Copa do Mundo

Espanha caiu em sua retranca com a bola e sem um técnico para encontrar soluções

A Espanha deixa a Copa do Mundo da Rússia devendo. Depois de uma primeira fase em que mostrou algum futebol e sofreu contra defesas bem montadas, o time viveu o ápice dos problemas encontrados até então pelo seu estilo de jogo, que acabou exaurido nas oitavas de final. Diante da anfitriã Rússia, gastou a bola, no pior sentido possível do termo, com 1114 passes em 120 minutos de jogo, sem encontrar uma alternativa. Do ótimo primeiro jogo contra Portugal até aqui, o time piorou e pareceu sentir falta de alternativas. Sentiu falta do jogo agudo que por vezes viu com Asensio ou Diego Costa ao longo da preparação. Fernando Hierro poderia ter tirado mais do time e errou nas suas escolhas. A Espanha parecia alguém tentando encaixar um quadrado em uma forma de círculo e, sem ter sucesso, forçava em vão.

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Durante todo o tempo normal e prorrogação, a Espanha foi um time que pouco fez para vencer a Rússia. Viu o seu modelo de jogo falhar diante de uma retranca. Deixa a Copa do Mundo dando a impressão de ter muito mais futebol do que o que se viu no Mundial. E contra os anfitriões, donos de um time inferior individualmente. Pareceu sem saber o que fazer e tocou o samba de uma nota só, mesmo tendo músicos dos mais variados estilos, com capacidades das mais diferentes. Rompeu a tênue barreira que separa a insistência da teimosia. Bateu no muro e ficou dando cabeçadas nele, esperando que ele caísse em algum momento.

Preocupada com os contra-ataques que sofreu na fase de grupos, a Espanha foi precavida. E, assim, fez o seu famoso estilo de jogo de posse de bola dominante, uma retranca com a bola, contra o tradicional ferrolho sem bola da Rússia. O empate por 1 a 1 no tempo normal e prorrogação levou aos pênaltis. E os anfitriões saíram sorrindo. Defenderam-se com unhas e dentes, uma linha de cinco, protegida por uma de quatro à frente, além de um centroavante que mais correu para fechar espaços do que teve chances no campo de ataque.

O gol para a Espanha no início do jogo parecia ser uma boa forma de tornar a partida mais aberta. Afinal, a retranca russa só aguentou 12 minutos. Foi o tempo de uma falta dura em Nacho, no lado direito do ataque espanhol, resultar em um levantamento para a área na direção de Sergio Ramos, que Sergei Ignashevich colocou para dentro, enquanto abraçava o capitão espanhol. Um gol de um time que sequer tinha chutado a gol até ali.

O gol, porém, não mudou nada na postura da Rússia. Os anfitriões seguiram entrincheirados, jogando para tirar todo e qualquer espaço da Espanha. Os espanhóis seguiram tocando a bola, buscando encontrar uma brecha no sistema russo de marcação. Inutilmente. Andrés Iniesta, o atleta com mais experiência e talento do time, começou no banco. Dani Carvajal, lateral direito, também. Talvez por preocupações físicas com ambos. O que isso custou, porém, foi a criatividade do time da Espanha para vencer o muro que se formou ao redor da área de defesa russa.

A escalação espanhola tinha, em tese, armas para sair do jogo de toques de lado e ser mais incisiva. Marco Asensio foi titular, assim como Diego Costa, o escolhido em todos os jogos da Copa para ser o centroavante. Só que os dois foram jogadores apagados no jogo, por motivos diferentes. Asensio apareceu pouco. No estilo de passes espanhol, sem espaço para ser atacado, o meia do Real Madrid pouco fez. Já Diego Costa foi pouco acionado para tentar um contato mais físico, que se beneficiasse as virtudes do centroavante para abrir espaços aos outros jogadores.

Se o time forçava no seu estilo de passe, melhorou quando entrou com Iago Aspas no lugar de Diego Costa. Ainda assim, parece uma insistência ineficaz. Só mesmo uma falha grave da Rússia poderia levar ao gol espanhol. Sem usar o jogo aéreo, a Espanha se manteve fiel ao seu modo de jogar, os passes, a busca de espaços, mas com uma execução longe do que já se viu em outros tempos. Se em 2008 a Espanha conseguia chacoalhar o adversário de um lado a outro para forçar a abertura de espaços para usá-lo e vencer, o time de 2018 pareceu pouco ágil em criar esse espaço. Menos ainda para aproveitá-lo.

No fim, a Espanha chegou a 24 chutes a gol, mas poucos deles tirariam um grito de “uuuh” das arquibancadas. Desse total, foram nove no alvo, oito para fora, sete bloqueados. O time espanhol não frequentou a área adversária. O mapa de calor espanhol mostra o time concentrado no meio-campo, pisando poucas vezes dentro do retângulo. O que se viu foi uma equipe sem saber o que fazer e apostando que a paciência dos passes, mesmo tendo pouca efetividade, acabaria fazendo a Rússia ceder. Não fez.

Caberia ao técnico mudar isso. Tentar alternativas táticas e até técnicas que permitissem ao time variar o jogo, criar outros espaços para abrir a defesa russa. Ou, ao menos, a colocar sob intensa pressão, o que não aconteceu. O time pareceu insistir no plano de jogo que existia, mas não tinha um técnico capaz de buscar soluções para os problemas encontrados. Assim,  deu murro em ponta de faca, até que o tempo acabasse, para comemoração dos russos. Poderia ter vencido nos pênaltis, claro, mas permitiu que os anfitriões ganhassem confiança e chegassem mais fortes às cobranças de 11 metros. A vitória da Rússia entra como algo heroico na história da seleção do país. Enquanto isso, a Espanha deixa o campo sabendo que tinha um arsenal ao seu dispor, mas usou pouco disso. Volta para casa sem ter jogado o que pode. E se questionando o quanto a solução de tirar o treinador às vésperas do torneio custou caro.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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