Eliminatórias da Copa

O fim da Data Fifa me dá tristeza. Há coisas que só o futebol de seleções pode proporcionar

Colunista da Trivela, Tim Vickery exalta narrativas marcantes nas Eliminatórias Sul-Americanas

Imagino que estou fazendo parte de uma minoria bem pequena, e não estou esperando ter muito apoio. Mas o fim das Datas Fifa sempre me dá certa tristeza. Acho difícil virar a chave muito rápido e focar de novo no futebol de clubes. 

Não sei, por exemplo, se esta semana vou poder concentrar muito nos jogos da volta na Copa do Brasil. Sei que a minha cabeça ainda vai estar ruminando sobre a Data Fifa — e quando falo “Data Fifa” estou me referindo quase exclusivamente às Eliminatórias Sul-americanas. Cruzeiro x Galo, Fluminense x Bahia pela Copa do Brasil? Desculpe, esta semana vou ter outras preocupações.

Uma exaltação às histórias na Data Fifa

James Rodríguez comemora gol da seleção colombiana
James Rodríguez comemora gol da seleção colombiana (Foto: Divulgação/Conmebol)

Tipo — como Ancelotti vai formar a seleção brasileira para a Copa do Mundo? A falta da renovação defensiva vai ser o grande problema da Argentina? Como o Equador — e o Paraguai também — podem marcar mais gols? O modelo colombiano de dois atacantes mais James Rodríguez ainda é sustentável? De Arrascaeta finalmente se firmou como jogador chave no time do Uruguai?

Adoro as Eliminatórias Sul-americanas. 

Entrei nesta campanha com certo receio, com medo que a expansão da Copa do Mundo ia transformar 18 rodadas num passeio de tédio. Me enganei. A campanha tem sido rica em narrativas — e quando a Venezuela é capaz de jogar duas vezes contra o Brasil sem perder, você sabe que está lidando com uma coisa interessante.

Aí achamos a graça da coisa. Ou talvez as duas graças. Uma tem a ver com os sonhos da criança — a maneira, por exemplo, que Richarlison fala que fica treinando lá em Londres procurando imaginar que está jogando pelo Brasil numa partida decisiva de Copa do Mundo contra a Argentina. Tantos jogadores pensam assim, e jogar na seleção os colocam em contato com o menino cheio de sonhos que existe em todos nós. Se trata de futebol no seu lado menos cínico.

Seleção boliviana reunida antes de jogo das Eliminatórias
Seleção boliviana reunida antes de jogo das Eliminatórias (Foto: Reprodução/X laverde_fbf)

E no futebol das seleções, não tem janela de transferências. Não tem patrocínio master na camisa que vai ajudar a bancar a contratação de vários novos brinquedos em forma de jogadores caros. O técnico tem que trabalhar com aquilo que tem. Não tem um bom lateral esquerdo? Paciência, vai ter que improvisar uma solução.

Todas as estradas do futebol do clubes caminham para uma concentração cada vez mais de títulos e glória num número restrito de times. Mas as mesmas tendências não estão tão fortes no futebol de seleções.

Claro, que tem certa concentração. Foi muito bom a Argentina conquistar a última Copa, senão teria sido mais um triunfo para a Europa Ocidental. A coisa impressionante é como a Europa aprendeu a desenvolver os seus próprios talentos. 

Arrascaeta comemora seu gol na vitória uruguaia (Foto: Federação Uruguaia)
Arrascaeta comemora seu gol na vitória uruguaia (Foto: Federação Uruguaia)

A grande habilidade sul-americana é sempre bem-vinda, mas não é tão necessária como antes. O Bayern de Munique que eliminou o Flamengo no Mundial de Clubes, por exemplo — os titulares e aqueles que entraram do banco são todos europeus.

Mas até isso tem dois gumes. No Catar, o Marrocos foi o primeiro africano a chegar nas semifinais — com um elenco cheio de jogadores de dupla nacionalidade, formados no futebol europeu. E um grande exemplo de como, no futebol das seleções, o jogo pode ser mais equilibrado.

Brasil e Argentina sempre vão estar entre os candidatos. Tem uma possibilidade eterna de uma geração boa de Colômbia, Equador e Uruguai — como aconteceu com o Chile uma década atrás. Tem a África, ou, quem sabe, um dia uma seleção asiática. A esperança existe, especialmente num torneio de tiro curto que nem a Copa do Mundo.

Me desculpe, então. Vocês podem voltar para os seus jogos na Copa do Brasil. Por enquanto, eu ainda tenho a minha cabeça fissurada com a Data Fifa.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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