Copa do Mundo

‘Há algo de errado com Dembélé. Não consegue render com Mbappé na seleção francesa’

Bola de Ouro e bicampeão da Champions pelo PSG, atacante chega ao Mundial de 2026 cercado por dúvidas

Poucos jogadores chegam à Copa do Mundo de 2026 com um currículo tão impressionante quanto Ousmane Dembélé. Atual vencedor da Bola de Ouro, bicampeão consecutivo da Champions League pelo Paris Saint-Germain e peça central do projeto de Luis Enrique, o atacante vive o auge da carreira aos 29 anos.

Mas, segundo análise publicada pelo jornal espanhol “As”, existe uma contradição difícil de ignorar: a melhor versão de Dembélé desaparece quando ele veste a camisa da França. Ainda mais com a comparação com Kylian Mbappé.

Mbappé e Dembélé ainda não se encontram na seleção francesa

A publicação destaca que as atuações recentes do atacante nos amistosos contra Costa do Marfim e Irlanda do Norte reacenderam um debate que acompanha a seleção francesa há anos. Apesar do status de estrela mundial, Dembélé ainda não conseguiu reproduzir por Les Bleus o impacto que tem no PSG.

Os números ajudam a explicar a discussão. Em 59 partidas pela seleção principal, o atacante marcou apenas sete gols. Além disso, sua trajetória pela França foi marcada por lesões frequentes, incluindo a que o tirou da Eurocopa de 2021, e por momentos traumáticos, como a substituição ainda no primeiro tempo da final da Copa do Mundo de 2022 contra a Argentina.

A questão não está necessariamente no jogador, mas no contexto em que ele atua. A principal mudança na seleção é que Dembélé atua em uma função completamente diferente daquela que o levou ao topo do futebol mundial.

Mbappé e Dembélé foram campeões do mundo em 2018
Mbappé e Dembélé foram campeões do mundo em 2018 (Foto: IMAGO / Fotoarena)

No PSG, sob o comando de Luis Enrique, o francês deixou de ser um ponta tradicional para atuar frequentemente como falso 9, com liberdade para circular por todo o setor ofensivo. O sistema gira ao seu redor e potencializa sua capacidade de criar, acelerar jogadas e atacar espaços.

Na seleção francesa, porém, esse papel pertence a outro jogador.

Toda a estrutura ofensiva da equipe de Didier Deschamps continua sendo construída para favorecer Kylian Mbappé. O camisa 10 do Real Madrid recebe liberdade para se movimentar entre linhas e ocupar diferentes zonas do ataque, o que acaba limitando os espaços onde Dembélé costuma ser mais influente.

A dupla, apesar dos anos de convivência na seleção, ainda não conseguiu desenvolver uma parceria capaz de elevar o rendimento dos dois simultaneamente.

Outro fator citado na crítica do “As” é a ascensão de Michael Olise. Vivendo excelente fase, o atacante do Bayern de Munique consolidou-se na ponta direita, posição onde Dembélé atuou durante boa parte da carreira. Com isso, o atual Bola de Ouro acaba ficando sem um encaixe natural dentro do sistema francês.

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Deschamps não pretende mudar, apesar das críticas

O debate ganhou força na França após declarações do ex-jogador e comentarista Jean-Michel Larqué. Ele defende o astro do PSG como esse atacante central:

“Eu gostaria de ter visto Mbappé jogar por 45 minutos nos amistosos de preparação na posição correta. É preciso escalar um time com Olise pela direita, Dembélé no centro e Mbappé pela esquerda. Por acaso isso é proibido? Continuaremos sacrificando o Bola de Ouro. Somos o único país que não coloca o Bola de Ouro para jogar em sua posição.”

A crítica resume uma corrente crescente de opinião na imprensa francesa: a de que a seleção estaria abrindo mão da melhor versão de Dembélé para preservar o protagonismo de Mbappé. Deschamps, no entanto, não demonstra qualquer intenção de alterar sua estrutura.

“Ele (Mbappé) está jogando na posição em que atuou nos últimos três anos com o PSG e com o Real Madrid.”

A resposta do treinador praticamente encerra qualquer possibilidade de deslocar Mbappé para abrir espaço ao companheiro. O As ressalta que, internamente, Dembélé ganhou peso após conquistar a Bola de Ouro.

O atacante passou a exercer papel de liderança no grupo e até teria incentivado Mbappé a aumentar sua contribuição defensiva durante a preparação para o Mundial. Mas a influência fora de campo não foi acompanhada por atuações do mesmo nível dentro dele.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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