Eliminatórias da Copa

Como repeteco de 2014 ameaçou Nigéria na busca por vaga na Copa do Mundo

Antes de jogo contra o Gabão, jogadores da seleção boicotaram treino, assim como aconteceu em Campinas

Apesar da vitória contra o Gabão que colocou a Nigéria na final da repescagem africana para a Copa do Mundo, o período de treinos dos Super Eagles foi marcado por mais uma discordância sobre pagamentos com a Federação Nigeriana de Futebol (NFF).

Na última terça-feira (11), os jogadores se recusaram a treinar afirmando que a federação não havia pago os bônus de jogos desde o ano de 2019.

No dia seguinte, o capitão da seleção Will Troost-Ekong afirmou no X (ex-Twitter) que a situação com a NFF foi resolvida e que o “time estava unido e focado como antes para representar a Nigéria nos jogos”.

Com a situação resolvida, os nigerianos venceram o Gabão por 4 a 1 na prorrogação e garantiram vaga na final da repescagem africana, onde enfrentam a República Democrática do Congo neste domingo (16), às 16h (horário de Brasília), em Rabat, no Marrocos.  

Quem se classificar vai para a nova repescagem mundial, que acontece em março de 2026, no México. Bolívia e Nova Caledônia já estão garantidas no torneio.

A situação complicada lembrou o que aconteceu no Brasil, durante a Copa do Mundo de 2014, quando a seleção nigeriana deixou de treinar por causa de questões sobre pagamentos.

Lolade Adewuyi, editor do site Soccernet Nigeria, parceiro da Trivela, relembrou a ocasião em uma coluna que você lê abaixo.

Boicote dos Super Eagles traz dolorosa lembrança da crise da Copa do Mundo de 2014

Na última terça-feira (11), em Rabat, no Marrocos, os Super Eagles decidiram boicotar o treino antes do jogo da repescagem das Eliminatórias da Copa do Mundo contra o Gabão.

Os jogadores disseram que seus bônus estão atrasados desde 2019. 

É uma história que já ouvi antes. E isso coloca em perigo nossas esperanças de classificação para a Copa do Mundo.

Há 11 anos, eu era um jornalista jovem que ficou em frente ao hotel da equipe em Campinas, no Brasil, esperando os Super Eagles caminharem até o ônibus que os levaria ao campo de treinamento. Eles tinham um jogo das oitavas de final da Copa do Mundo para disputar em dois dias contra a França, campeã mundial de 1998.

Mas esperamos e esperamos, e nenhum jogador saiu. Eu conseguia ver o técnico Stephen Keshi na área de espera, completamente arrumado e pronto para ir ao ônibus. Mas os jogadores não apareciam.

Stephen Keshi, técnico da Nigéria, na Copa do Mundo de 2014 (Foto: Imago)
Stephen Keshi, técnico da Nigéria, na Copa do Mundo de 2014 (Foto: Imago)

Ele deve ter recebido a notícia do boicote e decidiu voltar silenciosamente para seus aposentos.

Queríamos respostas. Então, recorremos ao assessor de imprensa da equipe, meu colega, Sr. Ben Alaiya (que sua alma descanse em paz), para obter as respostas que desejávamos e precisávamos para contar ao resto do mundo.

Hoje de manhã, assisti ao meu vídeo em que jornalistas pressionavam Alaiya por respostas — que ele não tinha. Ele estava tão surpreso quanto o restante da imprensa do lado de fora do hotel.

Um mau presságio para os Super Eagles

No tumulto que se seguiu, um jornalista francês me disse, animado, que o presságio não era bom para os Super Eagles. Disse que eles perderiam para a França por causa da distração com os bônus e da falta de treino naquela noite.

Ele me disse que tinha visto algo parecido acontecer com a própria França quatro anos antes, na África do Sul, onde a falta de harmonia no grupo levou ao mau desempenho e à eliminação ainda na primeira fase, apesar de serem favoritos.

Eu não acreditei. Achei que isso não importava tanto e que a fome de vitória dos nossos jogadores seria suficiente no dia do jogo.

Os Super Eagles finalmente apareceram na tarde seguinte quando se despediram do hotel e dos torcedores em Campinas para viajar a Brasília para as oitavas de final.

Escrevi um artigo intitulado “A desonrosa estrada para Brasília” na minha coluna do Goal.com naquele dia. Eu previ que tudo iria desmoronar em Brasília, a mesma cidade onde Gana, que também protestou por causa de bônus, perdeu para Portugal e foi eliminada.

Dito e feito: apesar da luta dos Super Eagles, a Nigéria perdeu por 2 a 0 para a França naquele confronto. Foi um jogo em que não tivemos chance contra os franceses, mais organizados.

Jogadores da Nigéria são consolados por
Didier Deschamps após eliminação em 2014 (Foto: Imago)
Jogadores da Nigéria são consolados por Didier Deschamps após eliminação em 2014 (Foto: Imago)

E algum de nossos jogadores chegou a pedir desculpas por aquela eliminação? O país alguma vez os responsabilizou?

Em algum momento apuramos se a liderança da NFF poderia ter lidado melhor com a situação? Simplesmente seguimos em frente, sem qualquer consequência.

Um repeteco em Rabat, no Marrocos

Assim que vi a notícia do boicote em Rabat, tudo em que consegui pensar foi na voz daquele jornalista francês de mais de uma década atrás.

Desta vez, enfrentamos equipes organizadas e com bom poderio ofensivo.

E ainda assim estamos novamente em estado de desordem. Os jogadores estão insatisfeitos com a forma como vêm sendo tratados pela liderança da NFF. Muitos torcedores se perguntam: “Por que escolher este momento? Por que não depois das eliminatórias?”

Mas o comportamento dos jogadores de futebol nem sempre é lógico. Eles vencem e perdem jogos o tempo todo. Faz parte da vida deles. Mas os torcedores e o país sempre se sentem traídos quando coisas assim acontecem.

Precisamos pressionar a NFF para tratar melhor os jogadores. É a única maneira de evitar novo boicote na próxima década, na véspera de outro jogo muito importante.

Por agora, tire disso o que quiser. Não espere muito dos jogos da repescagem, para manter sua sanidade. O presságio não é positivo.

Foto de Matheus Rocha

Matheus RochaSubcoordenador de conteúdo

Matheus Rocha é natural de Uberlândia, onde se formou em Jornalismo na Unitri em 2014. Começou a carreira no jornalismo na Trivela antes de passar por ExtraTime e Yahoo, participando da cobertura de três Copas do Mundo e cinco Olimpíadas.

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