Federação iraniana pede punição de dez jogos à seleção dos EUA por “desrespeitar a bandeira”, com símbolo islâmico suprimido
Na divulgação sobre a Copa nas redes sociais, a federação dos EUA resolveu suprimir da bandeira do Irã o emblema que representa Alá
A partida entre Estados Unidos e Irã será tensa não apenas por aquilo que está em jogo dentro de campo, em confronto direto pela classificação no Grupo B. Há um contexto político denso entre dois países, de lados opostos na geopolítica internacional há mais de quatro décadas. Na divulgação sobre a Copa nas redes sociais, a federação dos EUA resolveu suprimir da bandeira do Irã o emblema que representa Alá, bem como as inscrições religiosas nas margens das listras, que foram adotadas pelo governo iraniano após a Revolução de 1979. Por conta do ato, a federação do Irã acionará o Comitê de Ética da Fifa. Conforme os estatutos da entidade internacional, pedirá uma suspensão de dez partidas aos americanos por desrespeitarem a bandeira.
A bandeira do Irã representada pelos Estados Unidos traz apenas as listras em verde, branco e vermelho. Até o fim dos anos 1970, a bandeira possuía o desenho de um leão e de um sol ao centro. A união dos dois elementos, tratada como símbolo local desde a Idade Média, possui uma representatividade histórica aos persas e se associou a diferentes governos locais, inclusive a dinastias islâmicas. Porém, havia uma ligação também com a monarquia autoritária do Xá Reza Pahlevi, apoiada pelos países ocidentais, que foi derrubada com a Revolução de 1979. A constituição de 1980 oficializou a bandeira atual, com a menção a Alá e uma referência religiosa expressa.
A antiga bandeira do Irã, com o leão e o sol, é adotada por dissidentes da teocracia atual. Reafirmam a história anterior à revolução e mesmo a anterior à monarquia do Xá Reza Pahlevi, acusando o governo vigente de usurpar os símbolos. Já os protestos mais recentes trazem o lema “Women Life Freedom” na faixa branca central. A federação americana não chegou ao ponto de incluir o leão e o sol no material de jogo, mas não botar o emblema referente a Alá também é um posicionamento. A bandeira iraniana listrada com as três cores é usada desde 1907, mas sempre com um símbolo ao centro, nunca vazia – como a representada pelos EUA.
A postura da federação de futebol dos Estados Unidos, de suprimir o símbolo islâmico, é pontual. O material sobre o sorteio da Copa do Mundo, publicado no site da entidade, trazia a bandeira completa do Irã. Também ao término da primeira rodada, quando o US Team divulgou a tabela do Grupo B, a bandeira iraniana foi representada integralmente. Outras instituições oficiais, como o Comitê Olímpico e o próprio Departamento de Estado, registram a bandeira iraniana sem alterações. A medida da federação de futebol, assim, não parece corresponder a uma orientação diplomática oficial.
Segundo o assessor jurídico da federação iraniana, a entidade vai apresentar uma queixa junto ao Comitê de Ética da Fifa, sob justificativa de que “a bandeira nacional da República Islâmica do Irã” foi desrespeitada. A base legal está num artigo dentro dos próprios regulamentos da Fifa, que afirma: “qualquer um que ofender a dignidade ou a integridade de um país, de uma pessoa ou de um grupo de pessoas deve ser sancionada com uma suspensão de pelo menos dez partidas ou de um período específico”.
Diante do que os Estados Unidos representam comercialmente à Fifa, fica difícil de acreditar que a entidade tomará qualquer medida. Entretanto, o questionamento do Irã tem sua pertinência – assim como os questionamentos à teocracia iraniana pela limitação de liberdades, sobretudo às mulheres, e à supressão de direitos em meio aos protestos atuais. Às vésperas de um jogo que será muito tenso, é mais um elemento para aumentar os atritos.
By posting a distorted image of the flag of the Islamic Republic of #Iran on its official account, the #US football team breached the @FIFAcom charter, for which a 10-game suspension is the appropriate penalty.
Team #USA should be kicked out of the #WorldCup2022 pic.twitter.com/c8I4i4z3Tv— Tasnim News Agency (@Tasnimnews_EN) November 27, 2022



