Como Fifa lucrou milhões de dólares com ingressos para a Copa antes do início das vendas?
Venda dos pacotes e de direitos de compra levantaram polêmicas entre os usuários
Antes mesmo das vendas dos ingressos para a Copa do Mundo de 2026 serem abertas ao público, a Fifa já lucrou milhões de dólares com os bilhetes para o Mundial, em um processo de pré-venda. A entidade que rege o futebol mundial passou a comercializar o “direito de comprar” os tickets com antecedência.
De acordo com o portal “The Athletic”, ainda no ano passado, a plataforma Fifa Collect vendeu milhares de tokens digitais — que custam centenas de dólares — que prometem aos interessados a possibilidade de comprar um ou dois ingressos para a Copa do Mundo em uma data a ser definida posteriormente.
Os tokens são essencialmente, e exclusivamente, um atalho de valor elevado para adquirir os bilhetes do torneio, permitindo que os compradores não tenham que enfrentar filas virtuais organizadas por ordem de acesso e que não incluem os valores dos ingressos em si.
Ainda segundo o periódico, com o item, foi oferecido aos compradores o acesso garantido a ingressos para uma partida específica, em uma seção desconhecida. Entretanto, além de adquirirem o passe, os interessados ainda deverão pagar o preço integral pelos tickets — preço que a Fifa ainda não definiu.
O jornal informou que, de acordo com sites spinoff, que rastreiam as vendas do Fifa Collect, e com dados enviados por usuários ao “The Athletic”, a plataforma vendeu mais de 30 mil desses chamados “Direitos de Compra”, lucrando aproximadamente 10 milhões de dólares (cerca de R$ 54 milhões).
Já um conjunto de dados levantados pelo periódico estimou uma receita total de 20 milhões de dólares (R$ 108 milhões). Outro levantamento apontou que as vendas diretas podem ter resultado em um lucro de 14 milhões de dólares (R$ 76 milhões).
A reportagem do jornalista Henrique Bushnell destacou que não é possível calcular um valor exato, já que alguns dos tokens foram vendidos de forma combinada com ingressos para jogos do Mundial de Clubes de 2025 ou junto a itens colecionáveis digitais, e outros foram obtidos por meio de promoções ou como recompensas.

Entretanto, o jornal considera que os valores passaram dos 15 milhões de dólares. Já levando em consideração todas as vendas no Fifa Collect, incluindo tokens e outros itens, o faturamento rendeu quase 29 milhões de dólares, de acordo com o site FIFA Collect Info.
Para os proprietários dos “Direitos de Compras”, foram prometidos 70 mil ingressos, o equivalente a 1% dos cerca de 6 milhões de bilhetes que a Fifa espera vender para as 104 partidas da Copa do Mundo de 2026, segundo a plataforma Fifa Collect.
Como a Fifa vende (e os problemas) os tokens para a Copa do Mundo
De acordo com o “The Athletic”, os tokens não são anunciados diretamente no site principal da Fifa, mas sim na plataforma digital voltada para colecionadores (Fifa Collect).
O espaço é uma parceria entre a entidade do futebol e a Modex, uma provedora de serviços de blockchain (mecanismo de banco de dados que permite o armazenamento e compartilhamento de informações, segundo a explicação da Amazon Web Services).
Após uma série de reformulações no processo de “atrair do público”, a Fifa Collect passou a lançar novas opções de itens para o público, especialmente nos meses de abril, maio e junho deste ano.
Apenas em junho, a plataforma teria vendido mais de 5.000 pacotes contendo o “direito de comprar” um ou dois ingressos para a Copa do Mundo.
Os preços variaram de 279 dólares (R$ 1515) — pelo direito de comprar ingressos para um jogo aleatório na Filadélfia, Atlanta ou Boston — a 3 mil dólares (cerca de R$ 16 mil) pelo “Double Opening Glory“, um pacote para a abertura da Copa do Mundo de 2026 na Cidade do México, além de dois ingressos para o andar superior na abertura do Mundial de Clubes em Miami.
Em abril, maio e junho, de acordo com o Fifa Collect Info, os usuários pagaram cerca de 13 milhões de dólares no mercado principal da plataforma, com a grande maioria dessas vendas vinculadas aos combos.
As opções variam, incluindo “oportunidades” nas quais seria possível garantir ingressos para a partida da final com a seleção dos Estados Unidos, caso ela se classificasse, mas também assegurar bilhetes para cada fase do torneio.

Entretanto, a reportagem pontuou que em cada uma dessas promoções de “Direito de Compra”, ainda não havia um prazo definido para a aquisição final dos ingressos e nem havia indicações de quanto o proprietário de um desses facilitadores teria que pagar pelos ingressos. Na maioria dos casos não havia informações sobre o tipo ou categoria de ingresso que seria disponibilizado.
Na época do Mundial de Clubes, titulares desses direitos reclamaram que só podiam comprar bilhetes da Categoria 1, os mais caros, apesar da plataforma da Fifa ter informado em um e-mail de dezembro de 2024 que “os ingressos estarão disponíveis em diferentes categorias, oferecendo opções para atender a várias preferências e necessidades”.
Em meio aos problemas, administradores do Fifa Collect, em uma plataforma de troca de mensagens com os usuários, pediram desculpas e explicaram que haviam voltado atrás em sua palavra devido a “orientações atualizadas da FIFA Ticketing”.
O site informou ainda que muitos dos proprietários desses Direitos de Compras acabaram pagando mais para adquirir seus ingressos do que pagariam se tivessem esperado e se dirigido direto à Ticketmaster na véspera do Mundial. Outro fator apontado pelos compradores é que o lançamento frequente de pacotes passou a atrair cambistas.
De acordo com o “The Athletic”, houve também uma polêmica em torno da venda dos ingressos com a forte demanda no México, um dos países-sede ao lado dos Estados Unidos e Canadá, levando a plataforma a aumentar os preços para o possível acesso aos jogos da seleção mexicana.
O periódico comunicou que os executivos do Modex não responderam aos e-mails solicitando esclarecimentos sobre como os preços foram determinados. Usuários apontaram que a Fifa Collect estaria “tirando vantagem da comunidade mexicana”.
Ainda segundo o site, não está claro qual porcentagem da receita dessas vendas foi diretamente para a Fifa, Modex ou instituições de caridade.



