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Entre os milagres e a mitologia, Dibú Martínez merece a comparação com Alisson

Dibú Martínez foi personagem na Copa e merece a comparação com Alisson, mais do que Alisson merece a pressão que recebe - do mundo e de si mesmo

Quando cheguei a Buenos Aires, a dois dias da final da Copa do Mundo, não demorei para notar que Dibú Martinez é o número 2 na preferência das pessoas, atrás apenas do obvio gênio da camisa 10. Ele é garoto-propaganda de uma grande marca de lanchonetes, seu nome está em muros e asfaltos (pichação no asfalto, taí algo que vi bastante naquele país), além de camisas, manchetes e bocas denunciarem um afeto pulsante pelo cômico e burlesco atleta de Mar del Plata.

Não espanta que faça propaganda de hambúrgueres, posto que o princípio da idolatria por ele acontece após repetir, no jogo falado da semifinal da Copa América, que “comeria” os rivais – e de fato os “comeu”, defendendo cobranças de pênaltis e enviando sua seleção à decisão. Ele sabe entrar na mente de adversários e torcedores. Tem um jeito insolente de se comportar e exibe um deboche propositalmente idiotizado, daqueles que irritam. Seus atributos psicológicos ganham a frente dos perfis, mas, claro, sim, ele é um bom goleiro, com passagens pela seleção de base, inclusive.

Dibú fez defesas difíceis nos últimos minutos dos confrontos contra Austrália, nas oitavas, e França, na final. Esta segunda, particularmente arrojada e especialmente dramática. No Brasil, suas defesas foram associadas, ou pelo menos comparadas, ao desempenho de Alisson, titular em duas Copas, nunca sequer um semifinalista. Se, até perder para a Croácia, as pessoas elogiavam que o sólido Brasil de Tite sequer deixava a bola chegar na meta brasileira, após a eliminação veio um ruído, um eco que parecia cutucar e perguntar: “e o milagre?”.

Ora, o milagre. Não se pede milagre. Alisson não é culpado de nenhuma bola que entrou. Tomar quatro gols em quatro cobranças de pênalti é normal. Embora disputado em campo grande, com trave grande e em tempo longo, o futebol também presta tributo aos mínimos detalhes. Quando a gente conversa sobre a possibilidade de um atleta fazer o que é improvável de ser feito, talvez estejamos tentando recriar caminhos de entendimento para embates que, muitas vezes, duram 100 minutos e ficam no 1 a 0, a diferença mais binária e apertada possível. Já parece cruel assim.

Além disso, as pessoas, Alisson incluso, são como são: o goleiro revelado pelo Internacional mantém um perfil baixo e respeitoso, quase tímido. Suas defesas costumam denunciar o quão bem se posiciona e o quanto consegue ser arrojado sem ser espalhafatoso. Um tipo de goleiro que, na vitória, pode ser associado a um perfil psicológico de rochedo, infalível, gelado, preciso, pronto, imperturbável. Na derrota, “faltou tempero”. Quem gostar de Alisson não terá muito com o que se agarrar que não seja o estritamente futebolístico.

Acontece que é assim o futebol, e os atletas de elite sabem disso melhor do que a gente: eles levarão para a velhice pequenos detalhes que ninguém de fora percebe, mas foram, na cabeça deles, cruciais para uma vitória virar derrota ou uma taça escapar. Nosso conversê de bola é fichinha perto da cabeça de um ex-atleta de topo. E eu digo isso porque tenho a percepção de que não há, desde a trave de Marquinhos, um só dia em que Alisson não tenha pensado, por exemplo, nas duas primeiras cobranças croatas, batidas no meio do gol. Os mínimos detalhes que decidem um jogo de futebol perseguem seus atores muito depois do apito final.

Quando um técnico convoca, e depois escala, um goleiro, é como se estivesse nos dizendo “eu não vi ninguém, em lugar nenhum, melhor do que ele na posição”. As defesas de um goleiro em seu clube são, portanto, constituintes de sua participação na Copa e distintivos de sua qualidade, de modo que não vejo sentido em usar os acertos nas ligas nacionais como atenuante das críticas de uma Copa do Mundo – caracterizada justamente por um público maior, mais global e sazonal, mas não por isso: o bom desempenho em clubes já está contabilizado na hora da convocação. E, de novo, nem seria o caso de achar erros no jogo ou no estilo do Alisson.

É que a Copa é a Copa. A concorrência é a dela própria. Me parece um consenso que Alisson é, no geral, um goleiro melhor do que o Dibú Martínez – este consenso não pisa em solo argentino, claro. Qual você escolheria para o seu time? Acho que sei a resposta da ampla maioria, mas é absolutamente coerente, e até respeitoso, que se aponte os feitos de um arqueiro de carreira menos estelar, como Dibú, mostrando justamente como os colegas mais capacitados, como Alisson, não conseguiram. E Dibú não seria culpado por um França 4×3 Argentina. Apenas teria outro destino, e não seria o herói que se tornou.

É por muito pouco, é por um detalhe ínfimo, é por dois ou três centímetros, mas as grandes competições separam o vencedor dos demais num corte seco e sem zona intermediária. Se Baggio acerta o seu pênalti em 1994, jogaríamos os dados outra vez e daríamos uma última chance para Pagliuca mudar a sua vida (ou Bebeto definir seu destino). Se formos lembrar da Copa e requentar debates a cada defesa difícil do Alisson pelo Liverpool, vamos nos cansar, porque ele faz muitas delas, inclusive várias que Dibú, no Aston Villa, fora da Champions League, não terá a chance de fazer.

Só que ele não fez, em quatro jogos eliminatórios de Copa, em 18 e 22, as defesas que o Dibú fez, e será preciso conviver com isso até que Alisson prove, noutra ocasião, que merece vender hambúrgueres, ter o nome estampado nos muros, a camisa comprada e a mitologia sobre si alimentada. A Copa é o exagero da virtude e a Premier League é a nossa chance de confirmar, trinta vezes por ano, que o Brasil está muitíssimo bem servido de goleiros.

Entre os milagres e a mitologia, Dibú Martínez merece a comparação com Alisson, mais do que Alisson merece a pressão que recebe – do mundo e de si mesmo.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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