Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo H: Coreia do Sul
A Coreia do Sul chega com uma esperança com nome e número: Son Heung-min, camisa 7, para tentar uma improvável classificação no Grupo H da Copa
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A Coreia do Sul ficou atrás do Irã nas eliminatórias para a Copa do Mundo, mas no geral mostrou superioridade dentro do continente. Desde que foi quarta colocada em casa, em 2002, porém, passou às oitavas de final apenas uma vez, na África do Sul. Isso não significa que não deixou a sua marca. Foi responsável por vencer e eliminar a então campeã do mundo Alemanha em 2018. Mas, naquela ocasião e agora, conta com um dos melhores atacantes do mundo, um talento especial que não aparece a toda hora. Tem a responsabilidade de buscar uma campanha mais longa – talvez nem tanto quanto a de 20 anos atrás – para marcar o nome de Son na história dos Mundiais. O grupo não ajuda, com Portugal, Uruguai e Gana, três fortes seleções que partem como favoritas para as duas vagas.
Como foi o ciclo até a Copa
Lembra que uma das histórias da Copa do Mundo de 2018 foi que Son Heung-min teria chorado após perder para o México na fase de grupos porque aquele resultado complicou as chances da Coreia do Sul passar às oitavas de final e, consequentemente, significava que ele teria que cumprir o serviço militar obrigatório? Não era verdade porque a vaga no mata-mata não estava entre os critérios para a anistia. Mas a medalha de ouro nos Jogos Asiáticos estava e logo de cara o craque sul-coreano tirou isso da frente, como um dos veteranos do elenco jovem que venceu a competição masculina de futebol do evento sediado na Indonésia.
Os Jogos Asiáticos são uma espécie de Pan-Americano do continente, disputados por seleções sub-21. Aquele elenco da Coreia do Sul contava com jovens que se estabeleceram no time principal, como Kim Min-jae e Hwang Hee-Chan. O primeiro desafio de verdade dos adultos, treinados por Paulo Bento desde o fim do Mundial da Rússia, foi a Copa da Ásia no começo de 2019. O resultado foi decepcionante. A Coreia do Sul passou com 100% de aproveitamento na fase de grupos, batendo China, Quirguistão e Filipinas, mas parou nas quartas de final para o futuro campeão Catar, depois de superar o Bahrein no começo do mata-mata.
O pior resultado da bicampeã asiática no torneio desde 2004 não custou o emprego de Bento, que seguiu em frente com a preparação para a Copa do Mundo. É um calendário até bem tranquilo porque ele teve pela frente apenas as Eliminatórias, amistosos e a Copa do Leste Asiático, que foi disputada apenas com jogadores locais. Nos amigáveis, teve alguns resultados legais, como vitória sobre Colômbia e Chile, uma revanche com o Catar e goleadas sobre Islândia e Egito. Perdeu duas vezes do Brasil também, por 3 a 0 e 5 a 1.
O que importava mesmo eram as Eliminatórias. A Coreia do Sul passou sem problemas pela segunda fase, com cinco vitórias e um empate no grupo que tinha Líbano, Turcomenistão e Sri Lanka. A Coreia do Norte se retirou por causa da pandemia. O hexagonal final começou com um empate sem gols com o Iraque. Em seguida, vieram vitórias contra Líbano e Síria, em casa, e igualdade com o Irã como visitante. A vaga foi selada com uma sequência positiva, de quatro partidas, a duas rodadas do fim. Ainda ganhou do Irã, depois de classificada, e perdeu pela primeira vez para os Emirados Árabes na rodada final. Ficou a 11 pontos de distância do terceiro lugar. Nos últimos amistosos, ganhou de Camarões e Islândia e empatou com a Costa Rica.
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Como joga
Paulo Bento fez a maior parte do ciclo partindo de uma formação 4-1-4-1, mas deve chegar à Copa o favorecendo o 4-4-2. Basicamente, para dar mais liberdade para Son Heung-min porque tudo precisa girar em torno do atacante do Tottenham para a Coreia do Sul ter sucesso. Costuma ser uma equipe dominante em postura nos duelos locais, mas precisará ajustar essa estratégia para enfrentar equipes mais qualificadas, como Portugal e Uruguai, por exemplo.
O goleiro Kim Seung-gyu, do Al Shabab, ganhou a posição de titular de Cho Hyeon-woo, titular na Rússia. Existe uma dúvida real na lateral direita, com três jogadores convocados que podem fazer a posição e com tempo em campo recentemente: Kim Moon-hwan, Yoon Jong-gyu e Kim Tae-hwan. O experiente Lee Yong, de 35 anos, ficou para trás e nem foi chamado. Na outra lateral, a expectativa é que jogue Kim Jin-su. A zaga parece pacificada com Kim Min-jae, destaque do Napoli e Kim Young-gwon, partindo para sua terceira Copa do Mundo.
O meio-campo deve ter Hwang In-Beom, importante jogador na distribuição da bola que deixou o Rubin Kazan depois do início da guerra da Rússia com a Ucrânia e está no Olympiacos. Ao seu lado, o mais provável é a presença de Jung Woo-young, um jogador mais defensivo. Kwon Chang-hoon, pela direita, foi uma ausência sentida na Copa do Mundo da Rússia por lesão, mas estará no Catar. No outro lado, a posição é de Hwang Hee-chan. Son é o segundo atacante, com total liberdade para se movimentar em torno do trabalho do centroavante Hwang Ui-jo – que não costuma fazer muitos gols: 16 em 49 jogos.
Na variação para o 4-1-4-1, Hwang Hee-chan passa à direita, com Son aberto na esquerda e abre-se uma vaga no meio-campo. Ali, existe oportunidade para Lee Jae-sung ou Paik Seung-ho, que recebeu seus minutos em amistosos recentes. E também, com uma mentalidade mais ofensiva, para os jovens talentosos Lee Kang-in e Jeong Woo-yeong, que serão importantes alternativas para o segundo tempo.
Time base: Kim Seung-gyu; Kim Moon-hwan (Kim Tae-hwan), Kim Min-jae, Kim Young-gwon e Kim Jin-su; Hwang In-Beom, Jung Woo-young, Kwon Chang-hoon e Hwang Hee-chan; Son Heung-min e Hwang Ui-jo. Técnico: Paulo Bento.
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Os donos do time
Algumas seleções têm um craque que se destaca bem mais que os outros, mas talvez nenhuma dependa tanto do seu para ter sucesso na Copa do Mundo quanto a Coreia do Sul. Não porque não há talento em outras posições. Mas porque Son Heung-min é tão bom assim. Foi o caso na Rússia e continua sendo: ele está entre os melhores atacantes do mundo, um dos mais rápidos, um dos mais habilidosos, um dos melhores finalizadores.
Son não é o primeiro sul-coreano a brilhar no futebol europeu, nem no inglês. A questão é seu protagonismo. Faz tempo que é o segundo melhor jogador do Tottenham, um clube que chegou na final da Champions League, briga por um lugar no G4 todos os anos e tem pretensões de brigar pelo título, atrás de Harry Kane, com quem forma uma dupla fabulosa. Chegou aos Spurs do Bayer Leverkusen em 2015 e até deu um salto de rendimento durante o último ciclo. Nas últimas duas temporadas completas, marcou 40 gols pela Premier League e igualou Salah como artilheiro da edição 2021/22. Desde a Copa da Rússia, são 63 tentos pela liga inglesa.
Na seleção, estreou depois do Mundial da África do Sul e disputará sua terceira Copa. Na última, mostrou o que pode fazer, com gols contra México e Alemanha. A preocupação é pelo seu estado físico porque precisou passar por uma cirurgia no rosto após ser acertado por Chancel Mbemba em um jogo da Champions League contra o Olympique de Marseille. Recuperou-se a tempo de ser confirmado no Catar. Fica a dúvida sobre sua condição e confiança.
Hwang Hee-Chan terá a responsabilidade de assumir um pouco do fardo ofensivo. Em 2018, era um jovem atacante marcando alguns gols em seus primeiros anos pelo Red Bull Salzburg, depois de ser promovido do Liefering, clube-satélite dos Touros que disputa a segunda divisão austríaca. Seus direitos federativos foram passados ao Leipzig, em 2020, mas ele não teve tantas chances e acabou emprestado ao Wolverhampton.
Fez cinco gols em 30 rodadas pela Premier League, o que pode parecer pouco (e muito realmente não é), mas foi até razoável em um time que tem horror a colocar a bola na rede. Acabou comprado em definitivo e virou reserva. Por qualidade técnica e pelo que já mostrou com a camisa do Salzburg, é o atacante mais talentoso do elenco sul-coreano depois da estrela do Tottenham.
Dessa vez, haverá um nome importante também na defesa. Kim Min-Jae estava sendo utilizado nos amistosos de preparação para a Rússia, mas ficou fora por lesão. Na época, ainda era um destaque do Jeonbuk Hyundai Motors. No ano seguinte, foi para o Beijing Guoan, da Superliga Chinesa. Com o dinheiro parando de jorrar e as restrições da pandemia, saiu em 2021 para o Fenerbahçe, no qual fez uma grande temporada. Ao perder Koulibaly para o Chelsea, o Napoli o elegeu substituto e pagou sua cláusula de rescisão. Não tem se arrependido. Kim tem sido um dos pilares da ótima defesa do líder do Campeonato Italiano e tentará fazer o mesmo na Copa.
As caras novas
O Bayern de Munique contratou seu primeiro jogador sul-coreano em junho de 2017. Jeong Woo-yeong chegou apenas em janeiro como uma promessa para o futuro. Passou pelo sub-19 e pelos reservas, nos quais marcou 13 gols em 29 rodadas da liga nacional, depois de ser incluído no grupo da pré-temporada pelo então técnico Niko Kovac. Naquele ano, fez seus únicos dois jogos pelo time principal dos bávaros – 13 minutos combinados contra Borussia Monchengladbach e Benfica.
Estava claro que o garoto, ainda com 20 anos, não teria muitas chances no Bayern de Munique. Pediu para ser negociado em busca de mais espaço e acabou no Freiburg. Ainda jovem, está se desenvolvendo e entrando aos poucos no time, mas na última temporada fez 23 jogos como titular na Bundesliga. Em outubro, ajudou a decidir uma goleada sobre o Nantes pela Liga Europa. Paulo Bento parece acreditar em seu potencial. Deu a primeira chance em março de 2021 e outros oito jogos desde então, suficiente para constar na lista final.
Sabe aquele Mundial Sub-20 em que Erling Haaland fez nove gols em um mesmo jogo? Pois é: o craque da competição não foi o norueguês, mas Lee Kang-in, há muitos anos cotado com um talento para o futuro que estreou ainda adolescente pelo Valencia. A bagunça do Mestalla nunca foi um ótimo ambiente para se desenvolver, embora tenha lhe concedido uma boa quantidade de jogos, mas não tantos minutos.
Em 2021, ao fim do seu contrato, saiu para o Mallorca e foi reserva em sua primeira temporada. Agora, é titular e tem dado boa contribuição, com dois gols e duas assistências em 14 rodadas. A sua presença na convocação é até um pouco surpreendente porque tem apenas um jogo pela seleção nos últimos dois anos, em março de 2021. Mas o talento e potencial são evidentes, e Paulo Bento decidiu que quer tê-los como opção no banco de reservas.
O técnico
O torcedor do Cruzeiro conhece Paulo Bento. Talvez tivesse preferido não conhecê-lo porque sua passagem pela Toca da Raposa não foi nem um pouquinho especial e durou pouco (17 jogos). Antes do sucesso de técnicos portugueses em solo brasileiro, ele tinha o pedigree de ter sido treinador da seleção portuguesa por quatro anos. Aposentou-se como jogador pelo Sporting e começou a treinar em Alvalade. Parecia bastante promissor: foi segundo colocado quatro vezes seguidas e conquistou duas Taças de Portugal.
Credenciou-se para ser o substituto de Carlos Queiroz a partir de 2010. Recuperou a equipe nas Eliminatórias da Eurocopa, venceu a repescagem contra a Bósnia e chegou à semifinal na Ucrânia e na Polônia – em uma época em que Portugal tinha menos talento além de Cristiano Ronaldo do que hoje em dia. A campanha na Copa do Mundo do Brasil, porém, foi muito fraca. Ele ainda ficou após a eliminação na fase de grupos, mas durou apenas até os compromissos seguintes.
Ainda mais desgastado pela passagem pelo Cruzeiro, foi para o Olympiacos e conseguiu o feito enorme de ser demitido na liderança do Campeonato Grego. Saiu um pouco mais de cena ao acertar com o Chongqing Dangdai Lifan, antes de retornar ao futebol de seleções pela Coreia do Sul. Comandou todo o último ciclo e, no geral, fez o que tinha que fazer, com uma classificação tranquila à Copa do Mundo.
Geografia do elenco
Sem grandes colônias no exterior ou tradição de naturalizar jogadores, todos os 26 convocados nasceram dentro dos limites da Coreia do Sul. Cidades próximas e dois dos principais pólos demográficos do país, Seul e Incheon, no noroeste, concentram a maior parte dos atletas, com dez. Embora também muito populosa, Daegu conta apenas com Cho Yu-min. Ulsan, no sudeste, tem quatro representantes, e o resto se divide principalmente no oeste, entre Daejeon e Gwangju, com três exceções: Yoon Jong-gyu e Son Jun-ho são de Yeongdeok, no leste, e Kim Min-jae é o jogador nascido mais ao sul, em Tongyeong. Perto da fronteira com a Coreia do Norte está Chuncheon, cidade natal de Son Heung-min e Hwang Hee-chan, talvez os dois mais talentosos jogadores do time.
Onde jogam
A Coreia do Sul tem dois jogadores próximos do mais alto nível do futebol europeu. Son Heung-min, claro, um dos melhores atacantes da Premier League defendendo o Tottenham, e Kim Min-jae, destaque da Serie A com a camisa do Napoli. Vice-líder da Bundesliga na parada para a Copa do Mundo, o Freiburg conta com Jeong Woo-yeong, mas ele não costuma ser titular. As cinco grandes ligas também estão presentes com Hwang Hee-chan, do Wolverhampton, também um reserva, Lee Jae-sung, jogador importante do Mainz, e Lee Kang-in, promessa do Mallorca.
Os outros únicos jogadores que atuam na Europa são a dupla do Olympiacos, Hwang In-Beom e Hwang-Ui Jo. O resto do elenco está concentrado na Ásia, com muitos jogadores locais. Catorze atuam na liga sul-coreana, sendo seis no Jeonbuk Hyundai Motors (pentacampeão da K-League entre 2017 e 2021), três do Ulsan Hyundai (atual vencedor do Campeonato Sul-Coreano), dois do Seul e um de Daegu, Daejeon Hana Citizen e Gimcheon Sangmu. Son Jun-ho defende o Shandong Taishan, da China, e Kim Seung-gyu, o Al Shabab, da Arábia Saudita. Por fim, Jung Woo-young pode tomar banho em casa depois dos jogos porque é contratado do Al Sadd, do Catar.
Um herói em Copas
A Coreia do Sul disputou uma Copa do Mundo em 1954. Perdeu os dois jogos. Passou a ser presença constante nos anos noventa e fazia apenas figuração. Até que chegou o Mundial de 2002, que sediou ao lado do Japão. E, sim, o malicioso poderia dizer que o grande herói sul-coreano daquele torneio foram as equipes de arbitragem. Como não somos maliciosos, melhor falar de Park Ji-Sung.
Park era um garoto de 19 anos quando estreou pela seleção sul-coreana. Não era muito mais velho quando foi convocado por Guus Hiddink para a Copa do Mundo, jogando pelo Kyoto Sanga, do Japão. Foi um nome importante no acesso do clube à primeira divisão e continuou mostrando talento na J-League. A Coreia do Sul, de cara, ganhou da Polônia e conseguiu sua primeira vitória em Mundiais. Empatou com os EUA e disputaria vaga nas oitavas de final com Portugal na última rodada.
Foi o grande momento de Park. Em um jogo no qual a arbitragem também teve um papel, expulsando dois jogadores de Portugal (embora não tenham sido decisões absurdas), Park matou a bola no peito, tirou Sérgio Conceição com um toquinho e encheu o pé entre as pernas de Vítor Baía para garantir a vitória. Como os EUA perderam da Polônia, uma derrota apertada não tiraria a Coreia do Sul do mata-mata. Mas não era bom arriscar e foi um feito em si se classificar em primeiro lugar.
Conhecido pelo seu empenho e por ter pulmões de aço, Park também foi importante nas vitórias polêmicas contra Itália e Espanha no mata-mata, mesmo sem ter marcado. O destaque na Copa do Mundo lhe valeu uma carreira na Europa. Um ano depois, foi contratado pelo PSV, treinado por Hiddink, e depois passou para o Manchester United. Os problemas físicos atrapalharam um pouco, mas ainda virou um dos jogadores favoritos de Alex Ferguson em Old Trafford, com um bom desempenho especialmente em confrontos importantes contra Arsenal, Chelsea e Liverpool. E seguiu servindo sua seleção, embora sem o mesmo sucesso de 2002. Marcou nas Copas da Alemanha e da África do Sul, o único jogador asiático a fazer um gol em três edições consecutivas do Mundial.
Calendário
Uruguai x Coreia do Sul – 24/11
Coreia do Sul x Gana – 28/11
Coreia do Sul x Portugal – 02/12
Todos os convocados
| Número | Posição | Jogador | Data de nascimento | Clube | Jogos | Gols | Local de Nascimento |
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