Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo F: Marrocos

Com alguns jogadores talentosos como Hakimi e Ziyech, Marrocos tenta surpreender e chegar ao mata-mata da Copa

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Marrocos é uma das seleções africanas mais fortes da atualidade no papel, mas os próprios problemas internos deixam a impressão de que os Leões do Atlas chegam menos fortes do que poderiam. Após a Copa de 2018, a expectativa era de um crescimento da equipe nacional. Havia uma transição entre protagonistas, mas não faltavam talentos. O problema veio com o racha interno entre o técnico Vahid Halilhodzic e as estrelas do time, que terminaram afastadas para a Copa Africana de Nações de 2022. Sem que o treinador conseguisse necessariamente bons resultados, a federação optou por demiti-lo mesmo depois de conquistar a classificação nas Eliminatórias. E é sob novo comando que os magrebinos tentam juntar os cacos, com um novo treinador que fez muito sucesso por clubes, bem como a anistia para os destaques que haviam sido escanteados por Halilhodzic. Não houve muito tempo para trabalhar as peças, mas pelo menos o Grupo F de 2022 dá mais margem a surpresas que o Grupo B de 2018.

Como foi o ciclo até a Copa

A tabela da Copa de 2018 não transmite quão respeitável foi a campanha de Marrocos naquela competição. Os Leões do Atlas foram melhores em campo na derrota para o Irã, pararam em Rui Patrício no revés diante de Portugal e fizeram a Espanha suar para arrancar um empate nos minutos finais. Alguns dos veteranos não ficariam para o ciclo seguinte – como Nordin Amrabat, Mehdi Benatia e Mbark Boussoufa. No entanto, os marroquinos contavam com uma base capaz de florescer e manter o time entre os melhores do continente africano.

Não seria um caminho tão ascendente assim. Classificado para a Copa Africana de 2019, Marrocos fechou a fase de grupos com três vitórias por 1 a 0, numa chave difícil com a concorrência de Costa do Marfim e África do Sul. Porém, os Leões do Atlas acabaram eliminados nas oitavas de final para Benin, nos pênaltis. O técnico Hervé Renard, que conquistou a CAN com outras duas seleções, não conseguiu repetir o feito e deixou o cargo rumo à Arábia Saudita. Foi quando Vahid Halilhodzic, comandante da Argélia na Copa de 2014, chegou ao posto em agosto de 2019.

O novo treinador teria seu início interrompido pela pandemia, mas entregou resultados em momentos importantes. Marrocos não teve problemas em sua classificação para a CAN 2022 e também sobrou na fase de grupos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. Não foi uma chave com grandes desafios, mas os marroquinos impressionavam pelas goleadas aplicadas e pelos 100% de aproveitamento. Paralelamente, a “seleção B” montada com jogadores da liga nacional conquistava o bicampeonato da CHAN (a Copa Africana para atletas em atividade no continente) e chegava às quartas de final da Copa Árabe. Existiam recursos.

A bomba estourou mesmo no início de 2022, quando Vahid Halilhodzic escancarou o desentendimento com os astros do elenco. Hakim Ziyech, Noussair Mazraoui e Amine Harit não foram convocados para a Copa Africana de Nações sob a justificativa de indisciplina. O treinador precisava sustentar um elenco sem ótimos talentos. Foi uma campanha razoável, mas sem um futebol brilhante e muito dependente de Achraf Hakimi. Depois de passarem aperto contra Malaui nas oitavas, os Leões do Atlas perderam na prorrogação contra o Egito nas quartas.

A essa altura, a saída de Halilhodzic já era especulada na imprensa e Ziyech anunciou sua “aposentadoria da seleção”. Porém, Marrocos tinha um compromisso fundamental contra a República Democrática do Congo na fase decisiva das Eliminatórias e deixou o debate para depois. Deu certo, com a classificação para o segundo Mundial consecutivo. O empate por 1 a 1 em Kinshasa teve uma atuação melhor dos congoleses, mas os marroquinos aproveitaram o mando para golear por 4 a 1 em Casablanca e avançar à Copa.

Halilhodzic ainda ficou na Data Fifa de junho, com derrota para os Estados Unidos em amistoso e duas vitórias no início das eliminatórias da CAN 2023. Porém, sua esperada demissão aconteceu em agosto. Pela terceira vez, como ocorreu com a Costa do Marfim em 2010 e com o Japão em 2018, o técnico perdeu seu emprego numa seleção que classificou ao Mundial. De qualquer maneira, era compreensível a prioridade dada ao talento à disposição, mesmo que o bósnio tivesse um aproveitamento de 74% dos pontos e só três derrotas em 30 partidas comandadas.

Um dos motivos que certamente facilitou a decisão da federação é que um substituto pronto estava na mira de Marrocos. Walid Regragui defendeu os Leões do Atlas quando atleta e fazia um trabalho louvável no Wydad Casablanca, ao conquistar a Champions Africana. Era um nome óbvio para a transição, especialmente por ser uma aposta local. Um de seus primeiros atos foi reintegrar Ziyech, Harit e Mazraoui para a Data Fifa de setembro. A vitória sobre o Chile e o empate contra o Paraguai tiveram seus pontos positivos, embora a instabilidade também gere incertezas.

Hakim Ziyech, de Marrocos (Fran Santiago/Getty Images)

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Como joga

É difícil estabelecer um padrão tático para Marrocos diante da mudança de treinador às vésperas da Copa. Walid Regragui montou o time nos seus dois amistosos no 4-3-3 / 4-1-4-1, sistema que também era uma das bases com Vahid Halilhodzic. O bósnio, no entanto, variou mais a maneira de alinhar a equipe e apostou inclusive num 3-5-2 nos embates contra a República Democrática do Congo. Certo é que os marroquinos devem chegar à Copa com um jogo muito forte pelos lados do campo, especialmente pela qualidade dos laterais que têm à disposição. Outro ponto é a capacidade na ligação, algo que faltou na CAN 2022, pelas ausências de Harit e Ziyech. Além do mais, o jogo aéreo tende a ser uma aposta importante dos Leões do Atlas.

Marrocos é uma seleção africana que historicamente conta com bons goleiros e isso oferece segurança na atual formação. Bono está entre os melhores do continente, até pela forma que se nota no Sevilla. O miolo de zaga também combina boa experiência. Romain Saïss usa a braçadeira de capitão e é um dos mais experientes do elenco, sobretudo pela trajetória na Premier League. Nayef Aguerd é um companheiro até mais talentoso e atravessou um ciclo de afirmação. O problema é que o beque, contratado do Rennes pelo West Ham recentemente, pouco jogou na temporada por uma lesão no tornozelo. O substituto imediato é o jovem Achraf Dari, homem de confiança do treinador no Wydad que chegou ao Brest na atual temporada.

As laterais de Marrocos dispensam apresentações. Até porque os Leões do Atlas contam com dois dos melhores do mundo no lado direito. Achraf Hakimi é o titular absoluto e um dos donos do time. A Copa de 2018 foi importante em sua ascensão e agora ele chega indiscutivelmente como uma das estrelas do time. É essencial não apenas por sua força no apoio e pelas chegadas à linha de fundo, mas também pelas bolas paradas. A questão é que Noussair Mazraoui também está por ali, de ótima temporada passada no Ajax e ainda se firmando no Bayern. Durante os amistosos com Regragui, o treinador testou ambos dos dois lados. Devem ser titulares, mas com alguém invertido. Adam Masina ainda seria um bom acréscimo pela esquerda, mas o jogador da Udinese rompeu os ligamentos.

Na cabeça de área, Sofyan Amrabat é um nome intocável. É o melhor volante à disposição de Marrocos e carrega uma boa experiência na Europa, sobretudo na Serie A. Oferece boa qualidade técnica na saída de bola. Quem ganha moral com o novo técnico é o veterano Yahya Jabrane, capitão do Wydad e ótimo na Champions Africana. Tem 31 anos, mas apenas quatro partidas pela seleção principal e pode contribuir por sua imposição física. O detalhe é que esta será sua segunda Copa do Mundo, após figurar no torneio de futsal em 2012 e até marcar o primeiro gol do país na história do torneio. Outra opção para o setor é o jovem Azzedine Ounahi, que desponta no Angers e oferece fôlego. O ponto é que os marroquinos têm poucos jogadores de contenção e muitos de criação ou aproximação. Quem pode jogar um pouco mais recuado, como na CAN, é Selim Amallah, do Standard de Liège. E há o novíssimo Bilal El Khannouss, de apenas 18 anos. O meia do Genk sequer estreou pela seleção adulta. Antes ele passou por diferentes níveis da Bélgica na base e optou pelos marroquinos mais recentemente.

A lista de bons meias começa com Hakim Ziyech, um diferencial técnico pelos dribles e pela forma como bate na bola – vide o gol do campo de defesa no amistoso derradeiro contra a Geórgia. A Copa será importante até pela falta de espaço no Chelsea. Nessa hierarquia, Amine Harit apareceria logo abaixo e seria valioso por sua habilidade. O meia vinha em alta no Olympique de Marseille e, até por isso, sua lesão ligamentar no último compromisso com o clube foi bastante lamentada. Com seu corte, outros tendem a preencher a lacuna – Amallah é o principal candidato. De quem estava com Halilhodzic, Sofiane Boufal foi um dos melhores do time na CAN 2022 e se destaca no Angers. Também não dá para perder de vista opções de ascensão mais recente, como Ilias Chair (QPR) e Abdelhamid Sabiri (Sampdoria). Mais ofensivo, Ez Abde traz uma boa dose de expectativas. A promessa do Barcelona atualmente desponta em empréstimo ao Osasuna. Já Zakaria Aboukhlal pode jogar em diferentes posições, muito veloz, em fase de afirmação no Toulouse. Por fim, Anass Zaroury, em ascensão com o Burnley, foi escolhido na vaga deixada por Harit.

A vastidão de nomes para os lados é tamanha que Regragui abriu mão de medalhões do porte de Adel Taarabt e Younès Belhanda, este resgatado na Data Fifa de setembro após três anos sem ser convocado, mas fora da lista final. Munir El-Haddadi também foi preterido, diante de sua queda de produção, transferido recentemente ao Getafe. É curioso pensar que os Leões do Atlas brigaram para contar com o jovem que defendeu também a seleção espanhola e dispensam sua alternativa exatamente na principal competição internacional.

Já no centro do ataque, Youssef En-Nesyri vem de temporada ruim com o Sevilla, mas é um jogador de características muito específicas pela presença física e pela força no jogo aéreo. Walid Cheddira despontou mais recentemente pelo Bari, mas não tem tarimba no futebol de elite. E houve uma preferência por Abderrazak Hamdallah, centroavante de 31 anos que já foi artilheiro na primeira divisão de Marrocos, Catar e Arábia Saudita. O chamado do jogador do Al-Ittihad surpreendeu, já que ele não era convocado com regularidade desde 2015, além de uma aparição esparsa em 2019. Com isso, Ryan Mmaee perdeu lugar mesmo sendo um dos melhores das Eliminatórias, também com gols a rodo no Ferencváros. O mesmo vale para Ayoub El Kaabi, do Hatayspor, que anotou tentos constantes no qualificatório. Já o herói no jogo de classificação contra RD Congo, Tarik Tissoudali, fica de fora por uma lesão ligamentar.

Time base (4-3-3): Bono, Hakimi, Aguerd (Dari), Saïss, Mazraoui; Amrabat, Ounahi, Amallahi; Ziyech, En-Nesyri, Boufal.

 

>>> Confira análise de todas as seleções no canal de YouTube do Rafa Oliveira

Achraf Hakimi, de Marrocos (KENZO TRIBOUILLARD/AFP via Getty Images)

Donos do time

Hoje é impossível pensar na seleção do Marrocos sem a presença de Achraf Hakimi. Aos 23 anos, o lateral é o principal nome da equipe e possui uma rodagem bem maior do que a idade indica. Os Leões do Atlas têm grande responsabilidade por essa ascensão do astro. Vale lembrar que ele era reserva do Real Madrid quando fez uma boa Copa em 2018, atuando na lateral esquerda. Depois disso foi que realmente desabrochou, ótimo no Borussia Dortmund e na Internazionale, até chegar como reforço estelar ao Paris Saint-Germain. Tem deficiências defensivas, mas bem mais virtudes ofensivas para desmontar as defesas adversárias. Agora, com o equilíbrio de Noussair Mazraoui do outro lado, o perigo se torna ainda maior. É outro lateral muito forte no ataque, mas com outras características, até mais criativo. Se ele ainda tateia seu caminho no Bayern, o sucesso anterior no Ajax fala por si.

Outro motivo para acreditar que Marrocos pode fazer uma boa Copa é o goleiro Bono. E esse é um trunfo que os Leões do Atlas não tiveram no Mundial da Rússia, quando o arqueiro era reserva, por mais que já disputasse La Liga pelo Girona. A titularidade do Sevilla teve um peso importante para mudar seu status, especialmente depois de duas temporadas maiúsculas em La Liga. Não é um arqueiro sem defeitos, mas sabe operar seus milagres e pode segurar as pontas contra adversários mais duros na Copa. Neste sentido, também é bom não menosprezar a imponência de Romain Saïss no miolo da zaga. O beque emendou ótimas campanhas com o Wolverhampton, desde os tempos de Championship. Aceitou uma proposta do Besiktas nesta temporada, mas não perde a solidez e a liderança aos 32 anos. A percepção ao seu redor é diferente da que tinha na Copa de 2018.

Já no ataque, existe um pouco mais de dúvida sobre a maneira como Hakim Ziyech vai desembarcar na Copa do Mundo. O ponta passa longe de ser no Chelsea o jogador que se via no Ajax. Quase saiu no início da atual temporada e mesmo a mudança de comando nos Blues não recobrou seu espaço. Entretanto, por toda a queda de braço ao redor de seu nome nos últimos meses, ele gera expectativas em Marrocos. É o cara que pode tirar o coelho da cartola e fez falta na última CAN. Terá uma ótima ocasião para, aos 29 anos, justificar o seu peso na seleção. Quem pode se beneficiar mais à frente é Youssef En-Nesyri. O centroavante fez uma temporada muito boa com o Sevilla em 2020/21, mas caiu bastante desde então. Pelo nome, ainda é o favorito na seleção e terá uma boa chance de recuperar o moral, ainda mais com a qualidade dos garçons do elenco.

Ez Abde, de Marrocos (Wiki Commons)

Caras novas

Aos 20 anos, Ez Abde é uma grata novidade de Marrocos. O ponta cresceu na Espanha, mas não teve dúvidas de optar pelos Leões do Atlas desde a base. Até recusou a convocação para a CAN 2022, sob a justificativa de se dedicar ao Barcelona, mas logo aceitou o chamado na reta final das Eliminatórias. Foi uma das apostas de Xavi em sua chegada ao Barça e demonstrou habilidade, mas precisava amadurecer e agora começa a agradar no Osasuna. Tende a ser aquela aposta para bagunçar o jogo para os marroquinos no segundo tempo. Só não é o caçula do elenco porque, de última hora, Bilal El Khannous foi convocado. O meia de 18 anos faz sua primeira temporada como titular do Genk e se destaca num time que atravessa fase avassaladora no Campeonato Belga. Joga mais centralizado na armação e chama atenção pelo número 34, em homenagem a Abdelhak Nouri, promessa do Ajax que teve sua carreira interrompida por um ataque cardíaco.

Dentre os prováveis titulares, a ascensão mais impressionante é a de Azzedine Ounahi. O meio-campista jogava a terceira divisão francesa em 2020/21, mas consolidou-se rapidamente no Angers e virou opção para a seleção. Novidade na CAN 2022, o jovem de 22 anos arrebentou no jogo que valeu a vaga na Copa, com dois gols e uma assistência diante de RD Congo. Ali praticamente se confirmou no 11 inicial. É um motor que corre o campo inteiro. Quem também pode ser uma aposta repentina para o meio é Abdelhamid Sabiri, de 25 anos. O meia ganha destaque mesmo numa Sampdoria claudicante e fez até golaço após a primeira convocação, na Data Fifa de setembro.

Ainda vale uma menção para Achraf Dari. O zagueiro esteve entre os mais elogiados do Wydad Casablanca nos sucessos recentes, sobretudo na conquista da Champions Africana. Ficava claro como o beque logo pintaria no futebol europeu e o investimento acabou feito pelo Brest. Mesmo num time sob risco de rebaixamento, ganha certa projeção na Ligue 1 e tem como diferencial a ligação com Regragui, responsável por seu melhor momento no clube. Embora seja o teórico reserva de Saïss e Aguerd, é uma possibilidade confiável a depender do estado físico deste último.

Walid Regragui, técnico de Marrocos (AFP via Getty Images)

Técnico

Walid Regragui reforça a lista de treinadores africanos que dirigirão seus países na Copa do Mundo. O ex-lateral até nasceu na França e fez sua carreira no futebol europeu, mas manteve suas raízes com o Marrocos sobretudo através da seleção. Defendeu o país de 2001 a 2009, presente em duas edições da Copa Africana de Nações. Já como técnico, trabalhou inicialmente como assistente dos Leões do Atlas em 2012 e 2013, até iniciar sua trajetória nos clubes locais. Foram seis anos à frente do FUS Rabat. Apesar de seis taças anteriores na Copa de Marrocos, o time nunca havia faturado o Campeonato Marroquino e conseguiu quebrar o tabu com Regragui em 2016. Sua reputação era tão grande que ele acabou escolhido para dirigir o poderoso Al-Duhail, no Catar. Durou menos de um ano, pressionado pela queda na Champions Asiática, mas levou o Campeonato Catariano.

Já o grande cartaz na carreira de Regragui veio à frente do Wydad Casablanca, a partir de 2021. Que os alvirrubros vivam um período de bonança nos últimos anos, o comandante elevou um pouco mais o sarrafo. Conquistou o Campeonato Marroquino e desbancou o Al Ahly para levar também a Champions Africana. O WAC apresentou uma boa gama de recursos táticos, num estilo de jogo físico, mas também com bom trabalho na posse de bola. Diante do que alcançou no futebol nacional e pela própria história na seleção, Regragui era uma escolha engatilhada pela federação. Só precisará de um pouco de compreensão, pela maneira como seu trabalho começa em cima da hora. 

A geografia do elenco

O elenco de Marrocos possui metade dos jogadores nascidos no território do país e outra metade em nações diferentes. É o recorde de nascidos no exterior entre as 32 seleções desta Copa do Mundo. E o mais interessante é que a diáspora marroquina se espalha por muitos cantos. A França é o principal destino por laços culturais desde os tempos coloniais. Há uma proximidade geográfica e cultural com a Espanha que também prepondera. Grupos de trabalhadores seguiram para países como Bélgica, Países Baixos e Alemanha. Por questões linguísticas, um número massivo se estabeleceu na região de Quebec, no Canadá. Além disso, o fluxo rumo à Itália se tornou mais comum neste século. Tudo isso refletido nos 26 convocados dos Leões do Atlas.

Entre os que nasceram na Europa, os jogadores provenientes dos Países Baixos são os mais comuns nesta convocação. Nem é a maior colônia marroquina no continente, atrás de França e Espanha, mas o desenvolvimento das categorias de base locais ajuda. Quatro atletas vieram de lá, entre eles Noussair Mazraoui e Hakim Ziyech. Três deles atuaram pelas seleções neerlandesas de base e Mazraoui, o único que não jogou, chegou a se encontrar com Ronald Koeman para ouvir um projeto da Oranje, mas optou por Marrocos no nível principal. Sofyan Amrabat é um nome notável também por causa do irmão Nordin, destaque marroquino na Copa de 2018, mas que se aposentou da equipe nacional pouco depois. Também é interessante o caso de Zakaria Aboukhlal, de pai líbio e mãe marroquina, que saiu de Roterdã para viver parte da infância em Casablanca, para ser educado com os costumes locais.

A vizinha Bélgica, com forte colônia, também conta com quatro jogadores de Marrocos – com menos renome que os holandeses. Selim Amallah ainda tem ascendência italiana por parte de mãe, assim como Ilias Chair é polonês pelo lado materno. Já na França nasceram mais dois marroquinos – Sofiane Boufal e Romain Saïss. Da Espanha vêm Achraf Hakimi, de Madri, e Munir Mohamedi, de Melilla, cidade autônoma no norte da África cuja posse é reivindicada pelo governo marroquino – e que é um destino comum de refugiados. Walid Cheddira é o representante da comunidade marroquina na Itália, nascido em Loreto, na costa do Mar Adriático. Por fim, o goleiro Bono é canadense de Quebec, onde seu pai, engenheiro e professor, trabalhava. A família retornaria a Casablanca durante sua infância.

Entre os que nasceram no Marrocos, a maior parte do elenco se distribui na região central do país, em localidades mais próximas da costa do Mediterrâneo. Cidade mais populosa e também mais tradicional no futebol, Casablanca tem três representantes e ainda outro dentro de sua região. São dois jogadores de Fez, polo cultural e religioso, além de segunda cidade em população. É curioso como outras cidades importantes como Tânger, Marrakech e Rabat não possuem atletas convocados. Municípios um pouco menores, como Safi e Kenitra, acabaram cedendo seus jogadores.

Ainda há dois atletas nascidos na região da Cordilheira do Atlas, mais para dentro do território nacional. Ambos depois emigraram na infância para países da Europa. A família de Abde Ez se estabeleceu em Elche, no sul da Espanha. Já Abdelhamid Sabiri seguiu para Frankfurt, onde existe a maior comunidade marroquina na Alemanha. O meio-campista atuou nas categorias de base do Nationalelf antes de optar pelos Leões do Atlas no nível adulto.

Onde jogam

Marrocos possui uma das ligas nacionais mais fortes da África. O elenco na Copa de 1970 atuava completamente no país, assim como o domínio prevaleceu em 1986, apesar de três jogadores em atividade na França e outros dois na Suíça. Em 1994, os representantes dos clubes marroquinos eram maioria, com 13 atletas, mas já havia seis futebolistas de equipes da França, mais um de Portugal, um da Alemanha e um da Bélgica. Em 1998, o Campeonato Marroquino perdeu a hegemonia com seis convocados. Era a liga mais representada, mas não tão longe dos quatro de Espanha e quatro de Portugal. França, Suíça, Tunísia, Países Baixos, Alemanha e Itália participaram daquele elenco.

Já a ausência de Marrocos em duas décadas de Copa levou outra realidade para 2018. Os times marroquinos contavam só com dois jogadores. A maioria agora era de La Liga, com seis. Chamavam atenção ainda os quatro da Turquia. França, Itália, Inglaterra, Países Baixos, Alemanha, Bélgica e Emirados Árabes Unidos completavam a diáspora. E essa pulverização se nota também em 2022, tal qual nos próprios locais de nascimento dos atletas.

O elenco atual de Marrocos tem uma maioria francesa, com cinco jogadores. Quatro vêm da Espanha e três da Itália. A força financeira da Inglaterra rende quatro convocados, com dois da Bélgica e um da Alemanha. Não menos relevante é a relação com outros países islâmicos, que rende dois futebolistas na Arábia Saudita, um no Catar e um na Turquia. Já o Campeonato Marroquino possui só três nomes, todos do Wydad Casablanca, de onde veio o técnico Regragui. E uma curiosidade sobre o futebol marroquino que merece menção honrosa é a participação da Academia Mohamed VI na formação de atletas. O projeto inaugurado em 2009 segue moldes parecidos aos de Clairefontaine, na França, para lapidar talentos em períodos de dedicação exclusiva. Contam com estruturas modernas, bancadas pela monarquia. Quatro jogadores passaram por lá, sendo três potenciais titulares – Nayef Aguerd, Azzedine Ounahi e Youssef En-Nesyri.

Badou Zaki é abraçado em jogo de Marrocos contra Portugal, na Copa 1986 (AFP/AFP via Getty Images)

Um herói em Copas

Badou Zaki é considerado por alguns como o melhor goleiro africano do Século XX. O marroquino está entre os maiores ídolos da história do Wydad Casablanca e por anos apareceu entre os melhores da posição em La Liga, mesmo defendendo uma equipe de pouca projeção como o Mallorca. De qualquer maneira, sua fama se sustenta especialmente pelos serviços prestados à seleção marroquina. E a Copa do Mundo de 1986 tem muito peso em sua trajetória. O arqueiro foi o principal responsável para que, pela primeira vez, um representante africano superasse a fase de grupos.

Marrocos era o azarão num grupo cascudo contra Portugal, Polônia e Inglaterra.  Pois conseguiu passar, graças às defesas de Zaki. Os Leões do Atlas empataram sem gols com poloneses e ingleses, com auxílio vital do arqueiro, antes da histórica vitória por 3 a 1 diante de Portugal. A queda do time aconteceu nas oitavas, mas os azarões venderam muito caro a derrota por 1 a 0 diante da Alemanha Ocidental. Zaki fez uma coleção de defesas impressionantes, até ser vencido por uma cobrança de falta de Lothar Matthäus aos 42 do segundo tempo, em lance no qual o morrinho artilheiro fez muita diferença. O goleiro terminou o ano de 1986 eleito como o melhor jogador da África.

Zaki disputou 78 partidas por Marrocos, de 1979 a 1992. O goleiro foi eleito o melhor jogador do país em quatro oportunidades, assim como acumulou premiações individuais nos tempos de Mallorca em La Liga. Foi importante num acesso dos bermellones, bem como liderou o time até uma final de Copa do Rei perdida contra o Atlético de Madrid, quando usava a braçadeira de capitão. E o veterano ainda teria seu sucesso posterior como técnico. Passou por diversos clubes importantes do país, sobretudo o Wydad, e treinou a seleção em duas passagens, incluindo o vice na Copa Africana de 2004. Walid Regragui era o lateral titular naquela campanha. Já a última estadia na casamata aconteceu entre 2014 e 2016. Não garantiu grandes resultados, mas dirigiu alguns dos mais rodados da seleção atual, inclusive promovendo a estreia de Ziyech.

Calendário

Marrocos x Croácia – 23/11, 7h
Marrocos x Bélgica – 27/11, 16h
Marrocos x Canadá – 01/12, 12h

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de nascimento
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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