por 2 a 2. Também deixou sua marca contra Portugal, que só depois venceu por 2 a 1. Com seis tentos em Copas, estava à frente de Roger Milla. Mesmo que seu erro fosse mais lembrado do que qualquer feito positivo. Ainda hoje Gyan é o maior artilheiro dos Estrelas Negras, com 51 gols, e o líder em partidas, com 109, embora deva ser ultrapassado em breve por André Ayew.
Calendário
Gana x Portugal – 24/11, às 13h
Gana x Coreia do Sul – 28/11, às 10h
Gana x Uruguai – 02/12, às 12h
Todos os convocados
| Número | Posição | Jogador | Data de nascimento | Clube | Jogos | Gols | Local de nascimento |
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