Eliminatórias da Copa

Com ajudinha da defesa russa, Croácia vence em Split e confirma ida para a Copa de 2022

Falha bizarra de Kudryashov nos dez minutos finais deu de presente a vaga direta para os axadrezados

Não foi fácil para a Croácia, com um gramado pesado, repleto de poças e diante de uma defesa da Rússia que se fechou. Mas neste domingo, a seleção croata conseguiu, na base do abafa, uma vaga na Copa do Mundo de 2022. A vitória magra de 1 a 0 serviu para que a equipe de Zlatko Dalic ultrapassasse a Rússia na tabela, e de quebra condenando os rivais à repescagem.

Só havia um jeito de ir ao Catar: vencendo

Antes da bola rolar, em Split, a Croácia sabia de sua missão: vencer a Rússia e superar a desvantagem de dois pontos na tabela. Só que havia uma série de problemas e obstáculos neste caminho para o Catar. O primeiro, claro, era a postura dos visitantes, que se preocuparam em defender e fechar uma fortaleza na área do goleiro Matvei Safonov.

E para Valery Karpin, o caminho mais curto para mais uma participação em Copa do Mundo era de fato estacionar o ônibus por 90 minutos, irritando o time e a torcida locais. Essa tarefa parecia um pouco mais fácil quando as condições climáticas se agravaram em Split: uma forte chuva tornou o gramado em um lamaçal, prejudicando a qualidade dos passes trocados entre os croatas. Mesmo com imensa dificuldade de manter a posse com a bola rolando, a Croácia de Dalic se colocou durante todo o tempo no campo rival, buscando uma oportunidade adequada para chutar ao gol.

As estatísticas não mentem: ao todo, foram 19 chutes da Croácia, contra apenas dois da Rússia, ambos na fase final da partida, quando o placar já era desfavorável. Luka Modric e Ivan Perisic centralizaram a responsabilidade por fazer a ligação com o ataque, sempre buscando Andrej Kramaric, o homem mais visado pela retaguarda russa nesta tarde.

Taticamente, os axadrezados fizeram uma apresentação impecável. Variaram suas tentativas de infiltração na área, não tiveram vergonha de chutar ao gol sem espaço, desafiaram a marcação e forçaram por 80 minutos situações de perigo. Para a Rússia, toda bola afastada era quase um grito de alívio. E quando os zagueiros não alcançavam, coube a Safonov fazer defesas para encurtar o caminho ao Mundial.

Tocando a bola calmamente, a Croácia fez um ótimo primeiro tempo, mas o resultado não vinha. Após o intervalo, com 45 minutos a menos para completar a missão, outra intempérie: a chuva forte praticamente mudou o esporte praticado para algo parecido com o Beach Soccer. Não dava para trocar passes pelo chão, já que as poças interceptavam toda tentativa.

Dalic percebeu que não seria possível vencer dessa maneira e alterou a dinâmica das jogadas ofensivas. Era hora de tentar pelo alto. Sacou Nikola Vlasic e colocou o centroavante Bruno Petkovic para jogar ao lado de Kramaric. Só faltava acionar os dois via aérea. A tensão ficou insustentável. Impaciente, a torcida manifestava sua insatisfação com o placar, havia o temor de que a repescagem pudesse trazer algum adversário mais forte do que a Croácia, que já não vem em uma toada animadora nos últimos meses.

Uma bobagem inexplicável

Mal sabiam os croatas que o homem responsável pela classificação para o Catar não vestia preto: o careca Fedor Kudryashov, entre os de vermelho, vinha fazendo partida segura até os 35 minutos. O time da casa forçava a mão pela ponta esquerda, quando um cruzamento caiu no meio da área. O piso escorregadio tirou Kramaric e Petkovic da jogada, e eles não conseguiram desviar a rota da bola. Livre, sem necessidade de interceder e acompanhando o quique, Kudryashov errou o tempo dos próprios passos e escorregou levemente, tocando com a coxa na bola. Safonov não estava esperando, saltou desesperado e ainda tocou, mas caiu nas redes com um semblante desesperado: gol da Croácia.

A comemoração explodiu nas arquibancadas e os croatas se abraçaram, um pouco surpresos com o desenrolar da jogada. Contra ou não, o gol servia para a proposta. Dalic, que passou o segundo tempo inteiro de cara fechada, finalmente sorriu. E fez o que qualquer um faria: sacou Kramaric e colocou mais um zagueiro, Josip Stanisic. Talvez nem precisasse, já que a Rússia não havia chutado ainda. Pois o seguro morreu de velho.

Naturalmente, a Rússia precisou abandonar a ideia de retranca para pelo menos buscar o empate que vinha segurando. Mas faltou organização e um plano mais claro de ataque. A melhor chance foi criada por Andrey Mostovoi, que chutou pouco acima da trave de Ivo Grbic. Não houve perigo claro de empate e a Croácia pôde festejar como era esperado.

Um grupo monopolizado por duas seleções

Há algumas rodadas já se sabia que Croácia e Rússia disputariam um lugar na Copa. As duas seleções se enfrentaram no Mundial de 2018, com os russos de anfitriões, nas quartas de final. E também naquela ocasião, os axadrezados ficaram com a vaga, após empate em 2 a 2 no tempo normal e disputa de pênaltis. A equipe de Karpin, que apresenta um estilo bastante diferente de seu antecessor, Stanislav Cherchesov, fez muito pouco em Split para manter sua posição de líder. Evidente que era preciso alguma cautela para garantir a classificação, mas passar 80 minutos sem chutar ao gol foi um indício bastante preocupante de que faltou ousadia para surpreender os mandantes.

No fim, a Croácia deu o pulo e somou os três pontos que lhe bastavam para a Copa, deixando a Rússia com 22 e uma espinhosa missão de aguardar seu adversário para um jogo de mata-mata na repescagem, que consistirá em uma disputa de três chaves, com semifinais e finais que definirão os três últimos classificados para o Mundial, além dos 10 vencedores dos grupos nas Eliminatórias.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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