Eliminatórias da Copa

A Armênia inicia as Eliminatórias como uma grata surpresa, com três vitórias e a liderança de seu grupo

Apenas quatro seleções europeias saíram com três vitórias das Eliminatórias para a Copa de 2022 nesta Data Fifa. Itália e Inglaterra podem não ter encantado completamente, mas cumpriram seus papéis. A Dinamarca agradou bastante, num grupo que parecia bem mais equilibrado. Mas ninguém sai tão elogiada quanto a seleção da Armênia. Os armênios estavam apenas no Pote 5 do sorteio, mas lideram o Grupo J, o mesmo que tem a Alemanha como cabeça de chave. Ainda falta enfrentarem os alemães, bem como a Macedônia do Norte, outra surpresa da chave. Mas não é isso que tira os méritos dos excelentes resultados, incluindo a emocionante virada por 3 a 2 sobre a Romênia nesta quarta.

A Armênia chegou a registrar boas campanhas na última década, mas não de maneira constante. Os primeiros sinais positivos vieram nas Eliminatórias para a Euro 2012. Os armênios terminaram em terceiro na chave que tinha Rússia e Irlanda, ficando a quatro pontos da repescagem. O time também deu mostras de competitividade no qualificatório da Copa de 2014. Ficou longe da classificada Itália, mas rondou a repescagem e arrancou vitórias contra República Tcheca, Bulgária e Dinamarca – incluindo uma histórica goleada por 4 a 0 em Copenhague, que custou caro aos escandinavos. A Armênia decepcionou ao não vencer um jogo sequer nas Eliminatórias para a Euro 2016 e também foi tímida no caminho à Copa de 2018. Mas, apesar das oscilações, teve alguns triunfos mais expressivos nas preliminares da Euro 2020 – incluindo Bósnia e Grécia.

De qualquer maneira, os resultados mais notáveis da Armênia nos últimos três anos aconteceram na Liga das Nações. A equipe conquistou dois acessos consecutivos e se garantiu na segunda divisão para a próxima edição. E as atuais Eliminatórias para a Copa de 2022 mostram como realmente os armênios podem lutar num patamar mais alto. Na estreia da atual campanha, o time não impressionou, ao vencer Liechtenstein por 1 a 0 graças a um gol contra. Depois, venceu por 2 a 0 a Islândia, em Yerevan. Apesar da queda recente dos islandeses, os armênios se colocavam no páreo. Nada comparado ao peso do triunfo sobre a Romênia nesta quarta, também em Yerevan.

Tudo bem que a Romênia não é mais uma seleção que impõe tanto respeito na Europa, mas sem dúvidas era uma adversária dura para o nível da Armênia. Eduard Spertsyan abriu o placar aos anfitriões com 11 minutos do segundo tempo, mas Alexandru Cicaldau virou com dois gols entre os 17 e os 27. A expulsão de George Puscas tornava a vantagem romena mais vulnerável. E, pressionando no fim, os armênios arrancariam o heroico resultado. Varazdat Haroyan empatou aos 42 e Tigran Barseghyan, que já tinha dado a assistência anterior, definiu a vitória convertendo um pênalti aos 44. A comemoração seria efusiva, inclusive do público parcial nas arquibancadas.

A Armênia lidera o Grupo J com nove pontos. Macedônia do Norte e Alemanha aparecem logo abaixo, com seis. Serão as duas próximas adversárias e os anseios dos armênios por um feito gigantesco passam por esses confrontos. Parece ser possível brigar ao menos pela repescagem, ainda que a Macedônia do Norte se mostre uma equipe bem capacitada e já tenha conseguido arrancar pontos da Alemanha – o maior desafio da chave, por mais que os germânicos não venham sendo tão convincentes. Nos dois confrontos entre macedônios e armênios em 2020, cada seleção venceu uma, embora o acesso na Liga das Nações tenha ficado com a Armênia.

O mais emblemático é que a Armênia conseguiu seus resultados sem contar com o grande astro da geração, o meia Henrikh Mkhitaryan. O armador está lesionado e, por isso, se ausentou da Data Fifa. Tigran Barseghyan, meia do Astana, acabou sendo o destaque da equipe com dois gols e duas assistências. Eduard Spertsyan é outro jogador que pode crescer, despontando no Krasnodar aos 20 anos. De qualquer maneira, os armênios contam com poucos jogadores disputando as principais ligas da Europa. Além de Mkhitaryan, uma exceção é o atacante Sargis Adamyan, do Hoffenheim. De resto, a maioria se concentra em clubes de países secundários no continente ou no próprio Campeonato Armênio.

A Armênia ainda aproveita jogadores da ampla diáspora ocorrida com a população local. Muitos deles nasceram em países da antiga União Soviética, mas há alguns que vieram de distintos cantos do mundo. O zagueiro André Calisir nasceu na Suécia. O ponta Edgar Babayan nasceu em Berlim, mas cresceu na Dinamarca. O lateral Jordy Monroy é colombiano e ainda possui nacionalidade estadunidense. Já o atacante Norberto Briasco é argentino e o único que nunca passou por um clube europeu, com a carreira inteira desenvolvida no Huracán. Ainda há os casos do nigeriano Solomon Udo e do colombiano Wbeymar, que se tornaram elegíveis à seleção depois de construírem suas carreiras no Campeonato Armênio.

A grande atração da Armênia, mesmo assim, é o técnico Joaquín Caparrós. O espanhol de 65 anos possui um currículo recheado, de ligações fortes com o Sevilla, mas também uma passagem longa à frente do Athletic Bilbao. Caparrós assumiu a seleção armênia em março de 2020 e começou bem o trabalho, com o acesso na Liga das Nações – vencendo o grupo que tinha Estônia, Geórgia e a Macedônia do Norte. Agora, as três vitórias nas Eliminatórias demarcam uma largada inédita. Apenas em uma edição do qualificatório para a Copa, somando todos os jogos, os armênios haviam vencido mais de duas partidas. A esperança nasce, embora a caminhada seja longa e possua uma série de desafios duros para a seleção se provar.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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