Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo D: França

A França chega como campeã do mundo e dona do melhor elenco, mas muitos desfalques e um técnico que nem sempre entrega o que pode

Este texto faz parte do Guia da Copa do Mundo 2022. Clique aqui para ler os outros.

* Atualizado em 19 de novembro, após o corte de Benzema

Vamos pensar em um cenário hipotético: a atual campeã do mundo, com o elenco mais qualificado do futebol de seleções, com uma espinha dorsal jovem e com potencial de melhorar a cada ano que se passa, recebe o reforço do melhor jogador do planeta. A lógica seria jogar ainda melhor, certo? Se isso não acontece, e é possível defender até que rolou o contrário, com quem reclamamos? Como o cenário não é hipotético, talvez com Didier Deschamps.

O título da Copa do Mundo da Rússia disfarçou as críticas ao trabalho do técnico francês porque, bom, ele ganhou a Copa do Mundo, mas o último ciclo aumentou as desconfianças. Para piorar, fantasmas do passado foram retomados porque a França chegará ao Catar bastante desfalcada. Kylian Mbappé não está baleado, mas o corte de Karim Benzema na véspera do Mundial dói feito um Zinédine Zidane no sacrifício em 2002. Pior, nomes importantes como N’Golo Kanté, Paul Pogba, Christopher Nkunku e Presnel Kimpembe já tinham se tornado ausências por questões físicas. Isso aumenta os problemas e também o desafio de Deschamps em busca de soluções para fazer a França finalmente jogar à altura do talento exuberante que tem à disposição. Espera-se que defenda o título. Está na lista tríplice de favoritos ao lado de Brasil e Argentina, mas, na reta final, caiu para o terceiro lugar na análise de muitos especialistas. De cara, terá um adversário forte na Dinamarca, embora Tunísia e Austrália não ameacem a vaga nas oitavas de final. A partir do mata-mata, será a hora de a França mostrar que os últimos anos foram apenas aquela ressaquinha de campeão.

Como foi o ciclo até a Copa

Não tem sido incomum os campeões do mundo terem problemas depois do título. Aconteceu com Itália, Espanha, Alemanha e, sim, com a França. O último ciclo da Copa do Mundo não foi bom para a seleção francesa porque aumentou as desconfianças sobre o trabalho de Didier Deschamps, que tem em mãos o melhor elenco do futebol de seleções e não conseguiu adquirir o costume de montar o melhor time do futebol de seleções.

Não dava para esperar que a França desse muita atenção para a Liga das Nações, cuja primeira edição começou menos de dois meses depois da final contra a Croácia. Ninguém nem sabia se dariam atenção para o torneio ainda. A campanha não foi ruim, com sete pontos, empatada com a Holanda, mas perdeu  em Roterdã por 2 a 0 e venceu por apenas 2 a 1 em Paris. Não conseguiu classificação para a semifinal no confronto direto, mas ficou bem à frente da Alemanha, esta com apenas dois pontos, em último lugar.

O primeiro desafio real era se classificar para a Eurocopa 2020. Não chegou a ser treta, mas não pegou bem ter perdido no mano a mano com a Turquia. Foi derrotada fora de casa e apenas empatou no Stade de France. Como venceu todos os outros jogos contra Islândia, Albânia, Andorra e Moldávia, e os turcos encontraram um jeito de somar apenas um ponto contra os islandeses, a campeã do mundo ainda avançou em primeiro lugar – não fazia diferença porque os dois primeiros davam vaga direta.

Como a Euro foi adiada em um ano, a fase de grupos da segunda Liga das Nações chegou primeiro, e a França foi bem mais competente. Agora com três concorrentes, ficou invicta, com cinco vitórias e um empate, ganhando todos os jogos fora de casa e fazendo quatro em Suécia e Croácia. Começou as Eliminatórias para a Copa do Mundo empatando em casa com a Ucrânia, mas bateu Cazaquistão e Bósnia, como visitante, antes de encarar a Eurocopa.

Os resultados da Liga das Nações eram um sinal mais favorável do que os do classificatório para o Mundial. O sinal mais favorável de todos, porém, era o retorno de Karim Benzema, afastado desde o escândalo do vídeo de Mathieu Valbuena, após várias conversas com Didier Deschamps. Mesmo com um dos melhores atacantes do mundo no elenco, a França decepcionou. A finalista da edição anterior abriu os trabalhos com boa vitória sobre a Alemanha, por 1 a 0, que poderia ser mais ampla, mas depois apenas empatou com a Hungria, que era a seleção mais fraca do grupo da morte.

O empate com Portugal, com dois gols de Benzema, garantiu a passagem em primeiro lugar, com cinco pontos, sem um futebol convincente. Nas oitavas de final, o desastre se completou de vez. A França saiu atrás da Suíça, mas conseguiu a virada, com mais dois gols de Benzema, e ainda abriu 3 a 1, com a ajuda de Paul Pogba. Mas Seferovic e Gavranovic marcaram perto do fim e forçaram prorrogação, que terminou sem bolas na rede. Nos pênaltis, Yan Sommer brilhou, e a campeã do mundo foi eliminada.

Foi um resultado bem abaixo da expectativa para a bicampeã europeia. O negócio era garantir logo vaga na Copa do Mundo, mas precisaria esperar até novembro, por causa dos empates com Bósnia e Ucrânia. Nesse intervalo, deu uma demonstração de força ao conquistar a Liga das Nações, com uma vitória épica por 3 a 2 sobre a Bélgica, perdendo por 2 a 0 ao fim do primeiro tempo, e outra virada em cima da Espanha na decisão. Ao retornar às Eliminatórias, selou a vaga no Catar goleando o Cazaquistão por 8 a 0.

A preocupação maior chegou na terceira Liga das Nações. Aconteceu com outros times também, com um calendário estranho que concentrou quatro jogos no começo de junho, mas a França correu o risco de ser rebaixada. Conseguiu ficar à frente da Áustria porque no fim venceu o confronto direto em casa, por 2 a 0, e somou um ponto a mais, mas nem ameaçou Dinamarca e Croácia, que brigaram pela vaga na semifinal. Os confrontos diretos com os dinamarqueses, companheiros de grupo no Catar, não foram promissores, com derrotas tanto em casa quanto fora.

(FRANCK FIFE/AFP via Getty Images/One Football)

Como joga

Didier Deschamps passou boa parte dos últimos 18 meses experimentando e desenvolvendo um esquema com três zagueiros para chegar na Copa do Mundo e dizer… nah. Vai com quatro atrás mesmo. Disse que a alternativa tática que tentou criava desequilíbrio. “Fizemos muitas análises e tivemos discussões com minha comissão técnica e jogadores. Os sentimentos expressados influenciaram minha decisão. Fizemos coisas boas neste sistema (com três atrás), mas estivemos em dificuldade de vez em quando. Para vencer uma competição, você precisa ser defensivamente sólido”, explicou o técnico campeão do mundo.

Na Rússia, um ponto importante de equilíbrio foi a entrada de Blaise Matuidi. Um meia de origem que atuava aberto pela direita com a capacidade de atacar e defender. O jogador que tem mais dessa característica no elenco da França seria Adrien Rabiot, que foi elogiado por Deschamps. “Ele já fez isso na Juventus. Seu desenvolvimento o permitiu ter uma gama maior de habilidades. Ele se definiu como um jogador que equilibra. Para um treinador, isso tem muito valor”, completou. Levando as declarações de Deschamps em consideração, podemos imaginar que ele usará linha de quatro, com Rabiot no meio.

A França tem Hugo Lloris debaixo das traves, muito bem pelo Tottenham. Com o esquema com três zagueiros, Jonathan Clauss, do Olympique Marseille, ganhou bastante espaço pelas suas características de ala. Ele não foi convocado, o que apenas confirma a ideia por quatro defensores. Deschamps tem Jules Koundé, sendo lateral direito pelo Barcelona, e Benjamin Pavard para a direita. Na esquerda, pode usar Lucas Hernández, frequentemente zagueiro pelo Bayern de Munique, ou Theo Hernández, um dos melhores do mundo na posição.

O parceiro de zaga mais comum de Raphaël Varane foi Presnel Kimpempe, cortado por lesão. Isso deixa a escalação da defesa um pouco mais confusa. Com Pavard titular na lateral direita, Koundé pode ser o segundo zagueiro. Com Koundé na lateral direita, Pavard até poderia ser o segundo zagueiro, mas provavelmente não porque não costuma atuar assim na seleção. As opções seriam Dayot Upamecano ou Lucas Hernández – caso Deschamps não o utilize como uma alternativa mais defensiva na esquerda ao seu irmão Theo. Ibrahima Konaté teria mais chance se não tivesse feito apenas quatro jogos pelo Liverpool nesta temporada.

O meio-campo tornou-se um problema. A dupla de volantes titular seria Kanté e Pogba. Lesionados, estão fora. Aurélien Tchouaméni, do Real Madrid, vinha sendo bastante utilizado antes dessa notícia e não existe um motivo para não aproveitar o entrosamento com seu colega de clube, Eduardo Camavinga. Foi essa a escalação, por exemplo, no último jogo da França, contra a Dinamarca. Matteo Guendouzi e Youssouf Fofana não são muito mais experientes que o garoto de 20 anos, mas são menos talentosos. Jordan Veretout, 29 anos, seria a opção mais veterana.

Agora, isso depende de onde jogará Rabiot. Se ele não for esse meia mais aberto pela esquerda, pode ser escalado ao lado de Tchouaméni, abrindo espaço para outro jogador ofensivo pelos lados, provavelmente Coman pela direita. Se jogar mais avançado, o efeito colateral é talvez precisar deslocar Mbappé à direita para manter o desenho 4-2-3-1. O atacante do PSG poderia ficar à esquerda se a França se posicionar mais em um 4-3-3, com Antoine Griezmann à direita, mas o jogador do Atlético de Madrid gosta de ter liberdade para flutuar pelo meio. Karim Benzema seria o centroavante indiscutível. Seria, se não tivesse se lesionado na véspera da abertura do Mundial. Isso reduz as possibilidades de variações.

Sem Benzema, Giroud deve ser o homem de referência, tal qual em 2018 – menos móvel, mas em fase favorável com o Milan. Infelizmente, Deschamps também perdeu Christopher Nkunku, um dos franceses em melhor forma no momento. Ele seria uma opção explosiva para sair do banco de reservas e mudar o panorama das partidas. Essa função pode sobrar para Ousmane Dembélé, que está em boa forma pelo Barcelona e tem drible e muita habilidade. Marcus Thuram e Randal Kolo Muani chegaram depois e tendem a ser mais usados, ambos com boa mobilidade.

Time-base: Hugo Lloris; Benjamin Pavard, Jules Koundé, Raphaël Varane e Theo Hernández; Aurélien Tchouaméni, Eduardo Camavinga; Adrien Rabiot, Kylian Mbappé e Antoine Griezmann; e Olivier Giroud. Técnico: Didier Deschamps  

>>> Confira análise de todas as seleções no canal de YouTube do Rafa Oliveira

Os donos do time

Quando Kylian Mbappé chegou à Copa do Mundo da Rússia, não era exatamente uma novidade. Havia ajudado o Monaco a ser campeão francês e fora contratado pelo Paris Saint-Germain por uma bala, transferência que na época gerou insatisfação na torcida do seu antigo clube e certa polêmica pela estrutura – empréstimo com obrigação de compra se a maior folha salarial da Ligue 1 não fosse rebaixada, para driblar o Fair Play Financeiro. Era, porém, um personagem que inspirava simpatia. Citou Albert Camus para responder às críticas da torcida do Monaco. Falava bem sobre questões sociais. Parecia inteligente, com a cabeça no lugar e uma boa estrutura familiar.

Durante o último ciclo, Mbappé passou de um explosivo jovem atacante a um dos melhores jogadores do mundo, capaz de ser o craque de um time que conta com Neymar e Lionel Messi. Entre os três, foi provavelmente o que, no geral, apresentou o nível mais alto com consistência desde a Rússia. O seu contrato estava chegando ao fim e parecia certo que assinaria com o Real Madrid. A foto em sua cama cercado por fotos de Cristiano Ronaldo era uma dica razoável do que passava pela sua cabeça. O PSG, porém, recusou propostas para vendê-lo, a um ano do vínculo acabar, e armou uma operação que envolveu até o presidente da França, Emmanuel Macron, para convencê-lo a ficar.

Foi bem sucedido, mas a que custo? A imprensa francesa noticiou que Mbappé recebeu poderes acima do normal para influenciar o destino do clube e, quando tentou exercê-los, criou problemas. Reclamou em público do técnico Christophe Galtier, que o utiliza mais como centroavante, dando liberdade para Neymar e Messi, do que Deschamps, que lhe permite circular mais. Chegou a haver rumores de que havia pedido para sair, meses depois de assinar novo contrato, e foi flagrado desistindo de uma jogada por não ter recebido o passe que queria.

Todo esse processo deixou Mbappé mais próximo de uma prima-dona do que do rapaz simpático e inteligente que parecia em seus primeiros anos no futebol profissional. Essas coisas são cíclicas no futebol, e sua imagem não chegou ao ponto de ser imutável, mas ele atrairá muito menos simpatia do que quatro anos atrás dos torcedores neutros. Pelo menos, segue comendo a bola. Depois de um começo mais devagar de temporada, marcou 19 gols em 20 partidas por todas as competições antes de se apresentar à seleção francesa, na qual também é um dos líderes.

Quem teve um ciclo complicado mesmo foi Antoine Griezmann. Todo mundo alertou que uma transferência para o Barcelona não era uma boa ideia porque seu estilo de jogo não se encaixava direito e o posicionamento batia com o de Messi. Ele insistiu e, depois de uma longa novela, realizou o seu sonho de trocar o Atlético de Madrid pela Catalunha. E aí, veja só você, não é que não deu certo mesmo? Passou a maior parte dos seus 102 jogos de azul-grená deslocado aos lados ou como centroavante porque quem tinha liberdade para fazer o que quisesse em campo era o argentino.

A saída também não foi exatamente honrosa. Durante todo aquele fatídico mercado em que perdeu Messi, o Barcelona tentou negociar Griezmann para ter uma chance de manter o seu maior ídolo. Não conseguiu e no fim se convenceu a deixá-lo retornar ao Wanda Metropolitano mesmo assim, por um valor que era bem mais baixo que os € 120 milhões que havia pago – e que no fim foi menor ainda. Foi uma decisão até contraditória porque talvez a saída de Messi finalmente destravasse o futebol de Griezmann.

Depois de dois anos perdidos, Griezmann estava de volta a um lugar que conhecia muito bem e onde foi feliz. Tinha um pouco de trabalho a fazer para recuperar as arquibancadas, que não curtiram a maneira como saiu, mas contaria com a confiança de Diego Simeone. Fez uma primeira temporada no máximo razoável e a atual começou simplesmente estranha. Durante os primeiros meses, o Atlético de Madrid limitou o tempo de Griezmann em campo a 30 minutos porque não queria acionar a cláusula de compra obrigatória de € 40 milhões se ele atingisse 50% dos minutos em que estivesse disponível durante o empréstimo. Essa situação absurda terminou no começo de outubro, aumentando o prejuízo que o Barça teve na operação, e com Griezmann assinando até 2026.

Mas os últimos quatro anos e meio de Griezmann não foram os ideais para chegar à Copa do Mundo na ponta dos cascos. Talvez seja a sua última no mais alto nível. A nota positiva é que, em campo, está melhor que na temporada passada e tem sido um dos poucos pontos positivos de uma campanha fraca do Atlético de Madrid. Na seleção, o moral segue intacto e ele ainda é titular absoluto. Por outro lado, poderia, sim, jogar um pouco melhor.

Nenhum jogador do elenco, porém, tem mais experiência com a seleção do que o capitão Hugo Lloris. Com 139 jogos, aliás, ele está prestes a superar Lillian Thuram como o jogador que mais vezes defendeu os Bleus. Isso deve acontecer nas oitavas de final se o goleiro do Tottenham não tiver nenhum problema físico. Sua história no time nacional começou em 2008 e ele é praticamente o titular desde então, incontestável debaixo das traves. No clube, sua trajetória foi um pouco mais errática. Houve períodos, desde que ele foi comprado do Lyon, em 2012, que os Spurs poderiam considerar se não era melhor contratar outro goleiro. Isso não é o caso no momento. Ele está em excelente forma, a melhor em muitos anos, e é uma fonte de segurança e liderança para a França.

(FRANCK FIFE/AFP via Getty Images/One Football)

As caras novas

Aurélien Tchouaméni não deu a mínima à responsabilidade de substituir Casemiro. E seria natural se tivesse se preocupado. Tem apenas 22 anos, não está há seis meses no Real Madrid e o volante brasileiro é um dos maiores ídolos de um dos maiores clubes do mundo. Acontece que Tchouaméni é bom pra caramba e provavelmente a sua presença no elenco contribuiu para que Florentino Pérez sancionasse a venda para o Manchester United porque o futuro estava garantido.

Formado nas categorias de base do Bordeaux, seus serviços foram assegurados por € 80 milhões, dinheiro que estava reservado para Mbappé e ficou livre quando o negócio pelo atacante do PSG naufragou. O Real Madrid venceu a concorrência do Liverpool pelo volante que defendeu o Monaco 95 vezes em duas temporadas e meia, com o grosso concentrado nos últimos dois anos, o que significa que disputou praticamente todas as partidas que poderia.

Estreou na seleção francesa em setembro de 2021 e estava ganhando espaço mesmo antes de ser confirmado que Deschamps não poderia contar com Kanté e Pogba, em condições ideais, a dupla de volantes titular. Mas a França pode ficar tranquila, como o Real Madrid ficou, porque o futuro está assegurado pela presença de Tchouaméni, que ainda tem muito espaço para crescer. Como o seu possível parceiro de meio-campo na Copa do Mundo do Catar, e colega de Bernabéu, Eduardo Camavinga.

Quem gosta de ficar antenado com o futebol europeu conhece Camavinga faz tempo. Ele é uma promessa precoce que ganhou suas primeiras chances pelo Rennes aos 16 anos. Ainda adolescente, tomou conta do meio-campo do seu clube e começou a chamar a atenção. Tanto de clubes mais ricos, quanto de Deschamps, que promoveu sua estreia ainda com 17 anos.

O Real Madrid passou à frente do PSG para contratá-lo, desembolsando por um reforço pela primeira vez em cerca de um ano e meio. Ele ainda é um projeto mais para o futuro do que Tchouaméni, até por ter menos idade. É titular menos vezes, mas costuma entrar nos jogos, e o clube espanhol espera que no futuro forme um trio de meio-campo que também terá Federico Valverde. Na seleção, fez apenas quatro jogos, mas os desfalques podem lhe dar boas oportunidades de impressionar no Catar.

Ninguém realmente entende como Theo Hernández chegou a essa altura da carreira com apenas sete jogos pela seleção francesa. Talvez Didier Deschamps tenha demorado para perceber que o lateral esquerdo não é espanhol, embora tenha começado a carreira naquele país pelo Atlético de Madrid antes de se transferir ao Real Madrid, no qual teve poucas chances. Talvez Deschamps não tenha acesso à Serie A, na qual Hernández voa pelo Milan desde que foi contratado, em 2019, mas principalmente nas últimas duas temporadas. Antes da explosão de Rafael Leão, ele era a principal arma ofensiva do time de Stefano Pioli, mesmo jogando, teoricamente, na defesa.

O mais provável é que as características super ofensivas de Theo não agradem muito o técnico mais cauteloso da França. Uma hora, porém, era impossível continuar a ignorá-lo, e a sua primeira convocação chegou em setembro de 2021. Bem no momento em que Deschamps tentava desenvolver o seu esquema com três zagueiros que oferece mais cobertura às subidas do ala esquerdo. No Catar, Deschamps usará linha de quatro na defesa, e seu histórico com o jogador do Milan permite duvidar se ele será realmente titular, ou se a preferência será por Lucas Hernández, seu irmão, com características mais defensivas. Mas continuar preterindo o melhor lateral esquerdo do mundo não seria uma grande ideia.

(VALERY HACHE/AFP via Getty Images/One Football)

O técnico

Didier Deschamps é um caso difícil. É complicado contestar que tem um tamanho gigante dentro do futebol francês. Levantou a Copa do Mundo em 1998 como capitão e a de 2018 como técnico. Seus feitos com a prancheta são impressionantes. Foi vice-campeão francês com o Monaco e finalista da Champions League. Depois, resgatou a Juventus, rebaixada à segunda divisão depois do escândalo do Calciopoli. Não foi tão fácil quanto parece. Em seguida, quebrou um longo jejum de títulos franceses de 18 anos do Olympique de Marseille e alcançou as quartas de final da Champions League com o clube francês. É um currículo que mais do que o legitimava para assumir a seleção francesa no lugar de Laurent Blanc, em 2012. Chegou às quartas de final da Copa do Mundo de 2014, até que jogando direitinho, e foi finalista da Eurocopa, dois anos depois. Na Rússia, foi campeão do mundo. Por que, então é tão criticado? Porque existe uma dissociação entre a qualidade do elenco que tem à disposição e o futebol que seu time tantas vezes joga. É verdade que o futebol de seleções não permite nada muito sofisticado, e a solidez defensiva é meio caminho andado, mas é constante a impressão de que a França pode fazer mais. Essa responsabilidade é principalmente dele, e o tempo está acabando para mostrar soluções.

Geografia do elenco

Talvez não haja seleção em que a geografia seja mais importante. A origem dos jogadores da seleção francesa foi muitas vezes usada pela extrema-direita para criticar a seleção e reforçar o estereótipo do francês ideal, diminuindo a herança africana. Ignorá-la é impossível. Três dos 26 convocados nasceram fora da França, dois no continente africano. E metade da delegação tem ligação com a África em sua árvore genealógica. Alguns, como Ousmane Dembélé, tem até três: o pai, com ascendência senegalesa, emigrou da Mauritânia, e a mãe, do Mali.

Steve Mandanda nasceu em Kinshasa, antigo Zaire e atual República Democrática do Congo. Um dos seus irmãos defende a seleção africana. Convocados de última hora, Axel Disasi e Kolo Muani também descendem de congoleses. Jules Koundé, de Benin. O presidente da Federação Camaronesa, Samuel Eto’o, tentou recrutar William Saliba, sem sucesso. Aurélien Tchouaméni também é descendente de camaroneses.

Upamecano poderia ter defendido a seleção de Guiné-Bissau antes de estrear pela França contra a Suécia, em setembro de 2020. Konaté é o segundo de oito filhos de um casal que emigrou do Mali, também a origem de Yossouf Fofana. Com a ajuda do seu ex-técnico Hervé Renard, a seleção marroquina tentou contar com Matteo Guendouzi. “Eu sempre joguei pelo time de base da França, então colocar uma camisa do time principal dos Bleus é um dos meus objetivos, é um sonho que tenho em mente”, disse, em entrevista ao L’Equipe.

Eduardo Camavinga também nasceu fora da França, em um campo de refugiados em Angola, de pais congoleses. Um ano depois, em 2003, eles se mudaram para a França, estabelecendo-se primeiro em Lille, depois na Bretanha. Quando ele tinha 11 anos, a casa onde a família morava com seus seis filhos pegou fogo. Sempre precoce, assim que recebeu a cidadania francesa, o volante do Real Madrid estreou pela seleção sub-19 da França.

Os principais craques da seleção francesa também têm origem em outros países. Mbappé tem sangue argelino, pelo lado da mãe, e camaronês, pelo do pai, e Antoine Griezmann tem herança portuguesa. Seu avô, Amaro Lopes, foi jogador do Paços de Ferreira. Mudou-se para a França nos anos cinquenta. Cleto e Heidi saíram das Filipinas e se estabeleceram nos arredores da Torre Eiffel, em Paris, onde tiveram Alphonse Areola. Varane, de Martinica, e Kingsley Coman, da Ilha de Guadalupe, são de territórios ultramarinos da França. Outro que foi chamado de última hora para completar a seleção foi Marcus Thuram. Seu pai, que é francês de Guadalupe, saiu de Mônaco para Parma, na Itália, em 1996, em busca de emprego: ser jogador do Parma. O filho de Lillian é o terceiro jogador que nasceu fora da França. Os avôs de Giroud, aliás, eram italianos.

Dentro da França, a maioria dos convocados é da região de Paris. Seis da própria capital, além de cinco dos subúrbios e três de cidades próximas ao noroeste. Griezmann e Giroud nasceram nos arredores de Lyon. A belíssima região sul foi a casa de Hugo Lloris, em Nice, e dos irmãos Lucas e Theo Hernández, em Marselha. Jean-François, pai dos dois garotos, era zagueiro do Olympique e levou os filhos bem novinhos para a Espanha, onde seguiu carreira. Varane e Benjamin Pavard são de Lille e Maubeuge, respectivamente, quase na fronteira com a Bélgica.

Onde jogam

A França tem o melhor elenco do mundo. A maioria dos seus jogadores atuam nas potências do futebol europeu. Nove estão em Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique ou Paris Saint-Germain, entre os que praticam os maiores salários do futebol. Cinco dos sete finalistas da Champions League nos últimos cinco anos enviaram pelo menos um francês à Copa. Ninguém atua fora das cinco grandes ligas, e o clube com menores ambições com um representante é o West Ham, que disputa a Conference League, o Rennes, que está em terceiro lugar na Ligue 1, ou o Borussia Mönchengladbach, que recentemente disputou a Champions.

O Bayern de Munique possui o maior contingente de franceses. São quatro, a maioria na defesa, com Dayot Upamecano, Lucas Hernández e Benjamin Pavard. O maior destaque é o ponta Kingsley Coman. O Real Madrid tem a dupla de volantes jovens que deve ser titular na ausência de Pogba e Kanté, Tchouaméni e Camavinga. O Barcelona conseguiu recuperar Ousmane Dembélé e acabou renovando o seu contrato. Também interceptou a saída de Jules Koundé que estava prestes a trocar o Sevilla pelo Chelsea. O Atlético de Madrid ainda conta com Antoine Griezmann.

O Milan também tem dois jogadores na seleção francesa. Theo Hernández está entre os melhores do elenco campeão italiano, e Olivier Giroud tem ajudado bastante, com experiência e gols em jogos decisivos. O terceiro elemento da Itália é Adrien Rabiot, que tem ganhado importância recentemente em meio à medíocre temporada da Juventus. Além do Bayern de Munique, a Bundesliga estará na Copa do Mundo com Marcus Thuram, do Gladbach, e Kolo Muani, do Eintracht Frankfurt, convocado para o lugar de Christopher Nkunku, do RB Leipzig. 

Conhecida por contratar muitas estrelas, a Premier League curiosamente tem jogadores franceses mais periféricos – com exceção de Hugo Lloris, o capitão do Tottenham e da seleção, e Raphaël Varane, um excepcional zagueiro que está se esforçando para não sucumbir ao moedor de craques do Manchester United. Ibrahima Konaté ainda está cavando seu espaço no time nacional e tentando ficar saudável para ser titular do Liverpool. Alphonse Areola foi contratado para preparar a sucessão de Fabianski no gol do West Ham, e William Saliba retornou ao Arsenal após uma sequência de empréstimos e está finalmente sendo utilizado.

O PSG, que expressou o desejo de tornar o seu time mais francês, ironicamente tem apenas um jogador na seleção: Mbappé. Parece que ainda tem trabalho a fazer nesse sentido. O Olympique de Marseille, com Guendouzi e Jordan Veretout, e o Monaco, com Axel Disasi e Youssouf Fofana, têm dois cada. O Rennes conta com a experiência de Steven Mandanda.

(THOMAS COEX/AFP via Getty Images/One Football)

Um herói em Copas

Todo mundo espera ter pelo menos um momento Miles Davis na vida.

Lillian Thuram foi um dos melhores defensores dos últimos 30 anos. Excepcional com as camisas de Monaco, Parma, Juventus e Barcelona, e também da seleção francesa, que defendeu 142 vezes. Em todo esse período, marcou apenas dois gols. É pouco, mesmo para um defensor. Não é possível que nunca tenha sobrado aquela bolinha pingando dentro da área após um escanteio. O que espanta nessa história, porém, não é isso: é quais gols foram esses. Thuram, que nunca havia marcado pela seleção, e nunca marcaria novamente, marcou duas vezes em uma semifinal de Copa do Mundo contra a Croácia para virar o jogo e garantir vaga na final que a França sediou em 1998.

Não foi uma campanha fácil para a França. Zidane foi expulso na fase de grupos. Precisou de prorrogação para superar Paraguai nas oitavas de final e de pênaltis para bater a Itália nas quartas. A Croácia de Suker e Boban era o último obstáculo para a decisão no Stade de France. A partida chegou empatada ao intervalo. Na preparação para o segundo tempo, Mario Stanic, então companheiro de Thuram no Parma, disse ao defensor francês: “Esse jogo é nosso”. Assim que a bola rolou, Suker recebeu nas costas da defesa e abriu o placar. Era Thuram quem lhe dava condição, todo torto na linha de impedimento.

Como se quisesse provar que Stanic estava errado, um possuído Thuram avançou pela direita, roubou a bola de Boban, tabelou com Djorkaeff e bateu na saída do goleiro para empatar, logo depois. Aos 25 minutos, subiu novamente, roubou outra bola, no bico da grande área, e soltou a bomba de perna esquerda para classificar a França à final da Copa do Mundo. “Foi como se eu estivesse em transe. Eu ainda não tinha me lembrado do que havia acontecido. Não conseguia. Precisei que (o técnico) Aime Jacquet e os outros jogadores me dissessem que vencemos”, disse, em entrevista ao Guardian, em 2007.

“Foi o que eu chamo de meu momento Miles Davis. Jogadores podem ser como artistas, quando a mente e o corpo estão trabalhando como um só. É o que Miles Davis faz quando toca jazz – tudo se junta em um momento intenso que é lindo. Ele não tem que pensar sobre isso. É puro instinto”.

Calendário

França x Austrália – 22/11 – 16h – Estádio Al Janoub
França x Dinamarca – 26/11 – 13h – Estádio 974
Tunísia x França – 30/11 – 12h – Estádio da Cidade da Educação

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubesGolsJogosLocal de nascimento
1GOLHugo Lloris26 de dezembro 1986 (35 anos)Tottenham Hotspur1390Nice, França
16GOLSteve Mandanda28 de maro 1985 (37 anos)Rennes340Kinshasa, Zaire
23GOLAlphonse Areola27 de fevereiro 1993 (29 anos)West Ham United50Paris, França
2DEFBenjamin Pavard28 de março 1996 (26 anos)Bayern de Munique462Maubeuge, França
3DEFAxel Disasi11 de março 1998 (24 anos)Monaco00Gonesse, França
4DEFRaphaël Varane25 April 1993 (age 29)Manchester United875Lille, França
5DEFJules Koundé12 de novembro 1998 (24 anos)Barcelona120Paris, França
17DEFWilliam Saliba24 de março 2001 (21 anos)Arsenal70Bondy, França
18DEFDayot Upamecano27 de outubro 1998 (24 anos)Bayern de Munique71Évreux, França
21DEFLucas Hernandez14 de fevereiro 1996 (26 anos)Bayern de Munique320Marselha, França
22DEFTheo Hernandez6 de outubro 1997 (25 anos)Milan71Marselha, França
24DEFIbrahima Konaté25 de maio 1999 (23 anos)Liverpool20Paris, França
6MEIMatteo Guendouzi14 de abril 1999 (23 anos)Olympique de Marseille61Poissy, França
8MEIAurélien Tchouaméni27 de janeiro 2000 (22 anos)Real Madrid141Rouen, França
13MEIYoussouf Fofana10 de janeiro 1999 (23 anos)Monaco20Paris, França
14MEIAdrien Rabiot3 de abril 1995 (27 anos)Juventus292Saint-Maurice, França
15MEIJordan Veretout1 de março 1993 (29 anos)Olympique de Marseille50Ancenis, França
25MEIEduardo Camavinga10 de novembro 2002 (20 anos)Real Madrid41Cabinda, Angola
7ATAAntoine Griezmann21 de março 1991 (31 anos)Atlético Madrid11042Macon, França
9ATAOlivier Giroud30 de setembro 1986 (36 anos)Milan11449Chambéry, França
10ATAKylian Mbappé20 de dezembro 1998 (23 anos)Paris Saint-Germain5928Paris, França
11ATAOusmane Dembélé15 de maio 1997 (25 anos)Barcelona284Vernon, França
19-------
20ATAKingsley Coman13 de junho 1996 (26 anos)Bayern de Munique405Paris, França
26ATAMarcus Thuram6 de agosto 1997 (25 anos)Borussia Mönchengladbach40Parma, Itália
12ATARandal Kolo Muani5 de dezembro 1998 (23 anos)Eintracht Frankfurt20Bondy, França
Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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