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Os principais responsáveis por levar o Canadá de volta à Copa depois de 36 anos

O Canadá contou com uma base de jogadores destacados e também um bom treinador que liderou a ascensão do time

*Por Leandro Vignoli

O que parecia impossível aconteceu e o Canadá está classificado para a Copa do Mundo, pela primeira vez desde 1986, após os 4 a 0 contra a Jamaica, em Toronto. Esses são os dez principais responsáveis:

  1. Alphonso Davies (Bayern): é impossível não atribuir a evolução do Canadá com a evolução de Davies, que se tornou um dos principais laterais da Europa. E justiça ao técnico John Herdman, que fez a transição de Davies do ataque para a lateral, quando boa parte dos analistas acreditavam ser um desperdício de talento. Na seleção, Davies tem sido um híbrido entre lateral e atacante. “Muitos duvidaram que ele poderia jogar como lateral-esquerdo”, disse Herdman ao Sportnest. “Acho que estão começando a perceber que a posição é muito mais influente do que se pensa no futebol moderno”.
  2. Cyle Larin (Besiktas): o atacante fez 13 gols nas eliminatórias da Concacaf, sendo cinco no octogonal final, incluindo seus gols contra Estados Unidos (2x), México e o jogo da classificação contra a Jamaica. Absolutamente do nada, até então o jogador tinha apenas sete gols na seleção. Larin ajudou o Besiktas a ser o campeão turco, com 19 gols, mas nesta temporada meio que “voltou ao normal”. 
  3. Jonathan David (Lille): atrás de Alphonso Davies, é a “mina de ouro” geracional da seleção. Com 22 anos, anotou 11 gols para o campeão francês Lille, e nesta temporada já anotou 13 gols na liga francesa. Deve em breve ser contratado por um clube maior. Aqui na Trivela, eu já escrevi sobre a trajetória de David, sobre como ele renegou a MLS para tentar a sorte na Europa.
  4. Milan Borjan (Estrela Vermelha): o goleiro de etnia sérvia nasceu numa cidade que hoje faz parte da Croácia e se mudou com a família para o Canadá quando tinha 13 anos. Com 18, fez testes em vários clubes argentinos (inclusive no Boca Juniors), antes de conseguir uma vaga no Quilmes, onde ficou um ano sentado no banco e então tentou a vida no futebol europeu. Alto e espalhafatoso, Borjan foi um paredão durante todas as eliminatórias. 
  5. Stephen Eustáquio (Porto): O meia de 25 anos nasceu no Canadá, mas mora em Portugal desde os sete anos (e chegou a jogar pela seleção sub-21 de Portugal). Destaque do Paços de Ferreira, foi comprado pelo ajustado Porto na última janela de inverno e tem jogado pouquíssimos minutos. Eustáquio faz o combo de meia-clássico e volante-passador que entrou como uma luva num time de jogadores que imploravam pelo passe final, como Davies, David e Larin. 
  6. Tajon Buchanan (Club Brugge): o meteórico ponta nem fazia parte do grupo até 2020. Menos de dois anos depois, foi comprado pelo Club Brugge (onde é titular absoluto), garantiu uma vaga na Copa do Mundo e ainda fez um gol no jogo da classificação. O famoso ponta-nato, ele lembra muito Alphonso Davies antes-da-fama: velocista, driblador e terrível nas conclusões a gol. Mas com 22 anos e jogando na Europa, a tendência é só evoluir. 
  7. Sam Adekugbe (Hatayspor): nascido em Londres de pais nigerianos, se mudou para o Canadá aos 10 anos, com a família. De florescimento tardio e muitas vezes pouco confiável, Adekugbe explodiu na lateral esquerda na vaga de Alphonso Davies. É um dos destaques da liga turca, num time que ainda briga por vagas europeias. 
  8. Atiba Hutchinson (Besiktas): o jogador que estava lá quando tudo era mato, inclusive na humilhante derrota de 8 a 1 para Honduras, nas eliminatórias de 2014. O veterano de 39 anos é o relógio confiável no meio, em que não é brilhante mas tampouco comprometedor – Atiba tem um dos índices mais altos de passes certo no futebol europeu. O capitão técnico e moral, tem sido usado inclusive como defensor num modelo de três zagueiros.
  9. Richie Laryea (Nottingham Forest): na última janela se transferiu ao futebol inglês onde ainda não jogou sequer um minutinho, Laryea é o coringa que faz as duas laterais, as duas alas, e ainda funciona como o quarto do meio-campo (o que os jovens chamam de winger). O que as vezes falta de tomada de decisão, sobra em volúpia, velocidade e técnica. Típico jogador sem medo de nada e que é bem legal de ver jogar. 
  10. Jonathan Osorio (Toronto FC): o chamado “homegrown”, que todo mundo tem um carinho especial, Osório sempre foi o PH Ganso deles – habilidade desproporcional à vontade de correr. Nas últimas rodadas das eliminatórias, porém, se tornou um dos principais motores do meio, inclusive jogando recuado, num meio-campo abarrotado de jogares ofensivos. Osório se tornou aquele cara que joga melhor na seleção do que no clube.

O comandante inglês

O técnico John Herdman é um dos principais avalistas da classificação. Entre a transição de Davies para a lateral e apostas em jogadores extremamente jovens, John Herdman convocou e testou mais de 40 jogadores nos últimos quatro anos. O técnico foi um dos catalizadores para a captação da diáspora, canadenses que acabam optando por outras seleções. “Não era uma venda fácil, mas vimos jogadores como Stephen Eustáquio, que atuava pelo sub-21 de Portugal, mas canadense de coração”, disse Herdman ao The Times, da Inglaterra. “O que pesou na decisão dele foi fazer parte de algo que ele não experimentará com Portugal, que é mudar (a cultura de) um país para sempre.”

Na parte tática, sendo a defesa o óbvio calcanhar de Aquiles do Canadá, Herdman nunca foi avesso às mudanças. A zaga contra Jamaica (Laryea, Henry, Scott Kennedy e Adekugbe numa linha de quatro) foi totalmente modificada comparada ao jogo anterior, contra a Costa Rica (Alistair Johnson, Atiba e Kamal Miller numa linha de três). Algo que ele também já tinha feito na janela anterior, contra Honduras, EUA e El Salvador, onde em cada jogo, literalmente, ele entrou com uma defesa diferente (inclusive essa, com Laryea, Henry, Scott Kennedy e Adekugbe). Vale mencionar Steven Vitória, 35, que não esteve disponível nessa Data Fifa, mas foi um dos pilares da zaga do torneio.

As desventuras de Herdman já não são uma novidade desde quando era o técnico da seleção feminina, em que Kadeisha Buchanan lentamente se transformou em uma das melhoras defensoras do mundo; e Ashley Lawrence, que como Alphonso Davies, Herdman fez a transição do meio para a lateral – funções que ela ainda desempenha tanto na seleção do Canadá quando no PSG. Após uma série de técnicos andarilhos da bola (o espanhol Benito Floro e o equatoriano Octavio Zambrano), o Canadá encontrou em John Herdman finalmente o seu comandante. Herdman é inglês, curiosamente assim como Tony Waiter, o técnico que levou o Canadá à Copa do Mundo de 1986.

A bola entra por acaso (às vezes)

Numa análise geral, o Canadá conseguiu a vaga com facilidade. Com uma rodada de antecedência, e jogando melhor que os principais concorrentes, EUA e México, inclusive vencendo os dois rivais nos confrontos diretos, em casa. Dito isso, tem de ser cautela em associar o desempenho a termos como “projeto” e “ótima geração”. Como explicado em outro post na Trivela, o país tem uma liga profissional há apenas quatro anos, e a trajetória da maioria dos jogadores é bem difusa. Jogadores que tentaram (e não conseguiram) a carreira na América do Sul, Europa e Universidades dos EUA. Apenas Jonathan Osório pode-se chamar de um produto genuíno da MLS, por exemplo. Ficou meio demodê usar termos como “boa fase” e “deu a liga” no futebol atual, cada vez mais obcecado na análise de dados, mas é inegável que a seleção do Canadá entrou em combustão na hora certa. 

Por outro lado, não tem modo de comparação ao Canadá que jogou a Copa do Mundo de 1986. Num país em que o futebol era menos assistido do que o lacrosse, a profissionalização do futebol (e o chamado “futuro moderno”) só teve a contribuir. Hoje mais da metade dos jogadores atuam em clubes de expressão (Bayern, Porto) ou relativa expressão (Lille, Besiktas, Club Brugge, Estrela Vermelha). 

Do time de 1986 que perdeu de 1 a 0 para a França de Michel Platini, no México, quatro jogadores jogavam futebol de salão. O capitão, Bruce Wilson (25), tecnicamente já estava aposentado. A maior estrela do time, Igor Vrablic, jogava no agora extinto Royal Sérésien, da Bélgica (Vrablic foi suspenso do futebol internacional ainda em 1986, num escândalo de manipulação de resultados).

A geração canadense original

Além da Copa do Mundo de 1986, o Canadá disputou as Olimpíadas de 1984, onde caiu apenas nas quartas-de-final para o Brasil, nos pênaltis. Tudo ao redor do futebol no Canadá beirava o amador, muitas vezes literalmente. A classificação para o México, por exemplo, foi famosamente conquistada num “estádio” construído numa praça, arquibancadas temporárias de ferro, em St John’s, na província de Newfoundland & Labrador (uma ilha tão remota de todo o resto do país que se alguém dissesse que é o interior da Irlanda, dava pra acreditar). Na vitória de 2 a 1 contra Honduras, o autor do primeiro gol, George Pakos, era um leitor de hidrômetro de 33 anos que jogava futebol amador – ele disputou a Copa do Mundo e jogou 20 minutos conta a União Soviética. O BMO Field, estádio da classificação para a Copa do Mundo do Catar, nem existia a última vez que o Canadá classificou para a Copa. 

Aqui na Trivela tem uma matéria completa sobre aquele grupo de 1984 e 1986.

Obviamente, a foto das equipes também é bastante modificada. Como pode-se perceber, em 1986 o Canadá tinha apenas um jogador negro no time titular, Randy Samuel, que nasceu em Trinidad & Tobago e fez carreira em pequenos clubes da Holanda (possivelmente o melhor zagueiro que o país já teve). Vrablic (tcheco) e Carl Valentine (inglês) eram os outros “internacionais” do elenco, um quadro bem diferente do atual, onde os onze jogadores titulares contra a Jamaica têm direito à dupla-cidadania. 

Quatro dos titulares na classificação inclusive têm pais jamaicanos, todos eles de Brampton, uma região nos subúrbios de Toronto com enorme concentração de imigrantes. Entre as seleções masculina e feminina, mais de uma dúzia de jogadores(as) são de Brampton. É o caso de Junior Hoilett, 31, um dos veteranos da seleção, que saiu do Canadá aos 13 anos para jogar na Inglaterra. São vários os andarilhos da bola, que saíram de casa cedo para tentar a vida de jogador fora do Canadá. Ao contrário de outros tempos, porém, onde filhos da diáspora acabavam optando por outras seleções (Owen Hargreaves e Jonathan de Guzmán os mais famosos), o Canadá passou a ser considerado, como escrevi em outro texto aqui na Trivela, com Alphonso Davies e a legião imigrante.

Segundo dados do governo canadense, somente em 2021, cerca de 11,5 mil brasileiros receberam a residência permanente, que tem direito à cidadania após quatro anos no país. Um crescimento de 116% comparado com o mesmo número de 2019 (5.290), último ano antes da pandemia. Mas a história da imigração do Canadá não é um sucesso imaculado. Entre 1996 e 2016, o último ano com dados disponíveis, caiu em 20% a proporção de imigrantes que se tornam cidadãos, e no momento mais de 400 mil solicitações de cidadania aguardam serem processadas, uma burocracia de até dois anos desde o momento da aplicação. Alphonso Davies, por exemplo, chegou ao país coma  família em 2006 e recebeu a cidadania do Canadá somente em junho de 2017. 

Empate com o Canadá no caminho do Hexa?

Em 1994, o primeiro amistoso pré-Copa na caminhada da seleção brasileira conquistou o tetra foi contra o Canadá, em Edmonton (no estádio do famoso Ice-teca em novembro), um empate de 1 a 1 com um golaço de Romário. A narração dos canadenses é impagável. 

Em 2001, na Copa das Confederações, um ano antes do penta, o Brasil ficou no 0 a 0 contra o Canadá. O poderoso time de Emerson Leão tinha Leomar, Carlos Miguel e Sonny Anderson. “O fundo do poço parece não ter fim. A seleção brasileira consegue empatar com CANADÁ e é vaiada no Japão”, dizia a cabeça na abertura do noticiário da TV Globo.

Em 2008, o Brasil venceu por 3 a 2, um gol de Robinho no fim, após ceder o empate duas vezes. Péssimo resultado, já que o final da história na África do Sul a gente sabe como foi.

*Leandro Vignoli é jornalista etc, escreveu o livro À Sombra de Gigantes: uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu (clique aqui e compre o seu). Também é o dono do perfil Corneta Europa e do blog/newsletter Corneta Press.

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