Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo A: Senegal

Com seu principal astro lesionado, Senegal tenta voltar a fazer história com um grupo amadurecido e um dos técnicos mais longevos do torneio

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* Texto atualizado após o corte de Sadio Mané.

Senegal enfrenta o maior anticlímax possível, às vésperas da Copa do Mundo. As expectativas sobre os Leões da Teranga eram imensas. Pela primeira vez o país disputará dois Mundiais consecutivos, com uma estabilidade que serve de marca ao ciclo. Aliou Cissé manteve o posto de treinador e destaques amadureceram, mesmo que o time costume apresentar um futebol pragmático, que por vezes gera críticas ao comandante. Acima disso, porém, a tão aguardada conquista inédita da Copa Africana de Nações se sobrepôs aos descontentamentos. E quando tudo parecia alinhado para os senegaleses chegarem ao Catar como candidatos a uma longa caminhada, a perda de Sadio Mané tem um custo inestimável.

Mané é o melhor jogador africano da atualidade e, como bem indicou a Bola de Ouro, um dos melhores do mundo. Vinha de uma ótima temporada com o Liverpool e crescia nas últimas semanas como novo protagonista do Bayern de Munique. Para os Leões da Teranga, não existiam questionamentos sobre a estatura do atacante nos vestiários. É um craque que engrandece qualquer equipe e que impõe respeito nos adversários, mesmo que nem sempre o seu melhor por clubes se visse na seleção. Agora, os senegaleses terão que se virar sem o camisa 10, quando ele parecia pronto para aproveitar o amadurecimento do time e deixar uma impressão melhor que na Copa de 2018. E fica um lamento até maior pelo baita ser humano que Mané é, um cara que atrai simpatia de qualquer canto do planeta. Difícil achar alguém que não sente muito pela frustração do ponta.

Para quem quiser ver o copo meio cheio, Senegal permanece com condições de pelo menos se classificar no Grupo A. A equipe evoluiu em seu lado mental, sobretudo após as batalhas contra o Egito na Copa Africana e nas Eliminatórias. Terá um teste enorme nesse aspecto para o Catar. Também possui outras lideranças e uma força defensiva que independe de Mané. A questão é o quanto o ataque sofrerá sem o astro. Não havia dúvidas sobre a forma como o camisa 10 liderava e concentrava em si os avanços ofensivos, até pela falta de evolução dos senegaleses nesse ponto. Os planos ficam comprometidos e outros nomes, como Ismaïla Sarr, precisarão emergir para honrar as expectativas de todo um país. Repetir 2002, como muitos pensavam, fica bem mais difícil. Mas, por conjunto, ver os Leões da Teranga ainda nas oitavas não será nada fora do comum, apesar do desfalque estratosférico.

Como foi o ciclo até a Copa

Talvez a decisão mais importante de Senegal após a eliminação na Copa de 2018 foi a manutenção do técnico Aliou Cissé. Os Leões da Teranga até deram uma impressão de que poderiam ter feito mais no Mundial da Rússia, pela maneira como deixaram a vitória escapar contra o Japão e pela postura medrosa na derrota para a Colômbia, mas não existiam motivos para uma mudança drástica. Os senegaleses já contavam com um comandante que conhecia muito bem o ambiente e poderia auxiliar na evolução dos jogadores que tinha em mãos. A equipe não cresceu em qualidade de futebol apresentado, mas sim em mentalidade. Isso se tornou importante pelos muitos momentos de pressão em que o time triunfou ao longo dos últimos quatro anos.

Senegal deu uma prova de força já nos meses seguintes à Copa do Mundo. Os Leões da Teranga se classificaram sem problemas nas eliminatórias da CAN 2019. O desempenho na Copa Africana, contudo, seria agridoce. Apesar da derrota para a Argélia na fase de grupos, os senegaleses avançaram aos mata-matas e se valeram do futebol pragmático, que garantiu três vitórias consecutivas por 1 a 0 no caminho até a decisão. Entretanto, o revés na final de novo contra os argelinos custou a chance do inédito título à equipe de Aliou Cissé. Ficou marcada uma cena depois da derrota, quando o treinador reuniu seus comandados no centro do gramado e tentou erguer a cabeça de todos na base do discurso. De fato, voltariam mais fortes.

Senegal sofreu algumas derrotas em amistosos posteriores, mas chegou a empatar com o Brasil em outubro de 2019, num duelo em que os africanos foram melhores no geral. E a equipe sustentou uma longa sequência invicta desde a retomada do futebol após a parada pela pandemia. Os Leões da Teranga se classificaram para a Copa Africana de Nações de 2022 sem dificuldades e o mesmo aconteceu em sua classificação na fase de grupos das Eliminatórias para o Mundial de 2022, em chaves que não traziam desafios tão grandes assim. Os senegaleses passaram 2021 sem uma derrota sequer e entraram na CAN 2022 entre os favoritos, mesmo que outros oponentes apresentassem um futebol melhor.

Durante a Copa Africana de Nações, de novo Senegal não encantou. Muito pelo contrário, com problemas de lesão e um surto de coronavírus, o time passou pela fase de grupos com uma vitória e dois empates sem gols. Entretanto, os Leões da Teranga corresponderam nos momentos decisivos. Passaram por Cabo Verde, Guiné Equatorial e Burkina Faso nos mata-matas. O time de Aliou Cissé ganhou corpo, até a decisão dramática contra o Egito. O empate por 0 a 0 se estendeu durante os 120 minutos, em que os senegaleses foram melhores. Pararam no goleiro Gabaski, inclusive pelo penal desperdiçado por Sadio Mané logo de início. O tão aguardado título da CAN ocorreu só depois, com a vitória derradeira na disputa por pênaltis.

A comoção em Senegal foi enorme depois da conquista da CAN, mas não havia muito tempo para comemorar. Menos de dois meses depois, ocorreria o reencontro com o Egito na fase decisiva das Eliminatórias. Os Leões da Teranga perderam no Cairo e venceram em Dacar, num jogo que só não mataram antes porque o goleiro Mohamed El Shenawy estava inspirado. Mais uma vez a confirmação dependeu da disputa por pênaltis. Desde então, os senegaleses já começaram a encaminhar a classificação para a CAN 2023 em nova edição das Eliminatórias.

E se a África está sob os pés de Senegal, restam as dúvidas sobre o rendimento contra adversários de outros continentes. Mais recentemente, a equipe derrotou a Bolívia e empatou com o Irã. Provar essa força no Mundial seria um desafio para o time mesmo com Sadio Mané, o mais visado de seus jogadores. Desde que o atacante se lesionou pelo Bayern de Munique, os Leões da Teranga precisaram se preparar para o pior. Sua manutenção no elenco soava como uma alternativa mais para intimidar os oponentes e, quem sabe, contar com o craque fora de sua melhor forma física nos mata-matas. Nem isso vai acontecer. A voz ativa de Aliou Cissé como incentivador do grupo será posta à prova, numa ocasião em que os senegaleses precisarão se unir ainda mais. O treinador também será exigido taticamente, justo no que foi seu calcanhar de Aquiles no ciclo: a composição de um ataque com mais recursos.

O zagueiro Kalidou Koulibaly com o técnico Aliou Cisse (JAVIER SORIANO/AFP via Getty Images)

Como joga

Senegal possui um estilo de jogo bastante demarcado. Os Leões da Teranga não são muito inventivos em seu desenho, geralmente escalados no 4-2-3-1 ou no 4-3-3. A marca maior da equipe de Aliou Cissé é a disciplina tática, com um sistema defensivo bastante forte e capacidade física para os embates. Esperava-se que nos últimos quatro anos a equipe evoluísse do ponto de vista ofensivo, o que não aconteceu. E dependerão de outras individualidades que não Sadio Mané, aquele que servia como diferencial. Ao menos, o elenco conta com bons talentos entre os meias e uma variedade de escolhas, embora nenhuma à altura do camisa 10.

Indo além do lamento, outro mérito claro de Senegal é a forma como a equipe possui bons jogadores em praticamente todas as posições. Somente o comando do ataque foi um setor carente dos Leões da Teranga nos últimos anos, sem que ninguém tomasse conta da posição de centroavante. Já as laterais sofrem um pouco mais com os desfalques recentes. De resto, há inclusive boas alternativas no banco de reservas, e a profundidade do elenco cresce nesta reta final de preparação, depois que alguns jogadores optaram pela nacionalidade senegalesa.

O grande ganho de Senegal em relação a 2018 está no gol. Édouard Mendy estreou pela equipe nacional pouco depois do Mundial da Rússia e desde então teve uma ascensão meteórica, consolidado entre os melhores goleiros do mundo. Faz a diferença para as perspectivas dos Leões da Teranga. Da mesma maneira, a equipe conta com uma dupla de zaga muito forte. Kalidou Koulibaly dispensa apresentações por sua história no futebol europeu e por sua liderança nos Leões da Teranga. Só não é o momento mais inspirado para a dupla do Chelsea, entre a lesão que custou a titularidade de Mendy por algumas semanas e as dificuldades de adaptação de Koulibaly.

Outro nome importante na zaga é Abdou Diallo. É mais um com tarimba na Europa, mas alterna a titularidade em seu início no RB Leipzig. O setor ainda poderia contar com Moussa Niakhaté, que optou pela cidadania senegalesa recentemente, mas uma lesão impediu sua convocação. A lateral direita também tem a importante ausência de Bouna Sarr, titular da CAN, mas contundido. Com isso o titular deve ser Youssouf Sabaly, reserva do Betis. Já na lateral esquerda, Saliou Ciss serviu como um pilar na conquista da Copa Africana, mas está sem clube e deixou as convocações por isso. Ao menos surgiu uma alternativa de última hora com Ismail Jakobs, mais um a optar por Senegal, após defender a Alemanha na base. O novato se saiu bem nos amistosos recentes, embora também costume ficar no banco do Monaco. Entretanto, problemas burocráticos travaram sua situação e Fodé Ballo-Touré vira alternativa.

O meio-campo de Senegal é um dos setores mais experientes da equipe. Nampalys Mendy jogou demais na Copa Africana e é um jogador acostumado com a Premier League, através do Leicester, mesmo que na reserva atualmente. Outro ainda mais rodado no futebol inglês é Cheikhou Kouyaté, que assinou nesta temporada com o Nottingham Forest, após anos por West Ham e Crystal Palace. Já a principal figura é Idrissa Gana Gueye, que recentemente retornou ao Everton. Pelas características dos companheiros, o camisa 5 costuma atuar de maneira mais solta pelos Leões da Teranga, se aproximando do ataque. De qualquer maneira, é uma trinca com características mais defensivas. A faixa central ainda conta com as alternativas dos jovens Pape Gueye (Olympique de Marseille) e Pape Matar Sarr (Tottenham), enquanto Pathé Ciss cresceu recentemente no Rayo Vallecano.

Já na frente, o nome inquestionável deveria ser Sadio Mané. O atacante era o ponto focal do time na ponta esquerda, por vezes sobrecarregado, mas decisivo. A questão é que sua ausência deixa um vácuo enorme em liderança técnica, mesmo que existam alternativas razoáveis para atuar nas pontas. Ismaïla Sarr teve problemas de lesão na época da CAN, mas serve de desafogo e é bastante agressivo. Krépin Diatta foi mais um com problemas físicos e não disputou a CAN. Rende mais na seleção do que no Monaco e pode atuar como meia central, dono de um chute potente. Quem poderia ser útil no setor era Keita Baldé, mas o ponta violou procedimentos antidoping e pegou um gancho de dois meses. Vai voltar apenas em 5 de dezembro e, por isso, Aliou Cissé o descartou da lista final.

Já entre os centroavantes, Boulaye Dia pinta como favorito para ser o titular, pelo início na Salernitana. Aos 25 anos, o atacante possui experiência em diferentes ligas de peso e tem jogado melhor nas últimas chances com a seleção. Famara Diédhiou, seu principal concorrente, não convence. O titular da CAN ainda volta de lesão no Alanyaspor. Como alternativas, Nicolas Jackson é um jogador de mais velocidade e cresce no Villarreal, enquanto Bamba Dieng tem jogado pouco no Olympique de Marseille, mas é uma promessa. Ambos também podem aparecer nas pontas. Por fim, vale menção a Iliman Ndiaye, de 22 anos, revelação do Sheffield United na Championship e uma das últimas adições do plantel.

Time-base (4-3-3): Édouard Mendy, Sabaly, Koulibaly, Diallo, Jakobs; Nampalys Mendy, Gueye, Kouyaté; Diatta, Dia (Diédhiou), Sarr.

 

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(CHARLY TRIBALLEAU/AFP via Getty Images/One Football)

Donos do time

Na ausência de Sadio Mané, quem sobe na hierarquia como principal figura de Senegal é Kalidou Koulibaly. O zagueiro é o capitão da equipe e uma liderança ativa. Teve um desempenho brilhante na conquista da Copa Africana de Nações e, embora Mané tenha sido escolhido o melhor jogador do torneio, talvez o defensor fosse uma indicação até mais justa. O alto nível do beque se repete há temporadas, como um grande ídolo do Napoli, mas ainda não se encaixou no Chelsea. Não é de se duvidar, porém, que os Leões da Teranga auxiliem o defensor a apresentar o seu melhor na Copa do Mundo. Até pelo estilo de jogo dos senegaleses, sua imposição na defesa vale demais.

Quem terá sua primeira chance em uma Copa do Mundo é Edouard Mendy. E o Mundial pode ser importante para a consagração do goleiro entre os melhores africanos de todos os tempos na posição. Mendy é daqueles arqueiros que transmitem confiança para a defesa e garantem segurança sob as traves sem precisar de tantas defesas espalhafatosas. Permanece entre os melhores do mundo, mesmo que a sequência de Kepa no Chelsea tenha custado o seu espaço momentaneamente. A Copa será importante para sublinhar sua grandeza, e não há dúvidas sobre como o camisa 1 cresce em momentos decisivos – vide o que já fez em Champions League.

No meio, Idrissa Gana Gueye não pode ser ignorado no complemento da espinha dorsal de Senegal. O volante tenta se encaixar novamente no Everton após três temporadas em que não se tornou aquilo que o Paris Saint-Germain apostou. Todavia, não é isso que nega sua influência no estilo de jogo de Senegal. Se o meio-campo geralmente escalado não possui tantas características de armação, o volante se solta mais e se transforma no quarto elemento em muitas chegadas ao ataque. O chute de fora e as incursões na área são elementos mais frequentes em seu jogo pelos Leões da Teranga.

Por fim, vale uma menção especial sobre Ismaïla Sarr. Na ausência de Sadio Mané, será ele o principal responsável por liderar o ataque de Senegal e deve até ser deslocado da ponta direita para a esquerda. Aos 24 anos, o atacante possui uma boa experiência em alto nível, ao estourar no Rennes, antes de vestir a camisa do Watford. Durante os últimos anos, variou entre a Premier League e a Championship, mas não é a passagem atual pela segundona inglesa que atravanca sua progressão, embora custe visibilidade. É um jogador de habilidade e que parte para dentro na definição das jogadas. Fez inclusive o mesmo trajeto de Mané, do Génération Foot até a porta de entrada na França através do Metz. Foi convocado mesmo machucado para a Copa Africana de Nações e, saindo do banco, auxiliou as classificações nas quartas de final e na semifinal. Entretanto, o peso da responsabilidade agora é muito maior. Já tinha sido titular na Copa de 2018.

Olho também em Krépin Diatta, que perdeu a CAN por lesão e pode ganhar o posto de titular na ponta direita. Não se destaca tanto no Monaco, mas foi uma das boas adições do ciclo. E olho principalmente em Boulaye Dia, que também faz a ponta se necessário, mas oferece uma alternativa mais confiável ao posto de centroavante e auxilia até a dividir mais o fardo sem Mané. O atacante despontou no Stade de Reims e teve um bom início no Villarreal, que não manteve. Já na atual temporada, se coloca entre os destaques da Salernitana, que vive uma largada de Serie A acima das expectativas. Dia tem só dois gols em 19 partidas pela seleção, mas o tento no amistoso recente contra a Bolívia serviu como um indício favorável.

Nicolas Jackson treina com Senegal (OZAN KOSE/AFP via Getty Images)

Caras novas

Um dos mais jovens nas convocações recentes de Senegal é o atacante Nicolas Jackson. Aos 21 anos, o atacante fez uma ótima temporada com a filial do Villarreal para conquistar o acesso à segundona espanhola e virou xodó de Unai Emery na equipe principal durante os últimos meses. Geralmente titular do Submarino Amarelo, combina boa estatura com mobilidade e versatilidade. Tem sido mais usado como segundo atacante, embora sirva também como ponta direita. E a convocação para os amistosos recentes demonstrou como Aliou Cissé estava atento ao seu desenvolvimento. Vira uma carta na manga. Outro nome interessante no ataque é Bamba Dieng, que vinha bem do banco na Copa Africana, mas perdeu espaço no Olympique de Marseille em relação à temporada passada.

Mais um jogador que pode despontar nessa seleção de Senegal é o volante Pape Matar Sarr. O garoto de 20 anos fez um caminho parecido com o de Mané, cria do Génération Foot que chegou à Europa através do Metz. Foram duas temporadas de destaque na Ligue 1, até sair por empréstimo ao Tottenham. Não teve espaço nos Spurs, apesar dos elogios de Antonio Conte, mas sua situação na seleção é diferente. Reserva na Copa Africana de Nações, chegou a pintar entre os titulares em partidas mais recentes. Pode ser um nome na rotação. 

Já na defesa, um dos principais acréscimos é Ismail Jakobs. O lateral esquerdo é alemão de nascimento e fez parte da seleção sub-21, presente inclusive na equipe que conquistou o Campeonato Europeu da categoria em 2021. Até pela concorrência de David Raum, costumava frequentar a reserva. E resolveu abraçar a ascendência senegalesa com a mudança para os Leões da Teranga na última Data Fifa. O jogador de 23 anos possui características ofensivas e, mesmo sem atuar tanto no Monaco, virou uma adição valiosa diante da situação de Saliou Ciss. Agradou quando ganhou uma chance com Aliou Cissé.

O técnico Aliou Cissé, de Senegal (CHARLY TRIBALLEAU/AFP via Getty Images)

Técnico

Aliou Cissé possui uma grandeza inegável dentro da seleção de Senegal. Primeiro como capitão, um dos símbolos do time que encantou o mundo na Copa de 2002. A liderança abriu o caminho do veterano para se tornar treinador. E já dá para dizer que é o maior comandante da história dos senegaleses, inclusive à frente de Bruno Metsu, sua grande influência na casamata. Cissé, afinal, conseguiu levar os Leões da Teranga a dois Mundiais e a duas finais de Copa Africana, com a conquista do título inédito. Em sete anos no cargo, manteve uma consistência inédita para os senegaleses. Dos 32 comandantes da Copa, somente Didier Deschamps e Fernando Santos têm mais tempo de cargo.

A maneira como Cissé gere seu grupo de jogadores é uma de suas maiores virtudes, algo percebido nas derrotas e que se reflete na forma como o time ganhou casca especialmente nos últimos anos. Dentro de campo opta por um estilo mais defensivo e pragmático, que às vezes se mostra insuficiente para o talento à disposição. Mas, por enquanto, ele corresponde com a eficiência que também prevaleceu em momentos importantes. Terá sua segunda chance na Copa do Mundo como técnico, agora até com mais recursos para superar a queda precoce em 2018, quando Senegal decepcionou nas partidas de maior peso decisivo. A experiência adquirida nas grandes competições mais recentes também pode ajudá-lo a triunfar.

A geografia do elenco

O elenco de Senegal praticamente se divide entre nascidos na África e nascidos na Europa. São 15 atletas do território senegalês e mais um da vizinha Gâmbia, enquanto nove nasceram na França, além de um na Alemanha e um na Suíça. Curiosamente, os jogadores de origem europeia são maioria nas posições defensivas e os africanos dominam o ataque.

A região metropolitana de Dacar soma 4 milhões de habitantes, dos 17 milhões totais do país. Uma maioria que prepondera na seleção, com oito convocados da capital e mais dois da vizinha Pikine. Além da questão do desenvolvimento, há um investimento de academias estrangeiras na cidade, o que impacta na eclosão de jogadores. Por exemplo, três convocados começaram na academia Génération Foot, que tem parceria com o Metz. Outros três vieram da academia Diambars, fundada por Patrick Vieira e reconhecida pela Unesco. Também tem o caso de Krépin Diatta, que despontou na norueguesa Oslo Football Academy, localizada em Dacar mesmo.

Dos outros nascidos no país, são dois de Saint-Louis, ao norte, na fronteira com a Mauritânia; e um ao sul, perto da fronteira com Guiné-Bissau, de Ziguinchor. Ainda há o caso de Nicolas Jackson, que nasceu em Banjul, capital da Gâmbia, cujo território é rodeado por Senegal, e que optou pela nacionalidade senegalesa ao crescer no país.

Já entre os nascidos na França, três deles são oriundos da região metropolitana de Paris, onde há uma concentração significativa de imigrantes. O restante está mais espalhado pelo território. Muitos deles, aliás, se valeram das estruturas das seleções francesas de base. Seis passaram pelas equipes menores dos Bleus, mas optaram pelos Leões da Teranga no nível adulto. O mais célebre é Kalidou Koulibaly, enquanto Youssouf Sabaly ganhou até Mundial Sub-20 ao lado de Paul Pogba em 2013. Ainda existem casos de jogadores com origens em diferentes países africanos. Fode Ballo-Touré tem ascendentes malineses pelo lado materno. Já o pai de Édouard Mendy nasceu em Guiné-Bissau e o goleiro aceitou uma convocação em 2017, quando seu progenitor estava doente. Sem entrar em campo, posteriormente optou por Senegal, de onde veio sua mãe.

Há ainda outras ondas migratórias refletidas no elenco de Senegal. Ismail Jakobs nasceu em Colônia, filho de pai senegalês. O pai de Seny Dieng, por sua vez, também é senegalês e o goleiro nasceu em Zurique. Alguns jogadores inclusive fazem parte da geração que mudou de país. A Itália recebeu grande número de senegaleses neste século e Alfred Gomis, de Ziguinchor, cresceu na cidade piemontesa de Cuneo. O goleiro ainda possui raízes em Guiné-Bissau.

Onde jogam

A ligação de Senegal com a França também é vista nos clubes que os jogadores defendem. Em 2002, por exemplo, nada menos que 21 dos 23 convocados atuavam no Campeonato Francês – não só na primeira divisão. O número caiu bem em 2018, indo para sete, mas ainda assim os representantes da Ligue 1 eram maioria. Desta vez seis atletas continuam nos times do futebol francês. Clubes tradicionais como o Olympique de Marseille e o Monaco possuem dois representantes. Porém, o país não é mais o principal fornecedor.

Atualmente, a Inglaterra é um destino mais comum para jogadores de Senegal. Isso já tinha se notado em 2018, também com sete jogadores em atividade no país. Em 2022, serão dez atletas espalhados pelos times da Premier League e da Championship. O Chelsea é o que possui maior importância, ao reunir Édouard Mendy e Kalidou Koulibaly. Também é notável o impacto que existe nas peças de meio-campo, com nada menos que cinco jogadores do setor na Inglaterra, incluindo os três titulares. A qualidade e a intensidade oferecidas pelos senegaleses se encaixam bem no estilo inglês.

Abdou Diallo acaba sozinho na Alemanha, sem mais Sadio Mané. La Liga cede três, enquanto dois vêm da Serie A. Do futebol local desta vez não há ninguém. Mas outras ligas menores da Europa, como Chipre, Bélgica, Grécia e Turquia, também disponibilizam os talentos que captaram de Senegal durante os últimos anos. 

Pape Bouba Diop, de Senegal, comemora gol contra a França em 2002 (PATRICK HERTZOG/AFP via Getty Images)

Um herói em Copas

Qualquer senegalês reconhece aquela cena ocorrida em Seul, há mais de 20 anos, em 31 de maio de 2002. A camisa 19 foi estendida no gramado para todo o time dançar ao redor, bem ao lado da bandeirinha de escanteio. Instantes antes, El-Hadji Diouf entrou rasgando na área e deu o passe rasteiro. O dono daquela camisa precisou tentar duas vezes, mas conseguiu empurrar a bola para dentro já caído. Papa Bouba Diop marcou o primeiro gol dos Leões da Teranga na história das Copas. O gol que determinou a vitória por 1 a 0 sobre a França na Copa do Mundo de 2002. Jogo de enorme simbolismo por derrubar os atuais campeões do mundo e favoritos. Ainda mais por exaltar os antigos colonizados diante de seus colonizadores.

Meio-campista de grande potência e chegada ao ataque, Bouba Diop não perdeu um minuto sequer daquela Copa. O camisa 19 atuou em todas as partidas de Senegal. Seria astro em outro duelo inesquecível, os 3 a 3 contra o Uruguai, em que marcou dois gols. Contribuiu decisivamente para a classificação dos Leões da Teranga aos mata-matas e para a caminhada até as quartas de final, feito antes só alcançado por Camarões em 1990 entre os africanos. Seria o único Mundial do volante, mas seu nome já tinha se tornado eterno.

A fama de Bouba Diop não seria tão grande quanto a de Diouf, por exemplo. O camisa 19 ficou no Lens e só depois se aventurou na Premier League, com as camisas de Fulham e Portsmouth. De qualquer maneira, continuaria como uma das figuras mais queridas em seu país. E partiu cedo. O volante faleceu em novembro de 2020, aos 42 anos, vítima de uma doença hereditária sem cura que afetou o seu sistema nervoso. A gratidão permanece. Tanto que o Museu do Futebol de Senegal, instalado no recém-inaugurado Estádio Abdoulaye Wade, leva o nome de Papa Bouba Diop. O primeiro gol do estádio foi anotado por Khalilou Fadiga, outra lenda de 2002, que imitou o antigo companheiro da comemoração. A história vive em seu nome.

Calendário

Senegal x Holanda – 21/11, às 7h
Senegal x Catar – 25/11, às 10h
Senegal x Equador, 29/11, às 12h

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de nascimento
1GOLÉdouard Mendy1 de Março de 1992 (30 anos)Chelsea250Montivilliers, França
2DEFIsmail Jakobs17 de Agosto de 1999 (23 anos)Monaco10Colônia, Alemanha
3DEFKalidou Koulibaly20 de Junho de 1991 (31 anos)Chelsea630Saint-Dié-des-Vosger, França
4DEFAbdou Diallo4 de Maio de 1996 (26 anos)RB Leipzig182Tours, França
5MEIIdrissa Gueye26 de Setembro de 1989 (33 anos)Everton957Dacar, Senegal
6MEINampalys Mendy23 de Junho de 1992 (30 anos)Leicester City180La Seyne-sur-Mér, França
7DEFYoussouf Sabaly5 de Março de 1993 (29 anos)Real Betis240Le Chesnay, França
8MEICheikhou Kouyaté21 de Dezembro de 1989 (32 anos)Nottingham Forest824Dacar, Senegal
9ATAIliman Ndiaye6 de Março de 2000 (22 anos)Sheffield United10Rouen, França
10DEFMoussa N'Diaye18 de junho de 2002 (20 anos)Anderlecht00Dacar, Senegal
11DEFFormose Mendy2 de Janeiro de 2001 (21 anos)Amiens10Dacar, Senegal
12DEFPape Abou Cissé14 de Setembro de 1995 (27 anos)Olympiacos121Pikine, Senegal
13MEIPape Gueye24 de Janeiro de 1999 (23 anos)Olympique de Marseille110Montreuil, França
14MEIMoustapha Name5 de Maio de 1995 (27 anos)Pafos60Dacar, Senegal
15MEIKrépin Diatta25 de Fevereiro de 1999 (23 anos)Monaco252Dacar, Senegal
16MEIPathé Ciss16 de Março de 1994 (28 anos)Rayo Vallecano10Dacar, Senegal
17MEIPape Matar Sarr14 de Setembro de 2002 (20 anos)Tottenham80Thiaroye, Senegal
18ATAIsmaïla Sarr25 de Fevereiro de 1998 (24 anos)Watford4710Saint-Louis, Senegal
19ATAFamara Diédhiou15 de Dezembro de 1992 (29 anos)Alanyaspor2410Saint-Louis, Senegal
20ATABamba Dieng23 de Março de 2000 (22 anos)Olympique de Marseille122Pikine, Senegal
21ATABoulaye Dia16 de Novembro de 1996 (26 anos)Salernitana183Oyonnax, França
22DEFFodé Ballo-Touré3 de Janeiro de 1997 (25 anos)Milan140Conflans-Sainte-Honorine, França
23GOLSeny Dieng23 de Novembro de 1994 (27 anos)Queens Park Rangers30Zurique, Suíça
24MEIMamadou Loum30 de Dezembro de 1996 (25 anos)Reading30Dacar, Senegal
25ATANicolas Jackson20 de Junho de 2001 (21 anos)Villarreal00Banjul, Gâmbia
26GOLAlfred Gomis5 de Setembro de 1993 (29 anos)Rennes140Ziguinchor, Senegal
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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