Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo C: Argentina

Leve pela quebra do jejum de títulos, a Argentina buscará o título na última dança de Lionel Messi na Copa do Mundo

Este texto faz parte do Guia da Copa do Mundo 2022. Clique aqui para ler os outros.

* Texto atualizado após os cortes de Joaquín Correa e Nico González

Faz tempo que a Argentina não vive tamanha empolgação às vésperas de uma Copa do Mundo. Mesmo o time de 2014, muito bem treinado por Alejandro Sabella e que terminaria como vice-campeão, não carregava tamanha esperança de seus compatriotas. Neste século, o ânimo talvez só não seja maior que em 2002 – quando, apesar da decepção posterior, de fato a campanha dominante nas Eliminatórias vinha respaldada por diversos nomes de peso. Aquele elenco podia ser mais estrelado que o atual, mas não com um Lionel Messi levíssimo, para atravessar seu melhor período com a Albiceleste. E o que auxilia agora é a qualidade de jogo implementada por Lionel Scaloni, com companheiros dispostos a se esfolarem por seu craque, mas também melhores tramas coletivas. É verdade que faltam testes de mais peso contra adversários de outros continentes, mas a Finalíssima diante da Itália serviu de ótimo aperitivo. Além disso, a primeira fase acessível no Grupo C afasta o temor de uma eliminação precoce, tal qual em 2002. Desta maneira, a Scaloneta ainda pode ganhar corpo no Mundial, antes dos embates mais duros. Os argentinos certamente figuram num Top 5 de favoritos, talvez num Top 3 – e com razão.

Como foi o ciclo até a Copa

A Argentina não sabe o que é derrota há 36 partidas. Igualou o recorde histórico de uma seleção sul-americana e está a um jogo de abocanhar também o recorde mundial. Não é pouco, e representa principalmente a virada experimentada pela Albiceleste nos últimos dois anos. Afinal, a bagunça que assolou o time na Copa do Mundo de 2018 não seria facilmente resolvida. Depois que a equipe se despediu da Rússia com a derrota para a França e Jorge Sampaoli deixou o comando depois de meses sem conexão com os vestiários, a AFA não tinha uma solução de peso para seu comando técnico. Não que faltassem treinadores argentinos renomados, muito pelo contrário, mas ninguém se mostrava tão disposto a largar seus legados em clubes para se aventurar na seleção.

Lionel Scaloni assumiu o comando de maneira interina, como ex-assistente de Sampaoli e treinador do sub-20. Contou com uma comissão técnica formada por outros veteranos da seleção – incluindo nomes como Pablo Aimar, Walter Samuel e Roberto Ayala. Mas não que o clima tenha mudado de imediato na Albiceleste, de início com Messi ausente das listas, em time encabeçado por Paulo Dybala e Mauro Icardi. O primeiro teste de fogo, a Copa América de 2019, não empolgou mesmo com o retorno de Messi. A Albiceleste perdeu da Colômbia e empatou com o Paraguai, até engatar a classificação diante do Catar e passar pela Venezuela. O único momento digno de nota foi o espírito de luta na semifinal contra o Brasil. Scaloni permaneceu, mesmo quando muita gente dizia que não era qualificado ao cargo.

A sequência da Argentina melhorou depois disso. Houve uma vitória no superclássico em Riyadh contra o Brasil, enquanto o início das Eliminatórias guardou placares magros, mas positivos. Isso até que o ponto de virada se tornasse a Copa América de 2021, um torneio que ainda mexeu com os brios do elenco, quando originalmente seria realizado no país. Não seria também uma campanha de início tão notável, mas dava para perceber como Messi era a estrela ao redor da qual orbitava o time. A Albiceleste ganhou confiança e passou por semifinais duras contra a Colômbia, até a decisão contra o Brasil. Num jogo muito pegado, os argentinos venceram no Maracanã com a pintura de Ángel Di María e o céu se abriu de vez. O jejum de mais de duas décadas não pesava mais às costas.

As cenas da comemoração daquela Copa América são bastante emblemáticas, por toda a festa ao redor de Lionel Messi. E ali o time também encontrou uma identidade de jogo, que unia um senso coletivo aguçado à intensidade característica dos argentinos. Foi quando, de fato, a Scaloneta deslanchou. O nível das atuações nas Eliminatórias melhorou e as vitórias se tornaram mais elásticas. As faíscas voltaram a se notar contra o Brasil, entre o duelo impedido pela Anvisa e o empate sem gols de muita fibra dos dois lados em San Juan. Já o triunfo recente sobre a Itália na Finalíssima, mesmo que a Azzurra não vá ao Catar, pareceu sublinhar o favoritismo da Albiceleste. Há um time formado, há um futebol com diversas virtudes, há bons jogadores em todos os setores e há um craque supremo em busca da glória que falta.

“Messi, queremos vê-lo campeão do mundo!” (Foto: EITAN ABRAMOVICH/AFP via Getty Images/One Football)

Como joga

A Argentina não é uma seleção tão inventiva do ponto de vista tático. Lionel Scaloni variou suas escalações entre o 4-3-3 e o 4-4-2 durante a atual guinada da Albiceleste. O sistema com duas linhas, que funcionou na decisão da Copa América contra o Brasil, parece o mais provável do Mundial. Mais importante é a maneira como Messi se sente cômodo e têm liberdade no encaixe. Ainda é o mais propenso a resolver, mas não precisa assumir a responsabilidade sozinho e tem companheiros que parecem se empenhar mais pelo camisa 10. Além disso, o crescimento da Albiceleste nos últimos anos se dá por alguns achados no elenco. Jogadores que fortaleceram setores antes fragilizados e alguns que parecem até crescer na equipe nacional, diante daquilo que apresentam nos clubes.

Em campo, a Argentina é um time que sabe trabalhar bem a posse de bola, mas possui momentos em que acelera seu jogo e incomoda bastante os adversários. Os períodos de pressão não são necessariamente contínuos, mas eles explicam os placares elásticos construídos na atual sequência invicta. A Albiceleste conta com um sistema defensivo mais seguro, com pegada no meio-campo e alternativas melhores na linha de zaga. Enquanto isso, possui a capacidade de acelerar na frente, enquanto Messi manda prender e soltar, com sua visão de jogo e seu poder de decisão. Mais importante é a maneira como os argentinos deixaram para trás a falta de confiança, que pareceu imperar em momentos cruciais na última década, sobretudo nas finais perdidas. Há uma leveza maior que ajuda, até por espantar as persistentes cobranças por falta de título. O jejum na Copa é longo e pode gerar outras pressões, mas não a ponto do que se viu em ciclos recentes.

O primeiro ponto positivo da Argentina é ter achado um goleiro. Emiliano Martínez está entre os melhores da Premier League, e auxilia também a sua personalidade, de quem cresceu em momentos decisivos e principalmente nos pênaltis. É o camisa 1 seguro que há muito, muito tempo, não se via na Albiceleste. Os laterais não são de outro mundo, mas há segurança em Nahuel Molina pela direita e Nicolás Tagliafico (ou Marcos Acuña) pela esquerda. São funcionais, mesmo que o momento nos clubes não inspire tantos amores. Já no miolo de zaga a situação melhorou bem. Nicolás Otamendi continua como titular por ser uma liderança, até ajudado pelo início de temporada fantástico do Benfica, onde é capitão. Ainda assim, o crescimento se dá pelos outros nomes. Ao seu lado há a companhia de Cristian Romero, um monstro na seleção. E não surpreenderia se Lisandro Martínez ganhasse a posição, pela forma como cresce nas últimas temporadas e desponta com a camisa do Manchester United.

O meio-campo da Argentina não é tão talentoso quanto em outros tempos, mas preserva uma boa dose de raça. Rodrigo de Paul é o nome principal, mesmo que não emplaque no Atlético de Madrid. Marca forte e também tem passe na organização. Costuma ser o preferido de Scaloni, geralmente com a companhia de Leandro Paredes na faixa central. O volante atravessa um início apagado na Juventus, inclusive com problemas de lesão, mas não parece ser isso a colocar em xeque sua titularidade. Se necessário, Guido Rodríguez é um dos principais jogadores do Betis e pode entrar por ali.  Vale ficar de olho ainda em Enzo Fernández e Alexis Mac Allister, dois jovens que podem crescer pelo que vinham fazendo no início da temporada, com Benfica e Brighton.

Já pelos lados, Giovani Lo Celso é o desfalque mais sentido da Argentina. O meio-campista tinha um papel importante para o funcionamento da equipe e era outro melhor na Albiceleste do que no Villarreal. Substituí-lo vai ser difícil. Papu Gómez é mais agressivo e a fase no Sevilla não o ajuda. Não surpreenderá se alguém mais combativo for adaptado, a exemplo de Enzo Fernández, Alexis Mac Allister ou então Exequiel Palacios, surpresa da lista final. Mac Allister foi o testado como titular no último amistoso preparatório. Talvez seja uma escolha mais lógica se na direita quem aparecer for Ángel Di María, menos marcador. O veterano, de qualquer maneira, é um diferencial pela técnica e pelo recorrente poder de decisão. Na hierarquia, apenas Messi se coloca acima. Só precisa estar em boas condições físicas.

O ataque da Argentina tem menos opções que em Copas recentes, e isso pode ser favorável. Messi continua livre para flutuar e ser o grande protagonista do time. Tem um ótimo parceiro em Lautaro Martínez, mais fulminante, numa parceria que rende frutos no atual ciclo. Os dois se entendem bem e não têm qualquer problema de encaixe, até pela mobilidade de ambos. Se necessário, ainda há opções como Julián Álvarez e Paulo Dybala, que permitem variações e a montagem de um tridente na frente. Há menos estrelas, como nos tempos de Sergio Agüero e Gonzalo Higuaín, mas também menos cobranças sobre o rendimento. Álvarez pode deslanchar de vez, como já se via ao longo dos últimos compromissos da Albiceleste. Dybala também merece um olhar especial pela forma como vinha carregando a Roma no início da temporada, até ser atrapalhado por uma lesão. É quem serve de alternativa a Messi.

De última hora, ainda chegou Ángel Correa, que já viveu momentos melhores no Atlético de Madrid e ganhou a vaga após o corte de Nico González, nome importante em parte do ciclo por seu trabalho pelas pontas. Joaquín Correa, que marcou até gol no último amistoso contra os Emirados Árabes, foi outro cortado. Com isso, Thiago Almada virou o caçula do grupo e funciona mais na criação. O antigo xodó do Vélez está nos Estados Unidos e rendeu bem pelo Atlanta United, o que garantiu espaço na Albiceleste.

Time base (4-4-2): Emi Martínez, Molina, Romero, Otamendi, Tagliafico; Di María, Paredes, De Paul, Mac Allister (Enzo Fernández); Messi e Lautaro.

>>> Confira análise de todas as seleções no canal de YouTube do Rafa Oliveira

Messi com a taça da Copa América (Foto: Alexandre Schneider/Getty Images/One Football)

Donos do time

A Argentina tem um nome supremo para a Copa do Mundo, e não há dúvidas que é Lionel Messi. O camisa 10 vai para o quinto Mundial de sua carreira, o último, aos 35 anos. Porém, mesmo que o auge físico da lenda tenha passado, não é exagero dizer que o atacante chega em suas melhores condições para a competição. Alguns fardos importantes ficaram para trás, como o da falta de títulos pela equipe nacional ou aquele que fazia muitos companheiros sobrecarregarem o craque em momentos decisivos. O atual time, mais solidário, auxilia bastante Messi. E, pela primeira vez em sua carreira, a melhor versão do atacante não está mais no clube, e sim na Albiceleste, por mais que o rendimento neste semestre pelo PSG tenha garantido atuações mágicas.

Messi continua decidindo muitos jogos da Argentina. Os próprios números dizem isso. Foram nove gols anotados pela Albiceleste em 2021 e já são mais dez em 2022, só abaixo dos 12 de 2012 em sua história pela equipe nacional. Entretanto, não se mostra mais o time que precisa entregar a bola ao craque para resolver. Prova disso é vê-lo também assumir uma função de maestro, mais solto para organizar os avanços e contribuir também com muitas assistências, além dos dribles que desmontam a marcação. Foi o que se notou, por exemplo, na Copa América de 2021 ou na Finalíssima contra a Itália.

A experiência ajuda Messi, embora a Copa do Mundo signifique outro tipo de pressão. O craque até possui uma Bola de Ouro do torneio, em escolha questionável da Fifa em 2014, mas não dá para dizer que seu melhor futebol é tão frequente no Mundial. Talvez a leveza recente se perca no Catar. Entretanto, há motivos para acreditar que o veterano talvez entregue sua melhor Copa exatamente na última participação, pelo conjunto que possui ao redor e também pela maneira como vem atuando dentro dessa engrenagem. A lenda parece consciente de que será sua última oportunidade e não quer deixar escapar, embora, é claro, o sucesso da empreitada não dependa só de si – como transpareceu em outras Copas.

Quem merece um elogio especial, ao lado de Messi, pelo protagonismo na Argentina é Ángel Di María. Vai para a sua quarta Copa do Mundo e poucos jogadores na história da Albiceleste conseguiram ser tão decisivos em momentos de peso. O Fideo foi herói em Olimpíadas, desequilibrou em Eliminatórias, rompeu o grito na recente Copa América. E, por talento, possui uma série de recursos inesgotáveis. Sempre foi o melhor coadjuvante de Messi na equipe nacional, com sobras, e fez falta também em momentos importantes – mais notadamente, quando se lesionou durante o Mundial de 2014, quando era um dos melhores do time. É outro preparado para uma consciente despedida, aos 34 anos.

Além da velha guarda, a Argentina tem novos protagonistas, que devem conduzir a seleção depois da Copa do Mundo. Lautaro Martínez não recebe tanto cartaz, mas não é exagero colocá-lo entre os melhores atacantes do mundo. Possui um estilo de muita energia e explosão que rende um destaque inegável na Internazionale há quatro anos. E que também serve bastante à seleção. De ausência sentida em 2018, Lautaro virou certeza logo nos primeiros compromissos sob as ordens de Scaloni. Tornou-se o parceiro ideal para Messi e desafogou a equipe em momentos ruins, enquanto contribuiu para as boas novas. Acaba naturalmente ofuscado, mas é alguém que pode impactar no Mundial.

Mais atrás, há uma espinha dorsal que, mesmo formada por coadjuvantes, não pode ser ignorada. Emiliano Martínez é daqueles goleiros que intimidam os atacantes e batem no peito depois dos milagres. Tem um estilo de jogo impositivo, que é importante pra o crescimento recente da Argentina. Vai para a sua primeira Copa do Mundo. A personalidade também é uma característica que auxilia Cristian Romero, um zagueiro de qualidade, mas que não se furta a chegar firme e falar grosso quando necessário. Tem jogado muita bola com a Albiceleste. Preocupam apenas as questões físicas, com lesão recente no Tottenham. Já Rodrigo de Paul é o operário que toda equipe precisa, quando veste a camisa da seleção. Acelera o jogo e contribui bastante ao funcionamento, presente em todos os cantos. Foi o melhor em campo na final da Copa América e é outro que parece não se intimidar com seu primeiro Mundial. Neste caso, as dificuldades no Atlético de Madrid nem parecem importar tanto.

Lisandro Martínez, da Argentina (Foto: uan Manuel Serrano Arce/Getty Images/One Football)

Caras novas

A Argentina é uma seleção que se renovou bastante em relação à Copa do Mundo de 2018. Os problemas internos contribuíram, assim como o surgimento de ótimos jogadores – alguns até promovidos ao tópico acima. Outros ainda podem garantir seu espaço na equipe nacional. Um deles é Lisandro Martínez. Otamendi é o titular pelo lado esquerdo no miolo de zaga, com muita tarimba e mais presença física. Talvez a falta de estatura prejudique o jovem de 24 anos, mas na bola ele já se mostrou capaz de atuar em alto nível. O início no Manchester United é conturbado pela fase do time, mas não pelas exibições individuais do beque trazido do Ajax. O fato de poder atuar em diferentes funções ainda pode ajudar em variações.

Uma das novidades recentes das convocações de Lionel Scaloni, Enzo Fernández pede passagem. Chegou tarde demais para brigar pela titularidade em sua posição principal, até pela maneira como os cabeças de área dão sustentação ao esquema de Scaloni, mas deve ganhar minutos. O garoto de 21 anos chegou e mostrou serviço nos amistosos recentes, com ótima chegada à frente e dinamismo. Já vinha gastando a bola no River Plate e não sentiu a mudança rumo ao Benfica. Outro que pode entrar nas partidas, e merece menção pelo que faz na Premier League, é Alexis Mac Allister. O volante virou um dos melhores jogadores do Brighton na boa largada da temporada e também fica como uma carta na manga a Scaloni. É um nome forte para ganhar a vaga deixada por Lo Celso na meia esquerda. Ainda honra o sobrenome da família num Mundial: o pai Carlos Mac Allister disputou apenas três partidas pela Albiceleste, incluindo os dois duelos contra a Austrália na repescagem para a Copa de 1994. Apareceu até no álbum da Panini, mas não viajou para os Estados Unidos. O filho acaba por cumprir seu sonho.

Já no setor ofensivo, as expectativas maiores ficam por conta de Julián Álvarez, que provavelmente será o reserva imediato no ataque. Depois de arrebentar no River Plate, a concorrência de Erling Braut Haaland ainda faz com que o jovem busque minutos no Manchester City, mas a mobilidade combinada com o poder de fogo facilita seu encaixe na Albiceleste. Não à toa, virou titular em compromissos recentes e correspondeu com gols. Sem Lautaro, entendeu-se bem com os companheiros no amistoso contra os Emirados Árabes.

Lionel Scaloni, técnico da Argentina (Foto: FRANKLIN JACOME/POOL/AFP via Getty Images/One Football)

Técnico

Lionel Scaloni chegou ao comando da seleção da Argentina sem grande bagagem. Nunca tinha comandado uma equipe principal, limitado ao posto de assistente de Jorge Sampaoli desde o Sevilla. Também não era o ex-jogador que causava frisson por seu passado com a Albiceleste, embora fosse reserva na Copa de 2006. Virou uma aposta por falta de opções no segundo semestre de 2018 e se tornou o nome certo por crescer com o time. Scaloni conseguiu tornar o simples bastante sofisticado com a Albiceleste, graças aos jogadores que tem em mãos. Mais importante, soube gerir o ambiente e extrair o melhor do time a partir disso.

A maneira como conseguiu resgatar o grupo depois do que viu de perto em 2018 é um mérito inegável de sua trajetória. E isso resultou numa guinada, que, obviamente, respaldou mais e mais seu nome antes do Mundial de 2022. Scaloni desembarca no Catar com contrato renovado até 2026, um reconhecimento pela forma como de fato trabalhou bem com a equipe nacional. Ainda batiza a “Scaloneta”, que deixa a marca de alguém visto com justa desconfiança a princípio, mas que conseguiu algo que outros técnicos badalados não foram capazes. Ainda falta o grande teste, na Copa do Mundo, mas teve um sucesso maior que muita gente badalada que o antecedeu.

A geografia do elenco

A população da Argentina se concentra sobretudo nos arredores de Buenos Aires. A Cidade Autônoma de Buenos Aires possui 2,9 milhões de habitantes e a Província de Buenos Aires, que abarca outras cidades importantes, soma mais 15,6 milhões de pessoas. É o equivalente a cerca de 40% do total de argentinos. A proporção na seleção é até maior, especialmente pela força do futebol na capital, o que auxilia na formação de talentos. São dez jogadores da Grande Buenos Aires, mais dois da vizinha La Plata. Cidades mais afastadas, mas ainda dentro da província, Bahía Blanca tem dois atletas e Mar del Plata mais um.

Segunda maior província em população, e com a segunda cidade mais populosa do país, Córdoba também aparece na sequência da lista com quatro jogadores. Santa Fe é a terceira na população e também em convocados, com três. Entre os santafesinos, Rosário só tem três representantes, mas é o coração da Albiceleste com Lionel Messi e Ángel Di María, além de Ángel Correa. Giovani Lo Celso ainda poderia engrossar esse grupo se não tivesse sido ausência na lista final.

O restante dos jogadores está mais difuso no mapa. Exequiel Palacios nasceu mais ao norte no país, na província de Tucumán. Lisandro Martínez vem de Paraná, mais próximo das fronteiras com Uruguai e Brasil. Marcos Acuña é de Neuquén, perto da fronteira com o Chile – onde, mais ao norte, chama atenção a ausência de mendocinos. E numa região mais central há Alexis Mac Allister, de La Pampa, onde seu pai, o ex-jogador Carlos Mac Allister, fundou um clube para formação de talentos ao lado do irmão. Não à toa, três filhos do veterano “Colorado” viraram também profissionais.

Obviamente, grande parte da seleção argentina é composta por descendentes de espanhóis e italianos. Não à toa, muitos jogadores têm passaportes desses países, com destaque a dez atletas com dupla nacionalidade italiana. Já outras correntes migratórias são representadas pontualmente. Paulo Dybala e Juan Foyth possuem familiares de origem polonesa. Já Alexis Mac Allister é descendente de escoceses e irlandeses, mas em linhagem um pouco mais distante.

Onde jogam

A seleção da Argentina está baseada nos clubes europeus. Com as dificuldades econômicas do país e mesmo a falta de organização do Campeonato Argentino, os talentos saem cada vez mais cedo. Franco Armani é a exceção, único convocado em atividade no país. Protege a meta do River Plate, enquanto o clube até revelou bons talentos nos anos recentes, mas que rumaram à Europa.

Espanha e Itália são ligas europeias onde o talento argentino historicamente emana. Não é diferente na atual equipe, com dez em atividade na liga espanhola e quatro na italiana – seriam seis, não fossem os cortes de Joaquín Correa e Nico González. Os clubes da Serie A possuem um peso grande do meio para frente, ainda mais depois de levarem Paredes e Di María na janela. O ataque conta também com os serviços prestados por Lautaro Martínez na Internazionale. Já a Espanha se nota mais do meio para trás, e com a convocação de jogadores que atuam em equipes fora do glamour de Barça e Real. O Sevilla e o Atlético de Madrid encabeçam a lista com três cada, além de dois para Betis e para Villarreal.

Já a Premier League, apesar de ser a grande potência econômica, influencia um pouco menos. São cinco atletas. Há alguns jogadores em ascensão nos clubes ingleses, com Emiliano Martínez e Cristian Romero servindo de principais destaques entre os titulares, mas é um impacto menor do que o ocorrido no Brasil, por exemplo. Já a França só tem mais brilho na conta por causa de Messi, depois da mudança para o Paris Saint-Germain, ao lado de Nicolás Tagliafico, no Lyon. Exequiel Palacios é o representante solitário da Bundesliga. Fica a menção também a Portugal, graças ao Benfica, de Otamendi e Enzo Fernández. Ao chegar de última hora, Thiago Almada colocou a MLS no mapa, através do Atlanta United.

Olhando para trás, demorou para que os jogadores de clubes estrangeiros dominassem a convocação da Argentina. Eles só apareceram pela primeira vez na Copa de 1974, mas aos montes – eram três na Espanha, um na França, um em Portugal e até um no Brasil, o capitão Roberto Perfumo, do Cruzeiro. O time campeão de 1978 só tinha o artilheiro Mario Kempes na Espanha. Já em 1982, havia um convocado na Espanha, um na Itália e um na Inglaterra. Isso até que o mercado se abrisse de vez a partir de 1986, com três na Itália, dois na Espanha, um na França e um no México.

O time da Argentina na Copa de 1990 foi o primeiro com mais jogadores fora do que dentro do país. Eram 14 atuando no exterior, com sete na endinheirada Itália, mas gente até no México e na Colômbia. O número baixou para 11 em 1994, incluindo jogadores do Chileno e do Japonês. Foram 14 em 1998, com destaque alternativo ao Suíço. Em 2002, 21 dos 23 estavam no exterior, somando à lista o Escocês – e com o Brasil de novo representado por Sorín, do Cruzeiro. Em 2006 foram mais 20 forasteiros, número que caiu para 17 em 2010. E a média se manteve parecida mais recentemente, entre os 20 de 2014 e os 19 de 2018. Os 25 de 2022, de qualquer maneira, estabelecem o novo teto.

Maradona no gol da Argentina contra a Inglaterra na Copa de 1986 (Imago / OneFootball)

Um herói em Copas

A Argentina não tem um mero herói em Copas, mas sim um verdadeiro ‘Dios’. Diego Armando Maradona traduz o que o futebol representa ao seu povo da maneira mais divina e mais carnal. É o garoto do potrero, os campinhos de terra batida, que saiu da pobreza para se tornar uma lenda aos olhos de todos os compatriotas. E o Mundial se tornou o Olimpo de Diego, ao mesmo tempo em que também marcou os seus calvários de diferentes maneiras. A gratidão por aquilo que aconteceu em 1986, entretanto, é algo eterno para os argentinos. A essência.

A relação de Maradona com Copas começa na ausência de 1978, quando o prodígio já era adorado no país, mas terminou vendo de longe a primeira conquista da seleção. Em 1982 ele chegaria badalado, como jogador do Barcelona, mas sucumbiu diante do destempero e da agressão contra o Brasil. A transferência ao Napoli quando o camisa 10 convivia sob sérios questionamentos começa a marcar a sua redenção. Mas é o que acontece no México que realmente coloca Diego num pedestal inalcançado por qualquer outro argentino.

Maradona se preparou especialmente para a Copa do Mundo de 1986. Vivia o seu auge técnico e também o seu auge físico. Tinha uma equipe valente ao seu redor, com talentos pontuais que também o ajudavam. Mas, se necessário, ele fazia tudo sozinho. Isso aconteceu várias vezes e pavimentou o caminho do bicampeonato. As atuações contra Uruguai e Bélgica nos mata-matas são assombrosas, mas nada que lavasse a alma como o triunfo sobre a Inglaterra, depois da guerra, com gol de mão e gol do século. Isso até que na dura final contra a Alemanha Ocidental o maestro fizesse a orquestra tocar e pudesse levar a taça para casa. Era uma cena que estava fadado a viver.

Em 1990, sem as melhores condições físicas, Maradona armou uma guerra com todos. Encontrou uma fresta contra o Brasil e desbancou a Itália no seu San Paolo, antes da amarga derrota na revanche alemã. Já em 1994, de volta da suspensão e salvador nas Eliminatórias, Diego começou voando nos Estados Unidos. Logo se descobriu, porém, que outras substâncias o ajudavam. A cena de mãos dadas com a enfermeira encerrou sua trajetória como atleta nas Copas. Ainda assim, não manchou seu bolão em 1986.

Ainda houve a versão de Maradona como treinador em 2010, num trabalho fraquíssimo. Em 2018, o veterano já parecia uma entidade nas arquibancadas, o que também não inspirou uma cambaleante argentina. Esta será a primeira Copa do Mundo em que o Dios dos torcedores argentinos não verá o torneio no plano terreno. E muita gente acredita que os céus voltaram a se abrir para a Albiceleste nos últimos meses com uma forcinha do além. Diego olha por seus pupilos.

Calendário

Argentina x Arábia Saudita – 22/11, 10h
Argentina x México – 26/11, 16h
Argentina x Polônia – 30/11, 16h

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de nascimento
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo