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Crônicas da Copa #9: Dois empates que entram para a história: o novo orgulho do futebol argentino

Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Trinta e um era o saldo de gols da Argentina até o início desta Copa do Mundo. Saldo negativo, faltou acrescentar. Dois Mundiais no currículo, nenhuma vitória e a meta vazada trinta e três vezes — um 11 a 0 para a Alemanha, em 2007, contribuiu para a humilhação. Foi a maior goleada da história das Copas. Até então. E as pibas tiraram de 2019 o proveito que seleções mais carimbadas não conseguiram imprimir.

Antes de chegar à profissionalização, conquistada apenas este ano, as argentinas foram castigadas. A estreia em Copas, em 2003, foi com placares elásticos: 6 a 0 para o Japão, 6 a 1 para a Alemanha e 3 a 0 para o Canadá.

No Mundial seguinte, logo na partida de abertura, sofreram novamente contra as alemãs no 11 a 0. “Foi um pesadelo de estreia para a nossa equipe”, disse Jose Carlos Borrello, técnico da Seleção Argentina, ao New York Times. A sequência de derrotas se seguiu: 6 a 1 para a Inglaterra e 1 a 0 para o Japão.

Nesta quarta (19), diante da Escócia, Borrello comandou outra seleção. De remanescentes do último Mundial, contou apenas com a goleira Vanina Correa, a atacante Maria Potassa e a meia Gabriela Chávez — as duas últimas no banco. E o time conseguiu um feito histórico no torneio: foi o primeiro a arrancar um empate quando o placar apontava 3 a 0 para as adversárias.

O resultado teve a cara do futebol sul-americano, nos quinze minutos finais, com aquele quê de sorte: logo após Milagros Menéndez descontar, houve um gol contra (da goleira!) e um pênalti anotado no último minuto.

Maradona no céu e o VAR na terra: uma cobrança desperdiçada foi anulada devido à goleira ter-se adiantado na linha. E, na segunda, Florencia Bonsegundo garantiu a virada de mesa, despachando para casa uma Escócia que vinha se classificando para a próxima fase com a vitória.

A virada de mesa

Vanina Correa foi um dos destaques da Copa do Mundo (Foto: Getty Images)

A corrente soprou a favor do futebol argentino nesta Copa. Correa, 12 anos depois de levar 11 gols da Alemanha, foi eleita a melhor jogadora em campo durante uma partida. Mais curioso é que a escolha, feita pelo público, foi na derrota por 1 a 0 para a Inglaterra. E não, não foi premiada por uma piada de mau gosto: pela ofensividade das inglesas, o placar poderia ter sido bem mais amplo, não fosse sua atuação bloqueando a meta alviceleste.

“Melhor atuação do torneio até aqui? A goleira argentina Vanina Correa contra a Inglaterra”, elogiou a ex-goleira dos Estados Unidos Hope Solo.

O resultado foi de euforia para as pibas, que já vinham otimistas de outro confronto. Antes, na estreia diante do Japão, garantiram o primeiro ponto em Mundiais ao segurarem o placar no 0 a 0.

Se contaram com as orações do papa Francisco, argentino e fã de futebol, não se sabe, mas certamente ganharam uma dose de sorte: com a goleada de 13 a 0 dos EUA sobre a Tailândia, também deixaram a lista de pior placar da história.

Quem abraçou a modalidade e deu, este sim, sua bênção às atletas foi o ex-capitão da seleção masculina Sorín. Ele vem demonstrando apoio nas redes sociais e ajudou a denunciar condições de trabalho precárias enfrentadas pelas atletas. No papel de ídolo, emprestou sua voz a uma das causas mais importantes levantadas por elas na história: a briga pela profissionalização.

Carteira assinada

Pivô da profissionalização na Argentina, Macarena Sánchez foi para o San Lorenzo (Foto: Divulgação)

Em fevereiro deste ano, correu o mundo a notícia de que a jogadora Macarena Sánchez, de 27 anos, decidiu processar seu ex-clube UAI Urquiza e a Federação Argentina de Futebol (AFA) pelas péssimas condições da modalidade no país.

Salários atrasados, pouco (ou nenhum) pagamento, dificuldades para treinar. O barulho vinha sendo feito havia algum tempo, com direito a protesto das atletas na Copa América de 2018, quando tiraram uma foto com as mãos na orelha pedindo para serem ouvidas. Maca tomou a frente e acionou a Justiça. Atletas entraram em greve e se misturaram a outras pautas reivindicadas por mulheres no país.

Em março, a AFA divulgou que tornaria obrigatório o registro de ao menos oito jogadoras de cada elenco da liga nacional.

“O futebol é profissional graças a nós, mulheres, que aguentamos tantos anos de m… Esse é só o início, precisamos manter as cobranças pelo que ainda nos falta. E que aqueles que se mantiveram calados entendam agora a importância de se poder levantar a voz”, escreveu Maca Sánchez após o anúncio da federação.

As argentinas desembarcaram na França para seu terceiro Mundial com o currículo manchado, mas esperançosas pela recém-conquistada profissionalização. Sem uma Marta ou um Messi de referência no elenco, mas com um coletivo que se mostrou forte dentro e fora de campo, fizeram história: conquistaram seus primeiros pontos, um empate inédito e deixaram para trás a pior goleada. O futebol feminino da Argentina já provou que não precisa de salvação, mas sim de evolução.

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Juliana Arreguy

Jornalista e incentivadora do futebol feminino. Passou por algumas redações, atuando em outras editorias, sem nunca perder contato com a modalidade. Coleciona mascotes de grandes eventos esportivos.

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