Eliminatórias da Copa

Song, técnico de Camarões: “Meus jogadores demonstraram que são indomáveis, o mental fez a diferença”

Enquanto Rigobert Song exaltou a postura de Camarões, Djamel Belmadi lamentou o golpe sofrido pela Argélia que custou a vaga na Copa

Rigobert Song assumiu a seleção de Camarões semanas antes dos duelos decisivos pelas Eliminatórias da Copa. Ex-capitão dos Leões Indomáveis e símbolo de importantes momentos, o treinador ganhou uma chance no cargo por certa camaradagem com Samuel Eto’o, atual presidente da federação e seu antigo companheiro. Toni Conceição, responsável por levar os camaroneses até as semifinais da Copa Africana de Nações, acabou demitido “a pedido do presidente”. Assim, com uma bomba em suas mãos, Song precisou se virar com pouco tempo de trabalho e desfalques importantes. No fim das contas, a missão foi cumprida com a classificação à Copa do Mundo. Camarões sofreu bastante, mas segurou a Argélia em Blida por boa parte do confronto. E, depois de sofrer um gol no fim da prorrogação, um tento no último minuto dos acréscimos garantiu a agonizante vitória camaronesa. Depois do jogo, Song elogiou especialmente a força mental de seus comandados.

“Preciso parabenizar as duas equipes por esta partida e meus jogadores, que demonstraram que são indomáveis. A tática pode ser traçada, mas é algo mais mental. Queríamos bloquear os corredores, os jogadores se esforçaram porque tinham vontade e mental. Isso fez a diferença. Quando sofremos o gol, eles entenderam que o jogo não estava morto”, analisou o treinador.

Song também comentou a postura tática de Camarões: “No primeiro jogo, fomos colocados em dificuldades por um adversário defensivo, que impediu nossos jogadores de se expressarem ofensivamente. Hoje, sabíamos trabalhar contra isso, com um sistema com dois atacantes. Fiz algumas alterações para corrigir o que estava errado. Encontramos as oportunidades para colocar a Argélia em dificuldade. Mas é mais mental. Os jogadores deram tudo de si, sabendo que não tinham nada a perder”.

Além disso, o técnico enfatizou como a esperança fez a diferença aos camaroneses: “Acreditamos na vitória até o fim. Felicito os jogadores que aceitaram o duelo, que correram e que deram tudo para alcançar esse resultado. Nesta noite, mostramos desejo e determinação. O gol que sofremos foi por relaxamento. Um erro de concentração pelo qual pagamos. Mas, quando a Argélia marcou, meus jogadores entenderam que nada estava acabado. Não vacilamos, os argelinos perderam seus reflexos. Soubemos aproveitar e marcar”.

Se de um lado Song representa o imediatismo, Djamel Belmadi simboliza a continuidade. O ex-defensor assumiu a Argélia em 2018, depois que as Raposas do Deserto não conseguiram se classificar à Copa. O treinador deu um novo impulso ao time e levou os argelinos ao título da Copa Africana de Nações em 2019. Porém, os últimos meses de seu trabalho foram dolorosos. Apesar do bom futebol apresentado em 2021, o time caiu na fase de grupos da CAN 2022. Belmadi foi preservado no cargo rumo à fase decisiva das Eliminatórias. E sucumbiu, com derrota para Camarões no último minuto dos acréscimos do segundo tempo da prorrogação. Pelo segundo Mundial consecutivo, a Argélia não estará presente.

O abatimento de Belmadi já tinha ficado expresso ao apito final, quando o treinador se ajoelhou em campo e começou a chorar. Na coletiva de imprensa, ele não escondeu o lamento e a indefinição quanto ao futuro. Falou também sobre os entraves da seleção argelina. Apesar da mudança na forma de jogo, a falta de eficiência voltou a assombrar as Raposas do Deserto.

“Parabéns a Camarões. No entanto, acho que não é a equipe mais merecedora que se classificou nesta noite. Não sei se falhamos mentalmente. A dez segundos de uma Copa do Mundo, há um erro de concentração, de lucidez. Criamos situações muito claras. Eles criaram muito pouco, exceto em cruzamentos. Tivemos muitas situações não convertidas. Não é uma questão de sistema. Tivemos várias vezes a possibilidade de fazer gols”, comentou.

“Temos que desenvolver essa equipe. Às vezes funciona e às vezes não. Cada partida tem sua realidade. Diziam que eu era super apegado a um sistema. Mudei meu sistema. Hoje, vocês têm a oportunidade de questionar tudo. É muito fácil. Não há tempo para fazer um balanço dessa carga emocional”, assinalou Belmadi. “Faltou precisão no último toque, no último passe, no penúltimo passe. Apesar disso, você se classificava a dez segundos antes do final. O futebol às vezes é cruel”.

“Eu sei que meu futuro interessa às pessoas. Estes quatro anos à frente desta seleção foram quatro anos de felicidade pelo trabalho realizado. Ainda assim, tínhamos um objetivo e não pudemos alcançá-lo. É difícil falar sobre o futuro. Todo mundo está abatido. Não podíamos nos ver perdendo essa classificação. Faltando dez segundos… Um relatório será feito, mas por enquanto a decepção domina. A Argélia é uma grande nação e vai se reerguer. Eu nunca quis me apegar a um trono. Haverá uma reflexão nos próximos dias”, complementou.

Belmadi direcionou seu lamento à oportunidade perdida pelos jogadores e à frustração das crianças: “Minha tristeza vai primeiro para meus jogadores. Para alguns, certamente foi a última oportunidade de ir à Copa do Mundo. Espero que Zerrouki, Bennacer, Touba e Boudaoui tenham a chance no futuro de ir ao Mundial. Penso nas pessoas que viajaram para ver o jogo, nas pessoas diante da televisão. Penso também nos meus filhos, crianças e famílias que comemoraram antes de ver tudo desmoronar a dez segundos do fim”.

“Estamos colapsados. Colocamos nossas vidas em espera para este jogo e este sucesso. Pelo nosso país, nosso povo. Só tínhamos essa motivação em mente. Mais do que uma decepção pessoal, é esse cenário ruim. Ficamos a dez segundos da Copa. Estávamos em um equilíbrio tático. Nunca fomos colocados em perigo, nunca fomos dominados – exceto nas bolas paradas e naqueles dez segundos”, finalizou.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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