Faltou liderança, variação e reação para uma Argentina que iniciou bem e acabou engolida pela marcação saudita
Diante de uma virada inesperada, Argentina não soube reagir, não teve ideias e ficou em choque diante de um adversário quase impecável na marcação
Tudo indicava que a vida da Argentina nesta primeira rodada seria fácil. Antes do jogo, porque o adversário era a Arábia Saudita, um time visto entre os piores do torneio. Também porque a Argentina vinha como uma das mais fortes antes da Copa. Tudo isso se reforçou com o gol de Lionel Messi, em um pênalti contestado, aos 10 minutos, além de três gols anulados por impedimentos. Ao final dos 90 minutos, quem saiu com a vitória foram os sauditas, por 2 a 1, aproveitando os erros argentinos ao longo do jogo para sair com a primeira grande zebra desta Copa do Mundo 2022.
A principal arma da Arábia Saudita ficou clara no primeiro tempo: a linha de impedimento. Gols de Messi e dois de Lautaro Martínez foram celebrados e depois frustrados. Os três gols anulados deram um frio na espinha da torcida, mas a linha de impedimento funcionava, sempre no limite. A sensação era que uma hora não seria possível evitar os bons ataques argentinos e o gol sairia.
Só que o tempo passou e o gol não saiu. O intervalo chegou e era claro que a Argentina tinha sido melhor na primeira etapa, mas a vantagem era só 1 a 0. O segundo tempo trouxe uma incrível virada dos sauditas, com gols logo no começo do jogo. O primeiro gol foi aos três minutos e o segundo aos oito. Dava muito tempo para reagir. A Argentina tinha condições de fazer isso. Só que o baque foi grande e o time sentiu demais.
Faltou liderança, faltou saber reagir diante de uma situação difícil. É quando a personalidade quieta de Messi, normalmente um líder mais com os pés do que com a voz, não conseguiu ser a inspiração que o time precisava. Tal qual todo o time argentino, ele baixou a cabeça após o segundo gol. Isso além de ter uma atuação bastante abaixo da média, sem conseguir realmente aparecer no jogo e causar problemas aos adversários.
Messi por vezes errou na tomada de decisões, algo que não é comum. Teve ao menos duas chances de tentar a finalização, mas acabou tentando um drible a mais e perdeu a bola. Não conseguiu ser o líder nem com a voz, nem com os pés. Não apareceu tanto para o jogo, não conseguiu criar jogadas, dar passes, finalizar. Messi esteve o tempo todo encaixado na marcação saudita no segundo tempo, sem conseguir se desvencilhar.
A ideia de atuar com dois jogadores abertos, Ángel Di Maria e Papu Gómez, parecia ótima, mas no segundo tempo sofreu demais. Não conseguiu fazer boas jogadas pelas pontas, nem conseguia cruzamentos limpos. Diante do congestionado meio-campo de marcação da Arábia Saudita, os argentinos não conseguiram variar as jogadas e por isso finalizaram pouco ao gol. Foram 14 finalizações, só seis delas no alvo. A rigor, não teve grandes chances de gols no segundo tempo, mesmo atrás no placar, precisando atacar e com um time tecnicamente mais fraco do outro lado.
O técnico Lionel Scaloni até fez boas mudanças. Colocou em campo Lisandro Martínez, um zagueiro com mais facilidade de sair para o jogo, no lugar de Cristian Romero; Julian Álvarez no lugar de Papu Gómez, de modo a dar mais finalização; também entrou Enzo Fernández no lugar de Leandro Paredes. Nada disso adiantou.
O meio-campo foi o principal problema. Enzo Fernández trouxe um pouco mais de dinamismo ao setor, mas ainda ficou muito abaixo do que era necessário. Rodrigo De Paul, um jogador sempre importante, pouco conseguiu fazer. Di Maria foi um dos que mais tentou, mas também pouco conseguiu fazer. Raramente teve espaço para qualquer coisa.
No ataque, Lautaro Martínez parecia bem no primeiro tempo, quando teve seus dois gols anulados. No segundo tempo, mal conseguia fazer algo. Tocou muito pouco na bola: foram só 25 toques, pouco mais do que o goleiro Emiliano Martínez, com 23, o jogador argentino que menos tocou na bola. O goleiro é normalmente o jogador que menos toca na bola, mas o atacante ficou muito abaixo do que se esperava.
Faltou muita coisa à Argentina. Faltou, primeiro, preparo para lidar com uma linha de impedimento eficiente como a saudita. Faltou poder de reação quando tomou dois gols rapidamente, que viraram o jogo. Faltou liderança para fazer isso acontecer. De Messi, especialmente, por ser o capitão e referência, mas também de outros jogadores experientes, como Nicolas Otamendi, por exemplo.
A Argentina sucumbiu e piorou depois do gol, parecendo não acreditar no que acontecia em campo. Ficou em choque, com um mar de ansiedade, aumentando o nível de erros e sem conseguir colocar a cabeça no lugar. Tanto que mal conseguiu criar jogadas, mesmo com a posse de bola, com as mudanças feitas, com jogadores de qualidade. Pareceram com medo de uma zebra que eles mesmos não acreditavam ser possível.
Assim como em 2018, a Argentina estreia com decepção. Naquela vez, empate por 1 a 1 com a Islândia, com Messi perdendo pênalti. Desta vez, com derrota surpreendente para a Arábia Saudita, que já liga o alerta para o time. Será preciso jogar muito melhor e, especialmente, conseguir os resultados que não vieram nesta primeira rodada. A Argentina continua forte e continua com muitas chances de avançar, mas será preciso muito mais.
A inspiração pode ser a Copa do Mundo de 1990, quando a então campeã albiceleste estreou com derrota para Camarões por 1 a 0. Os argentinos acabaram classificados e finalistas contra a Alemanha. O time tem total capacidade de ganhar os outros dois jogos, contra México e Polônia, no próximo sábado. Precisa encontrar o futebol que já mostrou neste ciclo e que não levou para esta estreia contra a Arábia Saudita.



