Enner Valencia resumiu seu simbolismo à seleção do Equador no jogo em que o mundo parou para assisti-la
Maior artilheiro da história da seleção, Enner Valencia marcou os dois gols e foi o principal elemento para o Equador amassar o Catar
Antes da Copa do Mundo, a falta de gols do Equador nos compromissos recentes era apontada como um possível entrave. De fato, o ataque de La Tri caiu de produção ao longo das Eliminatórias e passou os últimos amistosos com placares magros, em que chamava mais atenção as seis partidas sem sofrer gols da defesa. Para quem preferia ver o copo meio cheio, porém, havia um Enner Valencia para confiar. O maior artilheiro da história da seleção equatoriana atravessa uma excelente temporada com o Fenerbahçe, artilheiro do Campeonato Turco e decisivo também na Liga Europa. E o centroavante realmente fez a diferença, para marcar seu nome para sempre nas aberturas dos Mundiais. O camisa 13 anotou os dois gols na vitória por 2 a 0 sobre o Catar e vai atemorizar por algum tempo os anfitriões. De quebra, ainda virou o maior goleador do Equador em Copas.
O elenco atual do Equador possui raros jogadores que disputaram uma Copa do Mundo. Com o volante Carlos Gruezo lesionado e o goleiro Alexander Domínguez no banco, Enner Valencia era o único com experiência em Mundiais entre os titulares. O atacante havia deixado sua marca em 2014, mesmo que a campanha de La Tri no Brasil não tenha durado muito. Valencia abriu o placar na estreia contra a Suíça, mas viu os adversários buscaram a virada por 2 a 1. Não teve problemas: sua redenção aconteceu na rodada seguinte, com dois gols para liderar a vitória (também de virada) por 2 a 1 sobre Honduras. Só não deu para evitar a eliminação, com o empate por 0 a 0 diante da França encerrando a participação dos equatorianos. Mas, aos 24 anos, o atacante teria muito a viver com a camisa amarela da equipe nacional.
Enner Valencia havia chegado à Copa de 2014 como uma aposta, com apenas quatro gols e dez aparições pelo Equador. Revelado pelo Emelec e então destaque no Pachuca, o centroavante tinha uma dura missão: ocupar a lacuna deixada por Chucho Benítez, ídolo nacional falecido precocemente em 2013, vítima de um ataque cardíaco. Com um estilo de jogo parecido com o do saudoso centroavante, o novato não demorou a deslanchar pela seleção equatoriana.
Valencia ganhou muito mais projeção a partir da boa Copa que fez. Nem tanto em sua aventura inglesa, com uma passagem sem brilho pela Premier League, ao vestir as camisas de West Ham e Everton. Teve um pouco mais de sucesso no Tigres, campeão e artilheiro em algumas oportunidades, mesmo ofuscado por André Pierre-Gignac. Ainda assim, nada comparado ao seu protagonismo pela seleção. Os gols vieram em profusão, em diferentes edições da Copa América e das Eliminatórias. Não evitou a derrocada no qualificatório para o Mundial de 2018, mas já deu para igualar o histórico Agustín Delgado como maior artilheiro da história de La Tri em 2019.
Valencia se isolou na artilharia da seleção em plenas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. Não foi uma campanha impecável do centroavante, entretanto. Contribuiu com apenas quatro gols, três deles contra Bolívia e Venezuela. Problemas no tornozelo custaram alguns jogos ao veterano, mas ele seria essencial pela liderança que exerceu. Passou a usar a braçadeira de capitão com mais frequência e contribuiu ao estilo bastante físico trabalhado pelo técnico Gustavo Alfaro. Mais importante, se colocou também como um exemplo – o que não era muito o caso em seu passado, quando chegou a fugir de ambulância de um jogo da seleção em 2016 para não pagar a pensão de sua filha.
O folclore ao redor de Enner Valencia parece ter ficado de lado. E, de fato, o Fenerbahçe auxiliou nesse processo mais recentemente. Os turcos tiraram o centroavante do Tigres em 2020/21. Virou uma das principais figuras no ataque dos Canários em suas duas primeiras temporadas, mas seu salto aconteceu mesmo a partir da chegada de Jorge Jesus. O estilo de jogo dinâmico do equatoriano se encaixou como uma luva na nova proposta, e ele desandou a marcar gols. São 13 tentos em 12 aparições no Campeonato Turco 2022/23, mais dois na Liga Europa. Embora os números sejam inflados pelos muitos pênaltis convertidos, até isso o prepararia para a Copa.
O Equador apostou em sua virtude para enfrentar o Catar: o jogo físico. Foi dessa maneira que La Tri atropelou os anfitriões neste domingo. E não dava para pensar no sucesso dessa estratégia sem contar com Enner Valencia. Dessa vez, o centroavante ganhou a companhia de Michael Estrada, seu companheiro em alguns compromissos das Eliminatórias – e bem especialmente no início da campanha, quando os gols do time eram mais frequentes, sobretudo nas goleadas sobre Uruguai e Colômbia. Neste domingo, as bolas longas rumo ao centro do ataque eram o mapa da mina para os equatorianos. Valencia ganhava todas no corpo, todas pelo alto. E o atalho o encaminhou ao gol.
O primeiro não valeu, no impedimento detectado pelo VAR. A conta seria realmente aberta com a marca de Valencia na temporada. O centroavante acelerou na corrida para receber a ótima enfiada de Michael Estrada e acabou derrubado na área. Pênalti. O capitão assumiu a bronca e converteu com enorme segurança. Nem parece que há poucos meses perdeu um penal importante nas preliminares da Champions contra o Dynamo Kiev. E a efetividade de Valencia se manteve, sobretudo por sua força pelo alto, com impulsão e senso de posicionamento mesmo sem ser tão alto. Estava no lugar certo para saltar livre nas costas da zaga e testar no fundo da meta o segundo tento, em cruzamento de Ángelo Preciado.
Enner Valencia recebe o prêmio de melhor em campo pelos dois gols. Entretanto, ele também merece o troféu por aquilo que representou ao Equador durante a noite. Foi o elemento mais perigoso de seu time e apresentou uma eficiência imensa. Ganhou quase todas as disputas por baixo e pelo alto. E no que deu muito certo no plano tático, a marcação sufocante de La Tri, o possante centroavante atrapalhou bastante a saída de jogo dos adversários. Não à toa saiu de campo extenuado, após inclusive sentir lesão na partida e continuar em campo.
Após os dois gols contra o Catar, Enner Valencia chega a 37 tentos pelo Equador – pelo menos seis a mais do que qualquer outro que já vestiu a camisa amarela. Encerrou um jejum de cinco partidas pela equipe nacional e chegou a cinco gols por La Tri em Mundiais, desgarrando-se de Agustín Delgado também como maior goleador do país no torneio. Não é pouco, embora nada disso tenha garantido (ainda) campanhas rumo aos mata-matas. Mais forte, entretanto, é a memória que constrói. Ser o herói de uma abertura de Copa do Mundo é para poucos. Aos 32 anos, o centroavante foi o visitante indigesto do Catar e, ainda mais, se confirma como um símbolo do futebol do Equador. O protagonista de La Tri no jogo em que o resto do mundo parou para assistir à seleção.



