Édouard Mendy se recuperou da estreia ruim e apresentou seu melhor nível com dois milagres
Depois das falhas contra a Holanda, Mendy realizou defesas de extrema dificuldades para garantir a vitória de Senegal sobre o Catar
Édouard Mendy possui uma carreira meteórica que, mesmo assim, garante argumentos o suficiente para ser considerado um dos melhores goleiros africanos da história. O senegalês fez a diferença numa conquista de Champions League e também terminou como herói na última Copa Africana de Nações. Uma Copa do Mundo, porém, pesa em qualquer currículo. A ascensão tardia de Mendy permitiu que sua estreia em Mundiais acontecesse só agora, aos 30 anos. E se a primeira partida do camisa 16 decepcionou, com falhas na derrota para a Holanda, ele fez a diferença para a primeira vitória dos Leões da Teranga no Grupo A. Num momento de dificuldades, o goleiraço operou dois milagres e sustentou o triunfo por 3 a 1 sobre o Catar.
A história de Mendy é bastante conhecida, num início de carreira cheio de percalços. O goleiro nascido na Normandia se profissionalizou numa equipe da terceira divisão francesa, sofreu dois rebaixamentos (titular na época da queda para a quinta divisão) e entrou para a fila do desemprego aos 22 anos, quando também foi abandonado por seu empresário. Deslanchou somente depois de ganhar uma chance no time B do Olympique de Marseille. Na época da Copa do Mundo em 2018, seu nome ainda se consolidava. O arqueiro estava em sua segunda temporada com o tradicional Stade de Reims e seria fundamental na conquista do acesso para a Ligue 1. Entretanto, o sucesso inicial não havia sido suficiente para colocá-lo no radar da seleção rumo ao Mundial.
Aliás, Édouard Mendy correu o risco de sequer poder defender Senegal. Filho de mãe senegalesa e pai bissau-guineense, o goleiro era elegível às duas seleções e também à França onde nasceu. Como forma de homenagem ao pai, o camisa 1 chegou a defender Guiné-Bissau. Com uma doença terminal, o progenitor sonhava em ver o garoto em ação pelos Djurtus. Ele aceitou a convocação e participou de amistosos com os bissau-guineenses, contra Belenenses e Estoril, em novembro de 2016. Porém, como não eram partidas oficiais, Mendy seguiu elegível à seleção de Senegal. Era a sua escolha principal, a ponto de recusar a CAN 2017 por Guiné-Bissau.
O sucesso de Mendy no Stade de Reims, agora na primeira divisão, levou o goleiro a ganhar sua primeira convocação por Senegal em setembro de 2018 e a estrear em novembro do mesmo ano. Era um excelente reforço para a equipe de Aliou Cissé, ainda que Alfred Gomis tivesse um nível razoável para a posição. Nada comparado, entretanto, à forma como Mendy se agigantou. Virou ídolo do Rennes logo na primeira temporada, escreveu seu nome na história do Chelsea. Também demarcou o fortalecimento dos senegaleses nesse ciclo. Sua lesão na Copa Africana de Nações em 2019 custou aos Leões da Teranga. A volta na CAN 2021 seria triunfal, especialmente pelo papel decisivo nos pênaltis contra o Egito. E de novo frustraria os Faraós no duelo principal das Eliminatórias, ajudando os senegaleses a voltarem a uma Copa do Mundo em 2022.
Mendy indubitavelmente chegou como um dos protagonistas de Senegal na Copa do Mundo. Porém, sua forma com o Chelsea deixava alguns sinais de alerta. O goleiro se lesionou e, quando voltou, passou algumas partidas na reserva de Kepa Arrizabalaga, que justificava o espaço pela ótima forma. Todavia, quando o espanhol também se contundiu, o senegalês indicou um pouco de falta de ritmo. E isso atrapalhou os Leões da Teranga na estreia do Mundial. Mendy poderia ter feito melhor nos dois gols da Holanda. Tudo bem que ninguém acompanhou Cody Gakpo no primeiro tento, mas o arqueiro acabou ficando no meio do caminho quando tentou socar o cruzamento. Depois, bateu roupa e soltou o rebote para frente. Não era o que se esperava de um goleiro de seu nível, por tudo o que tinha construído nesses últimos quatro anos de elite.
Surgiram rumores até de que Édouard Mendy poderia ser barrado para o segundo jogo de Senegal na Copa. Parecia algo sem sentido, ainda mais diante da maneira como Aliou Cissé lida com seus jogadores. O camisa 16 acabou confirmado para encarar o Catar. E se reergueu, com uma atuação decisiva para a vitória. Senegal teve o domínio da partida na maior parte do tempo, mas com seu pragmatismo conhecido, de pouca criatividade. Os Leões da Teranga travaram os catarianos, que tentavam melhorar seu nível ofensivo, e anotaram dois gols nas brechas dadas pelos adversários. Quando os senegaleses cochilaram, no entanto, Mendy apareceu.
O primeiro milagre de Mendy aconteceu numa bola que tinha endereço. Almoez Ali chutou rasteiro da entrada da área e o tiro rasante parecia pronto a entrar rente à trave. O goleiro se esticou todo e deu um tapa salvador para a linha de fundo. Pois sua próxima intervenção seria ainda mais impressionante, após o desvio de Ismael Mohammed na bola área. Sem muito tempo para reagir, Mendy foi bastante ágil no contrapé e realizou a defesaça à queima-roupa. O arremate meio sem querer, com o joelho, o tornou ainda mais imprevisível, e até aumentou a dificuldade de ação do goleiro. É uma das melhores defesas da Copa até aqui.
Mendy não teve o que fazer quando Mohammed Muntari finalmente conseguiu descontar para o Catar. Apesar disso, o goleiro segurou a vantagem num momento importante e os companheiros também corresponderam na frente, com o terceiro tento conseguido graças à grande jogada de Iliman Ndiaye. Com os primeiros três pontos, Senegal segue com vida para a rodada final do Grupo A e fará uma partida decisiva contra o Equador. Agora, com Mendy mais confiante.
A régua que Édouard Mendy colocou para si mesmo é muito alta. O que experimentou com o Chelsea é histórico, assim como na Copa Africana de Nações. A Copa do Mundo se torna mais um passo nessa afirmação de seu lugar nos livros. O camisa 16 será cobrado, especialmente depois que sua seleção perdeu sua principal figura, Sadio Mané. E se a derrota para a Holanda terminou de maneira frustrante, o craque de luvas tem tempo para se recuperar. Quem sabe, para constar numa lista que inclui Thomas N’Kono, Badou Zaki, Tony Silva, Vincent Enyeama e outros ótimos goleiros que lideraram as principais epopeias africanas em Copas.



