Copa do Mundo

Guiados pelo futebol, irmãos Bacuna repetem trajetória para levar Curaçao à primeira Copa

Juninho e Leandro são muito conhecidos na ilha de pouco mais de 150 mil habitantes e querem fazer história no Mundial

A Copa do Mundo contará, pela primeira vez, com 48 seleções e algumas delas já começarão fazendo história. É o caso de Curaçao, que disputará o torneio de forma inédita, sendo o menor país a participar da competição. O elenco que embarca para o Mundial conta com dois irmãos muito conhecidos na ilha de pouco mais de 150 mil habitantes: Juninho e Leandro Bacuna.

O encontro dos irmãos pela seleção de Curaçao

A maioria dos jogadores da seleção de Curaçao nasceu em diferentes países, mas os seus laços familiares permitiram que eles jogassem pela ilha localizada no Caribe. Aliás, o país vive um movimento que também ocorre em outras nações: a de famílias que precisaram deixar o local em que nasceram, mas veem o seus herdeiros optando por defender os países de seus pais.

É o caso justamente dos irmãos Bacuna. Nascidos nos Países Baixos, eles tornaram-se símbolo da atual geração de representantes de Curaçao. Leandro, de 34 anos, já havia disputado dez partidas pela seleção sub-21 neerlandesa, até ser abordado em 2016 por Patrick Kluivert, treinador da seleção caribenha na época.

— Quando eu jogava pelo Aston Villa na Premier League em 2016, fui abordado por Kluivert. Ele já tinha ouvido falar no meu nome em relação à seleção neerlandesa, quando eu era auxiliar de Louis van Gaal, mas nunca havia sido seriamente considerado. Ele disse: ‘Acredite em mim, dada a concorrência, a seleção nunca vai dar certo para você. Venha para Curaçao — contou Leandro em entrevista ao “Telegraaf”.

Leandro Bacuna, capitão da seleção de Curaçao (Foto: IMAGO / Uk Sports Pics Ltd)
Leandro Bacuna, capitão da seleção de Curaçao (Foto: IMAGO / Uk Sports Pics Ltd)

A conversa foi transformadora para Leo, que se entregou à vontade de colocar o nome da ilha na história do futebol. Para isso, não apenas atuou em campo, mas também fora das quatro linhas, em busca de novos jogadores.

— Quando cheguei, não éramos ninguém. Jogávamos para colocar a ilha no mapa, para empolgar os garotos nos Países Baixos. Eu sempre digo: “Não façam isso pelo dinheiro, mas joguem com o coração pela ilha”. Tivemos que trabalhar duro para convencer alguns deles, mas, eventualmente, eles cederam um a um. Nem todos são curaçauenses, mas assim que chegam à ilha, sentem que é a sua casa. Nós, como grupo, transmitimos esse sentimento aos recém-chegados — explicou.

Leandro e Juninho Bacuna pela seleção de Curaçao (Foto: IMAGO / ANP)
Leandro e Juninho Bacuna pela seleção de Curaçao (Foto: IMAGO / ANP)

Esse sentimento, então, foi compartilhado em casa. Juninho já havia sido convocado para a seleção neerlandesa nas categorias de base, mas também optou por defender Curaçao e jogar ao lado do seu irmão.

— Comecei a jogar por Curaçao em 2019 e foi uma grande decisão para mim. Um dos motivos foi que posso jogar no mesmo time do meu irmão e a família pode nos ver jogando juntos. A outra razão foi que, realisticamente falando, eu não tive chance de atuar pela seleção dos Países Baixos. Estamos observando mais jogadores ainda jovens, capazes de jogar por eles, vindo jogar por Curaçao e fortalecendo ainda mais a equipe — destacou em entrevista à “BBC”.

A trajetória tão similar entre os irmãos Bacuna reservou um momento ainda mais importante para Juninho e Leandro: defender a ilha na primeira Copa do Mundo da sua história.

Junto com o goleiro Eloy Room, de 37 anos, Leandro Bacuna é o único jogador curaçauense que ainda atua pela seleção desde os primeiros anos. Isso porque a equipe nacional foi oficialmente fundada em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas, quando Curaçao adquiriu o status de país autônomo.

Seleção de Curaçao antes de partida das Eliminatórias contra Honduras (Foto: Imago)
Seleção de Curaçao antes de partida das Eliminatórias contra Honduras (Foto: Imago)

No mundial, o veterano dos Bacuna terá uma responsabilidade ainda maior no torneio, já que se tornou uma figura de liderança da equipe nacional com mais partidas na história da seleção (68).

Quando chegamos à Copa do Mundo, foi um momento de alívio. Tenho 34 anos e estou quase no fim da minha carreira, e é como a cereja do bolo. É algo que me permite encerrar minha carreira em alto nível. Venho me preparando mental e fisicamente. Quero mostrar o que tenho como jogador e por que as pessoas não precisavam duvidar de mim — afirmou Leandro à Fifa.

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As origens e a carreira de Leandro

Leandro nasceu nos Países Baixos, na cidade de Groningen, mas sempre carregou as origens de Curaçao. Na casa da sua família, o futebol sempre se fez presente. Aliás, tudo girava em torno do esporte, e seguir o sonho de se tornar jogador profissional não era irreal, já que o apoio dos pais sempre esteve presente.

— Meus pais jogavam futebol. Tudo girava em torno do futebol. Acordávamos cedo nos fins de semana, íamos aos jogos, tentávamos treinar. Eles sempre estiveram presentes e nos apoiaram para que alcançássemos nossos objetivos — afirmou em entrevista à Fifa.

Foi em uma quadra de futebol de bairro onde ele teve os primeiros contatos com a bola. E então, o que era uma vivência familiar passou a ser tratado como meta por parte de Leandro.

Leandro Bacuna durante a sua primeira passagem pelo FC Groningen (Foto: IMAGO / ANP)
Leandro Bacuna durante a sua primeira passagem pelo FC Groningen (Foto: IMAGO / ANP)

— Eu sempre ia ao campo para tentar melhorar, embora eu tenha jogado muito na rua. Eu queria muito me tornar jogador de futebol profissional, então você precisa trabalhar muito — disse durante um vídeo no canal do Groningen.

Iniciou sua trajetória no Groningen, onde permaneceu por seis anos, antes de começar a sua jornada pelo futebol inglês. Era o grande salto da carreira. A transferência para a Premier League, principal liga do mundo.

O primeiro desafio começou no tradicional Aston Villa, quando chegou ainda em 2013. O meia passou a se destacar pela versatilidade e conquistou a titularidade ainda durante a sua primeira temporada.

Leandro Bacuna em atuação pelo Aston Villa (Foto: IMAGO / Uk Sports Pics Ltd)
Leandro Bacuna em atuação pelo Aston Villa (Foto: IMAGO / Uk Sports Pics Ltd)

Leandro, no entanto, relembrou a dificuldade para se adaptar ao país. Diante das novas vivências, o meio-campista conta que pôde ter o apoio da sua família, especialmente da sua mãe Lucille.

Apesar do início promissor, o meio-campista chegou ao clube durante um momento de instabilidade, com a equipe lutando pela permanência na liga, e a tensão pelo consequente rebaixamento à segunda divisão, que se concretizou em 2015/16.

Com 129 jogos disputados pelo clube e oito gols, o meia deixou o Aston Villa. Passou por clubes menores na Inglaterra, como Reading, Cardiff City e Watford até jogar na Turquia, antes pelo Bandirmaspor e hoje em dia pelo Igdir FK.

Identidade de Juninho e o amadurecimento no futebol

Em uma casa em que os pais incentivavam o futebol e com um irmão que passou a ser uma referência na família, Juninho Bacuna acabou inspirado a seguir os passos de Leandro na modalidade.

Seis anos mais novo que o seu irmão, ele já era conhecido pelos treinadores do Groningen, pois costumava ficar na lateral do parque treinando embaixadinhas enquanto observava o irmão jogar. 

Ele divide a mesma posição que o irmão mais velho, como meio-campista. Mas essa é uma das muitas “coincidências” entre os dois. O jogador de 28 anos também teve uma trajetória parecida.

Atuando inicialmente nas categorias de base dos Países Baixos, Juninho buscou conquistar o seu lugar no time do Groningen. Ernest Faber, na época treinador da equipe, vivia perto do atleta e foi impressionado pelo talento do caçula da família Bacuna.

Faber tinha entre os seus objetivos moldar o jogador e chegou a trabalhar o atleta, que considerava um dos talentos promissores do futebol nacional. No entanto, a sua carreira progrediu de uma forma mais lenta do que o esperado.

Juninho Bacuna seguiu os passos do irmão e defendeu o FC Groningen (Foto: IMAGO / ANP)
Juninho Bacuna seguiu os passos do irmão e defendeu o FC Groningen (Foto: IMAGO / ANP)

— Eu gostava do garoto porque, quando o estádio estava lotado, ele dava o seu melhor. Essa é a característica de um grande talento: ele se destaca sob pressão — destacou Faber.

Na visão dos técnicos que treinaram Juninho nas categorias de base, para além dos resultados da equipe, algumas características impactaram o desenvolvimento do meia no início da trajetória.

— Ele era um jogador técnico, um espírito livre. Isso significa que às vezes ele é fantástico e às vezes você não consegue fazer nada com ele — afirmou Peter Hoekstra, que o treinou desde os 11 anos até o nível sub-19, em entrevista concedida ao “The Athletic”.

Com a sua projeção aumentando na equipe, Bacuna passou a receber propostas de times do exterior. Em 2018, o Huddersfield Town, que havia se salvado do rebaixamento na Premier League, contratou o meia por um valor estimado em mais de 2 milhões de libras. Foi no clube inglês que o jogador passou a ser visto com características de “um brasileiro”.

— Quando ele chegou, todo mundo ficou tipo, “Nossa, esse garoto é como um brasileiro, o jeito que ele se movimenta com a bola”. Algumas coisas que ele fazia, a gente pensava “Quem é esse que contratamos?” — relembrou Jonathan Hogg, capitão do clube na época, em entrevista.

Na temporada 2018/19, o Huddersfield terminou em último lugar com apenas 16 pontos e 22 gols marcados no Campeonato Inglês. Bacuna havia sido titular em 17 jogos, mas uma debandada de jogadores ocorreu enquanto o clube se adaptava à segunda divisão.

Juninho Bacuna em atuação pelo Huddersfield Town (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)
Juninho Bacuna em atuação pelo Huddersfield Town (Foto: IMAGO / Pro Sports Images)

— Sabíamos que ele tinha talento, mas acho que ele simplesmente não estava pronto para a Premier League naquele momento — relembrou Hogg.

Com o clube rebaixado, Juninho ainda disputou a Championship até receber uma oportunidade dos Rangers, a pedido do técnico Steven Gerrard. Foi uma curta e discreta passagem, que durou apenas seis meses. Ele também rodou por Birmingham City, Al-Wehda-, do futebol saudita, Gaziantep, da Turquia, e Volendam, da Eredivisie.

Juninho e Leandro não querem que Curaçao apenas dispute a Copa do Mundo 2026. Querem representar bem o país. Para Leandro, a seleção caribenha chegará ao Mundial com confiança, consolidando um trabalho em equipe para mostrar o potencial da pequena ilha na América Central.

— Vamos lá, vamos fazer o nosso jogo, vamos jogar e aproveitar o momento. Mas, além de aproveitar, também precisamos representar o nosso país. Não queremos ir lá e levar uma goleada de 7 a 0, 4 a 0, 5 a 0, perder todos os jogos. Queremos ir lá e mostrar o que realmente podemos fazer e por que alcançamos nosso objetivo — finalizou.

Foto de Carol Guerra

Carol GuerraRedatora de esportes

Jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), com passagens pelo Globo Esporte, Jornal do Commercio e Diario de Pernambuco. Apaixonada por futebol feminino e esportes olímpicos.

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