Eliminatórias da Copa

Além do fanatismo, a Tartan Army leva solidariedade a cada viagem com a seleção escocesa: são 17 anos de doações a instituições estrangeiras

Desde 2003, a torcida escocesa possui uma organização sem fins lucrativos que auxilia instituições de caridade nos países onde a seleção joga

A partida desta sexta, em Chisinau, contou com uma atmosfera vibrante nas arquibancadas. Não era a torcida da Moldávia, porém, que lotava seu estádio. O duelo decisivo pelas Eliminatórias contou com uma verdadeira invasão da Tartan Army, a famosa massa que costuma acompanhar a seleção escocesa. Os britânicos tiveram seus motivos para comemorar, com a vitória por 2 a 0 que valeu a vaga na repescagem. E os visitantes também deram motivos para os moldavos botarem um sorriso no rosto, com uma campanha solidária que acontece a cada vez que os torcedores escoceses pegam a estrada para acompanhar sua seleção.

Desde 2003, a torcida escocesa conta com a “Tartan Army Sunshine Appeal” (Tasa), uma organização sem fins lucrativos que levanta fundos junto aos torcedores e apoia instituições de caridade. A ideia surgiu numa viagem à Bósnia, quando torcedores conheceram um garoto chamado Kemal Karic. O menino perdeu seus membros quando era bebê, depois que sua mãe pisou em uma mina terrestre e faleceu no acidente. Então, os britânicos financiaram suas próteses. Nos últimos 17 anos, 88 instituições em outros países foram auxiliadas pela Tartan Army.

A Moldávia é o país mais pobre da Europa e contaria também com o apoio dos torcedores escoceses. Eles doaram £3 mil a uma organização que cuida de crianças carentes e deficientes. O dinheiro será destinado para que famílias comprem uma fazenda nos arredores da capital. “É uma organização adorável. Eles pretendem alugar uma fazenda, para que as crianças possam se envolver com os animais. Tem sido difícil escolher uma instituição de caridade, porque muitos orfanatos moldavos (e existem muitos) fecharam devido à pandemia, mas penso que achamos realmente um bom local para fazer nossa doação”, contou Neil Forbes, presidente da Tasa, em entrevista à BBC.

Desde a formação da Tasa, a organização costuma fazer doações que variam de £1 mil a £5 mil em todas as viagens da seleção pela Europa. Na rodada passada das Eliminatórias, por exemplo, eles ajudaram a adaptar um parquinho infantil nas Ilhas Faroe para crianças deficientes. Já em 2004, na última vez em que a Tartan Army esteve na Moldávia, eles montaram um parquinho num hospital infantil em Chisinau. Além das doações, a Tartan Army também leva um pouco de sua cultura à população local.

“Normalmente visitamos a instituição que recebe a doação um dia antes do jogo. Desta vez, a instituição vai trazer algumas crianças para nos conhecer. Aparecemos em kilts e muitas vezes temos uma gaita de fole, que se torna o foco da atenção. As pessoas amam isso. Toda vez você percebe essa emoção crua. É gratificante ter o privilégio de fazer apresentações em nome da Tartan Army”, completa Forbes.

Nas arquibancadas, a força da Tartan Army é evidente. É difícil encontrar uma torcida de seleção tão fanática e tão pulsante, algo que se evidenciou na última Eurocopa. E tal consciência social torna o grupo de fanáticos escoceses mais especial. Que possam continuar ajudando, inclusive em Copas do Mundo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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