Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo F: Canadá
O Canadá teve o melhor ciclo da Concacaf e, com muito talento imigrante, conseguiu retornar à Copa do Mundo antes de sediá-la
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Quando o Canadá se tornou uma das sedes da Copa de 2026, o caminho parecia se abrir para a conquista de uma vaga no Mundial ausente desde 1986. Porém, o talento disponível aos Canucks pediu passagem bem antes e fez por merecer o sucesso rumo ao Catar. Dá para dizer que, das seleções mundialistas, os canadenses foram os que mais evoluíram nesse último ciclo. O país sequer alcançava a fase final das Eliminatórias na Concacaf desde 1998 e desta vez arrebentou desde o início. Há uma geração de talentos inegável, que conta com a presença de muitos imigrantes e seus descendentes. Entretanto, só o talento não explica o impacto do Canadá, com uma equipe muito coesa e fortíssima dentro de seus domínios. Os Canucks bateram de frente com as tradicionais forças de sua região, terminaram o qualificatório na liderança e chegam como o representante da Concacaf mais maduro para a Copa do Mundo. Sonhar com os mata-matas talvez seja difícil, num grupo duro, mas condições para surpreender os canadenses têm.
Como foi o ciclo até a Copa
A relevância do Canadá naqueles meses que circundavam a Copa do Mundo de 2018 era mínima. Basta lembrar que, por não se classificar para o hexagonal final da Concacaf, a campanha nas Eliminatórias terminou ainda em 2016. O ano de 2017 foi preenchido por amistosos e uma modesta campanha na Copa Ouro, com só uma vitória e queda nas quartas de final. Já no segundo semestre de 2018, os canadenses precisaram se submeter à humilhação de disputar a fase de classificação da Liga das Nações. Surraram adversários fracos, em resultados longe de chamar atenção. A esta altura, o que mais merecia manchetes era a escolha do técnico John Herdman, responsável por dois bronzes olímpicos com a seleção feminina, que assumia o masculino e passaria a coordenar também as categorias de base da federação. Escolha certeira.
Alguns sinais mais animadores começaram a pintar em 2019. O Canadá ainda não foi tão longe na Copa Ouro, superado pelo Haiti nas quartas de final. Entretanto, sua estreia na primeira divisão da Liga das Nações agradou. Além de atropelar Cuba, o time venceu os Estados Unidos em Toronto. Depois de 34 anos, desde aquela geração que disputou a Copa de 1986, os Canucks conseguiram derrotar os maiores rivais. No reencontro em Orlando os americanos deram o troco e golearam, no que valeu a passagem do US Team para a fase final. De qualquer maneira, aquela era a primeira mostra de força dos canadenses em duelo com um oponente direto pelas vagas no Mundial.
A paralisação do futebol por causa da pandemia teve um impacto positivo para o Canadá. Com um elenco muito jovem, os meses de espera auxiliaram no desabrochar de protagonistas. E o time iniciou sua campanha nas Eliminatórias em março de 2021, ainda nas fases preliminares, com uma sequência de goleadas. Amassar equipes como Ilhas Cayman e Aruba pode não dizer tanto, mas os 4 a 0 sobre Suriname eram bastante interessantes, considerando o crescimento dos sul-americanos nos anos recentes. Já no duelo que valia a vaga na fase final, os canadenses não tomaram conhecimento do Haiti, com o placar agregado de 4 a 0. Dois anos depois, vinha o troco contra os algozes da Copa Ouro anterior. Depois dessa fase das Eliminatórias, houve a Copa Ouro de 2021. O Canadá parou na semifinal diante do México, mas vendeu caro a derrota e deixou a Costa Rica pelo caminho. Mais sinais concretos.
Isso até que o momento decisivo começasse no segundo semestre de 2021. Que o antigo hexagonal final das Eliminatórias tenha virado um octogonal final, aumentando as chances de entrada, já significava muito ao Canadá estar ali. Eram mais de duas décadas sem se colocar entre as melhores seleções da Concacaf no qualificatório. Pelo futebol apresentado, não seria loucura imaginar os Canucks descolando uma vaguinha pelo menos na repescagem. A equipe apresentava bons recursos e um nível de talento acima da concorrência média. O que muita gente certamente não apostava era na forma como a equipe de John Herdman foi competitiva. Não tomou conhecimento sequer de México e Estados Unidos, dois adversários com elencos mais recheados, mas com trabalhos oscilantes. Os canadenses foram mais sólidos e surfaram na onda de empolgação que surgiu no país com o futebol.
O início do octogonal já colocou o Canadá na zona de classificação para a Copa, embora sobrassem empates. Nas cinco primeiras partidas, a equipe venceu apenas El Salvador em casa. Empatou com Honduras em Toronto, além de ficar na igualdade com Estados Unidos, México e Jamaica fora. E se segurar os favoritos nestas visitas garantiam pontos interessantes aos Canucks, o time deslanchou quando teve uma sequência de três partidas sob seu mando. Goleou o Panamá, bateu também a Costa Rica e, mais emblemático, superou o México por 2 a 1. Em novembro, a ideia de mandar suas partidas em Edmonton e submeter os latinos ao gélido ambiente do “Iceteca” foi uma baita sacada. A empolgação era óbvia – pelo futebol apresentado, pela fase dos jogadores, pelo clima nas arquibancadas.
A partir desse momento, o Canadá assumiu a liderança das Eliminatórias. E não saiu mais. Abriu 2022 com mais três vitórias consecutivas. Ganhou as duas primeiras fora, contra Honduras e El Salvador, enquanto bateu os Estados Unidos, em Hamilton. A confirmação da classificação ficava para março, mas parecia só uma questão de detalhes. A derrota na visita à Costa Rica quebrou a invencibilidade e adiou o processo, mas a festa se deu com goleada por 4 a 0 sobre a Jamaica em Toronto. A história estava completa. Ainda houve mais um revés, fora de casa contra o Panamá, mas nada que alterasse o passo gigante dado pelos canadenses.
É verdade que o time teve alguns tropeços em 2022. Goleou Curaçao, mas perdeu para Honduras na Liga das Nações. Já nos amistosos para finalmente provar o potencial contra times de outros continentes, os Canucks se impuseram diante do Catar e não seguraram o Uruguai, no que foi ainda uma atuação razoável contra um adversário tão tradicional. Por fim, derrotaram o Japão no último compromisso antes da estreia. O comportamento dos alvirrubros sem a força como mandantes é uma incógnita, mas existem elementos para crer numa participação honrosa na Copa mesmo se parar logo na fase de grupos. Depois de 36 anos, só isso já vale demais.
Talvez a maior desconfiança sobre o Canadá fique por conta dos conflitos internos entre os jogadores e a federação. Há uma disputa em relação aos direitos de imagem que se arrasta há alguns meses e afeta sobretudo as grandes estrelas. Outro ponto de protesto foi contra a opção da Nike em não investir num design específico para o uniforme da Copa do Mundo, o que fez Jonathan David tapar a logomarca com a mão durante uma comemoração. Apesar desses atritos, internamente a equipe sempre se mostrou fechada ao redor de seu objetivo. É o que tranquiliza os torcedores empolgados.

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Como joga
A seleção do Canadá foi uma camaleoa durante as Eliminatórias. A equipe adotou sistemas de jogo diferentes, conforme a demanda dos adversários. Algumas das principais vitórias aconteceram com uma formação que apostava em três zagueiros, por vezes até num 5-4-1. Todavia, John Herdman também aproveitou outros recursos para utilizar um 4-4-2 ou um 4-2-3-1. A identidade de jogo dos canadenses está mais nos padrões do que necessariamente nas escolhas táticas. É uma equipe coletivamente muito sólida, com um sistema bem montado e jogadores empenhados em guardar sua posição. Já o ataque aposta bem mais na individualidade e na velocidade. Os Canucks contam com homens de frente de bom porte físico, além de talentos capazes de romper a marcação com seus dribles e arrancadas. Foi o que valeu o sucesso nas Eliminatórias.
O titular absoluto no gol do Canadá é Milan Borjan, um dos mais experientes do time. Possui rodagem na Europa e usa a braçadeira de capitão. Já o miolo de zaga conta com Steven Vitória, veterano rodado no Campeonato Português, que costuma ter a companhia de Kamal Miller num sistema com dois ou três homens atrás. O terceiro elemento geralmente é Alistair Johnston, que pode servir como zagueiro ou lateral direito. Johnston e Miller, aliás, carregam entre si o entrosamento no Montréal. A lateral esquerda é dominada por Sam Adekugbe, uma das revelações do time nas Eliminatórias, que atualmente se aventura no futebol turco. Também está à disposição Richie Laryea, que, pela facilidade para atacar, entra nos dois lados e geralmente serve de ala direito num esquema com três beques.
O nível do Canadá aumenta do meio para frente. A começar pelos volantes. Stephen Eustáquio nem é dos mais jovens, aos 25 anos, mas cresceu demais no atual ciclo. O jogador do Porto funciona como o motor do meio-campo e tem ótimo passe. Entre as companhias possíveis está Atiba Hutchinson, que já viveu de tudo um pouco na seleção desde 2002 e é o recordista em jogos pela equipe nacional. O veterano de 39 anos entra como volante ou mesmo como zagueiro, mas deixa dúvidas sobre suas condições, por voltar de longa lesão no Besiktas. Por história, ainda assim, merece a Copa do Mundo como raríssimos canadenses. A faixa central ainda reúne opções como Mark-Anthony Kaye e Samuel Piette, rodados na MLS. Mas vale ficar de olho em Ismaël Koné, possível candidato a surpresa do time, que demonstrou muita personalidade nos amistosos recentes.
Esqueça o Alphonso Davies lateral do Bayern de Munique. Embora o jovem tenha sido aproveitado por John Herdman na defesa quando sequer jogava assim por clubes, o Canadá explora mais costumeiramente o potencial ofensivo de seu maior talento e o escala como meia, aberto na esquerda ou mesmo centralizado na armação. E o craque parece ainda mais motivado quando defende os Canucks. Outro destaque na ligação é Tajon Buchanan, mais um driblador, que se encaixa nas duas pontas ou até como ala. Junior Hoilett, por sua vez, carrega uma longuíssima experiência no futebol inglês. O veterano bate na bola como poucos e serve de opção na armação. Ainda há a carta na manga de Jonathan Osorio, meia de grande importância no Toronto FC.
Já na frente, dois nomes se sobressaem. Jonathan David vive temporadas ótimas com o Lille e transporta isso para a seleção, com seu estilo rompedor e também com pitadas de habilidade. Cyle Larin, por sua vez, costuma se transformar a serviço dos Canucks. Pode servir numa dupla com David, assim como ser deslocado para a ponta. Iké Ugbo é uma alternativa mais física para o ataque, que deve entrar no segundo tempo dos jogos, enquanto Lucas Cavallini é um talismã de tempos mais sofridos dos Canucks.
Time base (3-5-2): Borjan, Johnston, Vitória, Miller; Buchanan (Laryea), Eustáquio, Hutchinson (Kaye), Davies, Adekugbe; Larin, David
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Donos do time
Alphonso Davies é o talento do Canadá que muita gente vai querer assistir. O jovem de 21 anos oferece um brilho diferente à equipe e pode exibir sua coleção de dribles de uma maneira até mais agressiva do que no Bayern de Munique, onde suas incumbências defensivas são maiores na lateral. A única interrogação é sobre as condições físicas, após lesão recente pelos bávaros. É bom dizer que os Canucks se viraram bem sem o seu principal talento, como se viu na reta final das Eliminatórias, quando ele ficou afastado por meses após descobrir um problema cardíaco. Era atração mesmo de longe, em suas lives assistindo às partidas da seleção. De qualquer forma, a força indubitavelmente é maior com ele em campo. A maturidade e a liderança também são outras virtudes do garoto, que já desponta para ser o maior jogador do país em todos os tempos. E com uma Copa do Mundo para chamar de sua tão cedo, antes de receberem o Mundial em 2026.
Entretanto, o Canadá está distante de ser um time de um jogador só. Jonathan David não atua em um clube tão poderoso da Europa, mas seu crescimento é perceptível, desde que trocou o Gent pelo Lille. O centroavante de 22 anos teve papel decisivo na conquista da Ligue 1 em 2020/21, mas seu protagonismo no time até cresceu e esse início de temporada apresenta um futebol irresistível. Chega em alta para o Mundial. Além disso, o camisa 9 foi a peça mais produtiva do setor ofensivo nas Eliminatórias. Contribuiu com nove gols e sete assistências em 18 aparições desde as fases iniciais.
Melhor ainda quando dá para dividir responsabilidades no ataque. Cyle Larin carrega um pouco mais de bagagem no setor e muito destaque pela seleção. O centroavante foi outra figura preponderante nas Eliminatórias, sobretudo nas vitórias sobre o México e EUA, em que chamou a responsabilidade com gols gigantescos para a história dos Canucks. O momento por clubes não inspira confiança, após cair de rendimento no Besiktas e se tornar reserva do Club Brugge. Entretanto, não é o maior artilheiro da história da seleção canadense à toa.
No meio-campo, Stephen Eustáquio é o jogador capaz de dar um passe diferente e também de controlar o ritmo. Cresceu bastante na hierarquia do Canadá. Também ajuda sua regularidade na Europa, primeiro como destaque do Paços de Ferreira, para se tornar depois uma ótima adição do Porto no início de 2022. Fez ótima fase de grupos na Champions. E se a pressão sobre os Canucks for grande, Milan Borjan poderá vir ao resgate. O goleiro por vezes comete seus deslizes, mas virou um monstro em vários momentos pela seleção. As vitórias sobre México e Estados Unidos também estão na conta de seus milagres. Aos 35 anos é uma liderança evidente. E também está acostumado a compromissos de peso, como um ídolo do Estrela Vermelha em cinco anos de clube.

Caras novas
Quando se tem Alphonso Davies e Jonathan David ainda mais jovens que você, Tajon Buchanan passa abaixo do radar na seleção do Canadá. Aos 23 anos, o ponta atravessou grande parte de sua carreira na MLS e somente no início do ano se mudou para a Europa. No entanto, era um jogador que desequilibrava no New England Revolution e não demorou a agradar no Club Brugge. Deu sua contribuição na reta final do último Campeonato Belga, vencido pela equipe, e também deixa sua marca no sucesso atual na Champions League, mesmo que tenha perdido parte da temporada por lesão. Vai dar calor na marcação, algo que já se viu em diversas partidas nas Eliminatórias. Foi o grande destaque no jogo da classificação contra a Jamaica, por exemplo.
Quem mal disputou as Eliminatórias e causa expectativas no Canadá é o meio-campista Ismaël Koné. O volante de 20 anos estreou na atual temporada e já esteve entre os principais jogadores do Montréal CF. É um atleta que exerce grande influência no controle da faixa central e contribuiu ofensivamente, até com gol decisivo nos playoffs da MLS. Não à toa, ganhou as primeiras chances com John Herdman nas últimas convocações e deixou sua marca nos Canucks. A meia hora em que esteve em campo contra o Uruguai e fez os canadenses melhorarem significativamente carimbaram seu passaporte para o Catar. Chega na condição de reserva, mas como mais um nome para o futuro.
Já na lista daqueles que podem se projetar com uma boa participação na Copa do Mundo está Alistair Johnston. Com 24 anos nas costas, o defensor não é tão novo, mas virou intocável na seleção canadense com John Herdman e também cresceu em reputação na MLS. Lançado pelo Nashville, o defensor se transferiu para o Montréal nesta temporada e virou um dos principais jogadores do time. É um atleta que prima pela versatilidade, usado como zagueiro, lateral e até ala mais ofensivo. Entrega muita combatividade. Se quiser ir à Europa, a oportunidade está posta. Ainda não é totalmente confiável e enfrentará um nível de desafio inédito, mas cresceu com a equipe nas Eliminatórias.

Técnico
A federação do Canadá tomou uma decisão pouco usual quando escolheu John Herdman como novo treinador da seleção. Mas tinha totais motivos para tomar esse caminho, diante daquilo que o técnico entregou na seleção feminina. Formado em educação física, o inglês construiu sua carreira entre as mulheres. Mudou-se à Nova Zelândia para trabalhar no desenvolvimento do esporte e dirigiu a seleção feminina local por cinco anos, com duas Copas do Mundo no currículo. Em 2011 chegou ao Canadá e marcou época. Levou o ouro no Pan de 2011, dois bronzes olímpicos em 2012 e 2016, foi quadrifinalista no Mundial de 2015. Ajudou a desenvolver diversas jogadoras canadenses e tinha um claro projeto em mente. Estava óbvio como o time masculino poderia ganhar com a sua visão.
A chegada de Herdman se combinou com a eclosão de vários talentos do atual elenco do Canadá. Em 2018, não eram poucos os titulares atuais dos Canucks que ainda defendiam equipes amadoras e sequer haviam passado pelo draft da MLS. Quase 30 jogadores estrearam pelos alvirrubros desde a chegada do comandante, entre eles Jonathan David, e outros tantos se firmaram somente com o novo treinador. O encaixe das peças melhorou, vide Alphonso Davies, adaptado inicialmente como lateral e depois elevado a protagonista como meia. E a própria produção coletiva injetou confiança na equipe, de ideias muito claras durante as Eliminatórias. Se os canadenses ofereceram a melhor história das últimas Eliminatórias, o treinador de 47 anos pinçado por seus méritos no futebol feminino é essencial. E pode abrir portas para que mais gente faça essa transição.
A geografia do elenco
O Canadá é um dos países mais receptivos a imigrantes no mundo. Mais de 400 mil imigrantes chegaram legalmente ao país apenas em 2021. E não existiria uma seleção canadense tão forte sem essa abertura. O caldeirão cultural dos Canucks é sem igual nesta Copa do Mundo. E um dado é fundamental para explicitar essa influência: dos 26 convocados por John Herdman, apenas dois não têm dupla nacionalidade – o zagueiro Joel Waterman e o meio-campista Liam Fraser. De resto, todos os outros têm ligações próximas com outros países. Sete jogadores nasceram em outros territórios, espalhados tanto na Europa quanto na África.
Antes de falar sobre as origens, é interessante entender essa distribuição no território do Canadá. Num país de 37 milhões de habitantes, mais de 18 milhões vivem no chamado “Corredor Cidade de Québec – Windsor”, que abrange uma área de mais de mil quilômetros no leste do país, acompanhando a fronteira com os Estados Unidos a partir dos Grandes Lagos. Toronto, Montreal e Ottawa ficam nessa reta. Dos 19 jogadores da seleção nascidos no Canadá, apenas dois não são dessa faixa densamente povoada. Ambos vêm da Colúmbia Britânica, estado onde fica Vancouver e que possui uma fanática comunidade ligada ao futebol, mas não contribui tanto assim com seus 5 milhões de habitantes. Por mais que os imigrantes em Vancouver superem os 50%, a maioria é de origem asiática, menos propensa ao esporte.
A influência dos imigrantes na seleção do Canadá é mais restrita às populações que vieram da América Latina e do Caribe, bem como da Europa e da África. E essas comunidades estão concentradas no Corredor. Há um jogador, Stephen Eustáquio, que nasceu em Leamington, cidade fronteiriça muito próxima de Detroit. Outros dois são da região metropolitana de Montreal, no estado de Québec, sob influência cultural francesa – o volante Samuel Piette possui até passaporte francês. Já a capital da seleção canadense é Toronto.
Toronto é a cidade mais populosa do país, com 6,2 milhões de habitantes na área metropolitana, mas ainda assim extrapola as proporções com 14 dos convocados. O estado de Ontário é exatamente aquele com maior população negra e latino-americana, bem como expressivas comunidades de países europeus. Não surpreende que, desse grupo de 14, sete tenham nascido na cidade de Toronto. Entretanto, há um município específico que merece menção: a vizinha Brampton. A cidade de 656 mil habitantes possui, segundo o censo de 2016, mais de 73% de sua população com origem étnica em outros países asiáticos, africanos, caribenhos ou latino-americanos. Mais da metade vem do sul da Ásia, sobretudo da Índia, do Paquistão e de Bangladesh. Já na seleção, os nativos de Brampton se refletem através de caribenhos, africanos e mesmo britânicos.
Sobre as origens estrangeiras do Canadá de 2022, a presença de caribenhos é massiva. Nove jogadores possuem ascendentes nas ilhas – a maioria de Jamaica e Trinidad & Tobago, mas também com casos de Haiti e Barbados. Entre os trinitinos se destaca o capitão Atiba Hutchinson. Já a legião de origem jamaicana inclui Cyle Larin, Tajon Buchanan e Junior Hoilett. Ainda há o caso específico de Jonathan David, cujos pais são haitianos e ele nasceu durante uma viagem da mãe a parentes em Nova York. Passou os primeiros meses de vida na cidade, cresceu em Porto Príncipe e mudou-se para Ottawa aos seis anos. Entre os latino-americanos, dois representantes: Jonathan Osorio tem pais colombianos e o pai de Lucas Cavallini é argentino.
Outro grupo expressivo é o de jogadores com origem europeia. Os portugueses têm uma grande colônia no Canadá e são notáveis com Stephen Eustáquio e Steven Vitória – este até jogando nas seleções de base lusitanas. Ambos são filhos de pais portugueses, mais especificamente açorianos no caso de Vitória. Em outros cantos, a mãe de Alistair Johnson é norte-irlandesa, assim como a mãe de Dayne St. Claire é escocesa – já o pai é trinitino. David Wotherspoon nasceu e cresceu na Escócia, mas tem cidadania canadense pela mãe. Com passaporte britânico, Liam Millar se mudou para a Inglaterra com 13 anos, quando foi tentar a carreira de jogador. James Pantemis é descendente de gregos. Já Milan Borjan representa o caldeirão étnico dos Bálcãs: nasceu na antiga Iugoslávia, numa cidade que depois virou da Croácia, mas numa família de sérvios. Mudou-se para Belgrado em 1995, durante a guerra. Já adolescente, em 2000, foi com a família viver em Ontário. Curiosamente, sua carreira ainda começou na América do Sul, em equipes do Uruguai e da Argentina, antes de fazer seu nome no Leste Europeu.
Por fim, não menos significativo é o grupo de africanos étnicos. E ele inclui dois jogadores nascidos em Londres, Sam Adekugbe e Iké Ugbo, mas de pais nigerianos que se mudaram para o Canadá na infância dos atletas. Ismaël Koné nasceu na Costa do Marfim e chegou a Montreal ainda criança. Richie Laryea é de Toronto, mas descendente de ganeses. Por fim, o maior exemplo do acolhimento do país é Alphonso Davies. O craque dos Canucks é filho de liberianos, mas nasceu num campo de refugiados de guerra em Gana. A família entrou num programa de acolhimento e se mudou ao Canadá em 2005, para Edmonton – uma cidade distante de outros centros metropolitanos e com clima mais severo. Virou um símbolo da integração e também embaixador da ONU para refugiados.
Onde jogam
Quando o Canadá disputou sua primeira Copa do Mundo, em 1986, havia um limbo no futebol da América do Norte após a extinção da NASL dois anos antes. Muitos jogadores se espalhavam por ligas semiprofissionais e até mesmo de futebol indoor, popular na época. Eram cinco representantes de times canadenses e outros 11 em atividade nos Estados Unidos. Ainda havia um no México, do Monterrey. O restante se virava na Europa, espalhados por Irlanda do Norte, Suíça, Bélgica, Holanda e Escócia.
A realidade mudou bastante nesses últimos 36 anos. Todos os jogadores do Canadá, obviamente, são profissionais. E a seleção se beneficia da relevância dos clubes do país na MLS. Quase metade do elenco atua na liga. São seis jogadores do CF Montréal, três do Toronto FC e um do Vancouver Whitecaps – além de um ao sul da fronteira, no Minnesota United. A recém-criada Canadian Premier League ainda não tem relevância o suficiente para emplacar jogadores nos Canucks.
O restante está na Europa, e bem espalhado. A Bélgica curiosamente se sobressai, com três jogadores. Há dois na França, dois em Portugal e dois na Turquia. Completam a lista um na Alemanha, um na Inglaterra, um na Sérvia, um na Suíça, um na Escócia e um na Grécia. Os laços sanguíneos influenciam muitos desses destinos. É o caso de Stephen Eustáquio no Porto, Steven Vitória no Chaves, Milan Borjan no Estrela Vermelha e David Wotherspoon no St. Johnstone.

Um herói em Copas
Paul Dolan tinha apenas 20 anos quando se alinhou na boca do túnel ao lado de Michel Platini, Jean Tigana, Alain Giresse e outras lendas do futebol mundial. O goleiro assumiu a meta do Canadá na estreia do país em uma Copa do Mundo, no México-86. Atuava pelo Edmonton Brick Men, clube semiprofissional do país que era sustentado por uma loja de móveis. Seria do garoto a responsabilidade de enfrentar uma das equipes mais temidas do planeta, a França, atual campeã europeia. Sem sentir a responsabilidade, Dolan deu conta do recado. Fez ótimas defesas durante a tarde ensolarada, que contiveram a pressão dos Bleus. O triunfo francês por 1 a 0 até veio com uma saída errada do goleiro pelo alto, mas segurar o esquadrão por quase 80 minutos dava créditos o suficiente ao jovem. Saiu de campo como um dos mais elogiados.
A primeira participação do Canadá em Copas não teve gols do time. Além do 1 a 0 da França, perderam por 2 a 0 da Hungria e da União Soviética. Dolan sequer pôde disputar outra partida no Mundial, já que o dono da posição era o mais experiente Tino Lettieri, ausente contra os franceses porque recuperava sua forma física após disputar uma liga indoor. Foi assim a estreia dos canadenses em Mundiais, com um elenco que reunia muitos jogadores distantes do estrelato e que precisavam conciliar suas carreiras com empregos comuns. Pode-se chamar de milagre o que conseguiu o técnico Tony Waiters, ao levar o país para o maior dos palcos.
Paul Dolan ainda virou uma estrela do futebol no Canadá. Sem passar em testes na Inglaterra, fez carreira principalmente no Vancouver 86ers, o herdeiro do atual Whitecaps. É o recordista de partidas pelo clube entre os arqueiros e conquistou dois títulos nacionais, em tempos ainda semiprofissionais do campeonato. Também acumulou 13 anos com a seleção, presente em 53 partidas, e disputou mais três edições das Eliminatórias. Nomeado no Hall da Fama do Futebol no Canadá, Dolan voltou aos Canucks depois de pendurar as luvas e passou décadas como treinador de goleiros. Tem sua contribuição também no time de 2022, ao treinar Milan Borjan por bons anos. Deixou a equipe em 2019, quando já trabalhava com John Herdman.
Calendário
Canadá x Bélgica – 23/11, às 16h
Canadá x Croácia – 27/11, às 13h
Canadá x Marrocos – 01/12, às 12h
Todos os convocados
| Número | Posição | Jogador | Data de nascimento | Clube | Jogos | Gols | Local de nascimento |
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