Eliminatórias da Copa

Um verdadeiro épico de Copa do Mundo: Camarões marca no 124° minuto para desbancar a Argélia e se garantir no Mundial

A Argélia parecia se classificar com um gol aos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, mas Camarões mudou a história com um milagre nos acréscimos

Existem aqueles jogos que se tornam lendários assim que o apito final soa. As Eliminatórias da Copa, por todo o seu caráter decisivo rumo à maior competição do planeta, são pródigas nesse tipo de história. E um épico em letras douradas ocorreu nesta terça-feira, em Blida, para selar a inesperada classificação de Camarões ao Mundial de 2022. A situação dos Leões Indomáveis era delicada. O time perdeu por 1 a 0 a ida para a Argélia em Douala e precisava encarar os favoritos, com um time bem mais forte no papel, em seu caldeirão. Um gol no primeiro tempo permitiu que os camaroneses igualassem o confronto fora de casa, mas os argelinos tiveram suas chances de empate. Sem que o placar se alterasse até o fim dos 90 minutos, o duelo seguiu para a prorrogação e o que se viu foi uma pressão inesgotável das Raposas do Deserto, até que finalmente superassem o inspirado André Onana no fim do segundo tempo extra. Gol de Copa do Mundo? Não quando Karl Toko Ekambi surgiu no 124° minuto da partida e decretou a vitória camaronesa por 2 a 1. Pela regra dos gols fora, os Leões Indomáveis estarão no Catar.

Camarões podia vir de uma boa campanha na Copa Africana de Nações, mas os motivos para desconfiar de sua classificação contra a Argélia eram plausíveis. O técnico Toni Conceição foi demitido às vésperas do confronto e o ex-capitão Rigobert Song assumiu a equipe em cima da hora, por politicagem e camaradagem. Para piorar, André Zambo Anguissa e Moumi Ngamaleu eram desfalques imensos para a Data Fifa. Os camaroneses precisavam se virar com o que tinham, especialmente André Onana e Karl Toko Ekambi como referências. Eric Maxim Choupo-Moting ainda seria uma aposta de Song, que barrou em Blida o artilheiro Vincent Aboubakar.

A Argélia, por sua vez, concentrava as estrelas. Vinha de uma péssima campanha na Copa Africana, é verdade, mas com totais condições de se reerguer. Tanto é que o técnico Djamel Belmadi foi mantido no cargo. A equipe chegou a acumular mais de 30 partidas de invencibilidade no ciclo e apresentava o melhor futebol do continente até meses atrás. Tal embalo, no entanto, se desmanchou exatamente no momento decisivo. A escalação com Islam Slimani, Riyad Mahrez, Youssef Belaïli e Ismaël Bennacer não seria suficiente, nem o apoio massivo da torcida em Blida, onde as Raposas do Deserto nunca tinham perdido.

A Argélia se mostrou disposta a resolver o jogo durante os primeiros minutos. As Raposas do Deserto tiveram um início muito intenso e acumulavam boas oportunidades. Num saída ruim de André Onana após escanteio, Islam Slimani errou o alvo na sequência. O centroavante daria outro susto pouco depois, antes de Riyad Mahrez bater mal num avanço antes dos 15 minutos. Camarões só acordaria depois disso, quando passou a acionar mais Eric Maxim Choupo-Moting na ligação direta. O centroavante era importante para segurar as jogadas do time.

O gol de Camarões veio neste momento, aos 21 minutos, com uma cortesia do goleiro Raïs M’Bolhi. O veterano soltou uma cobrança de escanteio na área e a bola ficou viva com Choupo-Moting, que não perdoou. Depois disso, os Leões Indomáveis equilibraram a partida e acertaram sua marcação no meio, evitando a pressão da Argélia. As Raposas do Deserto, apesar disso, poderiam ter empatado numa bola roubada. Slimani serviu Youssef Belaïli e o ponta acertou o lado de fora da rede. Os argelinos não conseguiam impor seu jogo e cediam à tensão. Os anfitriões pareciam pilhados.

O segundo tempo voltou com a Argélia retomando as rédeas da partida. A equipe da casa tentou resolver o jogo logo e, de novo, teria bons 15 minutos iniciais. Slimani viu um gol ser anulado por impedimento. Pouco depois, Mahrez forçou defesa de Onana e, na cobrança de escanteio, Abdelkader Bedrane cabeceou por cima do travessão. A sequência ainda teria outra intervenção de Onana contra Slimani. Todavia, quando o empate parecia questão de tempo, as Raposas do Deserto voltaram a baixar seu ritmo e isso permitiu que Camarões ficasse mais confortável, mesmo tirando o lesionado Choupo-Moting para a entrada do lateral Nouhou Tolo.

No momento em que Camarões esboçou o segundo, M’Bolhi se redimiu um pouco de seu erro. O goleiro fez uma sequência de defesas excelente, ao parar a cabeçada de Léandre Tawanba e ainda espalmar a bomba de Martin Hongla no rebote. A Argélia via os visitantes conduzirem os rumos do duelo e era inócua, com as alterações demorando a vir. Somente depois dos 35 é que os argelinos acordaram. Tentavam batidas de média distância, mas Onana se mantinha muito atento e fazia boas defesas. Com os dois times desgastados, a prorrogação se tornou natural.

A prorrogação começou com a Argélia a um triz do gol. Slimani cabeceou por cima, muito perto do travessão. E os argelinos sairiam frustrados aos oito minutos, quando o empate parecia ter acontecido. Ahmed Touba saiu do banco e executou um cruzamento perfeito. Slimani desviou para as redes, mas o VAR flagrou um toque no braço e anulou o tento. Slimani, aliás, carregava sua equipe. Aos 15 minutos, voltaria a incomodar Camarões, em cabeçada repelida por Onana. Os camaroneses mal se aproximavam da área adversária, mesmo com a entrada de Vincent Aboubakar.

O segundo tempo extra não mudou de figura, com uma pressão sufocante da Argélia. As Raposas do Deserto amassavam Camarões, com os visitantes restritos ao campo defensivo. O problema era passar por Onana. Aos cinco minutos, o goleiro faria outra defesa excelente numa bomba de Ismaël Bennacer de fora da área. Já aos nove, o goleiro operou um milagre com a perna, embora Bedrane estivesse impedido de qualquer jeito. Onana até começava a fazer cera, pra ver se o jogo acabava logo. Mas, aos 13 do segundo tempo da prorrogação, saiu o gol do empate argelino. Aquele que parecia valer a classificação.

Após a cobrança de escanteio, Toumba apareceu na risca da pequena área e definiu de cabeça, enfim para as redes. De qualquer maneira, o jogo ainda não havia acabado. A arbitragem daria quatro minutos de acréscimos e Camarões saiu para o desespero. O duelo ficava muito mais pegado, com a tentativa dos argelinos de rifarem qualquer bola. Até mesmo Onana pintou no ataque em sequência de bolas alçadas. E foi uma cobrança de lateral no último minuto que permitiu o milagre dos Leões Indomáveis. Collins Fai cruzou, Michael Ngadeu ajeitou de cabeça e Karl Toko Ekambi surgiu livre para fuzilar diante de M’Bolhi. Depois disso, a Argélia mal teria saída de bola. A classificação era dos camaroneses, num verdadeiro épico.

Depois da partida, ficou expresso o abatimento da Argélia. O técnico Djamel Belmadi ajoelhou às lágrimas, assim como outros tantos jogadores se prostraram. A geração das Raposas do Deserto é muito boa e veio de uma grande campanha na fase de grupos das Eliminatórias. Contudo, assim como na Copa Africana de Nações, pesou a falta de eficiência. Parte do time que causou um terremoto em 2014 não terá mais a chance de disputar a Copa do Mundo. Pelo segundo Mundial consecutivo, os campeões africanos de 2019 ficam de fora da competição internacional.

Já Camarões ressalta o caráter visto na Copa Africana de Nações. Os Leões Indomáveis tiveram que lidar com desfalques fundamentais e uma mudança de técnico em cima da hora. As chances de ir para a Copa acabaram agarradas na unha por Onana. Graças a ele, e ao gol afortunado de Toko Ekambi, os camaroneses voltam ao Mundial depois de oito anos. Mesmo com tantas histórias do país em Copas, certamente a classificação para a oitava participação de Camarões no torneio renderá memórias especialíssimas.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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