Copa do Mundo

A emoção não se conteve quando o hino do Panamá foi executado pela primeira vez na Copa

A Copa do Mundo pode ser contada através dos placares. Limitar-se a um punhado de números, no entanto, acaba por ignorar o melhor da competição. Desconsidera a sua essência, que está na emoção. Assim, os 3 a 0 da Bélgica sobre o Panamá não transmitem realmente o maior momento da partida desta segunda-feira. O ápice aconteceu antes mesmo que a bola rolasse, durante a execução do hino panamenho. E foi difícil conter as lágrimas diante do momento memorável, na estreia do pequeno país no Mundial. Algo que se via nas faces de cada um dos jogadores, assim como do técnico (colombiano) Hernán Darío Gómez e dos torcedores nas arquibancadas.

As expressões em campo são distintas. Entre aqueles que preferem sentir o hino com toda a força, cantando aos gritos, àqueles que são mais contidos e degustam cada palavra da canção. Os olhares, mais ainda, exibem as sensações explicitamente. Muitos deles estão fechados, certamente marejados sob as pálpebras. Outros se direcionam para os céus, como se fugissem de qualquer contato que pudesse transparecer a comoção. Há mesmo olhares profundos, prestes a desaguar os sentimentos em forma de pranto orgulhoso. E o mais representativo é justamente o do capitão, Román Torres.

Sereno, o autor do gol da classificação à Copa do Mundo cantava com a mão no peito, a cabeça baixa e os olhos fechados. Eis que a voz embarga. As pálpebras se apertam, a boca se fecha, a respiração se torna mais profunda. E bem no canto do olho, a lágrima desce. Uma lágrima que não é só dele, mas de quatro milhões de compatriotas. Ao seu lado, o goleiro Jaime Penedo percebe o turbilhão que toma o peito de Torres e, num gesto de companheirismo, aperta o seu ombro um pouco mais forte.

Já nas arquibancadas, a imagem principal é a de um senhor, que nem a experiência inerente à idade avançada inibe o choro, em meio ao hino cantado com toda a força. Pelo contrário, é essa mesma experiência que permite ao panamenho saber quão representativa é aquela canção executada em pleno Mundial. Cada verso vem de dentro. Permanece de mãos espalmadas, como quem agradece aos céus. É um tipo de orgulho que só a Copa é capaz de proporcionar.

Ao final do jogo, outras cenas que o placar não conta. Alguns jogadores do Panamá desabaram no gramado, outros voltaram a chorar. Mais do que qualquer frustração por uma derrota já esperada, é o sentimento que não se contém, depois de um dos maiores momentos da história do país. Então, abraçaram-se ao centro do gramado e, ajoelhados, uniram-se em uma só corrente. A corrente que representa uma nação, mobilizada ao redor da seleção.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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