Copa do Mundo

Das ausências às insistências, os erros que culminaram no fracasso da seleção alemã

Há quatro anos, a conquista da Alemanha na Copa do Mundo de 2014 tinha três rostos principais. Três protagonistas que podiam não ser exatamente os melhores do time naquela campanha, mas se tornaram lendas a partir do que proporcionaram ao Nationalelf. Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Philipp Lahm, enfim, viviam a redenção após serem sinônimos de uma geração talentosa, mas que falhava no momento decisivo. Não desta vez. Os três tiveram papéis importantíssimos no Mundial do Brasil. Klose, acertando o ataque e ajudando a moldar a equipe ao longo das diferentes fases; Lahm, sendo a voz de comando que também permitiu que a formação defensiva se equilibrasse, após momentos de fragilidade; e Schweinsteiger, um leão no meio-campo, sobretudo na decisão. Sem os três, há o início do fim, que culminou na desastrosa participação no Mundial de 2018.

Klose e Schweinsteiger não eram jogadores para a Copa de 2018. Lahm, talvez, mas preferiu-se aposentar antes que desse qualquer sinal de declínio. Mas a Alemanha careceu de jogadores que suplantassem os seus papéis. Faltou o veterano tarimbado no ataque, que resolvesse em um lance. Faltou o dínamo do meio-campo, que contagiasse os companheiros e os impulsionasse nos momentos de desespero. Faltou o líder de voz respeitada, que desse bronca e ajudasse a consertar os defeitos através de sua inteligência tática muito acima do comum. E, diante das ausências, a Alemanha não soube envelhecer. Joachim Löw se agarrou a antigas certezas, agora incertas. Pagou o preço por suas decisões nada inventivas.

A campanha irretocável nas Eliminatórias, em uma chave relativamente frágil, dava uma noção de tranquilidade à Alemanha. Da mesma forma, muitos dos testados na Copa das Confederações se saíram bem e apresentaram alternativas ao elenco. Mas o Nationalelf não identificou os sinais de risco. Löw não deu a importância necessária a alguns problemas que apareceram durante o ciclo. Por exemplo, no maior teste, a Eurocopa de 2016. Mesmo com Schweinsteiger ainda presente, embora distante de sua melhor forma, a seleção alemã exibiu um futebol burocrático e pouco convincente. Até chegou longe, mas com mais sorte do que juízo. E os amistosos preparatórios escancaravam ainda mais algumas questões sérias. Exceção feita ao empate com a Espanha, ficava claro que algumas coisas não estavam funcionando. Dizia-se que o Nationalelf se poupava em partidas que não eram competitivas, que os tetracampeões iriam ligar “o modo Copa” quando chegassem à Rússia. Menosprezaram o que, no fim das contas, significou a ruína no Grupo F.

Para piorar, a convocação não ajudou. Löw tinha os seus motivos para não convocar Leroy Sané, avaliando seu desempenho pela equipe nacional e o seu comportamento dentro do grupo. No entanto, prescindir do alemão que melhor atuou na temporada é uma razão natural às críticas. Críticas estas que se tornam ainda mais fortes quando se observa como Sané acabou fazendo falta na Rússia – por mais que nada garantisse que ele fosse mesmo transformar seu histórico na Mannschaft durante a estadia na Rússia. Durante boa parte do tempo, a Alemanha não tinha um jogador de profundidade pelo lado esquerdo, que pudesse quebrar as marcações com seus dribles. O deslocamento de Timo Werner por ali, onde rendeu bem mais, torna-se o sinal claro ao treinador.

Além disso, aconteceram algumas perdas por lesão que, olhando a esta altura, poderiam ser úteis. Lars Stindl não é o centroavante de área, mas sabe abrir espaços a quem vem de trás. Sua lesão privou a Alemanha de um jogador desta característica – embora, que também fique claro, possui várias limitações. Da mesma forma, Emre Can talvez fosse a peça que realmente acertaria o meio-campo alemão. O volante até voltou a tempo para a decisão da Liga dos Campeões, após lesionar as costas. Löw, todavia, preferiu não assumir o risco e chamá-lo. A cabeça de área sentiu a ausência de um atleta mais dinâmico como ele ou como Julian Weigl – cujos problemas físicos, juntamente com o declínio técnico, tiraram das convocações nos últimos meses.

O elenco alemão possui alternativas numerosas em alguns setores, carências óbvias em outras. Com as peças que tinha em mãos, Löw não conseguiu montar um time coeso. A defesa esteve exposta em vários momentos e correu riscos claros. Não segurou os contra-ataques do México e deu sorte por sofrer apenas um gol. Também penou contra uma Suécia mais lenta e que reclamou de um pênalti negado, antes de abrir o placar. Já contra a Coreia do Sul, mesmo que a posse de bola estivesse com os germânicos, qualquer avanço dos adversários representava um susto. Faltava recomposição, sobrava lentidão e apatia. O treinador confiou no estilo de posse e pagou caro.

Afinal, por mais que a Alemanha tenha dominado ofensivamente todas as suas partidas, não conseguiu se impor como realmente se esperava. Podem falar que uma bola aqui contra o México ou outra acolá contra a Coreia do Sul talvez entrassem, que fizessem a diferença. Ainda assim, é muito pouco pelo volume de jogo. É pouco pelo que se cobra da Alemanha. Os passes para o lado esperando uma brecha imperaram. Em um time sem ideias, a insistência vinha na direita, com os cruzamentos de Joshua Kimmich. Bolas e bolas dentro da área que não viram um homem que as colocasse para dentro. Mario Gómez até tentou, sem ser letal quando teve a oportunidade. Além dele, os outros que apareceram na área falharam em levar perigo.

A falta de funcionamento do sistema é um ponto. Mas não se nega também que, individualmente, boa parte dos alemães se saiu mal. Os quatro anos pesaram sobre as pernas de Mats Hummels, Jérôme Boateng e Sami Khedira. As contusões recentes de alguns deles e de outros membros também atrapalhavam, como o próprio Marco Reus, que parecia não agir da mesma maneira como raciocinava. Timo Werner decepcionou em uma função que não é a que desempenhava no clube, mas na qual agradou anteriormente na seleção. E há tantos outros em péssimo momento técnico, que só contribuíram para que o Nationalelf se afundasse. Julian Draxler, Thomas Müller e Mesut Özil, ou mesmo Boateng e Hummels, não se redescobriram no Mundial. O torneio de tiro curto não valeu para se engrandecerem como no Brasil. Pior, alguns deles pareciam desmotivados, postura totalmente distinta à de 2014.

Löw, novamente, merece críticas duras neste ponto. Afinal, o treinador insistiu em jogadores que não vinham bem. Até pareceu aprender um pouco contra a Suécia, ao dar uma nova cara para o time, ainda que a vitória tenha sido tão tardia. Mas qual a necessidade de entrar com Mesut Özil diante da Coreia do Sul? A melancolia e o desacerto do camisa 10 eram evidentes, em tantas bolas que morriam em seus pés ou em lances no qual sequer aparecer. Quando precisava de algo a mais no segundo tempo, o comandante voltou a botar Müller, que mal apareceu. E seria assim que a falta de futebol da Alemanha a sufocaria. Não havia confiança, os erros se repetiam, as aproximações eram inexistentes. Os alemães pareciam aguardar que o raio caísse, tal qual o gol de Kroos diante a Suécia. Caiu duas vezes, do outro lado, em forma de tragédia.

Faltaram alternativas de jogo. E não era com a teimosia do treinador que elas conseguiram aparecer. Julian Brandt, bem nos outros jogos, demorou a entrar contra a Coreia do Sul. Reus, Hector e Kimmich até tentaram, mas nada que valesse tanto assim. Talvez as principais faces do que não aconteceu foram Manuel Neuer e Toni Kroos. Ambos são as duas referências técnicas da Alemanha e foram para o desespero. O volante, herói após se redimir do erro contra a Suécia, não se sobressaiu diante da Coreia do Sul e ainda permitiu que o primeiro tento saísse. O goleiro, que não fez um Mundial de todo ruim apesar dos deslizes e da falta de ritmo, deixou a meta aberta para que Son transformasse a aflição em desesperança.

A Alemanha não entrou em sintonia na Copa do Mundo. E o que alguns apontaram como frieza, sobretudo depois do que ocorreu no final contra a Suécia, acabou congelando o Nationalelf – em campo e no tempo. Löw possui os seus méritos no tetra, claro. Principalmente, ao ter percebido os problemas do time durante as primeiras rodadas e ter aparado as arestas para que a conquista chegasse – sobretudo, pelas mudanças táticas após o suadouro contra a Argélia. Desta vez, preferiu-se agarrar-se às falsas certezas e confiar em quem parecia não ter confiança de si. Por seus próprios erros, os alemães terminam na lanterna e aturam a eliminação inédita na fase de grupos em uma Copa do Mundo. Possuem talento para se reerguer? Claro. Mas precisam de decisões mais inteligentes para isso, conhecendo suas virtudes, mas também suas limitações. Entre a falta de repertório e o mau aproveitamento do que havia em mãos, o jeito é entender o que aconteceu. E que, afinal, não é novidade, vide ao que passou a Espanha em 2014 ou a França em 2002, em casos com suas similaridades.

 

 

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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