A Fifa não permitiu que o Iraque jogasse em Bagdá, mas a torcida ainda assim lotou o estádio para apoiar o time
O Iraque deveria atuar em Bagdá contra os Emirados Árabes, mas um bombardeio do Irã contra um alvo de Israel no Curdistão fez a Fifa mudar o mando para campo neutro
Os sucessivos conflitos no Iraque afastaram a seleção do território nacional durante as duas últimas décadas. Em 2019, os Leões da Mesopotâmia mandaram um jogo das Eliminatórias em Basra e encerraram um hiato de oito anos sem atuar dentro do país pela competição. Não demorou para que os iraquianos fossem novamente obrigados pela Fifa a jogar suas partidas em campo neutro, por conta dos protestos massivos nas grandes cidades do centro-sul, mas a entidade internacional sinalizou uma reabertura para 2022: o Iraque ganharia permissão para atuar em Bagdá, onde não joga em partidas oficiais desde 2001. Porém, o recente bombardeio da Guarda Revolucionária do Irã no Curdistão, contra um alvo israelense, fez a Fifa mudar de ideia e retomar o banimento. A decisão não agradou a torcida iraquiana, que realizou protestos. Inclusive, lotou um estádio na capital para ver o Iraque 1×0 Emirados Árabes realizado na Arábia Saudita.
O argumento dos iraquianos é que a situação atual no país é segura o suficiente para realizar uma partida de futebol. Afirmam que o ataque ocorrido em Arbil, principal cidade do Curdistão, envolvia dois países alheios à política interna e que isso não representava riscos a Bagdá, distante a 400 quilômetros do foco do bombardeio. A expectativa, inclusive, era usar o novíssimo Estádio Al-Madina. A nova praça esportiva da capital teve sua construção iniciada em 2012, mas a conclusão só aconteceu em dezembro de 2019. Ainda assim, por conta da pandemia, a inauguração seria adiada em dois anos, até dezembro de 2021. O primeiro jogo da seleção principal ocorreu em janeiro de 2022, com a vitória por 1 a 0 sobre a Uganda. A ideia era usar o estádio pertencente ao governo nas Eliminatórias.
Após a proibição da Fifa, o Iraque voltou a realizar uma partida em Al-Madina uma semana antes da Data Fifa. Os Leões da Mesopotâmia receberam a Zâmbia em amistoso e venceram por 3 a 1, diante de mais de 25 mil torcedores. Ainda assim, não foi isso que sensibilizou a Fifa, nem mesmo os protestos dos jogadores – como conta o ótimo Copa Além da Copa. Num duelo vital contra Emirados Árabes pelas Eliminatórias, em que a seleção iraquiana dependia urgentemente da vitória, o mando de campo permaneceu restrito a Riad. O que se viu foram arquibancadas vazias, bem longe da empolgação que certamente prevaleceria com o retorno a Bagdá.
Apesar da restrição, o Iraque conquistou uma vitória fundamental nas Eliminatórias. Ganhou dos Emirados Árabes por 1 a 0, em resultado que mantém os Leões da Mesopotâmia vivos para a última rodada do hexagonal, podendo se classificar à repescagem. Enquanto isso, dentro do país, o Estádio Al-Madina não deixou de lotar. A partida seria transmitida nos telões. Os presentes estavam lá para assistir ao jogo e também para protestar contra a decisão da Fifa. Foi uma manifestação nacionalista, com várias bandeiras espalhadas, e também uma demonstração do clima pacífico que prevalece atualmente.
Bagdá recebeu os jogos do Iraque de maneira regular até setembro de 2001, abrigando a campanha dos Leões da Mesopotâmia nas Eliminatórias para a Copa de 2002. Desde a invasão americana em 2003, foram raríssimas as aparições da seleção principal na capital. Os iraquianos disputaram um amistoso contra a Palestina em 2009, além de realizarem outros amistosos contra Síria e Libéria em 2013 – meses antes que uma guerra civil estourasse. A inauguração do Estádio Al-Madina representa exatamente uma reabertura na cidade.
Nestas duas últimas décadas, os compromissos do Iraque dentro de seu território foram realizados sobretudo em cidades menores – como Basra e Karbala. Ainda assim, de maneira esporádica, com quatro banimentos executados pela Fifa desde 2003. Os iraquianos agora esperam que o quarto e mais recente seja o mais breve, quem sabe com o aval da entidade para a Data Fifa de junho.
https://www.youtube.com/watch?v=vQTuNZA1cXw
Abaixo, dois fios elaborados pelo Copa Além da Copa, que trazem outras informações. Fica a sugestão, também, para seguirem o excelente trabalho da página:
"Até quando nós temos que esperar?"
Os jogadores iraquianos têm se pronunciado contra a mudança de última hora da partida decisiva de amanhã, contra os Emirados Árabes, de Bagdá para Riad, na Arábia Saudita.
De novo, a possibilidade de empurrar o time foi tirada dos iraquianos. pic.twitter.com/eFVnYnlSYy
— Copa Além da Copa (@copaalemdacopa) March 23, 2022
Imagine se, depois da invasão, a FIFA tivesse sancionado a Ucrânia em vez da Rússia.
Parece uma loucura, mas é o que acontece com a seleção do Iraque, invadido pelos EUA em 2003 e, desde então, um time que quase nunca joga em casa.
Já os EUA nunca sofreram qualquer punição. pic.twitter.com/xViZ7xkd4r
— Copa Além da Copa (@copaalemdacopa) March 19, 2022



