Copa do Mundo

Geertruida: O astro dos Países Baixos que gagueja nas câmeras, é rapper e quer brilhar na Copa

Defensor virou capitão do Feyenoord e construiu uma carreira paralela no rap enquanto aprendia a conviver com uma gagueira que nunca o impediu de encontrar sua voz

Quando era criança, Lutsharel Geertruida ficava na sala de casa ouvindo um barulho familiar ecoar pelo bairro: o rugido do De Kuip, o estádio do Feyenoord, a poucos quarteirões de distância. Anos depois, aquele menino do Peperclip, um conjunto residencial em Roterdã, pisaria naquele mesmo gramado com a braçadeira de capitão no braço.

Hoje, defende o Sunderland por empréstimo do RB Leipzig, é presença constante na seleção dos Países Baixos e chega à Copa do Mundo como um dos nomes mais interessantes da seleção laranja. Mas a história de Geertruida não cabe apenas no futebol.

Para entendê-la de verdade, é preciso falar de duas coisas que, à primeira vista, parecem se contradizer: a gagueira que o afasta das câmeras e o rap que o liberta delas.

Geertruida: o menino do sul dos Países Baixos que aprendeu a sobreviver

O Peperclip não é exatamente o tipo de endereço que aparece nos folhetos turísticos de Roterdã. Mas Geertruida faz questão de defender o bairro onde cresceu com a mesma veemência com que defendia a área no Feyenoord.

“O bairro me deu tudo o que conquistei. Tive uma infância ótima, não me faltou nada. A quebrada me deu a mentalidade para sobreviver no mundo do futebol, um mundo onde você enfrenta constantemente momentos que podem ir para qualquer lado”, disse, em entrevista ao site “Life After Football”.

A família é o alicerce de tudo. O pai, Luthson, é professor de música e sempre encheu a casa de som: música de Curaçao, soul, jazz. A mãe, Sharmine, manda mensagens imensas antes de cada jogo.

Geertruida pela seleção neerlandesa
Geertruida pela seleção neerlandesa (Foto: IMAGO / ANP)

“Você precisava ver, são enormes. Elas me dão muita força”, contou o zagueiro. Os amigos do bairro também nunca saíram do roteiro. Geertruida ainda fala com eles todos os dias. Eles estão nas arquibancadas do De Kuip em todos os jogos em casa — e ele vai aos jogos deles, em clubes amadores da região.

“Não é obrigação, eu gosto. É um sinal de que estamos aqui uns pelos outros.” Para cada renovação de contrato no Feyenoord, ele convidava o máximo de amigos e familiares que conseguia para o estádio. “Todos eles contribuíram para esse sucesso.”

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Gagueira nas câmeras, flow no microfone

Quem acompanha Geertruida de longe pode estranhar a contradição: um capitão de time grande que evita entrevistas. Mas quem conhece sua história entende. O zagueiro tem uma gagueira acentuada que torna a fala diante das câmeras um desafio real.

O assunto veio a público quando o jornalista da “ESPN” neerlandesa Jan Joost van Gangelen revelou que a emissora havia consultado o Feyenoord sobre uma entrevista com o jogador e recuado após a conversa.

“Ele gagueja bastante. Por isso o Feyenoord decidiu, em comum acordo com ele, não fazer entrevistas”, explicou o jornalista na ocasião.

Uma tentativa de incluí-lo em um vídeo para os torcedores também não funcionou. Van Gangelen foi direto: “Alguém que é fisicamente impecável simplesmente não consegue desenrolar a fala.”

Mas há um lugar onde Geertruida nunca trava: o estúdio. Na música, as palavras fluem. Começou fazendo rap com os amigos do bairro, usando Beats do YouTube no quarto de casa. Com o tempo, o hobbie virou algo mais sério: hoje, alugam estúdio e lançam músicas de verdade.

As letras que escreve falam de vida, de superação, de identidade. Num dos trechos mais reveladores, ele escreve:

“Me tornei um exemplo sem nem saber / Como você pode odiar alguém, isso eu não entendo / Todas as derrotas que tive, a gente leva com leveza.”

“Minhas letras são sobre a vida, sobre o que eu passo. O futebol às vezes é como a vida real: altos e baixos. Isso também molda quem eu sou”, explica. E deixa claro a hierarquia: “Mas o futebol é o número um e sempre será o número um.”

De capitão do Feyenoord à Copa do Mundo

Em 198 jogos pelo Feyenoord, com 23 gols, Geertruida construiu uma reputação sólida o suficiente para atrair atenção europeia. Um dos interessados foi justamente Arne Slot, que o comandou no Feyenoord antes de assumir o Liverpool.

A trajetória culminou na ida para o RB Leipzig e na convocação de Ronald Koeman para a seleção neerlandesa, onde figura como uma das peças do elenco que chega à Copa do Mundo com ambições reais.

Geertruida, Depay e Lang pelos Países Baixos
Geertruida, Depay e Lang pelos Países Baixos (Foto: IMAGO / DeFodi Images)

Em campo, Geertruida é um defensor completo: zagueiro e lateral-direito que ganhou grande notoriedade no Feyenoord de Slot atuando pelo lado. Mesmo jogando mais atrás, tem grande capacidade com a bola no pé e, se liberado para tal, sobe bastante ao ataque.

Na seleção, é convocado desde 2023 e começou como zagueiro, mas sua versatilidade já foi vista no ciclo para a Copa do Mundo. Em 2024, se consolidou como lateral no time de Koeman e, inclusive, jogou a Euro nessa posição. Até mesmo como volante já foi improvisado por alguns minutos.

O menino que ouvia o De Kuip do lado de fora, que gagueja nas entrevistas, mas é firme nas rimas, que carrega o bairro no peito e a família nas arquibancadas: esse é Lutsharel Geertruida. E a Copa do Mundo pode ser o palco onde o mundo finalmente aprende a pronunciar o nome dele

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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