Copa do Mundo

Governo peruano decreta feriado para o dia de Peru x Austrália – mesma data em que o presidente daria depoimento em caso de corrupção

Segundo o Ministro da Cultura, o feriado serve para facilitar aos torcedores e não tem a ver com a investigação de organização criminosa contra o presidente

A seleção peruana terá um compromisso decisivo na próxima segunda-feira, quando o sonho de retornar à Copa do Mundo pode se concretizar mais uma vez. A Blanquirroja enfrenta a Austrália em partida única no Catar e quem vencer estará no Mundial. O governo do Peru, então, resolveu facilitar a situação para aqueles que quiserem assistir ao duelo. O presidente Pedro Castillo decretou feriado nacional para o setor público, em anúncio oficializado por Alejandro Salas, Ministro da Cultura. As horas deverão ser repostas depois e a medida não é obrigatória para o setor privado, mas muita gente reclamou da decisão – com razão. Na segunda-feira, Castillo deveria prestar depoimento ao Ministério Público num caso em que é investigado por organização criminosa e tráfico de influências.

Em 2017, o governo peruano (então presidido por Pedro Pablo Kuczynski) agiu de maneira parecida. Também foi decretado o feriado nacional, mas só depois que a classificação contra a Nova Zelândia se consumou. Agora, a medida é tomada para ajudar quem desejar assistir ao duelo. O pontapé inicial acontecerá às 13 horas no fuso horário de Lima – às 15 horas em Brasília. O poder público sequer optou por meio expediente, garantindo o feriado completo.

Porém, em consequência, Pedro Castillo não comparecerá ao Ministério Público para prestar esclarecimentos sobre o chamado “Caso Tarata”, em que a licitação para a construção de uma ponte na região amazônica teria sido feita de maneira ilícita. O episódio ainda envolve o ex-ministro dos Transportes, seis parlamentares, um ex-secretário-geral da presidência e dois sobrinhos de Castillo. O presidente é acusado de ser o chefe da rede fraudulenta. Ele é investigado por tráfico de influência, organização criminosa e conluio agravado. O governo, contudo, garante que o feriado não tem a ver com o depoimento – que seria prestado às 10 horas.

“O Conselho de Ministros determinou que seja feriado em todo o dia, para que a população possa ver a seleção se classificar à Copa do Mundo. E que isso motive as pessoas a saírem às ruas. Consideramos que é um acontecimento de união, de nacionalismo e de identidade nacional, sobre o qual o setor provado poderá adotar opcionalmente”, afirmou o ministro Alejandro Salas. “Antes de qualquer reunião, entendi que a defesa técnica do presidente, por não ter acesso completo às peças do expediente, pediu a reprogramação, que não tem a ver nada com o que foi determinado hoje. A defesa do presidente obedece a informar o que se pede”.

A Câmara de Comércio de Lima também protestou contra o feriado. Segundo a entidade, o feriado poderia gerar prejuízo de 1,5 bilhão de soles à economia local – cerca de 1,95 bilhão de reais. Conforme a associação, o feriado é “desnecessário e prejudicial”, especialmente num contexto de crise econômica. A medida interferiria em 1,6 milhão de trabalhadores do setor público e outros 4,1 milhões de empresas privadas. O Ministério da Cultura rebateu, dizendo que a classificação do Peru à Copa do Mundo vai “reativar a economia”. O Peru também atravessa um período de instabilidade política. Em março, o Parlamento rejeitou um pedido de impeachment contra o presidente Pedro Castillo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo