Eliminatórias da Copa

É difícil encontrar uma arbitragem tão atrapalhada quanto a de Equador 1×1 Brasil, em que o futebol mesmo pouco deu as caras

O VAR seria protagonista em Quito, num duelo em que o árbitro Wilmar Roldán errou muito, mas corrigiu sempre na revisão

Bola, bola mesmo, não foi o elemento mais valorizado em Quito. O apito do árbitro Wilmar Roldán, em compensação, soou bastante ao longo do Equador 1×1 Brasil pelas Eliminatórias. Com menos de meia hora de jogo, seriam mostrados nada menos que três cartões vermelhos em lances isolados – embora um deles tenha sido revogado pelo VAR. Como se não bastasse, durante o segundo tempo, La Tri teria dois pênaltis bem cancelados, um deles nos acréscimos, quando também foi anulada a segunda expulsão de Alisson no duelo. Diante de arbitragem tão atrapalhada e desnecessariamente rigorosa, a qualidade técnica não deu as caras em campo.  Mesmo com as repetidas decisões desfavoráveis de Roldán, o empate no Estádio Casa Blanca não é de todo ruim aos equatorianos, que buscaram a reação no segundo tempo e deram um passo importante rumo ao Catar. Já o Brasil, garantido no Mundial, apresentou pouco. Marcou seu tento logo no começo, mas desperdiçou a vantagem numérica e teria pouquíssimos lances de qualidade. Daquelas atuações em que se tira pouco de positivo para a sequência do trabalho, pelo excesso de erros e pelo coletivo pobríssimo.

Tite escalou a Seleção com Alisson no gol, protegido por Éder Militão e Thiago Silva na zaga, além de Emerson Royal e Alex Sandro nas laterais. Casemiro e Fred fechavam o meio, com Philippe Coutinho reaparecendo na ligação. Mais à frente, Raphinha e Vinícius Júnior eram os pontas, enquanto Matheus Cunha encabeçava o ataque. No 4-3-3 do Equador, o destaque ficava para a linha de frente formada por Enner Valencia, Michael Estrada e Gonzalo Plata. Pervis Estupiñán e Moisés Caicedo eram nomes importantes pelo lado esquerdo.

Logo de cara, o Equador causaria problemas ao Brasil. Emerson Royal tomou o amarelo no primeiro minuto e, na cobrança de falta resultante, quase Enner Valencia abriu o placar na tentativa de completar o cruzamento, com a cabeçada livre para fora. No entanto, o primeiro ataque do Brasil rendeu o primeiro gol, aos seis. Depois de um escanteio arranjado por Vinícius Júnior, a cobrança de Philippe Coutinho ficou viva na área depois da saída ruim do goleiro Alexander Domínguez. A zaga até rechaçou a primeira tentativa de Raphinha na sobra, mas o rebote ainda ficou com Coutinho, que cruzou. Matheus Cunha cabeceou em cima da marcação e Casemiro completou na pequena área.

O Brasil adiantava a marcação e veria o jogo ainda mais aberto aos 12 minutos, num lançamento longo para Matheus Cunha. O goleiro Alexander Domínguez saiu no desespero e até acertou a bola, mas também cravou as travas da chuteira no pescoço do centroavante. Depois da revisão no VAR, o cartão vermelho direto foi bem aplicado ao equatoriano. A Seleção ainda ganhou uma cobrança de falta no limite da grande área. O goleiro reserva Hernán Galíndez, que entrou no lugar de Alan Franco, já tomaria um susto. Coutinho chutou colocado e a bola passou perto de sua meta.

O problema é que o Brasil sequer aproveitaria a vantagem numérica. Logo aos 20, no primeiro avanço do Equador após a expulsão, Emerson Royal também foi expulso. O lateral errou o tempo da bola e acertou Estrada, com o segundo amarelo. Com isso, Fred ocupou a lateral direita momentaneamente. La Tri se mostrou mais acesa na sequência, forçando erros dos brasileiros na saída. E, numa bola longa para Enner Valencia, Alisson viu o terceiro cartão vermelho da partida ainda aos 26 minutos. O goleiro saiu da área para rifar a bola, mas o pé sobrou na orelha do atacante equatoriano. Ao menos, o VAR salvou a pele da Seleção. Wilmar Roldán conferiu o lance no monitor e mudou a expulsão. Aplicou somente o amarelo.

O Brasil logo contaria com a entrada de Daniel Alves, no lugar de Coutinho. A sequência da partida seria mais corrida do que bem jogada. Nenhuma das equipes conseguia reter a bola e a Seleção tinha problemas na construção. Matheus Cunha seria travado na linha de fundo, antes que Raphinha desse um chute torto aos 41, mas eram iniciativas isoladas. Não que o Equador oferecesse mais. Teria um pênalti reclamado por Gonzalo Plata e mais uma cabeçada para fora de Valencia depois de cobrança de falta. Os acréscimos generosos, até pelo contexto, ofereceram mais nove minutos. Nada que rendesse tanta emoção, entre as bolas paradas dos equatorianos e os passes espetados dos brasileiros. A melhor oportunidade no fim seria do Brasil, num chute de Matheus Cunha que saiu ao lado da trave.

O segundo tempo recomeçou com uma bola nas redes do Equador, aos três minutos. Michael Estrada aproveitou a indecisão entre Daniel Alves e Alisson para marcar. A sorte do Brasil é que, na ajeitada de Estupiñán na linha de fundo, a bola havia saído. A resposta do Brasil viria no minuto seguinte, numa falta cobrada para a área, que Casemiro mandou pelo lado externo da rede. O jogo ficava mais aberto que no primeiro tempo, com chances de ambos os lados. Os equatorianos voltariam a ameaçar aos nove, num grande lance de Plata pela direita, que Alisson travou nos pés de Estrada. Isso até que um pênalti fosse marcado para La Tri aos dez.

No lance, Estupiñán ganhou de Daniel Alves e se chocaria com Raphinha na sequência. Pisou no pé do brasileiro e caiu na área. A marcação parecia rigorosa e o árbitro Wilmar Roldán de novo revogou após rever no monitor. As vaias soavam nas arquibancadas do Casa Blanca, com razão, diante de arbitragem tão confusa – por mais que tenha acertado nas revisões. Logo Tite mudaria, aos 18, com Antony e Gabriel Jesus nos lugares de Raphinha e Vinícius Júnior. O jogo permanecia indefinido, com um desarme providencial de Fred dentro da área respondido segundos depois, quando o goleiro Galíndez precisou se antecipar a Gabriel Jesus na intermediária.

O Brasil só voltaria a acertar o alvo com 27 minutos, num chute de longe de Alex Sandro que o goleiro Galíndez rebateu sem dificuldades. Pouco depois, seria a vez de Jesus chutar para Galíndez agarrar. Só que, no momento em que a Seleção parecia crescer, o Equador empatou aos 30. Plata cobrou escanteio pela direita e Félix Torres se antecipou no primeiro pau, em cabeçada que entrou sem que Alisson chegasse a tempo. Logo Tite botaria Gabigol, na vaga de Matheus Cunha, mas era La Tri que ganhava confiança. As subidas dos anfitriões eram bem mais perigosas. Os brasileiros, errando muito, pareciam muito espaçados na construção.

De certa maneira, o empate já parecia satisfatório ao Equador. La Tri não precisou botar muita pressão nos minutos finais. O Brasil até voltou a ter um momento ofensivo aos 42, nada que passasse de uma infiltração de Gabigol. A Seleção, ainda assim, se via vulnerável em cada investida dos equatorianos – sobretudo em cima dos laterais. E a vitória de La Tri quase pintou nos acréscimos. Numa bola que pingou na área, Alisson socou primeiro a bola, mas também acertou a cabeça de Ayrton Preciado. Por conta do lance, o goleiro recebeu o segundo amarelo e de novo foi expulso, com o pênalti anotado. Mas adivinha o que aconteceu? Nova revisão de Roldán no VAR. O colombiano revogou tanto o pênalti quanto o cartão. A revolta dos equatorianos era óbvia. A reta final do confronto seria tomada pelas vaias, até que o apito final soasse de vez – este, sem chamada do VAR.

O Brasil, garantido na Copa do Mundo, chega aos 36 pontos. Já o Equador consolida sua situação no terceiro lugar. La Tri soma 24 pontos, sete de vantagem na zona de classificação direta e oito ao menos dentro da repescagem. O empate contra os brasileiros é um passo a mais para os equatorianos voltarem ao Mundial, apesar de todos os pesares.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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