Eliminatórias da Copa

Gana se valeu do gol fora, frustrou a favorita Nigéria e está de volta à Copa após oito anos

Gana tem uma equipe inferior no papel em comparação à Nigéria, mas apresentou boa organização defensiva e se classificou com o empate

Gana se enfraqueceu nos últimos anos e possui uma geração menos empolgante que aquela responsável por levar o país a três Mundiais consecutivos, com suas principais apostas atuais ainda dando seus primeiros passos na seleção. Reflexo disso, os Estrelas Negras sofreram na fase de classificação das Eliminatórias, dependendo de um pênalti inexistente para superar a África do Sul, e fizeram uma campanha ruim na Copa Africana de Nações. Contra todos os prognósticos, porém, os ganeses estarão na Copa do Mundo de 2022. A equipe se valeu mais da organização do que do talento para eliminar a favorita Nigéria nos confrontos decisivos. Depois do empate por 0 a 0 em Kumasi, o empate por 1 a 1 em Abuja beneficiou Gana, graças ao gol fora de casa. Méritos do técnico Otto Addo, que conseguiu ajeitar o time ao assumir uma bomba após a CAN 2022. Apesar da iniciativa dos nigerianos nesta terça, pesou o nervosismo contra um adversário bem postado na defesa.

Jogador de Gana na Copa de 2006, Otto Addo assumiu a equipe semanas antes da decisão contra a Nigéria, por conta da demissão de Milovan Rajevac. Não convocou André Ayew e tentou apostar mais no coletivo do que em individualidades. Conseguiu uma estabilidade que não se viu na rival Nigéria, que também tinha trocado seu treinador antes da Copa Africana. No papel, as Super Águias possuem um elenco bem melhor que os Estrelas Negras. Repetiram, contudo, problemas da fase anterior das Eliminatórias – principalmente a dependência de Victor Osimhen. Depois do empate sem gols fora de casa, os nigerianos não conseguiram se recuperar.

A Nigéria partiu para cima durante os primeiros minutos, mas acabou travada pela defesa de Gana. Os Estrelas Negras apresentavam a organização já vista na partida de ida e, quando conseguiram sair para o ataque, abriram o placar aos dez minutos. Foi um lance de sorte dos ganeses, é verdade. Thomas Partey chutou firme da entrada da área e contou com a falha do goleiro Francis Uzoho, que calculou mal o movimento e tomou um frango. Nesse momento, só a virada interessava aos nigerianos, por causa do gol qualificado.

A resposta da Nigéria seria concreta na sequência da partida. As Super Águias contavam bastante com a participação de Victor Osimhen, que dominava as jogadas ofensivas e comandava a blitz. Não demorou para que os nigerianos ganhassem um pênalti, marcado pelo VAR após falta em Ademola Lookman. O capitão William Troost-Ekong assumiu a cobrança e mandou a bola sem chances de defesa, deixando tudo igual aos 22. O time da casa permaneceu em cima, fazendo prevalecer sua superioridade técnica.

Em meio a essa iniciativa da Nigéria, a virada pareceu sair aos 34. Num contra-ataque, Osimhen foi lançado em velocidade com a defesa aberta. O centroavante ganhou a dividida com o goleiro Joseph Wollacott fora da área e mandou às redes vazias. Porém, um impedimento mínimo acabou marcado e frustrou os nigerianos. A equipe voltava a precisar de um gol. A reta final seria mais travada, mas as Super Águias tiveram outra oportunidade de virar. Wollacott faria boa defesa num chute fechado de Joe Aribo.

Gana voltou do intervalo com três mudanças. Andy Yiadom, Elisha Owusu e Daniel-Kofi Kyereh eram apostas na faixa central. A atuação dos Estrelas Negras, de fato, não agradou – sobretudo pela maneira como a Nigéria teve o comando das ações. Mesmo assim, as Super Águias tinham a sua troca com a entrada de Shehu Abdullahi no meio. Os nigerianos demoraram um pouco para entrar em sintonia na segunda etapa, mas permaneciam mais ofensivos – sem que isso resultasse em oportunidades, porém. Quando Osimhen voltou a aparecer, aos 13, virou uma bela acrobacia para fora.

Certo nervosismo atrapalhava a Nigéria, travada pela marcação segura de Gana. Enquanto isso, quando retomavam a posse de bola, os Estrelas Negras trabalhavam pacientemente na defesa e gastavam o tempo. Nem na marra as Super Águias faziam muito, sem criatividade na construção. Osimhen parecia o exército de um homem só. Aos 26, um fio de esperança surgiu numa bola parada. Troost-Ekong cabeceou e Wollacott realizou uma defesa providencial para abafar o arremate. Do outro lado, os ataques ganeses eram esporádicos. Aos 30, Osman Bukari chutou prensado e mandou por cima do travessão.

Os veteranos Odion Ighalo e Ahmed Musa seriam apostas da Nigéria depois dos 33, num momento em que o desânimo parecia abater as Super Águias. Mesmo a torcida sentia, com o barulho reduzido nas arquibancadas em Abuja. Os nigerianos tinham dificuldades mesmo para estabelecer o abafa. E continuavam dependendo de Osimhen. Aos 39, o centroavante virou um lindo voleio, mas ao lado da meta. Os lampejos se limitavam a bolas erguidas na pequena área, que a defesa de Gana rifava. Já nos acréscimos, os ganeses tiveram dois contragolpes desperdiçados. As Super Águias sequer acharam uma bola vadia, se frustrando com a eliminação. Após o apito final, a revolta ficou expressa na torcida, com invasões de campo e uma dose de confusão.

Esta será apenas a segunda Copa do Mundo desde 1994, quando fez a sua estreia, que a Nigéria não disputará. E não dá para falar que é um problema geracional, mesmo que os antigos craques das Super Águias não tenham substitutos à altura atualmente. É um grupo forte para o contexto africano e que possui muitas opções, sobretudo do meio para frente. Faltou mesmo futebol, com Osimhen sendo o único que sai com a barra limpa pelas dificuldades em Abuja. O técnico Augustine Eguavoen, que até começou bem seu trabalho na CAN, não conseguiu impor a superioridade dentro de casa nesta terça.

Já Gana vai à quarta Copa do Mundo de sua história, todas desde 2006, ausente apenas em 2018. Thomas Partey e Jordan Ayew são referências de um elenco com menos opções de destaque que em outros Mundiais. No entanto, a participação no Catar também pode ser importante para amadurecer talentos na casa dos 20 anos – como Mohammed Kudus, Edmund Addo, Abdul Issahaku, Felix Afena-Gyan e Kamaldeen Sulemana. São as apostas para que os ganeses vivam sua guinada e, a partir do Catar, vivam uma nova bonança na seleção. O ganho de confiança proporcionado por Otto Addo já é significativo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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