Copa do Mundo

Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo A: Equador

Após o polêmico caso Byron Castillo, Equador chega à Copa fortalecido por uma boa campanha nas Eliminatórias

Este texto faz parte do Guia da Copa do Mundo 2022. Clique aqui para ler os outros.

A única interrogação sobre os méritos do Equador em sua classificação para a Copa do Mundo foi imposta pelo Chile, ao tentar impugnar a presença de La Tri sob alegação da inelegibilidade do lateral Byron Castillo – o que, no fim das contas, não barrou o time, embora o Tribunal Arbitral do Esporte tenha avaliado que a documentação era falsa e, por precaução, o jogador nem tenha sido convocado. Por aquilo que aconteceu em campo, todavia, a equipe de Gustavo Alfaro fez valer a sua força e se mostrou bem mais competente que outros vizinhos que insistentemente patinaram nas Eliminatórias. O Equador não possui um elenco de estrelas, mas se vale de muita juventude, com talentos que surgem como protagonistas para alguns ciclos. Enquanto isso, há um coletivo muito bem montado e de jogo direto, que se provou difícil de encarar ao longo do qualificatório. Desta vez, não foi apenas a altitude de Quito que pavimentou o caminho dos equatorianos, um oponente difícil de se bater também fora de casa.

Como foi o ciclo até a Copa

A campanha do Equador nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 decepcionou. Basta lembrar que La Tri começou muito bem na dianteira da classificação, mas caiu vertiginosamente e não se classificou ao quarto mundial de sua história. E a equipe demoraria a encontrar um rumo neste processo de reconstrução. De início, a solução no comando estava em Hernán Darío Gómez, responsável por levar os equatorianos à sua primeira Copa, mas respaldado mais por nome do que por trabalhos recentes. O time não decolou, com uma eliminação apagada na fase de grupos da Copa América de 2019.

Um raro motivo de orgulho do Equador em 2019 aconteceu graças à seleção sub-20. La Tri teve o melhor ano de sua história na base, ao conquistar o Campeonato Sul-Americano e encerrar o Mundial num honroso terceiro lugar. O rodado Jorge Célico, comandante dos juniores, assumiu interinamente a seleção principal (o que já tinha feito de 2017 a 2018) e acelerou a transição de algumas das promessas daquele conjunto. Isso até que, em janeiro de 2020, a federação equatoriana anunciasse um ambicioso projeto antes do início das Eliminatórias. Jordi Cruyff seria o novo treinador. O país prometia um investimento pesado em estrutura e formação, enquanto o técnico daria uma identidade dinâmica à seleção.

As promessas ao redor de Jordi Cruyff, entretanto, não duraram muito. O técnico sequer realizou um treino à frente do Equador. Poucas semanas depois de sua chegada, o futebol seria paralisado por causa da pandemia e o comandante decidiu, por conta própria, retornar à Espanha. Sua decisão criou um impasse interno, já que não era o nome prioritário, e os salários começaram a atrasar. Em junho ele mesmo pediu demissão. O sucessor seria Gustavo Alfaro, um treinador de conceitos de futebol bastante distintos em relação a Jordi. Ao menos, trazia uma boa bagagem de América do Sul, campeão com o Boca Juniors mesmo longe de ser unanimidade.

Um tanto ao acaso, o novo passo do Equador seria firme. O time estreou com derrota para a Argentina nas Eliminatórias, mas ganhou os três compromissos seguintes, com direito à vitória sobre o Uruguai e ao histórico 6×1 contra a Colômbia. O time passou fora do radar na Copa América de 2021, sem uma vitória sequer e uma eliminação nas quartas sem competir contra a Argentina. Em compensação, cresceu no qualificatório para o Mundial. Teve resultados consistentes e algumas vitórias de peso, a exemplo dos 2 a 0 sobre o Chile em Santiago. Na reta final, ainda arrancou empates de Brasil e Argentina, para selar uma classificação relativamente tranquila e sem grandes dificuldades.

Já nos amistosos recentes, o Equador manteve uma série invicta, mas não tão impressionante assim. Ganhou de Nigéria e Cabo Verde, além de empatar com México, Arábia Saudita, Japão e Iraque. Talvez o que mais anime seja o desempenho defensivo, sem um gol sofrido sequer nesses seis duelos. Tumultuado apenas foi o “Caso Byron Castillo”, com a tentativa do Chile em virar a mesa sobre o resultado das Eliminatórias. A Roja alegava que o lateral, na verdade, nasceu na Colômbia e era três anos mais velho. A Fifa refutou o recurso dos chilenos, mas o Tribunal Arbitral do Esporte teve a palavra final. Segundo a entidade, de fato o passaporte de Castillo foi alterado, mas nada que impedisse sua elegibilidade para La Tri, já que vive no país desde a infância e é cidadão local. O entrave gerou apenas multa e perda de três pontos para os equatorianos na próxima edição das Eliminatórias. Todavia, ao negar a fraude no passaporte, a federação equatoriana preferiu não levar Castillo para a Copa, a fim de não correr riscos de uma punição, e acusou o TAS de “tomar uma decisão arbitrária e injusta”.

Enner Valencia, do Equador (Jose Jacome – Pool/Getty Images)

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e junte-se à nossa comunidade. Receba conteúdo exclusivo toda semana e concorra a prêmios incríveis!

Já somos mais de 4.800 apaixonados por futebol!

Ao se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Como joga

O Equador normalmente entra em campo alinhado no 4-3-3, mas também conquistou vitórias importantes nas Eliminatórias escalado no 4-4-2. Mais importante que a formação tática de La Tri, no entanto, é a ideia de jogo aplicada por Gustavo Alfaro. O treinador possui um perfil mais reativo e isso se nota na equipe equatoriana, de maneira positiva. Há muita agressividade dentro de campo, com um jogo direto e uma marcação adiantada que tenta forçar os erros dos adversários no campo de ataque. O que garantiu a ascensão do Equador não foi exatamente um estilo mais plástico, como alguns dirigentes queriam com Jordi Cruyff. Porém, ninguém pode reclamar da enorme voracidade e da eficiência que valeu o retorno à Copa do Mundo.

A escalação do Equador tende a começar com Hernán Galíndez. “Tende” porque a titularidade no gol é uma das grandes dúvidas. O arqueiro do Aucas, entretanto, é quem transmite mais confiança e teve boas atuações nos amistosos recentes. De quebra, foi herói no inédito título de seu clube no Campeonato Equatoriano. Não é tão oscilante quanto o mais rodado Alexander Domínguez ou mesmo o jovem Moisés Ramírez.

Com a ausência de Byron Castillo, que também se lesionou na reta final da preparação, Angelo Preciado deve ser o titular na lateral direita. O jogador revelado pelo Independiente del Valle não é o dono da posição em seu clube, mas faz parte do Genk que lidera o Campeonato Belga. Com moral no Brighton, Pervis Estupiñán ocupará a esquerda, com a boa alternativa de Diego Palacios, do Los Angeles FC, no banco. É um jogador de muita projeção, que contribui ao estilo agressivo de La Tri. Já o miolo de zaga teve problemas recentes com as lesões de Robert Arboleda e Félix Torres, mas ambos estarão na Copa. O são-paulino é um dos esteios do setor, mas precisa provar suas condições físicas e, por isso, o beque do Santos Laguna tende a ser priorizado. Também foi importante o surgimento de novos talentos. Piero Hincapié se tornou uma boa revelação do Bayer Leverkusen, apesar da temporada difícil do time que também o afeta. Jackson Porozo e William Pacho são outras alternativas jovens em atividade na Europa.

A grande certeza no meio-campo do Equador é a presença de Moisés Caicedo. O jovem de 21 anos é daqueles nomes que se prontificam como uma futura figura lendária em La Tri. Caiu como uma luva no time durante as Eliminatórias e não é exagero atribuir o alto rendimento coletivo à sua função, como um jogador de pegada e chegada. Mais fixo na proteção, Carlos Gruezo foi um dos homens de confiança de Gustavo Alfaro ao longo do ciclo e tem experiência na Bundesliga, com a camisa do Augsburg. Sofreu uma lesão recente, mas nada que preocupasse tanto. Quem pede passagem para fazer um papel mais dinâmico e completar a trinca é José Cifuentes, de 23 anos, destaque na temporada da MLS com o Los Angeles FC. Seu companheiro de clube, Jhegson Méndez é mais conservador no posicionamento. Atualmente no Talleres, Alan Franco é outro candidato a compor a faixa central, com um jogo mais cadenciado.

Na ligação, como meias ou pontas, o Equador possui um bom número de opções. A figura de maior experiência é Ángel Mena, ídolo no futebol mexicano pelo León. Aos 34 anos, costuma atuar aberto na direita, mas também é uma alternativa para armar por dentro. O medalhão se distingue por suas características, já que outras alternativas do setor são mais jovens e velozes. É o caso do habilidoso Gonzalo Plata, um dos novatos de maior potencial de La Tri, atualmente no Valladolid. Também de Romario Ibarra, nome frequente no Pachuca e tantas vezes o titular na ponta esquerda.

Essas características mais explosivas, todavia, deixam o Equador carente de uma referência no comando de ataque. Enner Valencia é o maior artilheiro da história da seleção e muitas vezes o dono da braçadeira de capitão, mas não se destacou tanto nas Eliminatórias pelos gols marcados – entrando às vezes na ponta. A esperança é que a fase goleadora no Fenerbahçe, com 13 gols em 12 partidas pelo Campeonato Turco, o ajude. Michael Estrada teve algumas atuações ótimas no qualificatório, mas não é o jogador mais constante e deixou de ser titular absoluto. Atualmente defende o Cruz Azul. Se necessário, Alfaro pode lançar mão de uma formação com os dois juntos na frente. Mais jovens como Djorkaeff Reasco e o inesperado Kevin Rodríguez estão à disposição.

Time-base (4-3-3): Galíndez, Preciado, Torres (Arboleda), Hincapié, Estupiñán; Gruezo, Moisés Caicedo, Cifuentes; Plata (Mena), Enner Valencia, Ibarra.

 

>>> Confira análise de todas as seleções no canal de YouTube do Rafa Oliveira

Moisés Caicedo, do Equador (ALBERTO VALDES/POOL/AFP via Getty Images)

Donos do time

Pode parecer exagero alçar Moisés Caicedo ao posto de principal nome do Equador, mas a realidade é que o meio-campista se tornou insubstituível aos 21 anos de idade. Sua estreia na seleção aconteceu sob as ordens do próprio Gustavo Alfaro, no início das Eliminatórias. Desde então, o garoto não perdeu mais o seu posto. É um jogador que funciona como motor de La Tri e também oferece contribuições ofensivas vitais. Foram dois gols e quatro assistências no qualificatório, que auxiliaram em vitórias de muito peso contra adversários como o Uruguai e o Chile.

O mais curioso é que, se pela seleção Caicedo já disputou 25 partidas em pouco mais de dois anos, por clubes sequer alcançou as 100. Alfaro apostou no prodígio quando ele despontava no Independiente del Valle. Depois disso, Caicedo passou um período emprestado pelo Beerschot na Bélgica, até se integrar ao Brighton no segundo turno da Premier League passada. Virou uma das sensações das Gaivotas e também protagonista no sucesso do time sob as ordens de Graham Potter. Clubes maiores da Inglaterra crescem os olhos sobre o garoto, mas, por enquanto, a diretoria evitou uma venda. Capaz que espere o sucesso na Copa para pedir ainda mais grana.

E, por mais que o Equador não seja um país com tantos ídolos no futebol europeu, o Brighton se torna uma colônia importante para a seleção. Nesta temporada, outra novidade foi o lateral Pervis Estupiñán. O trabalho ofensivo do ala de 24 anos é bastante valorizado, com boas passagens recentes por Osasuna e Villarreal, antes de virar investimento de peso na Inglaterra. Essa tarimba internacional é bastante aproveitada por La Tri, com muita liberdade ao jogador em suas subidas pelo lado esquerdo. É outro intocável com Gustavo Alfaro e que participa de seu primeiro ciclo mundialista, já com inegável influência no sistema de jogo.

Por rodagem, também é preciso citar o papel de Enner Valencia. O atacante se tornou recentemente o maior artilheiro da história da seleção e é aquele que mais acumula aparições pela equipe nacional dentre os convocados. Ao lado de Alexander Domínguez, é uma das exceções do atual elenco por ter jogado uma Copa do Mundo como titular, em 2014. Por vezes o medalhão de 32 anos exagera nas polêmicas e na falta de comprometimento, mas parece focado com o momento atual de sua carreira. Os números no Fenerbahçe projetam sua temporada mais goleadora, com 15 tentos em 22 partidas – ainda que os pênaltis convertidos inflem os números.

Piero Hincapie, do Equador (Jose Jacome – Pool/Getty Images)

Caras novas

A influência de Moisés Caicedo sobre o time faz ele saltar um patamar dentro dessa lista e aparecer entre os candidatos a protagonistas. Piero Hincapié é outro que divide essa linha tênue, entre a pouca experiência internacional e um papel central na seleção. O zagueiro de 20 anos é mais um que se tornou titular com Gustavo Alfaro, a partir da Copa América de 2021. Desde então, só não disputou quatro partidas de La Tri no período (só uma oficial, e por suspensão), enquanto sempre que esteve em campo permaneceu durante os 90 minutos. É uma certeza, enquanto as lesões recentes no miolo da zaga atrapalhavam. Parece um jogador para muitos anos na equipe nacional.

Hincapié mal jogou no futebol equatoriano. Formado pelo Independiente del Valle, saiu para o Talleres pelo renome construído na base. Também não ficou muito tempo na Argentina, até ser contratado pelo Bayer Leverkusen na temporada passada. Costuma jogar como zagueiro ou lateral esquerdo nos Aspirinas, mas tem cometido mais falhas que o aceitável na fase desfavorável da equipe. É o único pé atrás antes de seu desembarque no Mundial. E é bom não perder de vista Jackson Porozo, outro zagueiro jovem, de 22 anos. Chegou a passar pelo Santos, mas deslanchou mesmo no Boavista e começou bem a temporada com o Troyes, na Ligue 1. Virou novidade nos últimos amistosos de La Tri, já como titular.

Já no meio, quem pede passagem é José Cifuentes. O meio-campista de 23 anos não fez tanta fama no futebol local, por Universidad Católica e América de Quito. Porém, emenda sua segunda boa temporada com o Los Angeles FC e se coloca entre as principais figuras do time campeão da MLS. É um jogador combativo e firme na marcação, mas que também se projeta ao ataque. Não à toa, contribuiu razoavelmente com gols e assistências ao longo da temporada. Indica ter potencial para a Europa até pela idade.

No ataque, Gonzalo Plata é quem gera maiores expectativas entre os jovens equatorianos. O ponta se tornou xodó no time que terminou com o bronze no Mundial Sub-20 e foi eleito o terceiro melhor jogador do torneio. Liderou uma geração que hoje, na seleção principal, também contribui com os supracitados Cifuentes e Porozo. A promoção para a seleção principal não demorou e Plata teve boas atuações em vitórias importantes, como nos 6×1 sobre a Colômbia. É um jogador de extrema qualidade técnica e habilidade. Entretanto, por clubes ainda não deslanchou. Foi bem na promoção recente do Valladolid, mas jogou pouco na atual edição de La Liga por causa das lesões.

Por fim, vale uma menção especial a Kevin Rodríguez. O atacante de 22 anos se tornou uma aposta de última hora de Gustavo Alfaro. Ganhou uma chance no último amistoso preparatório contra o Iraque, agradou pela forma como se sentiu à vontade e terminou confirmado no Catar. O detalhe é que o novato sequer atua na primeira divisão do Campeonato Equatoriano, destaque no modesto Imbabura, quinto colocado da segundona local. É um jogador de força e explosão, mas que também indicou qualidade nos giros e dribles curtos.

Gustavo Alfaro, técnico do Equador (RODRIGO BUENDIA/AFP via Getty Images)

Técnico

Gustavo Alfaro tem sua carreira como treinador basicamente restrita ao futebol argentino. De início treinou clubes como Belgrano e San Lorenzo, até viver seu primeiro grande feito com a conquista da Copa Sul-Americana de 2007 à frente do Arsenal de Sarandí. Não aproveitou a estadia no Rosario Central depois e teve uma curta passagem pelo Al Ahli da Arábia Saudita, antes de retornar ao Arsenal para levar também o Campeonato Argentino em 2012 e a Copa Argentina em 2013. Técnico de um clube só? Não emplacou no Tigre ou no Gimnasia depois, antes de receber um pouco mais de consideração no Huracán. De qualquer maneira, acabou escolhido para substituir Guillermo Barros Schelotto no Boca Juniors. Conquistou o Campeonato Argentino, mas durou apenas um ano, sem agradar.

A Bombonera, ao menos, conferiu uma visibilidade para Gustavo Alfaro. E o cargo no comando do Equador caiu em seu colo durante a pandemia. Mostrou-se qualificado para o desafio. O treinador conseguiu não só adaptar seu estilo de jogo à equipe, como também conduziu um processo de renovação a partir de jovens promessas que pintavam e criou um ótimo ambiente dentro do elenco. Depois de conquistar a vaga na Copa do Mundo, a maneira como é adorado por lá se tornou expressa. Seu período à frente de La Tri merece o rótulo de histórico, pelo envolvimento criado e pelas bases estabelecidas. Resta saber qual será o papel na Copa do Mundo.

A geografia do elenco

A ausência de Byron Castillo deixa os imbróglios sobre o local de nascimento do lateral de lado aqui. A lista final do Equador tem dois jogadores que, de fato, nasceram fora do país. Natural de Madri, o ponta Jeremy Sarmiento é filho de imigrantes equatorianos que viviam na Espanha e, ainda na infância, se mudou à Inglaterra com a família. Por lá iniciou sua trajetória. Já o goleiro Hernán Galíndez é de Rosário, na Argentina, e cresceu por lá – acostumado a jogar bola com o seu vizinho Lionel Messi em torneios infantis da cidade. A mudança para o Equador aconteceu já como profissional, em 2012, e ele passou nove anos na Universidad Católica local, o que garantiu sua cidadania. O restante da equipe é nascida no território equatoriano.

Um dado curioso é que, embora Quito seja a cidade mais populosa do Equador e esteja na segunda província mais populosa do país, apenas um atleta nasceu na capital – Djorkaeff Reasco, filho de Néicer Reasco, ídolo da LDU. Basta comparar com Guayaquil, segunda cidade mais populosa e localizada na província mais populosa: são sete jogadores nascidos em Guayas, seis na capital e um no interior, o que indica a força do futebol local e o fomento às categorias de base.

Também é bastante interessante notar a influência da província de Esmeraldas, no noroeste do território, entre a fronteira com a Colômbia e o litoral do Pacífico. Esmeraldas possui uma população de 650 mil habitantes, menos de um sexto do total de Guayas. Porém, é a província mais representada: sete jogadores são da capital, a homônima Esmeraldas, e ainda há mais três do interior. Parte significativa do próprio time titular vem de lá, incluindo Pervis Estupiñán, Robert Arboleda, Piero Hincapié, José Cifuentes e Enner Valencia. É uma região que possui presença expressiva da população negra do Equador. O total de afro-equatorianos é estimado em 7% da população, o que parece pouco quando se compara com o predomínio de jogadores negros em La Tri. Curiosamente, Néicer Reasco é de San Lorenzo, ao norte de Esmeraldas, e só foi para Quito após se profissionalizar.

Outras províncias vizinhas a Esmeraldas também aparecem representadas. Há dois jogadores de Santo Domingo de los Tsáchilas, dois de Imbabura, um de Sucumbíos e um de Charchi. Todas essas províncias têm menos de 500 mil habitantes e ficam também próximas da fronteira com a Colômbia. Enquanto isso, não há convocados de áreas populosas ao sul do país, como Azuay, El Oro e Loja. O mesmo acontece com Manta, que tem a terceira maior população e acompanha boa parte da costa do Pacífico. As quatro províncias citadas, inclusive, têm mais habitantes que Esmeraldas.

Onde jogam

Entre as seleções sul-americanas, o Equador possui uma penetração menor nas grandes ligas europeias. Assim, a projeção dos destaques do país nos principais campeonatos é limitada. A maior base é o Brighton, caso isolado na Premier League, mas com três jogadores chamados para a Copa. Há dois nomes pontuais na Bundesliga, um na Ligue 1 e um em La Liga. No fim das contas, sobram talentos para campeonatos secundários do continente. Prova disso está nos dois atletas do Campeonato Belga. Ainda tem um importante nome na Turquia, com Enner Valencia.

O Campeonato Equatoriano não consegue preservar por tanto tempo os jogadores da seleção, mesmo com bons trabalhos de clubes como o Independiente del Valle e o Barcelona de Guayaquil. São apenas quatro jogadores da liga local, entre eles os três goleiros. A exceção fica por conta do surpreendente Kevin Rodríguez, em atividade na segundona com o Imbabura. Sobre o Independiente del Valle, no entanto, vale salientar a influência na formação de atletas. Nada menos que 11 jogadores passaram pelos negriazules, dez deles pelas categorias de base.

Centros econômicos mais fortes do continente americano se tornam mais atrativos para os destaques de La Tri. O Campeonato Mexicano é o recordista da convocação, com cinco jogadores. Ainda há quatro atletas em atividade na Major League Soccer, três deles compondo a colônia do Los Angeles FC, atual campeão da competição. Já a Argentina não deixa os equatorianos passarem despercebidos, com dois atletas. O futebol brasileiro, que até passou a investir mais em destaques do Equador, tem Robert Arboleda como representante solitário, do São Paulo.

Anteriormente, o Equador teve elencos dominados pela liga local na Copa do Mundo. Em 2002, na estreia em Mundiais, 20 jogadores atuavam no Campeonato Equatoriano – com as exceções no México, na Inglaterra e na Escócia. Já em 2006, 18 permaneciam no futebol nacional e cinco se aventuravam no exterior. Em 2014, o número de representantes dos clubes equatorianos caiu drasticamente, mas ainda assim eram oito. O México se aproximava com sete cedidos. Somente quatro estavam na Europa, e em quatro países diferentes.

Agustín Delgado, do Equador (JOHN MACDOUGALL/AFP via Getty Images/One Football)

Um herói em Copas

O maior craque da história do Equador vestia a 10 e usava um longo rabo de cavalo. Álex Aguinaga era o maestro da equipe que alcançou pela primeira vez a Copa do Mundo, em 2002. A trajetória de La Tri em Mundiais, porém, conta com outro símbolo daqueles anos de ineditismo à seleção no cenário internacional. Agustín Delgado era um centroavante de muita presença de área, que fez sucesso em diferentes clubes do país, finalista da Libertadores com o Barcelona em 1998 e, já veterano, reserva da LDU campeã em 2008. Neste intervalo, anotou alguns dos tentos mais comemorados por seus compatriotas.

Delgado foi o artilheiro das Eliminatórias para a Copa de 2002. Anotou nove gols, essenciais para a classificação inédita de La Tri, e chegou a conseguir uma transferência para o Southampton. A vitória por 1 a 0 sobre o Brasil em Quito veio com um tento do centroavante. Também garantiu triunfos sobre Bolívia, Chile, Paraguai e Peru. O primeiro gol dos equatorianos na história das Copas também seria assinalado pelo matador, numa cabeçada que abriu o placar contra o México na segunda rodada, apesar da virada dos adversários.

A influência de Delgado nas Eliminatórias para a Copa de 2006 seria menor. Anotou cinco gols, ainda assim suficientes para ser artilheiro da equipe, com o gosto de fechar a vitória por 2 a 0 sobre a Argentina em Quito. Já na Alemanha, Tín comandou a classificação de La Tri aos mata-matas. Fechou a vitória por 2 a 0 sobre a Polônia e terminou eleito o melhor em campo, enquanto deixou sua marca e repetiu o prêmio nos 3 a 0 sobre a Costa Rica. A Inglaterra se tornou algoz de La Tri com um chorado gol de falta de David Beckham nas oitavas, mas a campanha foi honrosa. Seria também a despedida de Delgado da seleção nacional, aos 31 anos, com 31 gols em 71 partidas desde 1994.

Calendário

Equador x Catar – 20/11, às 13h
Equador x Holanda – 25/11, às 13h
Equador x Senegal – 29/11, às 12h

Todos os convocados

NúmeroPosiçãoJogadorData de nascimentoClubeJogosGolsLocal de nascimento
Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo