Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo B: Irã

Com o retorno de Carlos Queiroz, o Irã conta com estrelas como Taremi e Azmoun para tentar surpreender na Copa do Mundo

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O Irã está entre as seleções mais tradicionais da Ásia, mas nunca havia desfrutado de uma sequência tão grande em Copas do Mundo. Os persas se classificaram pelo terceiro Mundial consecutivo, e sempre com sobras na fase decisiva das Eliminatórias, algo que se repetiu ao longo desse ciclo mais recente. Não que o ambiente esteja tranquilo no Time Melli, porém. A decisão de demitir o técnico Dragan Skocic e recontratar Carlos Queiroz antes da última Data Fifa agitou os bastidores iranianos, até pela maneira como tudo aconteceu. O Irã indicou a mudança, recuou e depois a confirmou em setembro. De positivo, ao menos, há a experiência do português nas duas últimas Copas com a equipe e a maneira como conhece todo o grupo de jogadores. As perspectivas de classificação existem, pelo cenário equilibrado no Grupo B. Entretanto, o envolvimento político de alguns jogadores nos protestos recentes ocorridos no país, por maiores liberdades às mulheres, também gerou debate e parece influenciar na preparação à Copa do Mundo.

Como foi o ciclo até a Copa

Apesar da eliminação na fase de grupos da Copa do Mundo de 2018, o Irã deixou a competição com uma boa reputação. O estilo defensivo aplicado por Carlos Queiroz não era nenhuma novidade, mas o Time Melli conseguiu amarrar jogos grandes e se aproximou da classificação numa chave que tinha Espanha e Portugal – e com direito a vitória sobre Marrocos, após 20 anos sem ganhar em Mundiais. Com alguns destaques ainda jovens, dava para imaginar que os persas evoluíssem em recursos ofensivos durante os anos seguintes. Entretanto, não seria um ciclo tão linear quanto se esperava, mesmo que alguns bons jogadores tenham ido se experimentar na Europa.

Depois de uma sequência invicta em amistosos no segundo semestre de 2018, o Irã teve outro compromisso de peso em janeiro de 2019, com a realização da Copa da Ásia. Pelo futebol apresentado nos anos anteriores, os persas pintavam entre os favoritos da competição e começaram dispostos a justificar a badalação. Passaram com tranquilidade pela fase de grupos, antes das classificações sobre Omã e China nos mata-matas. Todavia, a semifinal diante do Japão seria cruel com os iranianos. A equipe teve problemas de desatenção e os Samurais Azuis anotaram 3 a 0. Não se negava a ponta de decepção à equipe que permanece desde 1976 sem levar o troféu continental.

As mudanças seriam mais profundas nesta sequência. Carlos Queiroz encerrou um trabalho de oito anos à frente do Irã e Marc Wilmots acabou escolhido para substituí-lo. Era um treinador de mais cartaz do que de qualidades comprovadas, e se provaria um erro. O belga não se encaixou, com derrotas para Bahrein e Iraque na segunda etapa das Eliminatórias para a Copa de 2022. Foi demitido com seis partidas, para a aposta em Dragan Skocic, de trabalhos no próprio futebol iraniano. Seria ele o responsável por recobrar a sequência positiva. Em recuperação, os persas se classificaram na liderança do grupo rumo à terceira fase, a principal.

Quando a fase decisiva das Eliminatórias começou, já no segundo semestre de 2021, o Irã pegou embalo. Não apresentava a defesa infalível do ciclo anterior e teve dificuldades contra a Coreia do Sul, principal concorrente da chave. Entretanto, a imposição contra os demais adversários rendeu uma pontuação até maior que no qualificatório de 2018 e melhores números ofensivos. A vaga na Copa se confirmou sem muitos sobressaltos, embora o nível das demais seleções tenha sido bastante discrepante. A missão estava cumprida, de qualquer maneira, por mais que alguns dirigentes não confiassem por completo em Skocic.

E quando a situação do Irã parecia solidificada para a Copa do Mundo, eis que aconteceu o imbróglio no comando técnico. Foi até vergonhosa a postura dos cartolas. Skocic foi demitido inicialmente em julho e, seis dias depois, diante da reação pública, readmitido. Porém, ficava claro como o técnico não gozava de confiança interna, enquanto a saída de Carlos Queiroz do Egito se tornava uma sombra gigantesca ao trabalho do sérvio. Em setembro, enfim, as eleições da federação permitiram o movimento definitivo. Skocic perdeu o emprego com um aproveitamento assombroso de 83%, para que Queiroz retomasse as rédeas do grupo que conhecia tão bem, três anos depois de sua saída, sem emplacar à frente da Colômbia ou do Egito.

O único amistoso de Skocic depois das Eliminatórias teve derrota do Irã para a Argélia. Já na Data Fifa de setembro, Carlos Queiroz reiniciou seu trabalho com bons resultados, ao derrotar o Uruguai e empatar com Senegal. Os traços daquele time bastante defensivo e com escapadas diretas ao ataque estavam claros. Mas também foram partidas nas quais o debate no país sobre a morte da jovem curda Mahsa Amini, reprimida pela polícia religiosa por não usar corretamente seu véu, influenciou o ambiente interno e causou manifestações nas arquibancadas. O atacante Sardar Azmoun foi a principal figura do time a se posicionar nas redes sociais, contra a repressão às mulheres, embora tenha deletado a mensagem depois. Isso causou rumores sobre seu corte às vésperas da Copa, especialmente após os adiamentos da coletiva de imprensa de Carlos Queiroz para anunciar a lista final. O jogador vai para o Catar, mas existem dúvidas sobre como está a relação interna com os dirigentes.

Sardar Azmoun, do Irã (FARSHAD ABBASI/AFP via Getty Images)

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Como joga

Carlos Queiroz possui um histórico longo na seleção iraniana e dificilmente mudará as bases de seu trabalho anterior, ainda mais com uma margem de manobra pequena. Ao longo do ciclo anterior, o português confiava num 4-1-4-1, de linhas de marcação bastante compactas. Por vezes os persas afundam tanto seus jogadores no campo de defesa que os pontas recuados criam uma linha de seis homens na zaga, algo que chamou muita atenção na Copa de 2018. Já no ataque, a aposta é num estilo mais direto, de lançamentos longos para o homem de referência e contra-ataques rápidos. Como não houve grandes mudanças em termos de nomes, dificilmente o português fará algo diferente.

O próprio Skocic já vinha utilizando o 4-1-4-1 na reta final das Eliminatórias. O sérvio até buscou algumas modificações no sistema, ora com o 4-2-3-1, ora com o 4-4-2. São variações interessantes para acomodar jogadores específicos, como numa eventual dupla de ataque composta por Sardar Azmoun e Mehdi Taremi. E esse tipo de opção pode ser interessante durante a Copa do Mundo, na tentativa de explorar fragilidades dos adversários mais acessíveis, como Gales e Estados Unidos.

A escalação do Irã deve começar por Alireza Beiranvand. O goleiro famoso por seus lançamentos longos com as mãos, que pegou pênalti de Cristiano Ronaldo na Copa de 2018, é o homem de confiança de Carlos Queiroz. Porém, não emplacou em sua tentativa de jogar na Europa, por Royal Antuérpia e Boavista, e retornou ao Persepolis nesta temporada. Chegou a perder a posição na reta final das Eliminatórias para Amir Abedzadeh, que passou pelo Marítimo e atualmente defende a Ponferradina, na segundona espanhola. Seu pai, Ahmadreza Abedzadeh, era o goleiro titular e o capitão na Copa de 1998. Ídolo do Esteghlal, Hossein Hosseini é outro candidato, após encarar Senegal em amistoso recente. Ainda foi chamado um quarto goleiro, Payam Niazmand, do Sepahan.

A linha defensiva do Irã também passou por modificações nos anos recentes. Ramin Rezaeian perdeu espaço na lateral direita, com a ascensão de Sadegh Moharrami, do Dinamo Zagreb. Já na esquerda a preferência deve ser pelo capitão Ehsan Hajsafi, do AEK Atenas, que também pode ser deslocado para o meio. Na zaga, Hossein Kanaani virou titular com Carlos Queiroz na última Copa da Ásia e não deixou mais a titularidade, enquanto se transferiu ao Al Ahli do Catar. Seu parceiro no clube e na seleção é Shoja Khalilzadeh, mas talvez Queiroz opte por jogadores de sua confiança. Nisso pode crescer Morteza Pouraliganji, do Persepolis, que teve uma grave lesão ligamentar que custou seu espaço no time durante a parte decisiva das Eliminatórias.

No meio-campo, o eixo principal do Irã é o volante Saeid Ezatolahi, um dos melhores do time na Copa de 2018. Aos 26 anos, o volante não emplacou por clubes, mas permanece intocável na seleção. Ainda na faixa central, Saman Ghoddos é um dos jogadores que ascenderam no atual ciclo, em clubes de grandes ligas europeias. É coadjuvante no Brentford, mas disputa a Premier League. Com características de um bom passador, quem se firmou também na faixa central durante os últimos quatro anos foi Ahmad Nourollahi. O jogador do Al Shabab foi essencial nas Eliminatórias e precisa conquistar a confiança de Carlos Queiroz. De qualquer maneira, não surpreenderá se o treinador deslocar por ali veteranos como Vahid Amiri. Aos 35 anos, Omid Ebrahimi ainda era opção, mas se lesionou justo na reta final da preparação.

O Irã está bem servido nas pontas. Alireza Jahanbakhsh estagnou em seu desenvolvimento por clubes, atualmente uma peça na rotação do Feyenoord, mas esteve entre os melhores do time nas Eliminatórias e tantas vezes usou a braçadeira de capitão. Pode ser útil nas duas pontas. Ainda que seu melhor momento no Porto seja como homem de referência, Mehdi Taremi se firmou na seleção como ponta esquerda de Carlos Queiroz e já voltou a aparecer assim nos amistosos. Se necessário, Ali Gholizadeh virou uma carta na manga nas Eliminatórias e se manteve como titular em toda a campanha. Já o maior talento dos persas, tecnicamente falando, é Sardar Azmoun. Sabe fazer gols e se movimentar. Todavia, seus problemas físicos recentes colocam em xeque o sucesso na Copa. Taremi é um substituto até em melhor fase como centroavante, embora tenha características distintas. Quem pode quebrar um galho por ali é o veterano Karim Ansarifard, que perdeu espaço desde 2018 e atualmente defende o Omonia Nicósia, mas carrega ótima bagagem com a equipe nacional.

Time base (4-1-4-1): Beiranvand (Abedzadeh), Moharrami, Kanaani, Pouraliganji (Khalilzadeh), Hajsafi; Ezatolahi; Jahanbakhsh, Ghoddos, Nourollahi, Taremi (Gholizadeh); Azmoun.

 

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Mehdi Taremi, do Irã (AFP via Getty Images)

Donos do time

Em 2018, o Irã contava com uma média de idade baixa e vários jogadores ou em ascensão na Europa ou com portas abertas a clubes maiores. Quem realmente cumpriu as expectativas nesse sentido foi Mehdi Taremi, sem dúvidas a principal face do futebol iraniano na atualidade. O atacante na época fazia estrago com o Persepolis e aproveitou a visibilidade do Mundial da Rússia para buscar novos destinos. Não seria exatamente um sucesso no Al Gharafa e tentou a sorte depois no Rio Ave. Uma ótima temporada abriu as portas em Portugal e desde 2020 ele veste a camisa do Porto. Está entre os jogadores mais efetivos da liga local, enquanto também deixa sua marca na Champions.

A versatilidade de Taremi é uma de suas grandes virtudes. O atacante possui boa estatura e força física para romper defesas. Entretanto, consegue combinar essas características com certo refinamento técnico e lances de efeito. Não é um atacante perfeito, vide a cabal chance perdida contra Portugal em 2018, mas sabe marcar gols e servir os companheiros, com bons números de tentos e também de assistências pelos portistas. Até por isso deve ser um nome imprescindível na escalação de Carlos Queiroz, geralmente utilizado pelo treinador na ponta esquerda, mas mais acostumado à função de centroavante nesse auge pela Europa. Aos 30 anos, é um protagonista bem mais maduro do que em 2018.

Também não se menospreza a importância que Sardar Azmoun possui na seleção iraniana. O atacante foi a principal revelação da equipe em 2018 e conseguiu consolidar seu nome, não apenas como um elemento decisivo do Time Melli, mas também como um vencedor no cenário europeu. A transferência do Rostov para o Rubin Kazan não deu muito certo, mas o atacante logo seguiria ao Zenit. Virou um dos grandes destaques dos celestes, dominantes no Campeonato Russo e sempre presentes na Champions. A saída se deu em litígio, mas Azmoun subiu mais um degrau ao assinar com o Bayer Leverkusen. Entretanto, não vinha rendendo tão bem e uma lesão recente deixa dúvidas sobre a Copa.

O rendimento de Azmoun na fase decisiva das Eliminatórias foi excelente. O atacante anotou três gols e deu três assistências em oito aparições com o Irã, conduzindo a classificação ao Mundial. Todavia, também é um jogador com seus atritos. Após a Copa de 2018, o jovem anunciou a aposentadoria da seleção por ataques sofridos nas redes sociais, mas logo mudou de ideia. Mais recentemente, foi o principal jogador dos persas a se contrapor à repressão no país contra os direitos das mulheres. Mesmo genioso, seu talento garante seu espaço. Resta saber se Queiroz usará uma combinação entre ele e Taremi pela faixa central, que deixaria o time menos defensivo, mas ofereceria ótimas associações.

Já mais atrás, Saeid Ezatolahi pode ser chamado de “jogador de seleção”. O meio-campista rodou nos últimos anos por clubes como o Reading, o Eupen e o Al Gharafa, atualmente na segunda divisão dinamarquesa com o Velje. Compensa como um herói do Time Melli. Aos 26 anos, o volante serve como cadeado à frente da defesa de Carlos Queiroz desde a Copa de 2018 e não perdeu o prestígio com os persas durante o atual ciclo. Pelo contrário, sua ausência na Copa da Ásia de 2019 foi bastante custosa e o retorno nas Eliminatórias foi uma das razões da subida de produção. É um jogador sem grandes recursos, mas muito seguro em sua função.

Sadegh Moharrami, defensor do Irã, disputa a bola (AFP via Getty Images)

Caras novas

O Irã não soube renovar suas opções nos últimos anos. Se o time de 2018 oferecia boas perspectivas em relação a jovens com potencial de crescimento, nos últimos tempos foram raros os atletas sub-23 convocados. Assim, as caras novas são basicamente futebolistas que ganharam espaço no ciclo, não necessariamente promessas que assumem a batuta do Time Melli em breve. O mais jovem do elenco, Abolfazl Jalali, tem 24 anos. Todos os outros estão entre os 26 e os 34 anos.

Uma das novidades recentes é o lateral direito Sadegh Moharrami. O defensor de 26 anos sequer era convocado na época da Copa de 2018 e realmente ganhou projeção quando trocou o Persepolis pelo Dinamo Zagreb naquele ano. Ainda levou um tempo para se firmar pelo clube, muitas vezes frequentando o banco, mas virou intocável na seleção durante as Eliminatórias e corresponde na atual temporada, especialmente pelas ótimas oportunidades na Champions. Pode jogar nas duas laterais ou mais adiantado no meio, mas a tendência é que seja mesmo o dono do lado direito da defesa.

Outro que ganhou um espaço importante foi o habilidoso ponta Ali Gholizadeh. O jogador de 26 anos participou das convocações prévias à Copa de 2018, mas não recebeu uma chance na Rússia. Precisou cavar seu espaço depois disso, especialmente com Skocic, nas Eliminatórias. Não à toa virou uma alternativa constante no ataque e contribuiu com seus gols para a classificação dos iranianos. Já está na quinta temporada como um jogador importante no Charleroi, da Bélgica, com mais de 100 partidas na liga local. É companheiro de Amirhossein Hosseinzadeh, meia de 22 anos que não vai para o Catar, mas pode ser uma alternativa para o próximo ciclo dos persas.

Carlos Queiroz voltou a ser técnico do Irã (MOHAMMADREZA ALIMADADI/IRNA/AFP via Getty Images)

Técnico

Carlos Queiroz é um dos treinadores mais experientes da Copa do Mundo. Sua relevância no futebol de seleções é notável há mais de três décadas, quando dirigia as seleções de base de Portugal que faziam sucesso nas competições internacionais e revelavam uma forte geração. Não emplacou em sua primeira experiência à frente da equipe principal dos Tugas, entre 1991 e 1993, mas logo viraria um nome célebre. Foi quem levou a África do Sul ao Mundial de 2002, embora tenha pedido demissão antes do torneio. Virou o braço direito de Sir Alex Ferguson no Manchester United e teria uma malfadada experiência no Real Madrid. Depois substituiu Felipão em Portugal, presente na Copa do Mundo de 2010. Isso antes de viver o ápice de sua carreira no Irã, num trabalho que se iniciou em 2011 e elevou o patamar da seleção nacional.

A passagem de Carlos Queiroz pelo Irã não é perfeita, claro. Não é um time que encha os olhos, assim como não há tantos reflexos positivos na liga local. De qualquer maneira, o comandante conseguiu uma consistência tática poucas vezes vista na última década e um grau de competitividade inédito para os iranianos, enquanto ajudou a eclodir talentos locais. Não é pouco, mesmo que faltem taças para referendá-lo. Em outros ambientes, Queiroz não se deu bem. Sua passagem pela Colômbia foi um desastre, até pelo choque de estilos, enquanto o Egito também sucumbiu em momentos decisivos e não correspondeu nas duas grandes chances que teve – a final da Copa Africana e a decisão das Eliminatórias, ambas contra Senegal. Contudo, as portas na federação iraniana seguiam abertas. Aos 69 anos, o lusitano vai para o seu quarto Mundial consecutivo e, apesar das incertezas, parece capaz de fazer a campanha mais marcante, pelo resultado dos oito anos anteriores de empenho.

A geografia do elenco

O elenco do Irã reflete razoavelmente a demografia do país. Os jogadores nasceram principalmente às margens do Mar Cáspio, onde há um forte adensamento populacional, e também no centro-sul do território, área de cidades mais populosas. Teerã, com 8,7 milhões habitantes, é a única cidade com mais de um jogador convocado. São quatro atletas da capital, que sobra como município mais populoso. Ainda há 13 atletas da região às margens do Mar Cáspio, ao norte, embora em áreas de composições étnicas diferentes.

Dois jogadores são do Gulistão, na fronteira com o Turcomenistão. Sardar Azmoun possui raízes turcomenas, por exemplo. Já Ardabil fica na fronteira com o Azerbaijão e possui dois jogadores, inclusive Karim Ansarifard, de ascendência azeri. Ainda há três jogadores de Gilan e quatro de Mazandaran, províncias de alta densidade demográfica no litoral do Mar Cáspio.

Mais ao centro e ao sul do país, se espalham os demais oito convocados. Isfahan e Shiraz, que estão entre as cinco cidades mais populosas do país, têm um representante cada. Mehdi Taremi é o único nascido no litoral do Golfo Pérsico, em Bushehr. Hossein Kanaanizadegan é do Cuzistão, de população árabe significativa, próximo da cidade iraquiana de Basra. Já do Luristão vem dois jogadores, entre eles o goleiro Alireza Beiranvand, de uma família de nômades.

O único jogador nascido fora do Irã é o meio-campista Saman Ghoddos, nativo de Malmö. Seus pais são da cidade de Ahvaz, no Cuzistão, e migraram para a Suécia, que possui a terceira maior colônia iraniana na Europa. O jogador do Brentford chegou a atuar na seleção sueca principal, o que não o impediu de defender o Irã pouco depois, quando recebeu o convite de Carlos Queiroz.

Onde jogam

O Irã possui uma liga nacional relevante dentro da Ásia, e isso se reflete historicamente na seleção. Todo o time de 1978 atuava no país e, em 1998, eram somente três exceções no exterior – todas da Bundesliga. O número diminuiu para 16 atletas da liga persa em 2006, até passar a 13 em 2014 e a nove em 2018. Um padrão que se manteve para 2022, com nove convocados do Campeonato Iraniano. A influência das duas potências locais é clara, com quatro atletas do Persepolis e outros três do Esteghlal. Também são dois do Sepahan, outro clube forte.

A penetração dos jogadores iranianos nas grandes ligas europeias é limitada. Os laços históricos com a Bundesliga se preservam com o auxílio solitário de Sardar Azmoun, no Bayer Leverkusen. Enquanto isso, Mehdi Taremi (Porto) e Alireza Jahanbakhsh (Feyenoord) são outros representantes de equipes mais tradicionais. Ainda há Saman Ghoddos (Brentford) na Premier League, mas a maioria se concentra em ligas do segundo ou do terceiro escalão. A Grécia, a Turquia, o Chipre, a Croácia, a Dinamarca e a Bélgica são destinos – com menção principal a dois atletas do AEK Atenas e a dois do Kayserispor. Já a segundona espanhola cede o goleiro Amir Abedzadeh, da Ponferradina. Também há certo trânsito com competições do Oriente Médio, com dois jogadores em atividade no Catar e um nos Emirados Árabes Unidos.

Ali Daei comemora a classificação do Irã para a Copa 2006 (BEHROUZ MEHRI/AFP via Getty Images)

Um herói em Copas

Ali Daei permaneceu por quase 20 anos como o maior artilheiro do futebol de seleções e também como o único a superar a barreira dos 100 gols, até Cristiano Ronaldo fazer o mesmo. Com 109 tentos pelo Time Melli, o centroavante é um sinônimo da seleção iraniana. Foi um jogador de relevo por clubes locais, ídolo do Persepolis, além de atuar por longo tempo na Bundesliga, inclusive pelo Bayern de Munique. Ainda assim, são os feitos pelos persas que tornam seu nome realmente conhecido.

Por Eliminatórias, Ali Daei anotou grande parcela de seus gols. O centroavante balançou as redes 36 vezes nas campanhas qualificatórias do Irã para Copas do Mundo. Foram nove tentos na caminhada dos persas até o Mundial de 1998, na campanha que encerrou uma espera de 20 anos e gerou uma das festas mais famosas da história do país. Também contribuiu com outros nove gols na caminhada que levou os iranianos de volta ao Mundial de 2006. Porém, em fases finais de Copa, Daei passou em branco. Foi titular nas três partidas de 1998 e em mais duas de 2006, quando era capitão, mas não fez nenhum gol.

A importância de Ali Daei em Copas viria de outra maneira. O centroavante deu as duas assistências mais comemoradas da história do Irã. Em novembro de 1997, após o empate por 0 a 0 em Teerã, o Time Melli tomou dois gols da Austrália no primeiro tempo em Melbourne e precisava pelo menos do empate para se classificar à Copa via repescagem. A salvação veio aos 34 do segundo tempo, numa enfiada magistral de Daei para a arrancada de Khodadad Azizi, que balançou as redes. Foi uma explosão no país. Já na Copa de 1998, o duelo contra os Estados Unidos foi pintado com ares de guerra, embora a cordialidade tenha prevalecido entre os jogadores. O Irã levou a melhor com a vitória por 2 a 1. O segundo gol nasceu também num passe em profundidade primoroso de Daei, para que Mehdi Mahdavikia partisse sozinho e anotasse. Lances eclipsados por seus números estrondosos em gols, mas bastante valorizados pelos compatriotas.

Já em 2022, Ali Daei volta às manchetes por outros motivos. Ao lado de Ali Karimi, é um dos antigos ídolos da seleção mais ativos em prol dos protestos pela morte de Mahsa Amini. O agora técnico fez diferentes publicações contra a repressão e a favor da luta pelos direitos das mulheres. Ao longo das últimas semanas, existiram especulações de que Daei teria sido detido pela polícia iraniana (seu passaporte foi, por uma semana), assim como de que visitou um dos principais ativistas do país num hospital. Fato é que, embora tenha participado do sorteio da Copa, o veterano recusou o convite da Fifa para estar nas arquibancadas do Catar. Segundo suas palavras, permanecer no Irã é sua forma de dizer que está ao lado dos manifestantes e de expressar a simpatia às famílias que perderam entes queridos.

Calendário

Irã x Inglaterra – 21/11, às 10h
Irã x Gales, 25/11, às 7h
Irã x Estados Unidos – 29/11, às 16h

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de nascimento
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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