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Crônicas da Copa #18: Do sonho de ser cabeleireira a finalista da Copa. Quem é Shanice Van de Sanden?

Durante a Copa do Mundo feminina, a Trivela traz textos sobre o torneio francês: personagens, jogadoras e histórias, sempre escritos por mulheres que trarão suas visões. Aproveitem!

Batom vermelho, rímel bem aplicado nos olhos e cabelo cor-de-rosa. Parece descrição de mulher pronta para uma festa. E, de fato, pode até ser: a camisa 7 da Holanda foi ovacionada ao entrar em campo na semifinal contra a Suécia, lá pela metade do segundo tempo. Titular durante toda a Copa do Mundo, foi seu primeiro jogo iniciado no banco. Mas em campo, justifica o termo atuação de gala. É onipresente, arma bem as jogadas, consegue marcar, deixa a ponta direita para auxiliar o meio-campo e ainda assume uma posição mais central.

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Shanice van de Sanden é dessas figuras que causam impacto. Não apenas pela maquiagem e pelos cabelos tingidos, mas porque tem pressa de viver. Com cinco irmãos de três pais diferentes, conheceu na necessidade de ajudar a mãe a rapidez para alcançar seus objetivos. “Foi tudo tão rápido no futebol, que agora posso enviar dinheiro para minha mãe se ela tiver dificuldades. Ela me ajudou a chegar ao ponto em que estou agora”, contou em entrevista à revista holandesa Story.

A infância em Utrecht, província onde nasceu, não teve luxo. Para ajudar com as contas em casa, ela e dois irmãos se dividiam para entregar jornais no subúrbio. Percorriam cerca de três mil casas, enfrentando, por vezes, frio e neve, para garantir uns trocados. “Todo o distrito nos conhecia como jornaleiros”, relatou.

O pai, com quem tem pouquíssimo contato, é do Suriname. E sua difícil relação com ele não a levou a criar um laço afetivo com a América do Sul. Ela visitou o país em 2017, já campeã da Eurocopa pela Holanda, e disse ter apreciado a viagem sem ter “nenhum sentimento especial”. Coloca isso na conta da forte ligação que tem com a mãe holandesa, responsável por sua criação.

Conheceu o futebol de perto aos 12 anos, quando começou a jogar entre garotos. Ganhou uma chance numa escolinha para meninas, a Saestum, e aos 16 já jogava pela Seleção Holandesa. “Senti como se estivesse pulando de um trem em alta velocidade”, disse à Nike.

Aos 26 anos, Van de Sanden joga com um grupo de atletas que são todas da mesma geração. “Somos amigas, acho que isso é visível em campo”, observa. “Jogamos futebol juntas desde muito novas. Vivemos muitas coisas e isso criou laços. É ótimo que possamos jogar juntas pela seleção.”

A média de idade do grupo que viajou à França para o Mundial é de 25,5 anos. Além de jovens, são atletas que estiveram juntas na Copa de 2015, a primeira disputada pela Holanda na história. Caíram para o Japão nas oitavas, mas mantiveram a base que seguiu para a melhor campanha que a seleção conheceria até então: a Eurocopa de 2017.

Seis meses antes do torneio, a equipe estava sem técnico. Foi quando Sarina Wiegman assumiu, modificando o estilo de jogo e dando nova chance a algumas jogadoras que haviam sido banco no Mundial — Van de Sanden entre elas. Como tudo na vida de Shanice veio às pressas, a mudança a deixou no trio de ataque junto de Lieke Martens e Viviane Miedema. Wiegman manteve onze atletas da Copa na Euro e conquistou um feito inédito: o primeiro título internacional da seleção, após vitória contra a Dinamarca por 4 a 2. O estilo de jogo veloz também atraiu a torcida, e oito entre dez holandeses assistiram à final.

Até a Euro, Van de Sanden vinha de uma temporada tímida no Liverpool. Foram dois anos no Utrecht, um no Heerenveen (Bélgica) e outros cinco no Twente antes de se mudar para a Inglaterra. Ainda assim, não via no futebol o seu único futuro. Tinha começado um curso de cabeleireira e pretendia completá-lo para seguir a profissão quando não tivesse mais condições de jogar bola.

Mas a Euro mudou tudo. Não foi apenas um título para Van de Sanden, mas também um convite para atuar no gigante Lyon. Ali, conheceria outro tipo de protagonismo. Só em sua temporada de estreia, ganhou enorme destaque na final da Champions League diante do Wolfsburg. Entrou já na prorrogação, com o time perdendo por 1 a 0, e deu três assistências para gols num intervalo de cinco minutos. A equipe francesa saiu vitoriosa por 4 a 1. O placar se repetiu na final do ano seguinte, diante do Barcelona, com duas assistências para gols vindas da holandesa.

Na França, às vésperas de uma final de Copa do Mundo, a primeira da história da Holanda, Van de Sanden já é dona dos holofotes. Com um salário estimado de 162 mil euros no Lyon, já não sonha mais em ser cabeleireira. As únicas madeixas nas quais se atreve a mexer são as suas próprias.

Foto de Anderson Santos

Anderson Santos

Membro do Na Bancada, professor da Unidade Educacional Santana do Ipanema da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), doutorando em Comunicação na Universidade de Brasília (UnB) e autor do livro “Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol” (Appris, 2019).
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