Guia da Copa do Mundo 2022 – Grupo D: Tunísia
Sem grandes expectativas, a Tunísia sabe que chegar à Copa já foi um grande feito e tentará ao menos causar dificuldades aos adversários
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A Tunísia se tornou uma participante frequente da Copa do Mundo. Esta será sua quinta participação desde 1998. Ficou fora apenas em 2010 e 2014. O ciclo não foi o mais tranquilo, com constante troca de treinadores, um time com dificuldade para fazer gols, embora tenha uma forte defesa, e um técnico que era assistente até outro dia. Não há tanto talento de alto nível no elenco, com poucos jogadores importantes nas grandes ligas. Logo, é difícil ter altas expectativas, ainda mais em um grupo com Dinamarca e França. Não fazer um papel feio nesses dois jogos e tentar arrancar uma vitória contra a Austrália, que seria a sua terceira na história dos Mundiais, provavelmente ficaria de bom tamanho.
Como foi o ciclo até a Copa
Dentro das suas capacidades, a Tunísia não fez uma Copa do Mundo ruim na Rússia. Complicou a vida da Inglaterra, que precisou de um gol de pênalti aos 46 minutos do segundo tempo para vencer, e ganhou de virada do Panamá. O técnico Nabil Maaloul talvez fosse mantido, mas pediu demissão para treinar o Al Duhail, do Catar. Faouzi Benzarti, chamado para sua quarta passagem pela seleção, durou apenas três jogos (com três vitórias), demitido logo depois de garantir classificação à Copa Africana de Nações. Uma decisão abrupta e sem maiores explicações, que Benzarti chamou de “humilhante e insultante”. Também disse que ela não teria sido tomada com um técnico estrangeiro, o que torna provável que a contratação do francês Alain Giresse para substituí-lo tenha jogado sal na ferida.
Giresse tinha experiência no futebol africano, comandando as seleções de Gabão, Mali e Senegal. Começou a trabalhar na Tunísia em 2019. Seu primeiro desafio foi a Copa Africana de Nações daquele ano. Passou raspando da fase de grupos, com três empates, mas conseguiu chegar longe, às semifinais, após derrotar Gana nos pênaltis e Madagascar por 3 a 0. Não foi exatamente uma campanha brilhante – a Tunísia fez seis gols em sete jogos, três contra Madagascar -, e Girasse foi demitido em agosto. Mondher Kebaier, com rodagem pelos principais clubes tunisianos, foi contratado para o seu lugar.
Com apenas duas derrotas, em amistosos, em seus primeiros 20 jogos, Kebaier conseguiu garantir a Tunísia na Copa Africana de Nações de 2021 (realizada no ano seguinte por causa da pandemia) sem problemas. Pouco antes da competição marcada para janeiro, Kebaier levou grande parte dos seus principais jogadores para a Copa Árabe e chegou até à final, na qual perdeu para a Argélia. Na CAN, passou por um jogo escandaloso na fase de grupos.
O confronto contra Mali era um dos mais esperados. O árbitro zambiano Janny Sikazwe, com uma longa ficha corrida de episódios fraudulentos, por algum motivo continuava apitando e encerrou a partida aos 40 minutos do segundo tempo, com Mali vencendo por 1 a 0. As ações foram retomadas, e Mali teve El Bilal Touré expulso de maneira bem exagerada. Com 44 minutos no cronômetro, Sikazwe novamente terminou o duelo, o que foi bastante estranho porque houve pênaltis, expulsão e uma pausa para hidratação. Os times foram para os vestiários para ir embora, mas a Confederação Africana, quase 20 minutos depois, pediu que eles voltassem para terminar a partida. Apenas Mali subiu ao campo e teve os seus três pontos confirmados – com o quarto árbitro no apito.
Não foi a melhor CAN da Tunísia, que ganhou apenas da Mauritânia na fase de grupos, perdendo também para Gâmbia, e avançou às oitavas de final como um dos melhores terceiros colocados. No mata-mata, emplacou boa vitória contra a Nigéria, antes de ser eliminada por Burkina Faso. Kebaier foi demitido e curiosamente assumiu o cargo de Benzarti no Raja Casablanca. Em semanas, haveria os playoffs das Eliminatórias Africanas, valendo vaga na Copa do Mundo. A Tunísia havia se classificado superando Guiné Equatorial, Zâmbia e Mauritânia. E novamente enfrentaria Mali.
O assistente Jalel Kadri, que havia assumido a equipe interinamente no passado, ficou responsável pelos dois jogos, nos quais a Tunísia mostrou sua principal força: uma defesa muito sólida que travou Mali e contou com um gol contra no jogo de ida para garantir a vaga na Copa do Mundo do Catar. Nas partidas mais recentes, passou sete em sequência sem ser vazada – até levar cinco do Brasil.
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Como joga
Tudo começa na defesa. A Tunísia é um time que sofre poucos gols e de vez em quando, se for a lua certa, também marca alguns. Usa geralmente uma linha de quatro, embora tenha variação para cinco atrás. Pode jogar com um ou dois volantes no meio. O goleiro Bechir Ben Saïd estreou na Copa Africana de Nações e foi mantido como titular. Nos últimos amistosos, porém, jogou Aymen Dahmen. Principal arqueiro tunisiano na Rússia, Farouk Ben Mustapha perdeu posição na Copa Árabe e em abril sofreu uma lesão de ligamento no joelho que impediu sua participação.
Mohamed Dräger, do Lucerna, da Suíça, terminou a Copa Africana de Nações como titular e se manteve para os jogos decisivos contra Mali. Também foi mais utilizado nos amistosos recentes, deixando Hamza Mathlouthi um pouco mais em segundo plano na lateral direita. Na esquerda, a preferência parece ser pelo experiente Ali Maâloul, do Al Ahly. Montassar Talbi e Bilel Ifa formaram a dupla de zaga mais frequente, mas Dylan Bronn também ganhou minutos.
Ellys Shkiri costuma ser o primeiro volante quando a coisa aperta. Ghaylen Chaaleli é uma opção para substitui-lo ou formar o famoso duplo pivote. Jalel Kadri confia bastante no meia Aïssa Laïdouni, do Ferencváros, que pode se destacar nesta Copa. Ben Romdhane pode ocupar esse terceiro lugar no meio-campo, e Ferjani Sassi tem ganhado espaço nos últimos amistosos. Meia no Brondby, Anis Slimane foi usado mais pela direita por Kadri recentemente.
No ataque, o ponta Youseff Msakni parece ter lugar cativo pela esquerda, com Naïm Sliti pelo outro lado. Ou talvez o ídolo Wahbi Khaziri. Um jogador mais móvel em sua carreira por clubes, tem o hábito de jogar mais centralizado na seleção. Ficou fora dos playoffs das Eliminatórias por lesão e não jogou muito com Kadri, mas sua experiência é vital. Se for deslocado, Seifeddine Jaziri deve ser o centroavante.
Time base: Aymen Dahmen (Bechir Ben Said); Mohamed Dräger, Montassar Talbi, Bilel Ifa e Ali Maâloul; Ellys Shkiri (Ghaylen Chaaleli), Aïssa Laïdouni e Anis Slimane; Youseff Msakni, Naïm Sliti (Ben Slimane) e Wahbi Khazri (Seifeddine Jaziri). Técnico: Jalel Kadri.
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Donos do time
Principal nome da Tunísia, Wahbi Khazri não disputou as partidas decisivas contra Mali por lesão. Desde então, entrou em campo apenas em amistosos contra Comores e Brasil, saindo do banco de reservas, mas é difícil imaginar que não terá um papel importante no Catar. O atacante consegue jogar em várias posições do setor ofensivo e tem muita experiência em alto nível. Formado pelo Bastia, passou a maior parte da carreira na França, com exceção de algumas dúzias de jogos pelo Sunderland.
Sua passagem de maior sucesso foi pelo Saint-Étienne. Chegou após ser o destaque da Tunísia na Copa do Mundo da Rússia. Estava emprestado pelo Sunderland ao Rennes. Em quatro temporadas, fez 37 gols em 114 jogos pelo múltiplo campeão francês – que não estava em sua melhor fase e acabou rebaixado. Sua melhor campanha foi a primeira, em 2018/19, com 14 gols e sete assistências por todas as competições. Depois da queda, transferiu-se para o Montpellier para continuar na Ligue 1. Fez 11 jogos nesta temporada, com dois tentos.
Na ausência de Khazri, Youssef Msakni usa a braçadeira de capitão. Também experiente, com 31 anos e 86 jogos pela seleção tunisiana. Ele será quase um local na Copa do Mundo. Quando trocou o Esperance pelo Al Duhail – na época, ainda Lekhwiya – em 2013, havia conquistado quatro títulos tunisianos consecutivos e disputou três finais de Champions League africana, com uma vitória. Com exceção de alguns meses no Eupen, da Bélgica, passou todo o resto da carreira no Catar, com 87 gols em 164 jogos pelo Al Duhail. Está desde fevereiro do ano passado no Al Arabi, também do país sede do Mundial. Preferiu a estabilidade financeira da liga catarina a tentar a sorte na Europa, onde atraiu certo interesse.
Ellys Shkiri, por outro lado, nunca saiu da Europa. Foi formado nas categorias de base do Montpellier e chegou ao Colônia em 2019, depois de quatro anos integrado ao time principal. É titular sempre que possível na Alemanha. Tem 123 jogos de Ligue 1 e 96 de Bundesliga em seu currículo, além de 48 pela seleção tunisiana, na qual estreou em em 2018.
Caras novas
Um dos nomes mais promissores da Tunísia é Hannibal Mejbri, meia de 19 anos que pertence ao Manchester United. Chegou a ser eleito o melhor jogador sub-23 dos Red Devils em uma temporada. Tem três jogos pelo time principal e foi emprestado ao Birmingham, da segunda divisão, no qual tem atuado bastante, embora raramente como titular. Nasceu na França, como muitos de seus colegas de seleção. Passou pelo comum dilema de decidir qual país representaria e, ao optar pela Tunísia, foi apresentado como um grande reforço – que de fato parece ser. Estreou em 2021 pelo time nacional e já tem 18 jogos.
Uma novidade relativamente recente é o meia Aïssa Laïdouni. Mais experiente, com 25 anos, chegou à seleção apenas em março de 2021 e praticamente não saiu mais do time. Jogou todas as partidas que podia, menos na Copa Árabe. Saiu do time reserva do Angers, em 2018, e fez duas temporadas pelo Voluntari, da Romênia. Em 2020, chegou ao Ferencváros e participou de dois títulos do Campeonato Húngaro.
O goleiro Aymen Dahmen parece ter acelerado na hora certa. Ben Saïd foi o goleiro em todos os jogos oficiais de 2022, entre janeiro e começo de junho, mas o arqueiro do Sfaxien, do Campeonato Tunisiano, foi o escolhido nos amistosos de preparação. Aos 25 anos, tem apenas quatro jogos pela seleção e pinta como possível titular. Nunca defendeu outro clube além do seu, com 132 partidas desde que estreou em 2018.
Técnico
Jalel Kadri tem muita rodagem como treinador. Sua carreira dura 20 anos. Começou em equipes locais até treinar a seleção sub-20 em 2007. Em 2011, começou a explorar outros horizontes, trabalhando na Arábia Saudita, antes de sua primeira passagem como assistente na seleção tunisiana, em 2013, sob o comando de Nabil Maâloul. Também trabalhou em Emirados Árabes e Líbia antes de retornar ao time nacional para auxiliar Mondher Kebaier. Ganhou uma chance grande e uma responsabilidade maior ainda ao receber as rédeas para os playoffs das Eliminatórias Africanas, com a saída de Kebaier após a Copa Africana de Nações. Conseguiu a vaga, com dois jogos bem travados contra Mali, e nada indica que abrirá a casinha no Catar.
A geografia do elenco
Após conseguir independência da França em 1956, muitos tunisianos decidiram atender à necessidade de mão de obra na Europa Ocidental. Segundo o Instituto Universitário Europeu, em 2014, havia cerca de 540 mil imigrantes de primeira geração descendentes de tunisianos morando no exterior. Naturalmente, muitos deles estão na França. E aí, também naturalmente, alguns deles chegaram à seleção tunisiana. Dos 26 convocados pelo técnico Jalel Kadri, dez nasceram em território francês. Cinco na região sul, entre Montpellier, Marselha, Cannes e Nice, além de Wahbi Khazri, em Ajaccio, na Ilha de Córsega. Os outros quatro são de Paris ou nos arredores.
Nem todos tiveram real oportunidade de defender a França. A Tunísia comemorou quando Hannibal tomou a sua decisão. Wahbi Khazri teve mais dúvidas. Defendeu a seleção tunisiana nas categorias de base, depois o sub-21 da França e voltou a se comprometer com o país africano ao ser chamado para a CAN de 2013. Não se arrepende da sua escolha. “Joguei cinco Copas Africanas de Nações, uma Copa do Mundo e espero que a segunda aconteça”, disse, em entrevista ao site African News, em setembro. Aïssa Laïdouni tinha mais de duas opções porque também tem origem argelina. O goleiro Mouez Hassen passou por todas as categorias de base da França, antes de optar pela Tunísia na hora de se sentar na mesa dos adultos.
Entre os nascidos na Tunísia, a maioria é originária da Grande Tunis, capital e cidade mais populosa do país. Quatro (Aymen Mathlouthi, Mohamed Ben Romdhane, Youssef Msakni e Seifeddine Jaziri) são da própria cidade. Outros três, de Ariana, nos arredores: Bilel Ifa, Yassine Meriah e Ferjani Sassi. Ghailene Chaalali tem origem em La Manouba, também perto, e Issam Jebali é de Majaz al Bab, um pouco mais ao oeste de Tunis. O segundo polo demográfico tunisiano, a cidade de Sfax na região centro-leste, tem três representantes: Aymen Dahmen, Ali Maâloul e Ali Abdi. Bechir Ben Saïd (Gabes) e Yassine Khenissi (Zarzis) são da região sul, mais perto da fronteira com a Líbia.
Dois casos são especiais. Filho de pai alemão, Mohamed Dräger nasceu em Freiburg e começou a jogar bola pelo time local, com passagens por Paderborn e Olympiacos antes de ser contratado pelo Nottingham Forest – aproveitando que o clube grego e o inglês têm o mesmo dono. Ele foi emprestado ao Lucerna, da Suíça, por uma temporada, em 2020/21, e retornou para mais um ano, com opção de compra. O garoto Anis Slimane, 21 anos, nasceu em Copenhague e fez toda sua carreira até agora na Dinamarca. Está no Brondby desde 2020 e chegou a jogar pelo sub-19 da seleção dinamarquesa.
Em setembro, o lateral direito Yan Valeri, ex-Southampton e atualmente no Angers, decidiu representar a Tunísia, embora tenha nascido na França. Chegou a ser convocado e fez seu único jogo até agora contra o Brasil, mas foi tarde demais para constar na lista final.
Onde jogam
Olhando apenas para os clubes, não há um forte indicativo de abundância de talento na seleção tunisiana. Muitos defendem escudos importantes do futebol africano, como o experiente Ali Maâloul, do Al Ahly, do Egito, e Seifeddine Jaziri, no rival Zamalek. A liga local é a que tem mais representantes, com oito jogadores, três deles, Yassime Meriah, Ghailene Chaalali e Mohamed Ben Romdhane, do Espérance, dominante desde 2016. O futebol do Oriente Médio também está bem presente e dois jogadores serão locais na Copa do Mundo: Youssef Msakni, do Al Arabi, e Ferjani Sassi, do Al Duhail. Naïm Sliti defende o Al Ettifaq, da Arábia Saudita. Taha Khenissi e Bilel Ifa são do Kuwait.
Chegando à Europa, o maior contingente está naturalmente na França, mas não é tão grande quanto poderíamos imaginar. Apenas três jogadores: Wahbi Kazhri do Montpellier e o zagueiro titular Montassar Talbi do Lorient, ambos da Ligue 1, e Ali Abdi, opção para a lateral esquerda, do Caen, da Segundona. Além de Ben Slimane, do Brondby, Issam Jebali joga no OB, também da Dinamarca. O Atromitos, da Grécia, enviou Wajdi Kechrida à Copa do Mundo, e o Lucerna, da Suíça, tem Mohamed Dräger.
O clube europeu mais importante com jogador na Tunísia é provavelmente o Ferencváros, de Aïssa Laïdouni, atual tetracampeão húngaro. Nas grandes ligas, seria o Colônia de Ellyes Skhiri, que disputa a Conference League nesta temporada. Na Serie A, a Salernitana conta com o zagueiro Dylan Bronn. Na prática, Hannibal é jogador do Manchester United, mas está emprestado ao Birmingham, da segunda divisão inglesa.
Um herói em Copas
A Tunísia ganhou independência da França em 1956, e suas primeiras tentativas de disputar uma Copa do Mundo não haviam dado certo. A vaga veio para 1978, após uma extensa campanha eliminatória, sob o comando de Abdelmajid Chetali, que ganhou uma bolsa do Ministério do Esporte tunisiano para estudar na Academia de Colônia, na Alemanha. A estreia seria contra o México, e um gol de pênalti de Váquez Ayala não foi um bom presságio. Mas o empate saiu no começo do primeiro tempo. A cerca de dez minutos do fim, Néjib Ghommidh, um volante que passou quase toda sua carreira no Club Africain, recebeu pela esquerda e tocou na saída do goleiro mexicano para fazer 2 a 1. Na comemoração, ganhou um beijo no rosto de um fotógrafo – supõe-se que tunisiano. Aquele gol foi decisivo para a Tunísia vencer em sua primeira partida de Copa do Mundo. Mokhtar Dhouieb ainda fechou o placar perto dos acréscimos.
Calendário
Dinamarca x Tunísia – 22/11
Tunísia x Austrália – 26/11
Tunísia x França – 30/11
Todos os convocados
| Número | Posição | Jogador | Data de nascimento | Clube | Jogos | Gols | Local de Nascimento |
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